Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

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Jun 20

Acerca da ampliação do cemitério de Vila Praia de Âncora, importa, antes de mais conhecer um pouco da sua história e o que esteve na sua génese. Já abordei esta temática há alguns anos aqui, mas não é demais reforçar o assunto.

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Estavamos no final do século XIX quando a freguesia de Gontinhães, foi novamente assolada por mais uma epidemia, desta vez de varíola, que em 1895 originou nova crise de mortalidade, principalmente junto das classes mais vulneráveis. Cerca de 60% dos óbitos registaram-se na zona ribeirinha e as classes mais atingidas foram os pescadores, criados e jornaleiros.

Tendo o padre Manuel José Gonçalves escrito na época “Todo o verão de 1895, especialmente nos primeiros meses de abril, maio, junho e julho, grassa em Gontinhães (praia d’Âncora) as epidemias de bexigas, e tifo ou difteria, atribuídas aos maus cheiros dos estrumes do mexelhoado ou “patêlo”, que por ali se costuma empregar como estrume (…) e que tem vitimado grande quantidade de vidas.”

As autoridades administrativas do concelho deliberaram então que este estrume depois de colhido no mar, fosse imediatamente enterrado a um palmo de profundidade, em vez de ficar a secar ao sol como era habitual.

Em 2 de maio de 1895, o Administrador do Concelho, alerta que “grassa com grande intensidade a epidemia da varíola (…) e que a continuação dos enterramentos no adro da igreja pode alterar a saúde pública (…) pede em vista do exposto, que com a maior urgência seja adquirido o terreno para a construção do cemitério da paróquia”.

É então que a 16 de maio de 1895, o Governo Civil de Viana do Castelo apoia a posição do Administrador do concelho e insiste que a “urgência daquelas obras é tal que não pode deixar de chamar a atenção da Câmara sobre o assunto, esperando a bem da salubridade pública lhe dará toda a atenção (…) evitando a prejudicial acumulação de cadáveres que se dá no adro da respetiva igreja e que na presente ocasião se torna um foco de epidemia.

A Câmara de Caminha aprova de imediato a aquisição dos terrenos necessários para a construção do cemitério de Gontinhães.

Porém, o tempo vai passando e é a Junta de Paróquia local que se vê forçada a avançar para a compra dos terrenos (886 m2) tendo de contrair empréstimos e lançar derramas para financiar a obra, que é inaugurada em 1897, sendo o alçado principal trabalhado pelos canteiros ancorenses e o portão e gradeamento da responsabilidade do forjador Rafael Francisco Martins Pinheiro, ancorense, republicano, com oficina no Lugar da Rocha e falecido em 1911.

Quando o actual executivo da Junta de Freguesia de Vila Praia de Âncora fica desagradada com o facto da Câmara Municipal de Caminha não apoiar a ampliação do cemitério ancorense, deveria olhar para trás (para a nossa história) e verificar que já é costume isso acontecer.

Dirão alguns que a obra do cemitério é um investimento que se paga rapidamente com a venda das sepulturas. É verdade, mas sou contra esta lógica de “quem tem dinheiro compra”, porque entendo que este é um sector de investimento exclusivamente público e deve ser acessível a toda a população.

Tanto mais que a Câmara Municipal gere o cemitério de Caminha, ao contrário de todas as outras freguesias do Concelho.

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 12:17

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