Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

17
Ago 20

Texto retirado da página Freguesia de Moledo e Cristelo no Facebook.

A freguesia de Moledo do Minho tem sido objecto de interesse de jornalistas e alguns homens de letras, dedicados à região caminhense. Sendo uma reputada estância balnear particularmente a partir do século XX é muito natural que possamos auferir de determinados estudos levados a cabo por Teresa Menères Gautier Vasques Osório e expostos em seu estudo «Moledo como estância balnear do século XX (1910-1976)».

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Extratos

Durante muitos séculos o mar foi olhado com medo pelos homens, que viam nele o abismo e a fonte de todos os males devido ao relato do grande dilúvio contado no livro Genesis da Bíblia. A história da inundação da Terra, da qual apenas sobreviveram as pessoas e animais ocupantes da arca de Noé marcou a população europeia e nem mesmo as investidas de marinheiros por lugares inóspitos durante os séculos XV e XVI alteraram essa visão apocalíptica do oceano, cujos sons pensava-se serem murmúrios de almas mortas e esquecidas. (…)

O aumento de população a frequentar a praia coincidiu com a revolução industrial e o aparecimento dos caminhos-de-ferro, não só porque a classe burguesa se expandiu e começou a procurar os mesmo espaços de lazer que as elites frequentavam, mas também porque a construção das linhas de caminho-de-ferro possibilitou e facilitou o acesso dos operários e da população em geral à orla costeira.

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A industrialização foi responsável pelo êxodo rural de famílias que procuravam a sua sorte como trabalhadoras nas grandes fábricas das cidades, levando assim ao rápido crescimento urbanístico. Esta mudança de estilo de vida resultou no aparecimento do tempo linear de trabalho, que era pago à hora, ao contrário do que acontecia nas zonas rurais onde o tempo de trabalho se confundia com o tempo de lazer, não havendo uma divisão clara entre um e outro. Ora, se o tempo de trabalho passava a ser cronometrado e bem definido, inevitavelmente o mesmo se pretendia que acontecesse com o tempo livre.

O utilitarismo defendia que os operários precisavam de descanso entre as tarefas de maneira a que a sua eficácia e produtividade aumentassem e, por isso, estabeleceu-se o meio dia de folga ao sábado. (…)

Embora no século XIX já algumas praias começassem a ser frequentadas como consequência da divulgação dos discursos médicos acerca dos benefícios dos banhos de mar e do desenvolvimento dos transportes, foi no século XX que o turismo começou a ser pensado em termos institucionais.

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Ainda antes da instauração da Primeira República surgiu a Sociedade de Propaganda de Portugal fundada a 28 de fevereiro de 1906 por iniciativa privada de um conjunto de visionários das mais variadas fações políticas, «monárquicos, republicanos, católicos, maçons (...)» num total de 73 sócios. Leonildo de Mendonça e Costa, fundador e diretor da Gazeta dos Caminhos de Ferro, foi o principal responsável pela criação desta Sociedade, assumindo a sua presidência até à instauração da Primeira República. Sucedeu-o nessa altura Magalhães Lima conhecido político da geração de 70, mas Mendonça e Costa nunca se afastou totalmente. (…)

Ainda assim, a Sociedade de Propaganda de Portugal continuou com a sua atividade de promoção do país através da publicação de folhetos, publicidade nos jornais, convites a jornalistas estrangeiros para conhecerem Portugal e edição, em 1918, do guia As Nossas Praias – Indicações Gerais para uso de banhistas e turistas o qual já contava com uma entrada sobre a praia de Moledo: No concelho de Caminha, a 3 e meio quilómetros desta vila antiquíssima, tanto que se diz haver sido fundada e seguida à rendição de Troia, e que forma como que uma península, cercada pelos dois rios – Minho a N. e N. O. E Coura a L. – na freguesia de S.Paio, fica situada esta magnifica praia de banhos, que costuma ser uma das mais concorridas da província em todas as épocas, e tanto que foi dotada com apeadeiro próprio, na linha férrea do Minho, o qual fica entre as estações de Âncora e de Caminha. Tanto a praia propriamente dita, como a vila sede do concelho, constituem uma estância para a estação calmosa de uma excepcional beleza, uma e outra oferecendo não poucas comodidades. As belas estradas da região, as margens pitorescas do Minho e do Coura, a Ínsua com a sua velha fortaleza, hoje por assim dizer inerme, e em volta de tudo isto algumas das mais lindas aldeias do país, tudo concorre poderosamente para deleitar o turista. Já do lado da Galiza, a N. descobre-se, de Caminha, a grande eminência chamada de Santa Tecla, também denominada a Amazona do Monte, pelo muito que se assemelha a um peito de mulher. A três minutos fica o frondoso Pinhal de Camarido. Tanto na praia como na vila há hospedagem para todas as posses, em Caminha o Hotel Luso-Brasileiro, com muito regular serviço, embora sem luxo; bem como a hospedaria da Candida, assim chamada do nome de sua proprietária. A praia é servida, como já foi dito, pelo apeadeiro de Moledo, que fica apenas a 1 quilómetro. (…)

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Em Portugal o despontar das estâncias balneares começou a meio do século XIX quando se juntaram uma série de fatores propícios à deslocação de um maior número de pessoas para fins terapêutico-lúdicos. O primeiro desses fatores foi a propagação dos discursos de médicos portugueses sobre a importância da água salgada para a saúde. (…)

O ir à praia transformou-se numa atividade acessível tanto à aristocracia como à burguesia, classes operárias e agricultores que aproveitavam para fazer as suas deslocações ao domingo, o dia de folga habitual.73 A própria direção dos caminhos-de-ferro incitava à viagem ociosa pelo litoral através de reportagens elaboradas pela Gazeta dos Caminhos de Ferro dirigida por Leonildo Mendonça e Costa, um dos que viria a ser sócio fundador e presidente da Sociedade de Propaganda de Portugal.

O apeadeiro de caminhos-de-ferro de Moledo era mencionado na publicidade que se fazia à praia de Moledo e suas conveniências, revelando a importância que o comboio tinha para a tomada de decisão de se escolher uma praia em detrimento de outra…

A criação deste serviço só veio a acontecer no mês de outubro quando, num domingo, os banhistas de Moledo viram o comboio de correios a parar no apeadeiro, valendo um agradecimento público do Jornal Estrella de Caminha ao então diretor dos caminhos-de-ferro…

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A relação entre os banhistas e os sargaceiros era pacífica, uma vez que os dois ocupavam espaços diferentes da praia. O contacto era estabelecido quando os veraneantes resolviam dar um passeio à beira mar e se cruzavam com os sargaceiros, fazendo-lhes perguntas sobre a sua atividade.

O primeiro relato a que tivemos acesso sobre a chegada dos banhistas à praia de Moledo durante o verão remonta ao ano de 1885. O jornal Estrella de Caminha descrevia o panorama das ruas de Moledo e comparava-as às da vizinha Vila Praia de Âncora, realçando a calmaria única de Moledo…

Num artigo sobre a vida e obra de António Pedro, José Augusto França descreveu a pintura Da Minha Janela como o sítio « (…) de donde o pintor vê os areais da sua casa em Moledo do Minho, o monte de Santa Tecla e uma ilha a meio do mar, e, sobre toda a paisagem, uma figura de mulher nua adejando e apontado, como uma ameaça, para um casal de figuras minúsculas jogando nas dunas, onde, à sombra de uma árvore, ainda um pequeno nu emboca uma trombeta.» (…)

(…) - Por último, as características naturais de Moledo foram sempre sublinhadas pelos nossos entrevistados como uma das principais razões da sua fixação sazonal.

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Com o pinhal do Camarido e a Serra d’Arga, o oceano Atlântico e o rio Minho e ainda a visão do monte espanhol de Santa Tecla, Moledo reunia uma série de espaços em que o contacto com a Natureza era direto, existindo pouca intervenção do Homem. O que não só contribuía para que as férias fossem quase sempre sinónimo de um descanso bucólico, mas também fazia com que os dias fossem bastante variados. A flutuação das condições climatéricas, com ventos fortes e por vezes chuva, pode ter sido uma das razões por que Moledo nunca se tornou uma estância balnear de massas.

Considera-se que o 25 de abril de 1974 foi responsável por uma certa deselitização da estância balnear de Moledo com o Clube Ínsua a assentir abrir o seu campo de jogos à população local e com a obstrução da construção das ruas G, F e E (na parte baixa da freguesia) por parte de alguns banhistas a ser fortemente reivindicada por moledenses através dos meios de comunicação que estavam agora mais acessíveis a todas as pessoas e não eram sujeitos a exame prévio. Talvez este seja um ponto de partida para novas investigações sobre Moledo durante todo o século XX.

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 Num tempo em que a maior parte das cidades portuguesas estão a sofrer um boom turístico, que nem sempre respeita a população local e as características orgânicas do território, julga-se ser de extrema importância mostrar que os espaços que conseguem conservar a sua envolvência natural foram durante o século XX (e pensamos que continuam a ser) sobejamente apreciados e escolhidos em detrimento de outros cujo entretenimento passa mais pela transferência de diversões citadinas para as estâncias balneares.

Extratos reunidos por ARV para LNMC, em 14.08.2020.

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publicado por Brito Ribeiro às 10:04

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