Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

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Mar 20

O período mais significativo da demanda do Portinho de Gontinhães por pescadores de A Guarda, no século XIX, insere-se no contexto geral da diáspora galega, que a poetisa Rosalia de Castro, num lamento sentido, canta:

     “Este parte, aquele parte

      E todos, todos se vão;

     Galiza ficas sem homens,

     Que possam cortar teu pão.”

 

Com efeito, as guerras, as convulsões políticas e sociais já decorren­tes do século anterior, agudizaram neste século as condições económicas da Galiza, mergulhando-a na insegurança e na pobreza. Eram já razões bastan­tes para partir.

Entre 1825 e 1924, 43% dos nascimentos re­gistados na freguesia de Gontinhães, tinham, pelo menos, um dos progenito­res como imigrante galego, o que atesta a importân­cia que esta comunidade ganhou ao longo dos anos (Rego, 2012).

Nessa época, tal como na actualidade, a emigração é a busca por melhores condições de vida e a ela recorrem os sectores mais vulneráveis da sociedade.

Pinho Leal escreve com preocupação e até uma ponta de amargura sobre a Lagarteira:

“Na Lagarteira ha um fortim que foi reparado em 1865 e que tem uns 3 ou 4 veteranos de guarnição; mas há muitos anos está completamente desartilhado.

Também há aqui, junto e ao S. do tal fortim, um varadouro chamado Por­tinho, onde só podem entrar as pequenas lanchas de pesca. Está de todos os lados cercado de penhascos, onde quasi todos os annos há desgraças a lamentar, pois os barcos n’elles se despedaçam com frequência. É verdade que em 1865 se concluiu um quebra-mar, ao N. do Portinho, por conta das obras públicas do districto, que evita alguns perigos e sinistros; mas muito mais útil seria aos pobres pescadores d’aqui, se fosse mais sólida e scientificamente construído. Este, no estado em que está, não dá grande crédito a quem o deliniou!

O mar, com qualquer temporal (que é quando o corta-mar era precizo) galga sobre elle com a maior semceremonia!” (Leal, 1875).

10 - Ilustração de Pinho Leal. O Portinho antes

Face ao aumento de movimento de barcos e de pescado, às notí­cias das perdas de vidas nos naufrágios e à crescente impor­tância da Praia d’Âncora como estância balnear, decidiram as Obras Públicas Distritais cons­truir a sul do Forte da Lagartei­ra dois molhes convergentes e delimitantes do varadouro. As obras de construção dos mo­lhes, corte das pedras do inte­rior e aprofundamento, duraram até 1884 e tiveram um custo de 10:661.820 reis.

Neste valor estão incluídas despesas com diversas obras de recons­trução, já que durante este período o mar continuou a fazer estragos nos molhes; o quebra-mar a norte ficou abandonado (foi sensivelmente sobre este pequeno e tosco quebra-mar que se construiu em 1935 o molhe do Porto Novo).

Após a conclusão das obras, os episódios de destruição desta infra-estrutura são frequentes e ocorrem até mais de uma vez por ano, para desespero dos pescadores e dos Serviços Fluviais e Marítimos que tinham a responsabilidade da sua conservação.

Exmo. Snr. Engenheiro Chefe da 1ª Secção da 1ª Direcção dos Serviços Fluviais e Marítimos

Já tenho ido por três vezes ao portinho de Gontinhães para proceder ao conserto de que V. Exc. me deu ordem mas não tem sido possível poder-se fazer o referido conserto por o mar estar muito levantado, agora dei ordem aos pedreiros para ser feito na ocasião das marés vivas, o que também me parece que temos no molhe sul mais ou menos estrago o que poderei ob­servar na ocasião das marés vivas.

Deus guarde V. Exc.

Riba d’Âncora 30 de Dezembro de 1903

O apontador de 2ª classe

João José Rodrigues Gomes de Oliveira

 

A troca de correspondência entre os homens no terreno e a Direcção Distrital da Obras Públicas (esta correspondência está conservada no Arquivo Distrital de Viana do Castelo, Secção de Hidráulica) era abundante, apontando frequentemente er­ros de concepção e construção como causa das avarias.

Exmo. Senhor Engenheiro Chefe da 1ª Secção da 1ª Direcção dos Serviços Fluviais e Marítimos

Exmo. Snr.

Depois que recebi a nota de serviço nº 149 datada de 18 do ano e mês findo em que me ordenou que procedesse sem perca de tempo às repa­rações do estrago feito no molhe norte do portinho de Gontinhães, não me foi possível proceder logo aos três consertos por não haver pedreiros na ocasião e que na mesma ocasião assentei com o pedreiro Constantino Sobreiro o dia em que ele tinha pedreiros e que havia de proceder aos re­paros, o que disto dei parte a V. Exc.. Porém no dia marcado 28 do mês e ano findo não foi possível proceder-se aos referidos reparos por causa da chuva e alteração do mar. Em vistas de tudo isto determinei e ficou para as marés vivas de que dei parte naquela mesma ocasião a V. Exc. Na qual também lhe dizia que no molhe sul me parecia haver estrago, todavia on­tem que se havia de dar princípio aos reparos mas que se não pode dar por causa do mar e chuva e o mesmo aconteceu hoje, mas que todavia hoje pude descobrir que no molhe sul é preciso fazer em uma pequena distan­cia recalce, o que no dia 7 do corrente é que assentei com o Constantino procedermos aos consertos caso o mar e chuva deixe. E para isso convido a V. Exc. Para vir até cá ver a que há a fazer. Enquanto a vigilância com­binei com o Lopes o ele vigiar de noite e eu e ele de dia, porém, segundo informações não houve mão mal fazeja como ao principio parecia, e que os pescadores dizem que tudo é motivado da falta do penedo que se quebrou.

Deus guarde V. Exc.

Riba d’Âncora, 5 de Janeiro de 1904

O apontador de 2ª classe

João José Rodrigues Gomes D’Oliveira

publicado por Brito Ribeiro às 13:06

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