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Jul 21

Corria o ano de 1940, e a Europa estava mergulhada na devastadora II Guerra Mundial. No entanto, Espanha e Portugal decidiram manter-se longe do conflito, com o intuito de pouparem a Península Ibérica à devastação e como forma de manter os regimes ditatoriais vigentes, apesar de tanto Salazar como Franco terem clara simpatia pela causa germânica.

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Mas nada disso impediu Franco de planear a invasão espanhola a Portugal. Em conjunto com alguns dos seus generais de confiança, Franco criou um plano minucioso de invasão e anexação de Portugal, para o caso de a Espanha entrar na guerra combatendo ao lado dos alemães.

E isso esteve quase a acontecer, graças à obsessão de Franco em conseguir um império colonial espanhol no norte de África, algo que seria mais facilmente conseguido com o apoio germânico.

Entra assim em cena a preparação da invasão.

Vale a pena ressalvar que Portugal, em termos estratégicos, era de pouco interesse para Franco, sendo esta invasão apenas uma consequência natural da eventual entrada de Espanha na guerra, ao lado dos países do Eixo (Alemanha e Itália).

A Alemanha já há muito que pressionava Franco para que este decidisse a sua entrada no conflito, pois os Alemães pretendiam tomar posse de Gibraltar (em território espanhol mas na posse dos ingleses) para conseguirem controlar a passagem entre o Mediterrâneo e o Atlântico.

Em contrapartida, a Alemanha entregaria à Espanha os territórios franceses do Norte de África, conseguindo assim Franco o seu tão ambicionado império.

Mas por outro lado, caso invadisse Gibraltar, Franco sabia que os ingleses iriam retaliar, tomando as Ilhas Canárias e usando Portugal (seu tradicional aliado) como base para os seus ataques.

Assim, se Portugal estivesse nas mãos dos espanhóis, estes estariam duplamente protegidos contra as forças aliadas, especialmente dos ingleses, pois Portugal era o ponto de início ideal para uma invasão em grande escala da Península Ibérica pelas forças aliadas.

Essa foi a principal razão por que se criou o plano da invasão espanhola, estando esta ideia detalhada no livro A Grande Tentação, do historiador espanhol Manuel Ros Agudo, criado a partir de um documento de 120 páginas que foi encontrado nos arquivos da Fundação Francisco Franco.

Portugal e Espanha tinham assinado um Pacto de Amizade e Não-Agressão em 1939, e Salazar tinha dado um providencial apoio a Franco durante a Guerra Civil Espanhola, contribuindo fortemente para o aniquilamento das forças republicanas e apoiando logisticamente (e não só) as forças franquistas.

Apesar disso, Franco não se coibiu da criação deste plano de invasão, ignorando o tratado de não-agressão e a providencial ajuda recebida de Salazar para chegar ao poder em Espanha, onde previa um desfile triunfal até Lisboa, considerando, até, que a invasão não seria um exercício militar de grande complexidade.

Assim, o plano fez-se mesmo, e foi entregue a Franco em finais de 1940. Seria lançado um ultimato a Portugal, com condições impossíveis de cumprir, e após um curto espaço de tempo, começaria a invasão.

No documento, pode-se ler que “a delicada situação de Portugal em relação a um conflito internacional em que intervenha a Inglaterra, a escassa potencialidade do país vizinho e, sobretudo, o atrativo das suas costas, pode conduzir a Inglaterra a tentar ocupar as bases navais deste território”.

Logo a seguir, Franco escrevia “decidi preparar a invasão de Portugal, com o objetivo de ocupar Lisboa e o resto da costa portuguesa”. Franco previa ainda poder ocupar rapidamente Portugal, passando de imediato à preparação à resposta britânica, reforçando a frente atlântica.

Para o ataque a Portugal, seriam destinadas 10 divisões da infantaria, 1 de cavalaria, 4 regimentos de tanques, 8 grupos de exploração de cavalaria, e 8 regimentos mistos de infantaria, num total de 250 mil homens, o dobro do que Portugal dispunha.

A invasão seria levada a cabo através dos exércitos, que atacariam a norte e sul do Tejo, mantendo sempre a superioridade de meios e homens. O primeiro exército avançaria por Ciudad Rodrigo, levando à sua frente a Guarda, Celorico da Beira, Coimbra e depois Lisboa. O segundo exército seguia por Elvas, Évora e Setúbal. Todos tinham o objetivo de tomar rapidamente Lisboa, dividindo assim o país em 3 e facilitando a conquista.

A aviação espanhola entraria depois em cena, com cinco grupos de bombardeiros, caças e grupos de assalto, atuando no apoio ao exército invasor. Franco não planeava, no entanto, levar a cabo tal empreitada sozinho, confiando que as forças do Eixo, em particular a Alemanha, forneceriam um reforço significativo aos meios, especialmente de bombardeiros, para evitar uma eventual superioridade luso-inglesa no ar.

A ideia era pois atacar e em força, no mais curto espaço de tempo, para que Portugal não tivesse sequer hipóteses de reagir e lutar. Como sabemos, esta invasão nunca se realizou, e os planos ficaram escondidos no arquivo da Fundação Francisco Franco durante 67 anos, e nenhum dos dois países ibéricos entrou na guerra.

 

Texto de João Luís Gomes in Excertos da História

 

publicado por Brito Ribeiro às 11:58
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