Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

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Mai 20

Cada família gerava um número farto de crianças, que aprendiam rapidamente os usos e costumes da classe. Desde muito cedo que acompa­nhavam as mães na azáfama do portinho, trepando velozes para o interior dos barcos, local preferido das brincadeiras entre irmãos, primos e vizinhos.

55 - Embarcações no portinho, grande animação

Entre as famílias mais pobres, o rapaz era desde muito cedo posto literalmente na rua. As mulheres não gostavam de ver os filhos “enconados” em casa. Os rapazes passavam a infância despreocupada dias inteiros fora de casa, brincando na praia ou no “Campado”, só regressando a casa para as refeições. A propósito do modelo de educação da criança do meio rural, e que se pode aplicar à criança do meio piscatório, Moisés Espírito Santo, Professor universitário, etnólogo e sociólogo diz:

“…visa a autonomia individual, pelo jogo criador, pelo ritual festivo, so­bretudo, pela integração da criança no mundo e no trabalho dos adultos, fazendo-se coincidir a idade da emancipação social com a idade da eman­cipação biológica, por volta dos catorze anos; o modelo urbano não visa a autonomia dos indivíduos e menos ainda o desenvolvimento das suas po­tencialidades criadoras; procura sobretudo os jovens numa relação fami­liar e torná-los objectos de afectos serrados e, podíamos dizer, egoístas”.

Era frequente haver famílias com uma dúzia de filhos, ou mais, re­gistando-se um intervalo significativo entre os filhos mais velhos e os mais novos. As mulheres eram mães desde novas e muitas continuavam a ter filhos já na casa dos quarenta.

Até finais do século XVIII a mortalidade infantil ceifava cerca de um quarto dos nascidos antes de completarem um ano e apenas metade das crianças completava os 7 anos.

No século XIX e mesmo durante boa parte do século XX, a criança ocupava um lugar muito secundário na sociedade. Os cuidados e a preocu­pação que hoje rodeiam as crianças eram praticamente inexistentes naquela época. Muitas eram as que não sobreviviam após o primeiro ano de vida e as que conseguiam ultrapassar essa “barreira” etária, viviam uma infância e uma adolescência marcadas pela privação e a penúria.

A mortalidade infantil em Portugal do início do século XX estava entre os 210 e 240 óbitos por cada 1000 nascimentos. Se acrescentarmos a mor­talidade em idade juvenil, verificamos que uma parte significativa da prole nunca chegava à idade adulta.

A morte de uma criança era vista com alguma “naturalidade” e até com uma certa “frieza” da sociedade. Os cortejos fúnebres de “anjinhos” (crianças falecidas que eram colocadas em pequenos caixões brancos) eram frequentes, acompanhados pelos familiares, adultos e crianças.

É também no início do século XX que um conjunto de ilustres médi­cos, entre os quais se destaca o Dr. Ricardo Jorge, dão início a um conjunto de medidas tendentes à melhoria das condições sanitárias das populações, particularmente nos meios urbanos. É também nesta época que a caridade começa, lentamente, a ser substituída pela assistência pública e que se ve­rifica uma progressiva responsabilização do Estado em relação à sua função assistencial e de protecção dos cidadãos, nomeadamente das mães e suas famílias (Remoaldo, 1995).

A Freguesia de Gontinhães, apesar de bem servida de acessibilidades, continuava muito longe dos tais meios de assistência que existem em cida­des como Lisboa e Porto. As crianças e adolescentes continuavam entregues à sua sorte, indiferentes ao destino, agarrados à saia da mãe, brincando entre as masseiras e finalmente contribuindo para o sustento da família, que crescia a cada ano.

Desde 1879 que existia no Lugar do Santo, uma escola de instru­ção primária masculina, oferecida pelo benemérito António Manuel Alves do Rego, claramente destinada ao núcleo populacional mais interior e rural da freguesia de Gontinhães, deixando de fora o Lugar da Lagarteira (Nuceartes, 2011).

Um dos editoriais do Jornal “A Voz do Âncora” em 1904 dá voz à rei­vindicação de uma escola para a Lagarteira e para a inexistência de escola para o sexo feminino:

“Criação de uma escola do sexo masculino, exclusivamente destinada ao local tradicionalmente designado pelo nome de Lagarteira e subúrbios, bem como de escolas para o sexo feminino a par de cada uma para o mas­culino, de modo a ficarem servidas todas as freguesias de escolas para os dois sexos.”

Só depois da implantação da República em 1910, é que a educação teve mais atenção por parte dos Governos quando cria o Ministério da Instrução em 1913, em substituição da Direcção Geral da Instrução Pública.

Porém, o ensino obrigatório de três anos só é implementado em 1930 e iria vigorar para os rapazes até 1956 e para as raparigas até 1960. Posteriormente, passou a ser obrigatória a instrução primária de quatro anos.

Ora, as crianças da Lagarteira, inseridas numa comunidade com ca­racterísticas muito vincadas, de certa forma isolada, com a escola longe e sem compreender a necessidade da alfabetização e da instrução escolar, pouco valorizava esta questão, preferindo empurrar para o mar as crianças entre os sete e os dez anos de idade, contribuindo assim para o sustento familiar. Porém, as crianças não estavam impedidas de brincar em todas as oportunidades possíveis e trepar para as masseiras fundeadas no portinho após umas rápidas braçadas, era uma vitória sempre bem saboreada. É cla­ro que nada se comparava à aventura de remar a masseira até ao “Sabugo” e “encarrilhá-la” aproveitando a ondulação para fazer deslizar o barco à frente da onda. Esta proeza arriscada dava, em regra, direito a uns “cachaços”, logo que os atrevidos chegassem a terra, por parte do proprietário da embarcação ou dos progenitores.

Outra actividade das crianças era mariscar na “ribeira”, pescando bar­bos, “bretas”, lucinhas ou “cabritos” (cabozes) com uns equipamentos rudimentares; umas pequenas canas da Índia, uns restos de “sediela” (linha de nylon para pesca), por vezes emenda­da e um anzol eram tudo o necessário para uma pescaria. Para a chumbada, à falta do chumbo, servia um bocado de corrente de bicicleta, uma pequena pedra ou uma vela de automóvel.

Quando encontravam um bocado de ferro com a forma desejada, construíam à força de pancadas com um seixo um “bucheiro” para procurar polvos nas fragas durante a baixa-mar.

Outro divertimento consistia em construir pequenos barcos com “fo­lha-de-flandres”, a embalagem usada em determinados géneros alimenta­res como as chouriças ou as bolachas. Estas chapas metálicas eram disputa­díssimas e as crianças construíam pequenos barcos para depois navegarem junto aos molhes do portinho ou na foz do Rio Âncora.

De Verão, esta brincadeira, bem como a presença das crianças da classe piscatória, estava proibida na praia, havendo mesmo um zeloso cabo do mar sempre pronto a expulsá-las.

É deveras curioso como a Praia d’Âncora ganhou o epíteto de Praia das Crianças, e ainda hoje é assim conhecida, quando, simultaneamente, impedia que frequentassem a praia uma boa parte das crianças ancorenses, apenas pelo estigma de pertencerem à classe piscatória. Esta situação só se reverteu no final dos anos sessenta, início da déca­da de setenta.

56 - Equipa de futebol no Campo do Castelo - 1961.

Ao longo do século XX o futebol foi ganhan­do notoriedade e adeptos por todo o mundo e a La­garteira não foi excepção. O Campo do Castelo, rel­vado, amplo e acessível, era um local privilegiado para a prática do futebol, tendo por aquele espaço passado muitas gerações de praticantes, crianças e adultos.

As crianças organizavam grandes desafios, que ganhavam uma di­mensão especial se eram travados com rapazes de outros lugares da fre­guesia. Geralmente acabava o encontro com uma boa sessão de “pedrada”, que levou bastantes à botica do Lúcio, e mais tarde do Brito, para fazerem os imprescindíveis curativos às cabeças rachadas.

A ligação das crianças ao pai era geralmente de algum distanciamen­to, pois este estava muito tempo afastado do convívio com os filhos. O pescador local dormia a maior parte das vezes durante o dia para sair ao anoitecer ou deitava-se à tardinha para sair de madrugada. Quando chegava do mar tinha as redes para consertar e o tempo livre passava-o na taberna onde as crianças não tinham entrada.

A desvalorização da figura paterna é, contudo, compensada pela sobrevalorização da imagem do pescador, com o recurso frequente à memória dos feitos dos antepassados, em especial a figura do avô, com quem se conviveu na infância e que após o seu desaparecimento será transformado num herói mítico.

A criança cresce ouvindo histórias cheias de aventuras, em que o avô deu provas de coragem e de sacrifício, defrontando quer os poderes natu­rais, como o mar, quer defrontando os poderes sobrenaturais. Mas o passa­do em que ocorrem estas histórias remete para uma concepção do tempo, ao mesmo tempo histórico, porque são contadas como ocorrências vividas por figuras e lugares de que a comunidade guarda a memória viva; são, por outro lado, narradas como ocorrências passadas num tempo mítico, fora da história, “no tempo em que os animais falavam” ou “quando Deus andava pelo mundo”.

57 - Redes a secar - 1957.jpg

O avô assume as­sim aos olhos da criança uma dimensão heróica, em tudo semelhante a uma figura lendária. Si­multaneamente a figura da avó fica indelevelmen­te ligada às superstições e outros códigos de con­duta perante o mundo e a sociedade, transmitin­do oralmente aos netos, tal como em tempos ti­nha recebido da sua avó (Trindade, 2008).

Para se tornar pescador, começavam geralmente muito cedo, porque praticamente não frequentavam a escola, passando a maior parte do tempo entre os barcos no porto, pescando ou mariscando nas rochas, explorando desde muito cedo o meio de subsistência que os aguardava.

Quando tinha sete ou oito anos, começava a aprendizagem, fazendo parte da tripulação no barco do pai ou de outro mestre. O seu trabalho como rapaz a bordo, consistia em manter a embarcação sempre limpa e aprovi­sionada. O único pagamento que recebia era o conhecimento do ofício e a possibilidade de pescar no barco. Com o passar do tempo, a criança trans­formava-se em homem e aos poucos ia melhorando o seu desempenho e cobrar o seu quinhão.

Apesar do seu trabalho no mar, o jovem desempenhava tarefas em terra, como limpeza e conserto dos aparelhos, ajudar a reparar avarias ou pintar os cascos, bem como transportar as redes, ir à lenha ou às pinhas e até tomar conta dos irmãos mais novos.

Este processo de aprendizagem era longo e custoso. O mar era a escola e o porto a casa da maioria destas crianças, dos povoados costeiros portugueses e galegos, quase até finais do século XX.

publicado por Brito Ribeiro às 12:13

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