Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

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Mar 20

Em 1886, Baldaque da Silva (Capitão Tenente da Armada, engenheiro hidrográfico e membro da Comissão Permanente das Pescas) descrevia o Portinho de Gontinhães da seguinte forma:

“Situado entre a embocadura do Rio Âncora e o forte do mesmo nome, fica um pequeno porto oceânico formado por dois paredões ou quebra mares convergentes, que o abrigam um pouco das vagas, a que chamam Portinho de Gontinhães ou da Lagarteira.

Para o interior da praia deste porto estão as casas dos pescadores, habi­tando também na povoação de Gontinhães e nas freguesias circunvizinhas desta.”

 

Esclarece ainda, que nesse ano estavam registadas 5 lanchas, 28 bar­cos e 32 masseiras, portanto 65 embarcações e 164 tripulantes.

11 - Portinho d'Âncora - Início do Séc. XX.jpg

Este número de tripulantes pode estar incompleto, pois em cada lan­cha pescavam cerca de 20 homens, nos barcos, que seriam catraias grandes e catraias pequenas, embarcavam 4 ou 5 tripulantes e cada masseira em­barcava 2 homens, às vezes três. Tudo somado daria um total de cerca de 300 tripulantes.

Os números que aqui registamos são os que habitualmente embar­cavam, no mínimo, em cada tipo de embarcação no Portinho de Âncora. Também deve ser tomado em consideração que, nessa época, o registo dos marítimos era menos rigoroso e provavelmente continuaria a praticar-se alguma migração sazonal entre o Portinho d’Âncora e A Guarda.

As tripulações dos mesmos tipos de embarcações, ou similares, dos portos de Viana do Castelo e Póvoa de Varzim eram bastante superiores, a saber, lanchas de 14 metros 20-30 tripulantes cada; catraias grandes de 8 metros de comprimento, 8-10 tripulantes cada; catraias pequenas, de 6 metros de comprimento, 5-8 tripulantes; caíques de 3,60 metros, 2-4 tripulantes.

Sobre o Porto Novo dizia Baldaque da Silva:

“Pelo norte do forte de Âncora existe uma espécie de varadouro, cortado na penedia, começo de uma obra para refúgio das embarcações de pesca, que não se chegou a concluir, conhecido pelo nome de Porto Novo, que é actualmente aproveitável como porto de sargaço”. (Silva, 1891)

Reclamando sobre as condições de segurança do Portinho, também o semanário “A Voz do Âncora” (Semanário local que se publicou entre 3 de Janeiro de 1904 e 31 de Dezembro de 1905, do qual era director João José de Brito), insurgia-se frequentemente:

“Ali temos, por exemplo, o nosso porto de pesca, isto é, uma perfeita “ratoeira” para apanhar homens, se a muita prudência daqueles, que, no mar, buscam os meios de vida, os não aconselhasse a procurar outros abrigos, apenas o grande elemento mostra indícios de embravecer”;

(…)

“Têm vindo para aí, por diversas vezes, uns centos de mil reis para fazer reparos nos “molhes” que formam o nosso porto(?). Os trabalhos que,

com tal dinheiro, se tem feito não têm sido mais que um entretenimento para o mar, na quadra tempestuosa do inverno.”;

“Os pescadores bem gritam que, assim, de nada serve perder tempo e di­nheiro; bem indicam a maneira de se fazer, duma vez, coisa que sirva, mas… não há meio. Os governos preferem ir estragando a pouco e pouco, embora isso lhes custe mais caro que lhes cus­taria a obra bem feita.”;

(…)

“E é para tudo que diga respeito ao mar, esse fac­tor da nossa vida comercial e indus­trial, que nós pedi­mos mais instan­temente a atenção dos que, pelo lugar que ocupam, po­dem, por assim di­zer, mandar.”

Em 1911, insatisfeito com as condições de segurança dos pescadores ancorenses, o senador republicano Luís Inocêncio Ramos Pereira, grande amigo da classe piscatória ancorense, dirige um requerimento ao Ministro do Fomento, solicitando diversos esclarecimentos, sendo emitida uma ordem de serviço aos serviços técnicos no sentido de dar provimento à demanda do senador.

Ministério do Fomento – Direcção Geral de Obras Públicas – Repartição de Obras Públicas – Ordem de serviço nº 980

A fim de satisfazer um requerimento do Senhor Deputado Luís Inocêncio Ramos Pereira queira V. Exc. Prestar os seguintes esclarecimentos:

1º Em quanto importou a construção do porto de pesca (varadouro) de Gontinhães do concelho de Caminha?

2º Quanto se tem despendido nas reparações?

3º Em que tem constituído essas reparações?

4º Qual o seu estado actual?

5º Quais as suas condições de segurança?

6º Tem em todas as marés água suficiente para a entrada de qualquer embarcação de pesca?

7º Que obras merece se lhe façam?

Direcção Geral de Obras Públicas e Minas, em 12 de Agosto de 1911

Para o Engenheiro Director dos Serviços Fluviais e Marítimos (1ª Direcção)

O Director Geral, Severiano Monteiro

Masseiras no Varadouro - 193627

Está conforme

Porto, 17 de Agosto de 1911

António D’Albergaria Pereira

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A resposta chega cerca de duas semanas mais tarde, o que denuncia, pela brevidade, que havia pensamento feito sobre este assunto e sobre a forma de corrigir o Portinho de Âncora.

Nota de serviço nº 129, em 30 de Agosto de 1911

Respondendo ao que me foi determinado em nota de serviço da Direcção nº 941 de 17 de Agosto corrente que acompanhou a ordem de serviço do Ministério nº 980 de 12 do referido mês, compete-me informar o seguinte:

1º Que o custo do porto de pesca (varadouro) de Gontinhães, do Con­celho de Caminha, construído desde 1862 até 1884 importou segundo as notas existentes de despesa dessas datas 10:661,820 reis.

2º Que tem sido diversas as reparações principalmente no molhe norte que em diferentes anos o mar tem destruído na parte extrema do molhe, montando as despesas feitas com essas reparações em 1:863,380.

3º Que essas reparações têm sido, como acima digo, em reconstruir principalmente o molhe norte junto da entrada do porto, limpeza deste feita por várias vezes e consertos de vários rombos no molhe sul.

4º Que no estado actual encontra-se o leito do varadouro entulhado de pedras principalmente junto do molhe norte, pedra que é proveniente deste molhe, em virtude da sua destruição de cerca de trinta metros, junto da entrada do porto.

5º Que tem sido diversas vezes que o molhe norte sofreu avarias e será difícil fazer a reconstrução de tal forma que o mar não produza sucessiva­mente ruinas iguais às que se tem dado, porque a superfície das rochas naturais sobre que se tem de assentar o molhe são muito inclinadas e a direcção do molhe recebe a pancada do mar quase mortalmente.

6º No estado actual o varadouro não tem água para entrarem os barcos de pesca em qualquer ocasião ficando nas baixas marés de águas vivas todo a seco como se vê na planta que junto remeto e a classe piscatória pede com urgência a limpeza do porto e a abertura de uma espécie de canal com a largura de oito metros e a profundidade de 1,50 desde a entrada do porto até à rampa de varagem, petição esta que considero justíssima e que se deve atender desde já.

7º Todos os anos o mar causa mais ou menos ruinas naquele molhe e a conservação dele tem de ser indefinidamente mais ou menos dispendiosa. Parecendo-me por isso, que o mais conveniente seria tirá-lo fora cortando a rocha sobre o qual ele assenta e ainda toda a que existe ao norte até perto do cunhal do Forte de Âncora à cota um metro abaixo de zero Hidro­gráfico. Desta forma amplia-se muito a superfície do varadouro, sem al­terar a sua entrada podendo os barcos de pesca ficar constantemente em flutuação e evitando-se a varagem para junto das casas, salvo no caso de tempestade ou mar muito agitado. O rochedo existente a nascente do ac­tual portinho ficará sendo um abrigo natural do alargamento, que entendo deve fazer-se, não sendo preciso molhe de abrigo. O aumento da superfí­cie do varadouro será cerca de 1400m2 e o volume de rocha de 7000m3, cortada até um metro abaixo do zero hidrográfico. O corte e transporte deste volume quase todo extraído a seco, não deve importar em mais que 7:000.000 reis, isto é, 1000 reis por metro cubico. Finalmente as despesas a fazer com o portinho d’Âncora dividem-se em duas partes, uma urgente que é a limpeza e corte de um metro e cinquenta centímetros de altura com a largura de oito metros no actual varadouro e o alargamento deste para o norte. A primeira entendo que se faz com sete contos de reis e a segunda com três contos.

O Eng. Chefe de Secção (assinatura ilegível)

publicado por Brito Ribeiro às 12:58

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