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Mar 20

Ainda o Vale do Minho não se tinha refeito da epidemia de cólera que levou em 1885 ao fecho da fronteira, quando rebentou em todo o mundo outro vírus tão ou mais perigoso do que aquele que grassara 30 anos antes.

Estávamos em 1918 e acabara a Grande Guerra. A pneumónica, também conhecida como gripe espanhola, estava a ceifar vidas aos milhares por onde passava.

O contágio disseminou-se com a desmobilização das tropas na Europa e rapidamente alastrou até Portugal, com particular incidência no norte.

A doença varreu o país a uma grande velocidade, tanto assim que a falta de caixões para os funerais foi um dos resultados imediatos, o que fazia que muitas famílias os comprassem por antecipação e guardassem debaixo das camas onde os seus membros agonizavam”, escreveu o Diário de Notícias num artigo em 2018, no ano em que passaram 100 anos sobre este flagelo.

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As deploráveis condições de vida, agravadas pelos efeitos da I Grande Guerra, facilitaram a rápida propagação da gripe, a par de outros fatores, como o desconhecimento da assepsia, o acesso limitado a fármacos ou a inexistência de antibióticos” (Alexandra Esteves - O Impacto da Gripe Pneumónica em alguns concelhos do Alto Minho).

O vírus entrou no Vale do Minho e as autoridades decidiram encerrar a ponte de Valença. Porém foi Vila Nova de Cerveira a sofrer as primeiras vítimas em Outubro de 1918.

Em Gontinhães, o cenário continuava preocupante; em Monção, as vítimas eram às centenas; na freguesia de Lanhelas, concelho de Caminha, os doentes eram mais de 150; na capital do distrito, o panorama parecia mais animador, permitindo, inclusive, a reabertura das igrejas”, refere a investigadora.

O mês seguinte foi fatídico para Valença. A epidemia continuava a grassar com intensidade. Do outro lado do rio Minho, na Galiza, contavam-se 8.000 infetados e as comunicações entre os dois países continuavam suspensas.

Imediatamente após as primeiras mortes ocorridas em Monção, foram lançadas medidas para conter o seu alastramento, que passavam pelos cuidados com a higiene pessoal e o asseio da casa e pela recomendação de recorrer a apoio médico logo que surgissem os primeiros sintomas. Só que a realidade era bem mais negra que as simples recomendações vindas de Lisboa.

Em finais de 1918, faltava praticamente tudo em Monção, desde bens essenciais como arroz, açúcar, carvão, azeite e petróleo, bem como apoio médico e sanitário.

Em outubro de 1918, o cenário no Município de Melgaço ia de mal a pior. Valter Alves, conta no seu Blog Melgaço: Entre o Minho e a Serra, que o jornal A Gazeta do Lima noticiou nessa altura que no concelho “as cousas se encontravam n’um estado pavoroso, pois até os enfermeiros da Misericórdia tinham fugido abandonando os doentes, foi uma columna da delegação da Cruz Vermelha d’esta cidade para fazer serviço n’um hospital de campanha que se instalou na casa da Escola”.

A maior parte das pessoas doentes da vila recusava ir para o Hospital da Misericórdia. “Nota-se neste concelho uma grande repugnância que não tem razão de ser. É a repugnância que muitos doentes sentem em ir para o hospital e essa repugnância vem de se dizer que lá só dão aos doentes leite e caldo e alguns querem presunto no Inverno e salada no Verão”, noticiou o Jornal de Melgaço em novembro desse ano.

Em Caminha, no Hospital de Nª Srª da Visitação, a tragédia não é menor. “As carências de toda a ordem que atormentavam o seu quotidiano expunham os pacientes a todo o género de enfermidades, nomeadamente do foro dermatológico e respiratório”, descreve a investigadora Alexandra Esteves.

Nas enfermarias, proliferava gente ligada ao campo e à faina no mar. Um “elevado número de marinheiros, pescadores, barqueiros e remadores hospitalizados. Os militares foram igualmente atacados pela pneumónica, obrigando ao internando de cinco soldados”.

Implacável, a pneumónica avançava em Valença, que sem fugir à regra, preferia os mais jovens. Cerdal, Taião, Friestas, Gondomil e Boivão estavam entre as freguesias mais afetadas.

Com a doença a alastrar, o Município implementa várias medidas: “ruas e casas foram lavadas; fizeram-se defumações; quinino, sinapismos e folhas de tília foram distribuídos pelos empregados da linha férrea do Minho; a equipa médica foi reforçada com dois médicos. O administrador do concelho apelava à solidariedade dos valencianos para que ajudassem as famílias pobres atingidas pela epidemia”.

Mas no Hospital Civil o cenário era desolador. Faltavam profissionais de saúde, medicamentos e diversos produtos associados à composição de mezinhas. As orações passavam a ser o único recurso que não escasseava.

A pneumónica fez as primeiras vítimas em Vila Nova de Cerveira, mas um mês passado o quadro era menos grave que nos concelhos vizinhos.

Como se já não bastassem os acessos difíceis, Paredes de Coura tinha em outubro de 1918 o hospital superlotado, chegando a receber mais de 40 pacientes, excedendo a sua capacidade. Tratava-se de uma instituição relativamente recente, datada da década de 80 do século XIX. A doença teve ainda mais impacto “nas zonas rurais, mais isoladas, onde a ajuda médica dificilmente chegava e as recomendações sanitárias não eram escutadas”.

A Gripe de 1918 frequentemente citada como Gripe Espanhola foi uma pandemia que atingiu quase todo o planeta. Foi causada por uma estirpe do vírus Influenza, no subtipo H1N1. Estima-se que tenha causado perto de 100 milhões de mortos em todo o mundo.

publicado por Brito Ribeiro às 11:39
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