Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

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Também conhecida por “loja” ou “tasca”, era o local de sociabiliza­ção do pescador quando estava em terra. A do “Carriço”, da “Curraca” ou da Tilde, o “Coxo da Faena”, a “Raspa”, o “Pinga”, o “Alberto da Linha”, o “Tonica”, os “Tirones” ou o “Caça-Brava” que antes era o “Russo”, o “Repimpim”, mais tarde a “Santola” no largo da “Rasga”, são algumas das tabernas da zona do Portinho ancorense que existiram ou ainda existem na actualidade.

A maioria das tabernas eram pequenas lojas de aspecto simples e humil­de, tal como os seus clientes, onde se vendiam poucos produtos, vinho tinto e branco, aguardente, ginja e o tabaco. Para além destes havia bolachas, figos, azeitonas, chocolate e por al­tura das festas alguns petiscos.

O arranjo da loja era simples e o peteiro da Santa (Senhora da Bonança) ocupa­va um dos cantos. Podia ha­ver uma pequena prateleira (ou nicho) com uma imagem religiosa e uma pequena lam­parina de azeite. Na parede do fundo, por trás do balcão, sobre as prateleiras, encon­travam-se os artigos para venda. Ao lado do balcão, os dois pipos de vinho; numa prateleira próxima, as canecas, malgas, medidas para o vinho, o funil e os copos da aguardente, da ginja e do “traçadinho”, uma mistura de aguardente e anis.

76 - Casa antiga onde funciou a loja da Curraca.JP

No exterior do balcão, as paredes estavam decoradas com um progra­ma das festas da Senhora da Bonança, um calendário e pequenos avisos, como a lista dos nomes da mordomia para a festa da Padroeira ou do Senhor dos Aflitos. Podia encontrar-se ainda algum apetrecho de pesca pendurado, pertença do proprietário da taberna, também ele, muitas vezes, pescador. A um canto eram arrumadas redes e cortiças. No exterior do balcão, as mesas e bancos toscamente executados, onde os clientes se sentavam a beber, a conversar ou a jogar às cartas.

No exterior da taberna, um galho de loureiro preso à parede, anuncia­va que aquele era um local de venda de vinho.

A porta da taberna tinha um postigo que servia para entrar a luz ex­terior. Se era insuficiente, utilizavam uma mecha de pano e algodão torcido, envolvida em óleo de resíduos de peixe a que davam o nome de “graixa”, vertida numa candeia metálica bastante primitiva. Mais tarde, estas can­deias foram substituídas pelos candeeiros a petróleo.

Por meados do século XX algumas lojas diversificaram o negócio, pas­sando a comercializar artigos de mercearia, embora num espaço separado da taberna.

Era na taberna que o pescador ancorense convivia, vendo passar os dias chuvosos, lamentando a invernia que era longa e lhes trazia miséria, obrigando-os a irem à lenha para vender, pedirem emprestado aos mais re­mediados e até calcorrearem os lugares e freguesias rurais pedindo esmola e comida nas casas dos lavradores.

A maior parte do tempo, o pescador bebia a crédito, que liquidava quando fazia as contas da maré. O proprietário da loja mantinha um livro de fiados, que nos tempos mais antigos identificava o devedor com a sua marca e os débitos com outros símbolos que representavam quantidades de dinhei­ro, vinténs, tostões ou coroas. Quando podia liquidar a dí­vida, o pescador dava-se ao “luxo” de comer meia dúzia de figos, um punhado de azeito­nas ou outra iguaria disponí­vel na loja. Facilmente se co­metiam exageros e não raras vezes o pescador saía da ta­berna com “um copo a mais”.

Quando o mar permi­tia, a pesca abundava e o dinheiro não faltava, lá iam beber a malga de vinho com outra disposição, conversar sobre aventuras passadas, sobre a última pesca ou dos planos futuros.

O pescador frequentava a taberna logo de manhã para “matar o bi­cho” com aguardente ou traçadinho, que na ausência de comida lhe dava força e coragem para vencer as dificuldades da faina. Alturas houve em que, por proibição das autoridades, o taberneiro vendia a aguardente às escondi­das, na areia, junto aos barcos.

76A - Loja da Tilde.jpg

As tascas do Portinho eram, amiúde, local de encontro de tocadores de concertina, viola ou guitarra que pertenciam à comunidade ou de alguma freguesia próxima. A sua presença nestes locais fazia correr a bebida e dava lugar a cantorias.

A vida do pescador ancorense era dura e bastante isolada, não só pela delimitação do seu território (para baixo da linha do caminho de ferro), mas também por razões de ordem sócio-cultural. Por isso mesmo, frequente­mente, não era bem entendida a permanência do pescador na taberna por parte da restante comunidade de Gontinhães. O Jornal da Manhã, do Porto, publicava a 6 de Dezembro de 1885, pela pena do correspondente na Praia d’Âncora:

 “Os pescadores estão a atravessar uma quadra bastante penosa, porque houve muito pouca pescaria no verão, e agora não há nenhuma.

Entretanto, esta classe tão imprevidente, como amiga de beber, não dei­xa, ainda assim, de frequentar as suas “capellas”, as tabernas, onde gasta o que tem e o que não tem”.

Esta era a forma como a comunidade rural e a burguesia recentemen­te instalada na Lagarteira, onde construíram as suas casas para comércio ou serviços, assim como habitações de férias, se referiam à classe piscatória e à sua forma ímpar de viver.

publicado por Brito Ribeiro às 11:27

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