Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

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Mar 20

O contributo dos marítimos galegos, principalmente guardeses, no desenvolvimento da pesca foi fundamental. Como referimos, em 1825 havia uma família a residir permanentemente na Lagarteira e em 1840 registadas quatro, sendo que três delas eram lideradas por elementos da família Verde.

Em 1843 já havia catorze embarcações, com a particularidade que seis dedicavam-se à venda do pescado e oito pescavam para autoconsumo. Dada a tonelagem referida nas oito embarcações (entre 0,750 e 1 Ton.), as­sim como o número reduzido de tripulantes de cada uma, conclui-se que se tratavam de pequenas embarcações, certamente gamelas guardesas.

Não há dúvidas que os primeiros barcos a visitar a enseada da La­garteira deviam ser lanchas e barcos de tipologia poveira, mas os primeiros imigrantes vieram apetrechados com embarcações mais pequenas, mais po­bres, tal como eles, que tinham de abandonar as suas terras na busca do sustento.

As gamelas, ou masseiras, de estrutura mais modesta e simples, fo­ram as que por mais tempo e melhor se adaptaram às condições rudimen­tares do varadouro. Chegaram aqui como mala de viagem pela facilidade de manobra e pela ousadia de navegar no oceano. Haviam de resistir aos barcos de modelo poveiro até aos nossos dias, evoluindo e adaptando-se através das transformações e das novas condições tecnológicas.

33 - Masseiras.jpg

Em 1855, o mapa das embarcações mostra que havia treze lanchas e cinco masseiras e como apontámos anteriormente, em 1886 as embar­cações registadas eram 65, valores que confirmam o desenvolvimento da actividade marítima e que as sucessivas gerações continuavam na mesma actividade familiar.

Era também reconhecida a importância económica da pesca em Gon­tinhães no contexto local e até regional.

O semanário “A Voz do Âncora” exprime publicamente esse reconhe­cimento a 3 de Janeiro de 1904:

Esta classe, sem dúvida a mais numerosa da nossa terra, vae ter em nós, desde já o asseguramos um defensor tão intrépido como valoroso quanto as nossas forças o permitirem. E é justo, porque, se é nella que nós vamos procurar um grande número de auxiliares, é sobre ella também que devem recahir os primeiros benefícios advindos do brado que vamos soltar em favor de todos.

O pescador representa, entre nós, a mais poderosa alavanca do bem estar geral. Bastam oito dias de abundancia para ele, para a abundancia se fazer sentir em toda a parte. Que o digam os proprietários de todos os estabe­lecimentos commerciaes, que o digam todos os industriaes e lavradores.

Apenas no nosso pequeno porto há pescado em quantidade razoável, já os credores e devedores respiram, porque a moeda, em quantidade rela­tivamente grande, começo a circular.

A vida comercial e industrial depende, pois, sobremaneira, da vida do mar e, d’aquela, depende geralmente a vida do nosso publico.

Mas esta classe, a marítima, tão trabalhadora quanto pobre e infortuna­da, vê-se, no momento actual, a braços com a miséria. É ver as creanças, quasi completamente nuas, esmolando, de porta em porta, umas côdeas duras; é atentar nos homens e nas mulheres, recorrendo a todos para empenharem os últimos farrapos com que deviam guardar do frio os seus corpos esqueléticos.

Para esta penúria, tomamos a liberdade de chamar a atenção do exm.º sr. Governador Civil do districto e temos a convicção de que o não fazemos em vão. S. ex.ª pode interceder pelos nossos pobres pescadores, perante as di­recções dos cofres dos “Socorros a Naufragos” e “Inundados” e con­fiamos em que o fará, porque, asseguramo-lo sem receio de desmen­tido, a sua alma de eleito não pode conser­var-se insensível ante a miséria dos povos que, sob a sua esclarecida superintendência, são administrados.

 

Numa comparação entre o volume de pescado registado, entre os vários portos pesqueiros, verifica-se que em 1886, o valor registado em Gontinhães era apenas inferior aos portos de Viana e de Esposende. Os registos podem não traduzir a verdadeira dimensão das quantidades capturadas, pois sempre foi tradição o pescador “fugir” com o peixe ao dízimo e mais tarde à lota, evitando assim de pagar os impostos em vigor.

Convém salientar que nem todos os tripulantes tinham cédula maríti­ma e muitos não estavam matriculados nas embarcações, havendo também embarcações sem registo e embarcações registadas em outros portos mas que por conveniência pescavam em Âncora, mesmo que sazonalmente. Os registos marítimos da época eram pouco rigorosos e essa foi uma das razões para mais tarde ser criada uma Capitania local. A falta de rigor nos registos pode alterar significativamente a conclusão sobre o número de embarca­ções, tripulantes e valores do pescado. Mas não deixa de ser uma referência.

As lanchas que conviveram durante décadas com as masseiras, eram embarcações maiores e mais robustas, adequadas à pesca no alto mar, tra­zidas pelos pescadores poveiros que as disseminaram por todo o norte de Portugal e pela Galiza. Estas lanchas iniciaram o seu declínio por volta de 1930 desaparecendo pelos anos cinquenta (1953-1954), devido ao surgimento das mo­toras, traineiras e “trucks”, que em Âncora se designavam “truques” (Pequena traineira).

20 - Truque Timor - Tio Feito e filhosManuel e Aqu

Não fica um único barco tipo poveiro para testemunhar a sua passagem por aqui. Surgem os barcos a motor e o esforço pesqueiro não tem preceden­tes. Instalam-se dois postos de abastecimento de combustível: um no molhe norte do portinho velho, da Sonap, e o outro no cais do porto novo, da Shell. A Lota abre e inicia-se um processo de vendagem moderno. Não foi pacífico esse processo, a aceitação da nova disciplina, método de arrematação do pes­cado e percentagens a descontar para o Estado. O peixe deixa de ser leiloado na praia e o dízimo taxa­do pela Guarda Fiscal dá lugar a um novo proces­so administrativo adap­tado a novas exigências de índole regulamentar e social.

As masseiras, pe­quenas embarcações de fundo chato trazidas pe­los guardeses, sobrevi­veram a estas alterações porque eram utilizadas na captura de espécies costeiras, se bem que aos poucos e com algumas adaptações, tivessem uma utilização mais diversificada e se aventurassem em pesqueiros mais afastados da costa.

Os pescadores das masseiras constituíam uma subcultura caracteri­zada pelos mais humildes da classe. Era a embarcação dos pobres, unidos naquela perspectiva definida por E. P. Thompson, citado por Staffan Mörling (Morling, 1989):

As classes sociais desenvolvem-se quando homens e mulheres experimen­tam as suas condições de produção e quando sofrem as suas circunstâncias”.

 

Com efeito, o papel desempenhado pelas lanchas e barcos tinha um estatuto e prestígio com um peso específico na paisagem social e cultural da comunidade piscatória, como veremos mais adiante quando tratarmos dos casamentos na comunidade marítima.

Mas os pescadores guardeses não trouxeram apenas a sua força de trabalho, trouxeram as artes e o saber de toda a prática marítima, nomea­damente a construção naval.

publicado por Brito Ribeiro às 12:36

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