Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

13
Out 16

Ainda a propósito do post anterior dedicado à apanha do sargaço, devo esclarecer que na vizinha Freguesia de Afife havia o costume das raparigas irem “ao mar” com um traje um pouco diferente das outras fainas habituais.

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Assim, era costume usarem chapéu de palha vulgar na cabeça e sobre este a trouxa de roupa, para vestir depois do trabalho na apanha do sargaço.

Camisa de linho grosseiro (estopa). O colete é igual ao do traje de ir à erva, ou seja, um colete mais simples do que o de luxo, mas com desenhos a vidrilho e lentejoulas.

Ao peito, lenço vermelho, simples com penachos ou franjas, a que chamam “lenço garôto”, idêntico ao que é usado na cabeça do traje de ir à erva.

Nos pés usam sapato de pano resistente e a saia é de estopa grosseira, com barra estreita, aos quadrados miúdos, azuis e brancos.

Ao ombro carregam o “redenho”, instrumento próprio para a apanha do sargaço.

 

Fonte: Monografia de Afife (1945)

publicado por Brito Ribeiro às 11:03
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09
Out 16

Além dos naufrágios, aponta-se a emigração para o Brasil e colónias Africanas como uma das causas para a despovoação de homens aptos e a substituição pelas mulheres, em tarefas como a apanha do sargaço, que a partir do século XVIII teve forte procura por parte dos agricultores locais e também dos lavradores abastados, provenientes de terras do interior do país, que pagavam em dinheiro vivo.

Este súbito incremento na procura das algas, está relacionado com a introdução do milho e da batata na dieta alimentar portuguesa, sendo responsável pela melhoria da alimentação, logo pelo aumento da esperança e qualidade de vida.

Desde finais do século XVIII até aos anos sessenta do século passado, o crescimento da produção de batata e milho no litoral norte, conduziu à expansão dos campos agrícolas e ao aproveitamento de novos terrenos com menor aptidão produtiva, como solos arenosos, que só a custa de fertilização abundante com algas ou patelo, podiam tornar mais produtivos.

Esta expansão foi tão relevante que a pesca do patelo e a apanha do sargaço se transformaram em prósperos motores económicos do litoral norte, gerando proveitos a pescadores e lavradores que possuíam os meios necessários ao negócio (uns o barco, outros o dinheiro), dando trabalho a grande quantidade de pessoas, camponeses sem terras, carreteiros, carregadores e cabaneiros.

Os grupos de sargaceiros, outrora constituídos exclusivamente por homens passam a mistos, embora com a oposição de alguns sectores da sociedade, como a Igreja.

Ao sargaço retirado da praia aplicava-se o imposto universal do dízimo, 10% do produto recolhido revertia para a igreja, com excepção do sargaço que fosse para adubar as terras da própria freguesia; se este fosse vendido já era aplicado o dízimo. Existiu uma longa disputa entre os moradores e a Igreja, que se prolonga entre os séculos XVI e XIX, sobre os dias em que se podia apanhar o sargaço.

Na coerência da doutrina da Igreja a apanha das algas, como qualquer outro trabalho, não devia realizar-se aos domingos e dias santos feriados. Porém, devido ao elevado valor do sargaço e porque as algas por vezes davam à costa aos domingos, a pressão para que a apanha de algas nesses dias foi tal, que começa por ser tolerada pelo bispo de Braga em 1725, embora com regras, cuja não observância conduzia ao pagamento de multas, conhecidas popularmente por "As penitencias do argaço". Existiam disposições especiais para a apanha de algas por mulheres tais como, não podiam apanhar algas à noite na presença de homens e mulheres solteiras só podiam apanhar algas à noite na companhia do pai.

Os Franciscanos que habitavam no Convento da Ilha da Ínsua, na foz do Rio Minho, opunham-se a que mulheres (mesmo vestidas de homem) procedessem à apanha de algas na ilha da Ínsua e nem os homens podiam pernoitar na ilha, sendo obrigados a rumar a terra ao fim da tarde.

Raul Brandão, na obra “Os Pescadores”, diz a determinado ponto,

 "Em Âncora, homens e mulheres apanham, secam, dobram em mantas, carregam nos carros, a dorso de jericos, ou simplesmente à cabeça, o sargaço e as algas, que, com o patelo, são o alimento e a fartura destas terras. As mulheres de gadanho e ancinho, de saia ensacada e perna à mostra, apanham as algas na flor das ondas ou no fundo das poças quando a maré vaza; rapam-na de pedras esverdeadas; estendem-nas no areal a secar ou despejam-na nos carros enquanto os bois pastam as ervas e amargas que crescem à beira-mar, salpicadas de espuma.

Embora no Portinho d’Âncora se fizesse apenas a apanha apeada do sargaço com as ferramentas próprias, havia nas proximidades outros portos que utilizavam a masseira para esta finalidade. Existiam 1 masseira na Ínsua, 10 em Moledo, 2 no Caneiro do Forte do Cão, 8 em Afife, 12 em Paçô (Montedor Norte), 2 em Fornelos (Montedor Sul) e 6 na Fonte do Mar (Montedor Sul).

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1930 - Portinho d'Âncora - Lavradores carregam o sargaço

A apanha do sargaço era também motivo para grandes discussões e desavenças, designadamente quando se relacionava com a questão do interdito religioso. Os cidadãos que respeitavam a proibição e se abstinham de ir à praia nos dias santificados, pelo menos antes da missa, protestavam contra os que não cumpriam estas regras, e daí surgirem frequentemente as discórdias e as pancadarias, que naturalmente se agravavam se alguns dos contendores procediam de freguesias vizinhas.

Há comunidades em que a apanha do sargaço estava associada a uma indumentária própria, o que não é o caso das gentes de Âncora, que iam para o mar com as suas roupas habituais, levando consigo uma muda de roupa seca, para usar quando saíssem da água. Isto porque a apanha do sargaço na zona da Lagarteira era efectuada após o mar ter arrojado as algas ou então entre as pedras da “ribeira”, não havendo necessidade de entrar mar adentro para arrastar o sargaço para terra. Presume-se também que a competição nesta actividade agro marítima não fosse aqui tão intensa como noutras comunidades, onde os sargaceiros eram forçados a avançar mar a dentro para serem os primeiros a alcançar o sargaço. 

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Sargaceiros da zona da Apúlia

Em comunidades como a Apúlia, Esposende ou A Ver-o-Mar utilizava-se uma vestimenta própria, a branqueta, que designa o casaco de abas largas, tipo saio romano, até meio da coxa, cingido ao corpo até à cintura e alargando para baixo, em forma de saiote, de modo a deixar livres os movimentos das pernas. É abotoado de alto a baixo por pequenos botões e remata, no pescoço, com gola baixa. As mangas são compridas e justas ao braço. À cintura o sargaceiro usa largo cinto preto, de cabedal.

Na cabeça o sargaceiro usa o sueste, espécie de capacete romano, com copa de quatro gomos reforçados e duas palas: uma, curta, na frente, e outra, mais larga e comprida, atrás. Deste modo é-lhe possível enfrentar as ondas alterosas, sem que a água lhe molhe a cabeça e o pescoço, e lhe penetre nas costas. Feito do mesmo tecido da branqueta, passa por diversas fases de impermeabilização e é, por fim, pintado com tinta branca.

Nestas comunidades a mulher sargaceira assume um papel secundário durante a mareada, já que o trabalho árduo e perigoso de enfrentar as ondas é da exclusiva responsabilidade do homem. Por isso a sua indumentária é mais delicada e, normalmente, apenas entra no mar com água até ao joelho, para ajudar o homem a arrastar para terra o galhapão cheio de sargaço arrebatado ao mar. Assim, ela veste saia rodada, do mesmo tecido da branqueta, bem cingida à anca por larga faixa preta, sarjada, e blusa branca, de linho. Um colete adamascado preto, sem mangas, e bordado a linha de seda em cores garridas, envolve-lhe o tronco e protege-lhe o peito. Na cabeça usa lenço de merino.

 

Foi já no século XX que se instituiu que para proceder à apanha do sargaço era necessário estarem munidos das respectivas licenças emitidas pela Capitania e do direito de seca na parte alta da praia ou dunas.

Nos portos em que era usada a masseira para a apanha do sargaço, as embarcações andavam entre os rochedos junto à costa para os tripulantes arrancarem o sargaço ainda preso. Depois de cheia, a masseira varava na areia, a carga era descarregada para as “padiolas” e estendida a secar nas dunas ou carregada directamente para o carro de bois.

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 1956 - No "caneiro" do Forte do Cão - Âncora

Esta actividade agro marítima começou a definhar nos anos sessenta do século passado, passando os campos a serem adubados com preparados químicos, mais fáceis de adquirir e mais práticos de distribuir. Hoje em dia, é uma actividade residual, em que o transporte é efectuado com o auxílio de tratores agrícolas.

 

Bibliografia: A Masseira Ancorense

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 18:10
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09
Fev 16

Tomei conhecimento que a Junta de Freguesia de Vila Praia de Âncora pretende adquirir uns terrenos para alargamento do cemitério. Referiram-me também, que seria necessário vender alguns terrenos que possui noutros locais para custear o investimento.

Não me choca a solução, face à urgência em tornar realidade esta obra, mas sinto um amargo de boca quando recordo que as coisas poderiam ter sido melhor delineadas, sem a visão míope do miserabilismo que caracteriza boa parte das decisões quando toca a investimentos em Vila Praia de Âncora.

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O ancestral costume de enterrar os corpos no interior das igrejas e nos adros, foi revertido, em termos de legislação, em 1835, durante o regime liberal e marca o início da secularização dos cemitérios. Porém, a adesão a esta nova disposição nem sempre foi pacífica, estando até na origem daquilo que se conhece por “Revolta da Maria da Fonte”.

Esta revolta ocorrida em 1846 e iniciada na zona da Póvoa de Lanhoso, resultou das tensões sociais remanescentes das guerras liberais, exacerbadas pelo grande descontentamento popular gerado pelas novas leis de recrutamento militar, por alterações fiscais e pela proibição de realizar enterros dentro de igrejas.

Em Gontinhães, assim se chamava a nossa terra à época, não ocorreram conflitos, porque se continuou a enterrar os defuntos no adro, mas o problema foi-se agravando até que no final do século XIX em consequência de um conjunto de surtos epidémicos que provocaram grande mortandade entre a população, ocasionando a saturação do adro da igreja matriz e a consequente falta de condições de salubridade que potenciava os riscos de contágio.

Após o surto de cólera que grassou entre 1833 e 1852, uma epidemia de varíola varreu Gontinhães em 1895, sendo 60,9% dos óbitos registados na zona litoral da freguesia. Especialmente nos meses mais quentes, as epidemias de varíola e tifo ou difteria, atribuídas aos “maus cheiros” dos estrumes do patêlo, que por ali se costumava empregar como estrume, pelo que as autoridades administrativas ordenaram que este estrume depois de colhido no mar fosse imediatamente enterrado a um palmo de profundidade. O correspondente local de “O Jornal da Manhã” refere na sua crónica sobre Gontinhães:

 “nesta freguesia há muito a fazer, particularmente no porto de pesca, e nas casas de alguns lavradores que, nada cuidadosos da sua saúde, têm as cortes dos gados vacum e suíno juntas ou por baixo dos aposentos em que habitam e dormem

Como os cadáveres eram inumados no átrio da Igreja e este já estivesse sobrelotado, o Governo Civil de Viana do Castelo exigiu à Administração da Câmara de Caminha que procedesse de imediato à aquisição dos terrenos necessários à construção do cemitério. Esta deliberou rapidamente e por unanimidade na compra 886 m2, mas será a Junta de Paróquia  de Gontinhães a efectuar empréstimos e a lançar derramas para custear a obra, que se concluirá em 1897.

Um século depois, mais ou menos há vinte e cinco anos atrás, após muitos anos de reivindicação, a autarquia caminhense financiou um alargamento do cemitério que ficou muito aquém das expectativas e das necessidades, como lamentavelmente vimos a constatar por mais uma intervenção que terá de ser feita no futuro próximo e que, recorrentemente, vai ter de ser custeada pela Freguesia e pelo seu património.

publicado por Brito Ribeiro às 16:53

10
Nov 15

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Sobretudo no norte e no centro, o dia 11 de Novembro é, de um modo geral, festejado com magustos de vinho e castanhas. Em muitas regiões rurais, designadamente no Minho, a festa está associada à matança do porco, e é influenciada pela euforia e pelo sentido de plenitude que possui a natureza de uma festa doméstica, muitas vezes a mais importante do calendário familiar. Todavia, o significado mais profundo e original do S. Martinho deve procurar-se nas suas relações com o vinho.

 

     No dia de S. Martinho,

     Mata o teu porco

     E prova o teu vinho.

 

Tradicionalmente é no dia de S. Martinho que se inaugura o vinho novo, que este se prova e se atestam as pipas. A velha legislação municipal proibia em muitos locais a venda do vinho novo antes do S. Martinho, sob pena de multa.

Nas zonas vinícolas há cerimónias características como as “procissões dos bêbados", onde se parodiam os cortejos religiosos e tem na sua base, por vezes, uma irmandade burlesca, a “Ordem” ou “Confraria” de S. Martinho, cujos membro se recrutam entre os mais afamados “bebedolas” da localidade, sendo atribuído o cargo de “juiz” ao maior bêbado, seguido do “mordomo”, do “secretário”, “tesoureiro”, “vogais”, etc.

 

     No S. Martinho bebe o vinho,

     E deixa a água para o moinho.

 

Fonte: Festividades Cíclicas em Portugal - Ernesto Veiga de Oliveira

publicado por Brito Ribeiro às 12:34
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05
Nov 15

O vapor “S. Nicolau”, recentemente saído de Lisboa em serviço da Inglaterra (a), fôra apreendido em Cabo Verde e levava um importante carregamento de pau de campeche, quando foi torpedeado. Era comandado por Amâncio José Azevedo, natural da Ilha Brava, e levava como imediato Tibério da Costa Malheiro, natural de Caminha. A restante tripulação, de 36 homens, era da ilha. O capitão e 16 tripulantes foram salvos e dos restantes nada se sabe.

(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 21 de Novembro de 1916)

 

(a) Em sentido contrário à notícia, o navio estava previsto ser entregue à Furness, Withy, ou seja, posto sob contrato com o governo inglês, após a chegada ao Havre, conforme estaria previamente acordado. Em função do ataque e afundamento ter acontecido em fase anterior à entrega, o vapor encontrava-se ainda sob armação e pavilhão português.

 

O vapor “S. Nicolau”

Como previamente referido, do vapor português “S. Nicolau”, torpedeado na mancha, o capitão e 16 tripulantes foram salvos por um vapor italiano, que os desembarcou em Falmouth, onde estão sob a protecção da autoridade consular respectiva.

A tripulação deste navio era assim constituída:

Comandante, José de Azevedo; imediato, Tibério Pinto Malheiro; 3º piloto, António da Transladação Pinto Neto; carpinteiro, Joaquim Costa Pereira; contra-mestre, Marcelino Silva Pinto; marinheiros: Manoel Fortes Monteiro, Roberto António Soares, Júlio Gonçalves Oliveira, Miguel Fortes do Carmo e António Correia; moços: João Paulo Silva, António Luís da Graça, Francisco Pedro Évora, Abel Vera Cruz Pinto e Valdemiro Cristino Lima; 1º maquinista, José Manuel dos Santos; 2º maquinista, Luís da Silva Gama; 3º maquinista, José Francisco Silva; pilotos maquinistas: Álvaro Sant’Ana Estanislau, Marcelino Brito de Lima, Manoel Lopes e António Vieira; fogueiros; José Maria da Silva, João de Matos, Luiz Machado, Mateus Marques, Manoel Diogo Neves e António de Oliveira Lopes; chegadores: Pedro Diogo Neves, Martins Fortes e José Pereira Barradas; despenseiro, António Mateus Gonçalves; cozinheiro, Manoel Duarte; ajudante de cozinheiro, Belarmino da Conceição Ferreira; criados: Júlio de Brito Lima e Lourenço Peres Viana; moço praticante, João Batista Salgado.

(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 21 de Novembro de 1916)

 

 

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 Imagem do vapor "S. Nicolau" e foto do capitão Amâncio Azevedo

(In "Ilustração Portuguesa", Nº 565 de 18 de Dezembro de 1916)

 

Características do vapor “S. Nicolau”

1916-1916

Armador: Transportes Marítimos do Estado, Lisboa

Nº Oficial: N/s - Iic: H.S.N.I. - Porto de registo: Lisboa

Construtor: Akt. Ges. “Neptun”, Rostock, 1905

ex “Dora Horn”, Reederei Horn, Lubeca, 1905-1916

Arqueação: Tab 2.678,83 tons - Tal 1.698,47 tons

Dimensões: Pp 88,70 mts - Boca 13,40 mts

Propulsão: Do construtor - 1:Te - 9,5 m/h

Equipagem: 37 tripulantes

 

Os náufragos do “S. Nicolau”

No ministério da Marinha foi recebido um telegrama do vice-cônsul de Portugal em Falmouth, com a seguinte relação dos náufragos do vapor “S. Nicolau”, que fôra torpedeado por um submarino:

Capitão Amâncio José de Azevedo, 3º piloto António Pinto Neto, contra-mestre Marcelino Silva Pinto, marinheiro Manoel Fortes Monteiro, moços Abel Vera Cruz Pinto e António Luís da Graça, 2º e 3º maquinistas Luís Gama e José Francisco Silva, praticante Álvaro Sant’Ana Estanislau, azeitadores Marcelino Brito de Lima, Manoel Lopes e António Vieira, fogueiros Mateus Marques, João de Matos e Luiz Machado, chegador Pedro Diogo Neves, despenseiro António Mateus Gonçalves e criado Lourenço Peres Viana. Sobre o destino dos outros tripulantes aguardam-se informações que já foram pedidas.

(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 22 de Novembro de 1916)

 

A bordo do vapor “Dresna” da Mala Real Inglesa, chegado hoje ao Tejo, vieram os 18 tripulantes do vapor “S. Nicolau”, canhoneado por um submarino alemão na Mancha.

Entre os tripulantes figurava o comandante, sr. Amâncio José de Azevedo, velho lobo-do-mar, natural da Ilha Brava, que imediatamente se dirigiu à comissão de administração dos transportes marítimos, a fim de apresentar o seu relatório sobre a perda do navio.

Tivemos ocasião de nos avistar com esse oficial, recolhendo as impressões da primeira vítima dos alemães em tripulações que guarnecem os navios em serviço dos aliados. É profundamente dolorosa e trágica a aventura que esse valoroso marinheiro nos refere:

«O “S. Nicolau”, que tinha saído de Lisboa no dia 11 de Novembro, com destino ao Havre, onde devia ser entregue ao representante do governo inglês, encontrava-se dois dias depois, pelas 11 horas, a 15 milhas leste do ilhote Cassequets, espécie de pedregulho que se destaca na costa bretã. Faltava apenas um dia para chegar ao ponto do destino.

Nessa ocasião, o piloto veio comunicar-me – diz o comandante Amâncio – que a curta distância, encaminhando-se em direção ao navio, vinha uma embarcação que parecia ser uma chalupa.

Dispunha-me a examinar mais detidamente esse barco, quando de bordo dele foi feito o primeiro tiro. Não houve, portanto, aviso prévio algum. O primeiro tiro atingiu o “S. Nicolau” por avante e logo outros dois se seguiram. O último desarvorou a chaminé.

Imediatamente a tripulação correu às baleeiras, que foram lançadas ao mar, sob o fogo do inimigo. O submarino fez ao todo 17 tiros para destruir o navio e fazê-lo submergir totalmente.

A tragédia desenrolara-se sob um céu admirável de beleza e clemencia. As nossas baleeiras andavam ao sabor das ondas quando o submarino se aproximou daquela em que eu ia e de uma outra governada pelo imediato, convidando-nos a passar ao submarino. Ali pediram-nos os papéis de bordo. Como lhes dissemos que os tínhamos deixado lá e que nem o boné conseguíramos trazer porque fôramos atacados de surpresa, mandaram-nos passar à baleeira, entregando-nos à fortuna do mar.

O “S. Nicolau” jazia então nas profundezas das águas. Aproamos as baleeiras à costa francesa. O tempo, porém, mudou de tal maneira que, daí a pouco, o temporal era medonho. Não há marinheiro que não conheça estas súbitas mudanças do mar naquelas paragens.

Para fugir ao perigo de nos despedaçarmos de encontro aos penedos da costa bretã, não hesitamos virar a popa ao ansiado refúgio, fazendo-nos de novo ao mar, em busca da costa inglesa.

Não se pode dizer o que foi essa dolorosa travessia da Mancha, até que o navio salvador foi em nosso auxílio. Foram 30 horas de intraduzível angústia.

Na embarcação em que eu ia morreu de frio o marinheiro Miguel do Carmo; os olhos saltaram-lhe das orbitas. Piedosamente o lançamos ao mar. O homem do leme, com o frio, tinha as mãos inchadas que pareciam uns cepos. Estávamos todos exaustos e desfalecidos. Apenas o 1º maquinista conseguia ainda reunir um pouco de esforço para mexer nos remos.

Finalmente surgiu o vapor italiano “Fido”, que nos veio socorrer.

Todos nós, absolutamente sem forças, fomos içados para bordo e ali alvo da mais carinhosa solicitude. O vapor italiano fez rumo a Plymouth, onde tivemos também uma generosa hospitalidade.

O submarino que afundara o “S. Nicolau” prosseguiu a sua tenebrosa tarefa, afundando outros navios que se viam no horizonte.

Durante a tempestade perdemos de vista a baleeira que conduzia os nossos restantes camaradas.»

(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 28 de Novembro de 1916)

 

O afundamento do vapor “São Nicolau” foi efectuado pelo submarino alemão UC-26, que se encontrava sob o comando do capitão-tenente Matthias Graf von Schmettow. Teve lugar a 16 de Novembro de 1916, no Canal da Mancha, a este-nordeste da Ilha de Batz, na posição 49º20’N 03º46’W.

A segunda baleeira relatada nas notícias, governada pelo imediato Tibério da Costa Malheiro, onde se encontravam 18 dos tripulantes que compunham a guarnição do navio, nunca chegou a ser encontrada, totalizando por esse motivo o registo de 19 vítimas mortais, em resultado do ataque ao navio, quando este se encontrava em viagem de Lisboa para o Havre.

 

Registo publicado no blog http://naviosenavegadores.blogspot.pt/

publicado por Brito Ribeiro às 15:35
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20
Jul 15

Hamburgo 3 - Envolto em chamas após ter colidido com o navio holandês “Simonskerk”, no dia 2 de Fevereiro de 1966, o cargueiro português “Conceição Maria”, de 1.819 toneladas, propriedade da Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes e registado em Lisboa, derivou perigosamente em direcção aos reservatórios petrolíferos da Transocean – informou a guarda costeira holandesa.

As autoridades acrescentam que o rebocador de alto mar “Atlas” está a tentar passar um cabo ao navio português, a fim de o afastar dos depósitos e evitar a possibilidade de uma catástrofe ainda maior. Entretanto, os vinte e seis tripulantes portugueses do “Conceição Maria” foram recolhidos pelo navio dos pilotos da barra do Ems, “Pollux”.

Mensagens de rádio recebidas de bordo do “Atlas” indicam que o “Conceição Maria” deve ter derivado perigosamente em direcção dos reservatórios da Transocean, desconhecendo-se, por enquanto, o que sucedeu ao navio holandês envolvido na colisão.

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Dezassete dos tripulantes portugueses recebidos pelo “Pollux” foram, mais tarde, transferidos para bordo do navio da guarda costeira “Georg Breusing”, que os levou imediatamente para terra, regressando, pouco depois, para recolher os nove restantes. Todos os sobreviventes, um dos quais apresentava ferimentos graves, foram para a ilha de Borkum, no Mar do Norte – informa a guarda costeira.

Segundo a rádio «Norddeich», a colisão deu-se ao largo do estuário do rio Ems, a doze quilómetros ao norte da ilha holandesa de Schiermonnikog.

Os vinte e seis tripulantes portugueses foram recolhidos por navios de socorro holandeses.

Por informações obtidas junto da Sociedade Geral, o cargueiro português “Conceição Maria”, propriedade daquele armador, estava fundeado perto da boia JE-2, já na área do porto de Borhum, quando foi abalroado pelo vapor “Simonskerk”, de 9.821 toneladas, que, criminosamente e ao contrário de todas as leis do mar e dos homens continuou o seu rumo. O navio português sofreu um grande rombo e incendiou-se, afundando-se mais tarde, notícia, aliás, ainda não confirmada pela Sociedade Geral.

O marinheiro ferido, Jasmim dos Santos Nascimento, natural de Mafra e que está internado no Hospital de Borkum, sofreu fratura numa perna e nas costelas. Encontrava-se na parte superior do navio e, devido ao abalroamento, foi projectado.

 

A atitude criminosa do navio abalroador

De acordo com mais informações recolhidas na Sociedade Geral, que o comandante do “Conceição Maria”, sr. Manuel Casimiro Soares Sousa, este em contacto telefónico, às 11 horas da manhã, com aquela empresa e dissera que o navio português se encontrava fundeado e devidamente sinalizado. Depois do abalroamento, que provocou grande rombo no costado do “Conceição Maria”, o navio holandês continuou viagem sem prestar assistência ao navio nem à tripulação do cargueiro português.

O “Conceição Maria” saiu de Lisboa no passado dia 29 de Janeiro de 1966, com destino a Bremen, onde devia ter chegado ontem. Levava um carregamento de cortiça e carga geral. A notícia do afundamento do navio não pôde ser confirmada pela empresa proprietária. O último telefonema pra a companhia armadora, feito a bordo do rebocador “Atlas”, onde se encontrava o comandante do navio, informava que já tinha sido lançada uma amarra ao navio português e que se faziam tentativas para o recuperarem e extinguir o incêndio.

 

A tripulação do “Conceição Maria”

São as seguintes as identidades dos membros da tripulação:

Comandante, Manuel Casimiro Soares de Sousa, de Lisboa; imediato, Vasco Dinis de Barros Freire, de Oeiras; segundo-piloto, Délio Carlos Ramos Morgado, de Loulé; praticante de piloto, Afonso Correia Bettencourt, dos Açores; radiotelegrafista, Renato Manuel da Silva Santos Medeiros; contra-mestre, José Fiúza Sampedro, de Lisboa; marinheiros, Cesário dos Santos Evangelista, de Vila Franca de Xira; Vasco Boto Macatrão, da Nazaré; Ernesto Cordeiro, da Figueira da Foz; Armindo Pereira Rico, de Vila Nova de Gaia; José Viegas Samuel, de Setúbal e Jasmim dos Santos Nascimento, de Mafra; primeiro-maquinista, António Fiel, de Lisboa; segundo-maquinista, Fernando Neves do Sacramento, também de Lisboa; terceiros-maquinistas, Domingos Augusto Beira, de Mirandela e João Lima Maranhão, do Porto; artífice, José de Oliveira Ferreira Lopes, de Lisboa; fogueiro-paioleiro, Joaquim dos Santos, da Lourinhã; ajudantes de motorista: Manuel Anselmo Freitas Maciel e Manuel Luís Delgado Gaivoto, ambos de Viana do Castelo; Alípio António da Rocha Carvalho, de Vila Praia de Âncora; cozinheiro, António Luís de Brito, dos Arcos de Valdevez; padeiro, Manuel Rodrigues da Silva, de Aveiro; e, ainda Manuel Ferreira Pousada, de Valença; António Lajes Veloso, dos Arcos de Valdevez; e João de Sousa Marques, de Vila Verde.

Todos se encontram a salvo, no porto de Borkum.

(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 4 de Fevereiro de 1966)

 

Características do navio-motor “Conceição Maria”

1948 – 1968

Armador: Soc. Geral, de Comércio, Indústria e Transportes, Lisboa

Nº Oficial: H-360 – Iic: C.S.I.U. – Registo: Lisboa, 08.07.1948

Construtor: Companhia União Fabril, Lisboa, 07.1947

Arqueação: Tab 1.735,64 tons – Tal 931,59 tons – Pm 2.974 tons

Dimensões: Ff 93,32 mt – Pp 86,40 mt – Bc 12,84 mt – Ptl 4,55 mt

Propulsão: Burmeister & Wain – 1:Di – 7:Ci – 2.500 Bhp – 13 m/h

Equipagem: 26 tripulantes

 

Emden (Alemanha Ocidental), 4 – Chegou hoje aos estaleiros Rheinstahl Nordseewerke, de Emden, o navio português “Conceição Maria”, a fim de ser reparado, pois tem o casco muito queimado.

O capitão e oito tripulantes estavam a bordo quando um rebocador da Alemanha Federal rebocou o navio para o porto de Emden.

O convés superior e a superestrutura do “Conceição Maria” estão reduzidos a ruínas negras. O navio apresenta as marcas da colisão com o navio holandês “Simonskerk”.

Um dos vinte e seis tripulantes portugueses continua hospitalizado na ilha de Borkim, no Mar do Norte.

Os restantes dezassete chegaram a Emden, vindos de Borkum, num «ferryboat» pouco depois do navio. Foram imediatamente recolhidos numa casa de marinheiros onde comeram e descansaram, antes de partirem de comboio para Portugal.

Ainda não se sabe quanto tempo demorarão as reparações que o “Conceição Maria” terá de sofrer em Emden.

 

A Sociedade Geral, empresa armadora do navio “Conceição Maria”, ante-ontem abalroado por um navio holandês, no Mar do Norte, informou que, segundo as últimas notícias recebidas, aquele cargueiro continuava a navegar, às 21 horas de ante-ontem, e estava a ser rebocado para o porto alemão de Emden, onde devia chegar, ontem, cerca das 11 horas.

Pouco antes daquela hora, o capitão do “Conceição Maria”, sr. Manuel Casimiro Soares Sousa, deixara o rebocador “Atlas” para regressar para bordo do navio português, onde o fogo, entretanto, fôra extinto.

Além do comandante Soares Sousa, estão em Emden mais sete membros da tripulação, com vista à possível reparação do navio. Só depois do “Conceição Maria” entrar naquele porto poderá ser decidido se o navio será objecto de reparação provisória em Emden, vindo depois para Lisboa, ou se também se fará na Alemanha a sua reparação definitiva.

Os outros dezoito tripulantes do “Conceição Maria” partiram, ontem à noite, de comboio, para Lisboa, onde devem chegar na segunda-feira à noite.

Vai ser posta uma acção contra o comandante do vapor holandês que não prestou assistência ao navio abalroado.

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A Sociedade Geral já incumbiu os seus advogados, em Londres, de prepararem a apresentação da queixa contra o comandante do navio holandês “Simonskerk”, que seguiu viagem sem prestar assistência aos sinistrados, depois do seu navio ter abalroado violentamente o “Conceição Maria”. A atitude daquele comandante, e tanto mais incompreensível, pois o “Conceição Maria” para além de seguir devidamente sinalizado, o sino de nevoeiro ia a tocar, por mera precaução.

(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 5 de Fevereiro de 1966)

 

Em função do referido no texto anterior, confirma-se ter o navio levado a cabo reparações provisórias no porto de Emden, possibilitando a viagem de regresso a Lisboa. Porém, a companhia Sociedade Geral, em função dos múltiplos danos encontrados a bordo, optou pela venda do navio ao sucateiro Américo Vasques Vale, de Lisboa, tendo a demolição acontecido no decorrer do ano de 1968.

 

Publicação original de REIMAR em http://naviosenavegadores.blogspot.pt/

publicado por Brito Ribeiro às 09:49
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13
Fev 15

 

Em 1998, António Rosa Casaco, ex-inspector da PIDE, explicou ao EXPRESSO os pormenores da «Operação Outono», nome de código da armadilha montada contra Humberto Delgado. Hoje, 50 anos após a sua morte não é demais relembrar este crime pela voz de um dos seus carrascos. 

 

António Rosa Casaco chefiou a brigada da PIDE que assassinou o general Humberto Delgado, no dia 13 de Fevereiro de 1965, perto de Badajoz. Fugido do país depois do 25 de Abril, foi julgado à revelia e condenado a oito anos de prisão, sendo ainda hoje procurado pelas autoridades portuguesas e pela Interpol. À beira de completar 83 anos, o ex-inspector da polícia política, que vive no Brasil sob falsa identidade, quebra o silêncio a que sempre se remeteu e conta ao EXPRESSO a sua versão sobre o mais importante assassínio cometido pelo regime salazarista. Assume que a cilada fatal foi montada pela PIDE, confirma que o assassino foi Casimiro Monteiro, mas garante - contrariando o acórdão do Tribunal - que Arajaryr Campos, a secretária do general, foi morta por Agostinho Tienza.

A «Operação Outono» - nome de código da armadilha montada contra Humberto Delgado - começou a ser delineada «na sequência da tentativa de assalto ao quartel de Beja», explica António Rosa Casaco.

Realizado no primeiro dia de 1962, o golpe de Beja estava concebido para ser liderado pelo «general sem medo», que conseguira iludir a vigilância da polícia e entrara em território nacional disfarçado com um bigode postiço. O assalto frustrou-se, Delgado escapou-se, mas o estado-maior da PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado) resolveu que, para grandes males, grandes remédios.

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Foi nessa altura que Barbieri Cardoso, cérebro e estratego da polícia, «decidiu estudar o modo de neutralizar as actividades de carácter político» do general, «designadamente as que assumiam formas violentas de assalto ao poder constituído e que beneficiavam os sectores mais à esquerda da Oposição».

 

Uma «toupeira» junto do general

 

Um primeiro passo foi «a introdução de uma ou mais 'toupeiras'» na «entourage» do general, capazes de ganharem a sua confiança, «de modo a permitir a detecção de todos os seus movimentos e das actividades revolucionárias que congeminava».

O próprio Barbieri se encarregou de procurar a pessoa indicada. Subdirector-geral desde Abril de 1962, Agostinho Barbieri de Figueiredo Batista Cardoso ingressara na polícia, como inspector, em 1948, vindo da GNR. Nascido em Lisboa em 1907, mas de ascendência italiana, Barbieri «mantinha contactos regulares da mais diversa natureza com personalidades italianas da direita e extrema-direita». Entre elas, contavam-se Ernesto Bisogno - um médico com clínica em Roma, e Pascoale Pascuelino - «ex-oficial do exército fascista que fugira de um campo de concentração na Índia e atingira Diu». Cunhado do inspector Cunha Passo, Pascuelino era tradutor da PIDE, valendo-se dos seus impressionantes dotes linguísticos, já que «falava cerca de 21 línguas e dialectos diferentes».

 

Duas viagens a Roma

 

Pasquelino e Bisogno detectaram em Roma a presença de um cidadão português, Mário Alexandre de Carvalho, «que alegava ser oposicionista e refugiado político e que privava com Delgado, sendo, aparentemente, pessoa da sua estrita confiança». Carvalho, um lisboeta da freguesia dos Anjos, nascido em 1912, residia em Itália há um punhado de anos e possuía um estranho e sinuoso currículo. No prolongado e paciente trabalho de aliciamento de Mário de Carvalho envolveu-se o próprio Barbieri que «efectuou algumas viagens a Roma, sozinho», bem como Pereira de Carvalho, o director dos chamados Serviços Reservados. Nascido na Figueira da Foz em 1920, Álvaro Augusto das Neves Pereira de Carvalho entrara para a PIDE em 1956, como inspector, e era considerado, com propriedade, o nº 3 da hierarquia.

Inspector desde 1962, Rosa Casaco era um dos mais experimentados e eficientes operacionais da polícia, para onde entrara em 1937. Colocado na Secção Central, em Lisboa, e gozando da total confiança de Barbieri Cardoso, foi chamado a participar na «Operação Outono», tendo sido enviado a Roma várias vezes com o objectivo de «controlar» a dupla Ernesto Bisogno/Mário de Carvalho. De uma das vezes, foi na companhia de Barbieri e de Pereira de Carvalho, a parelha que desde 1962 dirigia o nevrálgico serviço de informações. Numa segunda viagem a Roma, foi secundado por um sub-inspector, de nome Ernesto Lopes Ramos, que de certo modo entrara na PIDE pelas suas mãos. Nascido nas Caldas da Rainha, em 1933, formado em Direito, concorrera aos serviços noticiosos da RTP nos seus primórdios. Hábil e destemido, Ernesto Lopes estagiara na CIA e era um operacional de mão-cheia, razão porque foi adstrito a Casaco. «Tínhamos de assegurar-nos, sem margem para quaisquer dúvidas, de que realmente o Mário de Carvalho dispunha, como afirmava, de acesso íntimo ao general.»

As eventuais dúvidas desvaneceram-se por completo. Carvalho passou a trabalhar activamente para a polícia, que lhe atribuiu o nome de código de «Oliveira», com uma remuneração de dez mil escudos mensais. A verba era enviada através de cheque para a conta nº 433045 da filial de Génova do Banco de Roma; sobre o cheque, a assinatura de Jorge Farinha Piano, um banqueiro e amigo de peito de Casaco.

Com Carvalho a contar para Lisboa tudo quanto Delgado dizia, urdia e fazia, a PIDE decidiu «passar à fase seguinte, ou seja, ao contacto com o próprio general». A ideia foi gizada por Barbieri e Pereira de Carvalho. Casaco possuía todas as qualidades para o tentar, mas apresentava um senão insuperável: Delgado conhecia-o perfeitamente - «nos anos 50, quando o general exercia o cargo de director-geral da Aeronáutica Civil, eu chefiava o posto do aeroporto de Lisboa, tendo tido, então, inúmeros contactos com ele». Eliminada a hipótese Casaco, a escolha acabou por incidir em Ernesto Lopes.

 

Encontro em Paris no Hotel Caumartin

 

Em Dezembro de 1964, Casaco e Ernesto Lopes voaram de novo até Roma, donde tomaram um avião para Paris, com uma missão particularmente arriscada: «Manter um encontro 'conspirativo' com Humberto Delgado.» A entrevista teve lugar no dia 27 de Dezembro, no Hotel Caumartin.

O contacto, a que estiveram presentes Mário de Carvalho e o professor Emídio Guerreiro, ambos colaboradores do candidato às célebres eleições presidenciais de 1958, foi um êxito. «Mário de Carvalho apresentou Ernesto Lopes ao general como Ernesto de Castro e Sousa, nas supostas qualidades de advogado, oposicionista e recém-chegado de Portugal. É aí combinado o encontro de Badajoz, entre Humberto Delgado, Mário de Carvalho, Ernesto de Castro e Sousa e alguns 'militares' portugueses das fileiras da Oposição Democrática.» A data exacta viria a ser fixada mais tarde.

No dia imediato, 28 de Dezembro, o general apareceu inesperadamente no Hotel Commodore, onde se haviam hospedado os dois homens da PIDE. O objectivo era entregar «pessoalmente a Ernesto Lopes um maço de cartas dirigidas à Dr.ª Alcina Bastos». Era a prova provada de que Castro e Sousa - aliás, Lopes Ramos - «havia, efectivamente, granjeado a confiança pessoal de Delgado».

O sucesso da reunião de Paris permitiu consolidar o projecto delineado pelo estado-maior da PIDE. Ou, mais rigorosamente, por Barbieri e Pereira de Carvalho. Com efeito, o director-geral, Silva Pais, «discordava das linhas gerais do plano, não participando, via de regra, das conversas travadas sobre o assunto».

Natural do Barreiro, Fernando Eduardo da Silva Pais, de 54 anos, era director-geral desde Abril de 1962. Só que, apesar de ocupar o topo da hierarquia, «deixava-se intimidar um pouco perante o Barbieri. Este era muito mais culto e inteligente do que o Silva Pais, que se sentia inferiorizado». Ainda por cima «com os serviços secretos na mão», Barbieri era quem, na altura, «assumia o papel principal» na organização, «acolitado por Pereira de Carvalho, o verdadeiro nº 2», enquanto Silva Pais «havia sido relegado para funções quase marginais».

Mas em que consistia, afinal, o plano? «Raptar o general e levá-lo clandestinamente para Portugal, para lhe ser dada voz de prisão e responder em tribunal por 'actos de terrorismo'.» A ideia de Casaco, como haveria de declarar em Madrid logo após o 25 de Abril, era «cloroformizar o general», por forma a adormecê-lo, transportando-o de seguida «na mala do automóvel pela fronteira de S. Leonardo».

Casaco nega que a morte do general fosse o objectivo do plano, pelo menos tal qual lhe foi transmitido. Muitos anos depois, quando o caso subiu a tribunal, a acusação haveria de considerar que «o objectivo central» da direcção da polícia era o de «reduzir» o general «à não actuação, quaisquer que fossem os meios necessários para tanto» - o que incluiria, obviamente, a possibilidade da liquidação física. Esta tese, contudo, não foi acolhida pelos juízes do Tribunal Militar. Na sua apreciação, a morte não figurava no plano traçado, que visava, outrossim, «tentar raptar e prender» o general, «trazendo-o para Portugal».

Do ponto de vista legal, a detenção de Delgado justificar-se-ia, segundo Casaco, «por ter sido condenado pelos tribunais portugueses pelo grave crime da prática de terrorismo, tentado em Portugal por sequazes seus, oriundos do Brasil» - referência a um alegado projecto de «fazer ir pelos ares alguns postes de alta tensão e o comboio 'rápido' Lisboa-Porto, próximo de Alfarelos».

 

Brigada escolhida ou imposta a Casa?

 

A última fase da «Operação Outono» iniciou-se com a convocação de Casaco, já em Fevereiro de 1965, ao gabinete do director-geral. Presente o triunvirato da PIDE, ficou determinado, segundo o acórdão do tribunal, que «Casaco chefiaria a brigada» e que «assumiria o falso papel de Coronel do Exército» ido ao encontro do general. Diferente é a versão do inspector: «Fui incumbido de acompanhar e proteger a brigada que iria tentar deter o general em Badajoz, no dia 13.» A escolha foi justificada pelo facto «de me considerarem pessoa capaz de efectuar essa protecção, dado gozar de grande influência junto das autoridades militares e civis das províncias de Cáceres e Badajoz e, especialmente, dos altos comandos policiais de Madrid».

Casaco prossegue: «Disciplinadamente tive de aceitar a missão, mas não deixei de chamar a atenção dos meus superiores para os perigos que implicitamente acarretaria tão perigosa incumbência, porque seria extremamente arriscado fazer passar pela fronteira espanhola o general sem que este protestasse, o que poderia provocar um conflito não só entre as duas polícias, mas, principalmente, entre os governos de Portugal e de Espanha.»

A brigada seria completada pelo sub-inspector Ernesto Lopes Ramos - o elo de contacto com Delgado - e pelos chefes de brigada Agostinho Tienza e Casimiro Monteiro, ambos de 44 anos. Natural de Alcáçova (Elvas), Agostinho Giraldo Cilero Tienza entrara para a PIDE em 1947 e era o motorista de Casaco. Nascido em Goa, Casimiro Emérito Rosa Teles Jordão Monteiro só fora admitido na PIDE em Novembro do ano anterior. No seu cadastro figuravam vários crimes de sangue, particularmente na antiga Índia Portuguesa. «Era um facínora», reconhece Casaco; «matava a torto e a direito. Mas era um patriota exacerbado».

Quem escolheu estes dois agentes? O Tribunal foi peremptório, ao sentenciar que Tienza e Casimiro Monteiro «foram escolhidos» por Casaco. Este, porém, diz que «a brigada foi-me imposta pelo triunvirato». Mais: os restantes elementos «tinham sido instruídos na minha ausência» - instruções que, de resto, «não me foram dadas a conhecer».

Instado por Casaco a explicar a razão deste procedimento, Pereira de Carvalho «alegou que não se justificaria a realização de uma reunião conjunta de todos os funcionários» e reiterou que «a minha missão se limitaria, unicamente, a protegê-los de qualquer eventual interferência por parte das autoridades espanholas e nada mais».

Casaco aceitou a «diligência» de que foi incumbido, apesar de, sublinha, a ter considerado «uma estupidez, tanto mais que Delgado não oferecia qualquer perigo, por ser um homem gravemente doente (há mais de um ano que derramava pus do ventre, de forma quase incontida, e que os médicos em Roma nada puderam fazer contra este mal, dando-lhe o máximo de um ano de vida)». Além de que, em sua opinião, ele «não dispunha de qualquer crédito político ou revolucionário e, em consequência, mais tarde ou mais cedo, se apresentaria às autoridades portuguesas», até porque estava «sem fundos para a sua subsistência e da sua amante».

 

A armadilha de Badajoz

 

A brigada largou de Lisboa na tarde de 12 de Fevereiro. Monteiro e Tienza seguiram no carro deste, um Opel verde e creme, com a matrícula EI-44-39; Ernesto Lopes e Casaco foram na viatura do primeiro, o Renault Caravelle IA-65-40. As viaturas e os agentes tinham documentação falsa. Casaco utilizou um passaporte a que já recorrera numa viagem ao Brasil, em nome de Roberto Vurrita Barral, um cidadão da Guatemala; Ernesto Lopes serviu-se de documentos passados em nome de Ernesto de Castro Sousa, o tal falso advogado; Tienza seguiu como se fosse Filipe Garcia Tavares; e a Monteiro foi dada a falsa identidade de Washdeo Kundaumal Nilpuri, da ilha de Jersey.

O grupo passou a noite numa pensão em Reguengos de Monsaraz. Na manhã seguinte os dois carros tomaram a direcção do posto fronteiriço de S. Leonardo, chefiado pelo agente da PIDE António Gonçalves Semedo. Antes, substituíram as placas de matrícula de ambos os veículos por outras, falsas. Em S. Leonardo, «ordenei a todos os funcionários que deixassem as suas armas de serviço no posto fronteiriço». Casaco assegura que «as armas foram depositadas e guardadas» pelo chefe do posto - o que foi formalmente negado, em tribunal, pelo próprio António Semedo.

Já no lado espanhol da fronteira, «verifiquei que, no carro do Tienza, se encontravam um garrafão, um saco com cal, uma picareta e uma pá». Admirado ao ver o ácido sulfúrico e a cal viva, Casaco terá perguntado a Tienza «que material era aquele, respondendo-me o próprio que se destinava a umas obras que estavam em curso, na sua casa em Sintra, e que não tinha tido a oportunidade de o retirar do carro». Este pormenor não condiz com uma declaração de Casaco em Madrid, em 1974, segundo a qual «ignorava totalmente a existência daqueles produtos destrutivos» até ao momento em que os corpos foram enterrados.

Para o projectado encontro com Delgado, foi escolhido um local ermo, perto da estrada principal que liga Badajoz a Olivença. Foi aí que, cerca das 15 horas, surgiu a viatura de Ernesto Lopes, transportando o general. No assento da retaguarda, uma personagem não prevista no elenco idealizado pela PIDE: Arajaryr Campos, a secretária do general.

Carioca de 34 anos, divorciada, Arajaryr Canto Moreira de Campos era a dedicada colaboradora do general, que acompanhava para todo o lado desde há cinco anos. A apreciação de Casaco é deveras pejorativa, referindo-se sempre a Arajaryr como «a amante brasileira».

A aguardar a chegada do general estavam, ansiosos e impacientes, os outros três elementos da PIDE, supostos «oficiais do Exército português anti-situacionistas», liderados por um imaginário coronel: Casaco.

 

Monteiro dispara sobre Delgado...

 

É aqui que a versão do ex-inspector mais difere dos factos dados como provados pelo tribunal. Segundo o acórdão, Casaco estaria no interior da viatura de Tienza, a uma distância de cerca de dez metros do local onde se deteve o carro em que viajava Delgado. «Isso é falso», protesta Casaco, que assegura que não só não estava no carro como ficara «a cerca de 120 metros de distância», com o objectivo de «impedir qualquer possível intervenção das autoridades espanholas, pois o general poderia ter alguém a protegê-lo ou estar a ser seguido».

Continuando a citar o texto judicial, Rosa Casaco - que se passava por um coronel que Ernesto Lopes prometera trazer de Lisboa - saiu do carro e dirigiu-se ao encontro do general. Mais lesto, Casimiro Monteiro, que já estava fora do veículo, tomou a dianteira e, ao aproximar-se de Delgado, empunhou uma pistola e disparou sobre o general.

O revólver, de fabrico francês, de modelo «Unique», estava munido de um silenciador e não fazia parte do armamento distribuído ao pessoal da PIDE, de marca «Walther». Atingido na cabeça, Humberto Delgado teve morte imediata.

Casaco nega que se tenha dirigido ao general, até porque este o «conhecia pessoalmente», desde os tempos em que trabalhara na aeroporto de Lisboa. Mantém a versão de que assistiu a tudo de longe: «Voltando a minha atenção para a estrada, ouvi um disparo seco e vibrante, como se fosse uma pistola de pressão de ar, vindo do alto da colina, e gritos agudos femininos. Verifiquei, então, que o Casimiro Monteiro estava abatendo o general.» Estaria Delgado armado, como alguns membros da brigada viriam mais tarde a sustentar? «Eu não vi arma nenhuma.» Já o dissera, de resto, em Madrid: «O general não estava armado, tendo disso absoluta certeza.»

 

...e Tienza mata Arajaryr

 

Testemunha impotente de um assassínio a sangue frio, a secretária, descontrolada, desatou aos gritos. «Assustado», prossegue Casaco, «corri coxeando para o topo do monte e gritei: 'Calem-me essa mulher'». Após o que também Arajaryr foi mortalmente baleada. Segundo o tribunal, o autor do segundo homicídio voltou a ser Casimiro Monteiro. Casaco desmente em absoluto e acusa - tal como fizera na declaração de Madrid - o seu ex-motorista, Agostinho Tienza, o que até levou Ernesto Lopes a gritar «Eh pá, não me fodas o carro!», aparentemente mais preocupado com a viatura do que com as mortes. A arma era do mesmo modelo que a utilizada por Monteiro.

«Perante a consumação deste duplo crime», prossegue, «manifestei, de imediato, a minha veemente repulsa por tal acto tão miserável e, também, por ter sido enganado pelos meus superiores. Admiti, imediatamente, que o Monteiro e o Tienza iam predestinados e preparados para tão nefando acto, uma vez que ambos eram portadores de pistolas com silenciadores.» Casaco garante que interpelou os seus subordinados, «ao que o Casimiro Monteiro respondeu: 'O Sr. Inspector não se meta neste assunto! Isto não é nada consigo'», ao mesmo tempo que se mostrava «ameaçador, com a pistola na mão». Mais tarde, Casaco terá indagado «junto dos elementos da brigada quem tinha dado a ordem de execução», mas não obteve «qualquer resposta». Cedo se convenceu que também Ernesto Lopes «nada sabia quanto à intenção de matar, porque os seus estados de espírito e de indignação eram idênticos aos meus».

 

Inúmeras contradições

 

Os dois cadaveres foram, então, metidos nas bagageiras dos automóveis. Aqui surge mais uma contradição. Para os juízes, ambos os corpos foram colocados na mala do Opel de Tienza, levados por Monteiro e Casaco. Este nega: «Eu tinha lá força para isso! Tinha acabado de ser operado a uma perna... Quem os transportou foram o Casimiro e o Tienza, cada um para sua bagageira.»

Os corpos acabaram por ser sepultados numa vala natural, num local a cerca de seis quilómetros a sul de Villa Nueva del Fresno. O acórdão não o confirmou, mas Casaco não tem dúvidas em afirmar que os corpos foram previamente regados com ácido sulfúrico e cal viva. As roupas e os documentos pessoais das vítimas «foram queimados, posteriormente, noutro local».

Em face do adiantado da hora, o grupo pernoitou na localidade espanhola de Aracena, tendo reentrado em Portugal na manhã seguinte, pela fronteira de Vila Verde de Ficalho. Pereira de Carvalho terá sido o primeiro responsável da PIDE a ser informado do resultado da missão. Casaco diz que foi pelo telefone, a partir da pousada de Serpa, onde a brigada almoçara. O acórdão sustenta que foi pessoalmente, na noite de dia 14, na residência de Pereira de Carvalho, em Lisboa.

Na manhã do dia seguinte, já na sede da PIDE, os seus três dirigentes máximos ouviram um relato completo do que se passara. «Todos eles manifestaram surpresa, em particular o major Silva Pais, que ficou aterrorizado.»

No final da reunião ficou estabelecido que seria guardado o mais absoluto silêncio sobre o assunto. Não sem que, antes, tenha sido determinada a destruição de todas as provas susceptíveis de incriminar a PIDE no duplo homicídio - desde a documentação (verdadeira e falsa) utilizada, até às duas viaturas. Nova e farta contradição surge neste ponto. Para Casaco, «não sei exactamente como isto se processou, mas, tanto quanto pude apurar, essa destruição terá tido lugar numa quinta próxima de Sintra, previamente alugada». O acórdão, contudo, é taxativo e acusa Rosa Casaco de ter tomado a iniciativa da destruição, seja dos automóveis, seja da maior parte da documentação.

Qual a justificação que Casaco apresenta para tantas e tão graves diferenças entre a sua versão e a sentença judicial? Desde logo, os mais de trinta anos que passaram sobre os acontecimentos e os seus inevitáveis efeitos sobre a memória de um octogenário. Aduz, por outro lado, que «a minha perturbação» no momento do crime «foi grande, o choque emocional tremendo, daí qualquer confusão que tenha surgido no meu espírito». Considera, finalmente, que durante o julgamento «todos me acusaram. Era fácil descarregar tudo para cima de mim, porque eu não estava presente, não me podia defender». Guardadas as devidas proporções, conclui que «as principais vítimas em todo este processo foram o Humberto Delgado e... eu!».

 

O telefone toca duas vezes

 

Uma semana depois do crime, Casaco recebeu uma chamada telefónica de Badajoz. Era Manuel Pozo, o chefe da polícia daquela província espanhola e velho amigo, que pedia «ajuda na identificação de uns passaportes e de uma bagagem abandonada no Hotel Simancas» - o mesmo onde Delgado dormira a sua derradeira noite.

Com a indispensável autorização de Silva Pais, e ainda que «bastante contrariado», Casaco rumou a Badajoz no dia 20 de Fevereiro. As suspeitas confirmaram-se em absoluto: «A documentação, as roupas, bagagens e uma bolsa de plástico com ligaduras cheias de pus pertenciam ao general e à sua amante.»

A 25 de Abril, o telefone voltou a tocar, desta feita a partir de Madrid. Na linha, um outro amigo espanhol, general Eduardo Blanco Rodriguez, director da Dirección General de Seguridad, «dizendo-me que tinham aparecido», na véspera, «os esqueletos de um casal nas proximidades de Villa Nueva del Fresno e que se suspeitava teria sido obra de um grupo de portugueses que atravessou aquela fronteira no dia 13 de Fevereiro».

Os cadaveres haviam sido localizados junto a um caminho conhecido por «Los Malos Pasos», que conduz à fronteira portuguesa. O chefe da secreta espanhola «solicitou-me que investigasse a quem pertenciam» as matrículas registadas no posto fronteiriço espanhol. A resposta foi dada meia hora depois: «Telefonei ao general referindo que as matrículas indicadas pertenceram a um camião e a um táxi, ambos fora de circulação, há muitos anos.» Perante «tão insólito» facto, o general Blanco Rodriguez pediu ao amigo português que fosse pessoalmente a Madrid «apresentar explicações».

 

«Menti descaradamente»

 

Posta a questão à hierarquia da PIDE, esta concordou com a ida à capital espanhola, com o fito de «confirmar que a polícia portuguesa nada tinha a ver com os corpos aparecidos»

Em Madrid, as autoridades já não tinham dúvidas: os cadaveres em causa eram mesmo do general Delgado e da secretária Arajaryr.

Alarmada com as imprevisíveis consequências de um crime político daquele jaez, perpetrado no seu território, a DGS espanhola dispensou um acolhimento muito especial ao enviado da PIDE. «Fui recebido num amplo salão pelo general Blanco, pelo subdirector-geral, pelo chefe dos Serviços Secretos daquela corporação, Vicente Reguengo, e pelos chefes das 'secretas' dos três ramos das Forças Armadas espanholas.»

A selecta assistência parecia ter uma ideia já formada sobre a autoria dos dois crimes. «Notei que todos aqueles senhores estavam convencidos que o duplo assassínio tinha sido obra da polícia portuguesa. Tive dificuldade em convencê-los de que teria sido acção de terceiros, ou seja, um saldar de contas entre grupos oposicionistas rivais» - a versão oficial inventada e posta a correr pelo regime de Lisboa.

A reunião de Madrid esteve longe de ter sido agradável para o inspector português. «Fui submetido a um interrogatório implacável durante várias horas. Consegui convencer os presentes que se iria proceder a exaustivas diligências em Portugal para se tentar descobrir quem seriam os ocupantes dos dois carros suspeitos. Devo dizer que passei um mau bocado, por ter que mentir descaradamente diante daquela assembleia, alguns deles meus amigos.»

No íntimo, verberou os seus superiores por não terem «tido a coragem de se justificar diante das autoridades espanholas, fugindo às suas responsabilidades por incompetência e cobardia, 'empurrando-me' para a 'boca do lobo'».

Desde então, admite, «passei a manifestar uma irritação maior» perante a «troika» dirigente da PIDE, «por me terem envolvido no crime que considerei inútil, contraproducente e disparatado, por terem transformado o general num mito que iria ser glosado por toda a oposição durante anos».

Na sequência da convocação de Casaco a Madrid, o tenente-coronel Blanco Rodriguez veio a Lisboa a 7 de Maio. O chefe da DGS espanhola discutiu com a direcção da PIDE uma articulação entre as duas polícias em torno do escaldante crime. Com o mesmo objectivo, Barbieri Cardoso voou até Madrid em 18 de Maio. A sensação de Rosa Casaco é que «as autoridades espanholas não ficaram completamente convencidas» pela argumentação aduzida pela PIDE, ou seja, que nada tivera a haver com o duplo assassínio. Convencidas ou não, o facto é que «só vieram a saber a verdade dos factos depois do 25 de Abril de 1974».

 

Jornal EXPRESSO 1998

 

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 16:27
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15
Jan 15

Artigo de 22 de Maio de 1885, do "correspondente da Praia d'Ancora", no Jornal da Manhã, publicado no Porto.  Sem mais comentários.

 

No juizo de direito da comarca de Caminha procedeu-se há dias ao auto de exame corpo de delicto directo na pessoa de Rozalina Martins Lírio, menor de 20 annos, filha do snr. Francisco Lírio, rico proprietário da freguezia d’Ancora e vereador da camara de Caminha, por participação ao ministério publico d’este snr. Contra o reverendo abbade da mesma freguesia pelas consequências funestas da seducção e relações ilícitas do pároco com a sua filha, segundo consta da participação.

Além das terríveis declarações da infeliz deshonestada foram inquiridas varias testemunhas. Mas oxalá que elle sirva de exemplo, e que nunca mais um sacerdote, e particularmente um pároco, caia em delicto tão grave e tão desairoso para uma classe inteira, que soffre sempre na sua dignidade e no seu estado, embora uma corporação ou classe não seja responsável pelas faltas de alguns dos seus membros ou de qualquer dos indivíduos que a ella pertence.

Isto é certo; mas não o é menos que hoje em dia os vícios ou crimes d’sacerdote se fazem reflectir sobre toda a classe ecclesiastica, porque não se diz -“o padre fulano cometeu esta culpa”; mas sim-“os padres comettem estas culpas e por isso é que a religião está perdida”.

Não se deve nem pode discorrer assim contra a classe sacerdotal e contra a religião; mas os que não sabem o principio de que uma classe ou corporação  não é responsável pelos abusos e delictos de qualquer dos seus membros, acusam a classe em geral e não o individuo em particular que a ella pertence, e que é o único responsável; e os inimigos d’essa classe e da religião aproveitam estes factos particulares para a consecução dos seus fins, que não são bons.

Eis o motivo principal porque sentimos profundamente que tal facto se tenha dado e que em juízo esteja a acusação d’elle. Esta facto é do domínio publico; e por isso temos direito e obrigação de nos referismos a elle.

 

No juízo ordinário da Riba d’Ancora, procedeu-se também a auto do corpo de delicto contra Gerardo Martins Lírio, a requerimento do referido abbade, que acusa aquelle individuo, irmão da desonhestada, de lhe haver atirado um tiro entre umas devezas.

É, porem, opinião geral e provável, senão certa, que similhante facto não se deu, ou pelo menos não se prova, segundo nos consta e é publico.

Entretanto esta publicidade pode ser e é proveitosa para exemplo de todos e emenda dos delinquentes.

publicado por Brito Ribeiro às 12:35
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14
Nov 14

Em 1957, José Elias Martins dos Santos, um ancorense emigrado na Argentina, oferece a verba para a construção de uma cruz luminosa, que seja suficientemente alta para servir de ponto de referência e orientação dos pescadores da sua terra natal.

4.jpgFoi construída num dos pontos mais elevados do Monte Calvário no ano seguinte, pelo construtor civil e conterrâneo Álvaro Loureiro, com o custo de 14 contos e a altura aproximada de 13 metros.

 

O custo da energia eléctrica consumida ficou a cargo de um grupo de cidadãos ancorenses que se cotizavam regularmente.

No ano de 1979 a iluminação da cruz é substituída. Em 1998 depois de ter estado apagada vários anos, o Orfeão de Vila Praia de Âncora toma a iniciativa de a mandar reparar.

publicado por Brito Ribeiro às 10:10
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05
Jul 14

Este é um documento inestimavel da vivencia nos mares do norte, partilhado na primeira pessoa, onde os nossos conterrâneos labutavam em condições muito duras.

Ora para fugir à fome, ora para escapar ao serviço militar, a ida ao bacalhau passou de geração em geração até ao advento da democracia, quando as condições infra humanas praticadas, foram contestadas e irradicadas.

Em boa hora a Câmara Municipal de Caminha decidiu reunir para memória futura este conjunto de testemunhos, que contribuem decisivamente para se escrever a história deste povo marinheiro.

publicado por Brito Ribeiro às 16:00
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