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Abr 20

É tradição em Portugal, com particular enfase no Minho, Douro e Beira Alta, que na noite de 30 de Abril para 1 de Maio, se coloquem à porta ou janelas de casa ramos de giestas amarelas, também conhecidas por “maias”, por florirem em Maio.

As Maias, Viana do Castelo (1).jpg

Leite de Vasconcelos debruça-se sobre o costume português das Maias como “a mais antiga menção desta festa popular, festa evidentemente naturalística, posto mais ou menos desviada da sua significação primitiva, já pelo próprio Paganismo, já pelo Cristianismo, creio que se acha nestas linhas da Postura da câmara de Lisboa de 1385: «Outro sim estabelecemos que daqui em diante em esta Cidade e em seu termo não se cantem as Janeiras nem Maias, nem outro nenhum mês do ano».

A Maia, chamada, também, "Rainha do Maio", ou "Rosa do Maio", era uma boneca de palha de centeio, em torno da qual havia descantes toda a noite (1.º de Maio); outras vezes, uma menina coroada com flores, que se enfeitava com o vestido branco, jóias, etc., sendo colocada num trono florido, e venerada todo o dia com danças e cantares. 

Esta festa, sem dúvida com reminiscências pagãs (celtas-romanas), foi proibida várias vezes (caso de Lisboa foi reconfirmada em 1402, por carta régia de 14 de Agosto que se determinava aos juízes e à câmara que impusessem as maiores penalidades a quem cantasse “Mayas” ou Janeiras, e outras coisas contra a lei de Deus). 

No Alto Minho, esta velha tradição mantém-se. Na manhã do 1.º de Maio, as casas das nossas aldeias aparecem todas enfeitadas com raminhos de giesta, relembrando os costumes de coroação (Maio ou Maia). Com o cristianismo deu-se a este velho ritual pagão (rito da fertilidade para uns, novo ciclo da natureza, o triunfo da primavera, o reverdescer das plantas, o começo de um ano agrícola, prognosticando boas colheitas).

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O carácter religioso do povo português adoptou como certa a explicação da origem das maias que tem a ver com a vida de Jesus, forma encontrada para afastar as ancestrais origens pagãs:

  • Quando a Virgem foi para o Egipto, deixou pelo caminho muitos ramos de giesta para não se enganar na volta;
  • Herodes soube que a Sagrada Família, na sua fuga para o Egipto, pernoitaria numa certa aldeia. Para garantir que conseguiria eliminar o Menino, Herodes dispunha-se a mandar matar todas as crianças. Perante a possibilidade de um tão significativo morticínio, foi informado, por um outro "Judas", que tal poderia ser evitado, bastando para isso, que ele próprio colocasse um ramo de giesta florida na casa onde se encontrava a Sagrada Família, constituindo um sinal para que os soldados a procurassem e consumassem o crime... A proposta do "Judas" foi aceite e Herodes tratou de mandar os seus soldados à procura da tal casa. Qual não foi o espanto dos soldados quando, na manhã seguinte, encontraram todas as casas da aldeia com ramos de giesta florida à porta, gorando-se, assim, a possibilidade do Menino Jesus, ser morto.

 

Daí terá vindo essa tradição de colocar ramos e giestas (ou conjuntamente com outras flores, coroas), nas portas e janelas das casas, na véspera do 1º de Maio.

De registar, ainda, que no Alto Minho este costume se estende aos carros de bois, aos automóveis, aos tractores, etc. Em certas localidades, coloca-se o raminho de giesta porque “o Maio é tolo”! Noutras, os rapazes que estão para casar, metem por baixo das portas das casas das moças "de bom comportamento" (sem disso elas se aperceberem) uma "maia de rosas".

No Norte da Europa há lugares onde se comemora a chegada de Maio onde, outrora, moças em idade de casar eram apresentadas no leilão de Maio.

Maio recebeu o nome do deus Maius que era o deus da Primavera e do crescimento. Para outros vem de Maia, mãe de Mercúrio. As celebrações em honra de Flora, a deusa das flores e da juventude (mãe da Primavera), iniciavam como já referi, o novo ano agrícola e atingiam, na Roma antiga, o seu clímax nos três primeiros dias de Maio.

Por outro lado, a Igreja católica declarou Maio como o mês de Maria, a mãe e rainha. Dos 54 países que celebram o Dia da Mãe, 36 festejam-no em Maio.

Também no Norte da Europa havia a tradição dos rapazes colocarem um arbusto à porta da sua amada como declaração de amor, paralelamente ao costume de serem nesse dia leiloadas as donzelas em idade de “casar”.

As Maias, Viana do Castelo (3).jpg

Na região de Trás-os-Montes e nas Beiras, as Maias surgem associadas às castanhas, como atesta o provérbio «Quem não come castanhas no 1º de Maio, monta-o o burro». Segundo a tradição, maio é o mês dos burros e o ritual tem como objetivo esconjurar os maus espíritos (o “Maio”, o “Carrapato” ou o “Burro).

É comum ouvir-se dizer que a maia à porta é para não entrar o burro.

Na região da Estremadura, a Maia é uma menina enfeitada com flores que percorre as ruas da povoação com as suas companheiras.

No Alentejo, em especial em Beja, as Maias são meninas vestidas de branco, com uma coroa de flores na cabeça, que se sentam numa cadeira à porta de casa, na esquina de uma rua ou na praça. Entretanto as amigas pedem a quem passa “um tostãozinho para a maia”.

No Algarve é costume colocar à porta de casa os bonecos de palha de centeio vestidos de trapos e enfeitados. Em Lagos a tradição regressa todos os anos, com a eleição da Maia mais bonita da cidade.

No Alto Minho a par com a tradição religiosa, as “maias” adquirem um carater simbólico, mas também estético e de afirmação social. Além da comum giesta pendurada nas portas e janelas há a tradição de elaborar coroas de flores, sendo a giesta o elemento aglutinador da complexa coroa de flores.

Se em tempos mais recuados, havia a tradição da “coroa das maias”, elaborada em giesta e flores da época, engalanada com um laço de fitas de papel colorido que os rapazes colocavam à porta das suas pretendidas como manifestação do seu amor, hoje o costume mantem-se fazendo-se prova da habilidade da dona da casa e da sua capacidade artística perante a comunidade.

 




 

 

publicado por Brito Ribeiro às 18:42

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Abr 20

As crenças e superstições na classe piscatória de Âncora não diferiam das outras comunidades marítimas próximas. Esta gente boa e pacata é muito religiosa. Mas também muito ignorante, quer em matéria de religião, quer na compreensão científica da vida e do meio envolvente. E esta igno­rância alia-se facilmente à superstição, daí resultando uma crença obscura de amor e terror a um Deus mistério, de curandice e graças.

73 - Medalhinhas para afastar os maus olhares e as

A posição de defesa perante um ambiente hostil como o trabalho no mar, sempre levou os pescadores a recorrerem a rituais para melhor en­frentarem os perigos quando se viam impotentes e necessitavam de ganhar confiança para sobreviverem.

Estes rituais herdados de tradições an­cestrais foram cristianizados depois, embora coexistissem com os elementos reminiscen­tes das crenças celebradas pelos velhos cul­tos pagãos.

Os Santos são frequentemente invoca­dos para feitiços e a água benta retira-se furti­vamente da igreja. Apenas a fé continua a ser espontânea, simples e sem entraves.

Há quem “veja” bruxas, quem tenha “encontrado” o lobisomem, quem saiba de crianças “chupadas” por aquelas. Há supers­tições relacionadas com animais, com luga­res, com as horas ou com qualquer coisa que esteja na esfera da incompreensão.

Além disso havia um sem número de coisas proibidas pelo código do “não é bom”, sem que se soubesse o porquê de tal crença. Vejamos algumas:

Bocejar constantemente, fortes dores de cabeça e enfraquecimento geral, é resul­tado do mau-olhado, também conhecido por quebranto.

As maiores vitimas destes males são as crianças, que têm de ser protegidas através do uso de amuletos sob a forma de pendentes (Sanselimão, meia-lua, corno ou figa). Os de­fumadores dentro de casa como a arruda, o alecrim e o incenso, também eram amuletos purificadores e de afastamento do mal. Fazer o sinal da cruz sobre a boca da criança e dizer “benza-te Deus”, também ajudava a prote­gê-la do mal olhado.

Na água do primeiro banho do bebé põe-se dinheiro para ser rico, vinho fino para lhe abrir a inteligência e pétalas de rosa para que seja feliz. A noite parece fazer mal às crianças, pois havia o costume de as recatar o mais possível desde o pôr-do-sol.

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Quando em passeio ou viagem era necessário transportá-las de noite, punham-lhe um terço ao pescoço e era o pai que se encarregava da guarda do bebé. Existia a crença popular de que as roupas do recém-nascido não deviam ser colocadas a secar no estendal ao luar, caso contrário a criança poderia vir a sofrer de cólicas ou a revirar os olhos; quando uma criança não chora na ocasião do baptismo, não chega aos doze anos.

Mas havia igualmente su­perstições que hoje apenas nos merecem um sorriso pelo ab­surdo e pela inocência de quem acreditava que não se podia var­rer à noite, pôr a vassoura ao contrário, deixar os sapatos com as solas viradas para cima, en­tornar sal ou azeite ou estar à porta quando tocavam as Trindades (toque ao fim da tarde chamando para a oração das Avé Marias. Era também considerado o final da jornada de trabalho). Este código informal do “não é bom”, transmitido oralmente de geração em ge­ração, tinha uma força tal que ninguém se atrevia a desafiá-lo e qualquer desrespeito ou descuido era severamente criticado pelos mais velhos.

publicado por Brito Ribeiro às 12:03

Os gatos pretos desde sempre foram associados a práticas de magia negra; eram os eternos acompanhantes das bruxas. Daí a superstição de que cruzar com um gato preto, sobretudo em dias considerados de azar, como uma sexta-feira 13, ou encontrá-los à meia-noite junto a uma encru­zilhada, fosse sinal de mau presságio.

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Um cão a uivar, adivinha morte ou doença nas proximidades. Para que o cão deixe de uivar, deve-se colocar o sapato esquerdo virado para cima.

Os sapos eram animais que serviam para a prática de bruxaria. Recor­riam as bruxas a este meio de magia negra como forma de causar a doença ou a morte daqueles que queriam atingir. Desta forma, sacrificavam estes animais com práticas selvagens, como, por exemplo, cozer a boca do mes­mo, acreditando que assim, há medida que o animal ia secando, definhando, acabando por morrer de fome e de sede, a pessoa a quem se destinava o feitiço, seria atingida da mesma forma.

Para as bruxas não molestarem, põe-se de fora uma ponta da fralda da camisa. Para elas não entrarem em casa deita-se pelos cantos uma mis­tura moída de mostarda, sal e milho.

Quando aparece uma aranha pequena em cima de nós ou em casa, não se deve matar, porque estas são prenúncio de sorte e fortuna ou pode anunciar a vinda de uma carta.

O cavalo-marinho, depois de morto, é muitas vezes utilizado como talismã, porque atrai a sorte e protege do mau-olhado para quem o tem.

O “mau-olhado” tem características semelhantes em diversos países e na Galiza pertence às superstições mais enraizadas. Consiste em:

“...suponer que el hombre, con ayuda o intervención del demonio, es capaz de producir males materiales por la influencia de su mirada, sobre el individuo, sobre los animales y aun sobre la hacienda” (López, 1910)

Isso significa que podia produzir doenças ou destruir qualquer coisa. Não são apenas as bruxas com o seu olhar penetrante e malicioso que po­dem gerar maldade sobre outra pessoa. Acreditava-se que havia pessoas que possuíam esse “dom” e que o podiam usar mesmo involuntariamente.

Por isso tentavam proteger-se com vários remédios contra as maldades. O chifre de alguns animais (corno de boi, bode, cervo ou dente de javali) ou um ramo de funcho, são amuletos protectores para o mau-olhado e bruxaria em geral, mas também como talismãs que propor­cionavam a sorte e a fortuna aos que os possuíssem. Anti­gamente era costume as pessoas pendurarem um destes amuletos atrás da porta de casa ou a bordo da embarcação.

55 - Embarcações no portinho, grande animação

Fazer cruzes sobre as redes, colocar os andores voltados para o mar por ocasião das procissões, dar a bênção sobre o mar e as embarcações, descobrir-se levando a mão às boinas e dizer à saída para o mar “Vamos com Deus", ou ”Vamos largar com Deus”, no momento de lançar as redes, orações e promessas, conviviam com ferraduras desenhadas na embarca­ção ao lado de cruzes, o uso de um alho-porro escondido na embarcação e outros artefactos para cortar a inveja e o mau-olhado. Ir à bruxa para se livrar do feitiço e fazer defumos, eram práticas capazes de travar os perío­dos insistentes de pescas sáfaras quando não viam razões que explicassem tanta falta de sorte.

E, este, coitado, incluía uma dose de algo fora do racional. Assim, quando esta situação de escassez na pesca continuava, havia que recorrer ao defumo do mestre, quando não da companha inteira e até da embarca­ção.

Os defumos diferem do esconjuro galego, mais antigo. Os nossos de­fumos já eram cristianizados tal como este:

“ Nossa Senhora pelo Egipto passou

Alecrim verde apanhou para seu Menino defumar;

Assim eu te defumo em cruz

Para melhorar.

Deus te deu, Deus te criou, Deus te desencante

De quem te encantou.

Dois olhos te viram, quatro te seguirão,

Dois da Virgem Maria e dois de S. João.

Outras vezes, surpreendidos com um qualquer efeito negativo insó­lito, vinha-lhes à boca espontaneamente, ao mesmo tempo que se persig­navam: “Credo em cruz santo Nome de Jesus”, seguido de uma série de imprecações a exorcizar o espanto.

publicado por Brito Ribeiro às 11:59

O mundo dos pescadores era um mundo de luta permanente com as forças da natureza e as forças demoníacas invisíveis que, com a permissão divina, muitas vezes vagueavam para atormentarem os homens, criaturas frágeis perante poderes superiores.

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A arruda era utilizada como amuleto protector contra o mau-olhado, em defumadores feitos dentro de casa ou colocando um raminho atrás da porta. Havia quem tivesse junto à casa um vaso com esta planta, porque acreditavam que assim afastavam o mal.

O alecrim é também considerado um amuleto protector contra o mal, por isso era utilizado em defumadouros. Esta planta tinha ainda proprieda­des curativas, sendo utilizada em mezinhas relacionadas, por exemplo, com o fortalecimento dos cabelos, entre outras.

Entre as práticas tradicionais utilizadas na cura, era frequente a prá­tica de rezas, benzeduras, promessas e preces ao santo da devoção, bem como a rituais e amuletos de protecção.

As rezas e benzeduras podiam ser feitas simples ou acompanhadas de mezinhas ou materiais diversos como velas, defumadouros, incensos e outros materiais.

Os defumadouros eram preparados com os “ramos” (ramos de oliveira) benzidos na igreja, no domingo de Ramos, alecrim e outras plantas, às quais se juntam umas pedras de sal virgem, que nunca serviram para salgar carne, e três pedacitos de “bosta” da porta do forno. Coloca-se tudo sobre brasas vivas. Servem para muita coisa os defumadouros, aplicando-se como remédio para qualquer mal-estar. A pessoa que precisa dele inclina-se para receber em cheio o fumo, enquanto alguém diz:

Assim como Nossa Senhora defumou

Os panos de seu Filho para cheirar,

Assim eu defumo esta criatura para sarar.

Dizia-se isto três vezes, recitando entre cada uma, um Pai-Nosso, uma Avé-Maria e uma Glória (Lima, 1963).

Acreditava-se que derramar vinho era alegria, bem como derramar azeite dava azar. Quando isso acontece, deve-se atirar um copo de água à rua e dizer “água vai”. Não se deve beber água de noite sem bater no cântaro, para que a água que está a dormir acorde. Beber água adormecida faz mal.

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Sobre a gravidez havia outro rol de crenças como: faz bem às mulhe­res grávidas beberem águas de galinha preta, que limpa e facilita o parto; durante a gravidez não se cheiram flores, nem se pega em baço de boi ou porco, para as crian­ças não nascerem com flores e baço (manchas de cor muito escura) no rosto; não se toca com a boca numa chave, nem mes­mo se pendura à cinta, para a criança não nas­cer com o lábio rachado; a mulher grávida não deve passar por baixo de cabos estendidos, para que a criança não nasça com “cordas” ao pescoço; não deve levar à cabeça estrigas (Conjunto de fibras de linho antes de serem fiadas) de linho, para a criança não nascer com manchas brancas no cabelo.

Derramar e pisar sal dá azar. Por outro lado, o sal também é um ele­mento utilizado na prática de magia negra. Derramar sal, azeite ou cinzas à porta de alguém está associado à magia negra, “Salgação à porta do teu inimigo”.

Mas o sal também estava associado à protecção divina contra a inveja e o mau olhado. O sal virgem ia-se buscar às concavidades da superfície dos penedos da ribeira, produto da água das marés vivas que depois o sol seca­va. Também se aplicava para tirar a inveja e outros malefícios, dos barcos e das redes. Atirava-se em cruz sobre os objetos, dizendo:

“Sal virgem que do mar foste criado

E em Roma foste batizado;

Corta-me a inveja e o mal olhado

Ou de morto ou de excomungado.”

publicado por Brito Ribeiro às 11:55

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O alho é considerado um poderoso amuleto contra feitiços e mau-o­lhado. Utilizar um dente de alho junto ao corpo ou dentro de uma peça de roupa, protege e exorciza qualquer tipo de mal. Por outro lado, é utilizado em muitas mezinhas de cura, quer em pessoas, quer em animais, na cura de doenças diversas entre as quais se cita a papeira, em que a forma de cura era utilizar um colar feito com dentes de alhos ao pescoço.

Havia inúmeras superstições, que nada tinham a ver com o mau-olhado como:

Quem partir um espelho, terá sete anos de azar; se o galo cantar a desoras, é prenúncio de desgraça certa; não se deve passar por baixo de uma escada, uma vez que traz o azar para quem o faz; se um boi, passando na rua, mugir diante de uma casa, é sinal que algum dos seus moradores morrerá; para desejar sorte e fortuna aos noivos, faz parte da praxe que após o casamento os convidados joguem sobre os noivos bagos de arroz ou pétalas de rosa; o noivo não deve ver a noiva vestida com o vestido de noi­va antes do casamento; se no dia do casamento estiver a chover é sinal de felicidade para os noivos, por isso há o adágio popular “Casamento molhado, casamento abençoado”; varrer os pés de uma rapariga solteira pode signifi­car que ela nunca mais vai casar; não se deve casar à sexta-feira porque dá azar; apontar para as estrelas faz nascer verrugas; quando um galo canta antes da meia-noite, é sinal de navio na barra ou que alguma filha foge de casa; o mocho, o corvo, o besouro e a coruja são animais sinistros, cuja aparição povoa de medos e fantasmas a imaginação popular.

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A morte é outra fonte inspiradora de superstições e crenças; quando se vai acompanhar um defunto, para ele não lembrar mais, ou a alma dele não aparecer, deve deitar-se-lhe na cova uma mão cheia de terra; quando morre alguém, não devem apagar as luzes que estiveram a alumiar o morto até que o corpo chegue à igreja; é bom pregar alfinetes no vestido dos “an­jinhos” porque eles vão pedir pela pessoa que os pregou; quando alguém morre afogado e não vem à praia, para que o corpo apareça deve a madri­nha ir à beira de água e chamar pelo nome do defunto; quando ao pé de um afogado chega um parente próximo ou remoto, o morto começa a deitar sangue pelos olhos e pelo nariz.

publicado por Brito Ribeiro às 11:52

A lua também tem influência em alguns usos e costumes tanto do meio rural como piscatório. Os pescadores acreditavam que as melhores luas para pescar eram a lua nova e a lua cheia, porque aproximam mais o peixe da costa.

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Quando uma mulher tem sete filhas e o oitavo é homem, esse menino será lobisomem. Também o será o filho de mulher amancebada com um padre.

O lobisomem pode ser alguém a quem “faltaram palavras no bap­tismo”, por isso o Credo rezado durante a cerimónia era cuidadosamente recitado pelos padrinhos. A infelicidade de escapar alguma palavra podia acarretar para o afilhado a desgraça de “correr o fado”. Também se aplicava à “procissão dos defuntos”, pois acreditava-se que as pessoas que “viam” este desfile premonitório da morte, eram vítimas da falta de palavras no Credo rezado durante a cerimónia do baptismo. Na Galicia esta procissão era conhecida por “La Compaña”.

O lobisomem durante o dia é uma pessoa normal, mas a altas horas das noites de lua cheia uma força irresistível impele-o para fora de casa. Como o nome diz, é metade lobo, metade homem. Depois de se transformar numa encruzilhada de caminhos, procura sangue, matando fe­rozmente tudo o que se move. Antes do amanhecer, ele procura a mesma encruzilhada para voltar a ser homem.

Havia a crença que os lobisomens têm preferência por bebés não bapti­zados, o que faz com que as famílias baptizem as suas crianças o mais rápido possível. Também se diz que o lobisomem após se transformar, tem de atra­vessar correndo sete cemitérios ou visitar sete fontes até o amanhecer, para voltar a ser humano. Caso contrário ficará em forma de besta até à morte.

O lobisomem é um ser lendário, com origem muito antiga na mitologia grega e a representação na figura híbrida de ho­mem e lobo não é alheia ao desassos­sego que este animal provoca, desde tem­pos imemoriais, no imaginário colectivo. Não se estranha, por isso, que no fabulário popular o lobo apareça como símbolo do mal e que o conceito de lobisomem, enquanto produto da fanta­sia popular, possa ser considerado como uma tentativa de apresentar uma criatura onde se conjuga a ferocidade maléfica do lobo com as emoções, ora angustiosas, ora igualmente maléficas, do homem (Parafita, 2012).

publicado por Brito Ribeiro às 11:49

Uma noite, após ter bebido demais, um pescador encontrou-se na laje da praia com a sua sombra que ele afirmava convicto ser o diabo, pois sem­pre que se deslocava para um lado logo o mafarrico vinha para cima dele. Bem lhe dava uns murros mas o diabo defendia-se também com os mesmos gestos. Esfolou os dedos e as mãos que ficaram a sangrar de tanto se atirar sobre a laje a esmurrar a sua própria sombra, tal era a ideia dessas forças demoníacas que os atormentava e se achavam em posição de impotência.

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Mas, isto, é só para dizer quanto a atitude de defesa faz parte integral da reação natural do pescador, habituado a lidar com um ambiente hostil e traiçoeiro, perante o qual tantas vezes se sente impotente. E, daí, atento a qualquer sinal, recorre a palavras, a gestos, a rituais, numa reação estranha a outros ambientes. Este sentido de defesa também faz dele um tempera­mental, reagindo naturalmente aos impulsos com a impetuosidade das ondas.

Um dia, o pescador foi embruxado por uma mulher que o mantinha refém a cuidar dos filhos dela, enquanto ela saía a ganhar a vida na profissão mais velha do mundo. Aconteceu, porém, que numa altura em que foi para o mar ao fim da tarde, o barco não conseguia passar além da ponta do cais. A companha, atónita, remava, remava, mas o barco andava às voltas e não saía da boca do porto, porque o remo do pescador embruxado não acompanhava o esforço dos seus camaradas. Ficou pálido e completamente evadido como se não estivesse ali, indiferente a tudo. Todos repararam no seu aspecto, de­cidindo desembarcá-lo no cais do sul, pois a companha estava atemorizada.

Este ficou sentado no cais, apático, o barco libertou-se e seguiu para o mar. Outros, que o viram ali naquele estado de imobilidade e apatia resol­veram ver o que se passava com ele e levaram-no para a casa da família. A sua mãe, muito aflita, fez-lhe o credo em cruz e deitaram-no na cama. Por volta da meia-noite quebrou-se o “enguiço”, começando a cantar uma cantiga em voga:

“Ó Rosa, ó linda Rosa,

O meu grande amor;

Na tua boca rosada

Dava-te um beijo, minha flor.”

Em seguida, calou-se e vomitou um monte de cabelos, seguido de outro vómito de terra e, por último, saiu do seu corpo um osso quadrado que deixou os presentes perplexos por não saberem explicar como é que um osso daquela forma e tamanho pudesse passar pelo esófago. Uma coisa extraordinária. Depois ele falou calmamente e pediu comida.

A mãe escancarou as portas e os seus gritos atravessaram a noite para que todo o bairro visse pelos seus próprios olhos o que tinha ocorrido.

A tal mulher a quem foi atribuído o bruxedo desapareceu, entretanto, com os filhos dela. Ninguém mais a viu em Vila Praia de Âncora e o pescador, daí em diante, levou uma vida normal.

Havia muitas coisas estranhas no Portinho: o pescador que às ve­zes andava “engalinhado” e não apanhava peixe porque uma determinada “puta” lhe tinha deitado um mau-olhado, que até ao varar a embarcação, caiu e esfolou uma perna nas pedras; outra vez o defumo não foi bem feito porque o “caco” foi deitado à estrumeira, em vez de ser colocado na encru­zilhada de duas ruas; outra porque a mulher do defumo se enganou nas palavras e o feitiço voltou-se contra o feiticeiro e, ainda, porque a companha não cumpriu determinada promessa. E, outra vez, a mulher encarregada de colocar o caco do defumo na encruzilhada – levava-o debaixo do aven­tal – com o sopro de uma rajada de vento a chama animou-se e o avental começou a arder, levando-a a gritar por socorro.

Outra vez, um jovem pescador tinha enganado uma rapariga e não tinha casado com ela. Então, ela amaldiçoou-o. Agora a companha do barco dizia que estavam todos a pagar pelo excomungado, não apanhavam peixe nenhum, andavam com uma “caipora fodida”, há dias a “coar água”. Havia que fazer alguma coisa, nem que o mestre tivesse de o despedir.

Sempre em posição de defesa contra o elemento natural do seu labor e contra as adversidades invisíveis dos espíritos e das bruxas que povoavam o seu mundo. Havia sempre algum recurso para lutar contra estas forças que interferiam na vida do pescador, pois mais valia que chamassem ao mestre cheio de sorte “filho da puta”, do que “coitado”. Quando uma embar­cação vem a entrar no Portinho e vem carregada era frequente ouvir dizer: “aquele filho da puta tem cá uma sorte!... carrega sempre”, mas quando vem vazia toda a gente diz, “coitado, não tem sorte nenhuma”. Este coitado inclui sempre algo de irracional. É mais do que o acaso.

publicado por Brito Ribeiro às 11:47

O pescador é um homem de fé à sua maneira. Ele sabe que lida com uma força implacável quando se enfurece e que só do Alto pode esperar o milagre que o pode salvar. Porque, muitas vezes, só por milagre divino consegue escapar. Mas, ao mesmo tempo, os malefícios das bruxas tam­bém entravam no rol de adversidades. E, mais uma vez, há que defumar os homens e as redes para expurgar o mal. E não esquecer de colocar depois o caco numa encruzilhada sem ninguém ver. No mar não, porque o mar é sagrado e não consente coisas impuras. E o resto do defumo contém o mal (a impureza) que expurgou dos homens e das redes.

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Também um cardo colhido ao pôr-do-sol nas dunas do areal e sem ninguém ver, colocado na masseira afasta a má sorte. E porque não pintar nos testeiros da masseira uma cruz e uma estrela de Salomão? Ou uma fer­radura para fazer renúncias ao diabo?

Não fazer nada era resignar-se e sofrer as consequências. Por isso, nunca deixar de saudar Deus à saída e à entrada do Portinho, e nunca falar de padres e freiras, de bruxas e macacos, muito menos do diabo a bordo. Porque tudo isso dava azar e não se podia pronunciar a bordo.

No Portinho também havia uma mulher que dizia “ver” as procissões dos mortos. Contava isto com todo o detalhe. O último que seguia na pro­cissão era a pessoa que dias depois ia morrer. Porém, ela evitava revelar o nome para não alarmar. Claro, dizia depois do acontecimento que a tinha visto atrás dos outros mortos. E nunca lhe faltou convicção para afirmar que via essas procissões. Até lhe chegavam a bater à janela do quarto onde dormia para que visse.

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Em dias de nevoeiro, a ronca do castelo era acionada por dois homens que se revezavam: primeiro, os homens ou mulheres que estavam em terra; depois, os homens à medida que iam chegando do mar. Mas, pelo sim, pelo não, mandavam à ponta do cais três raparigas virgens, que levantavam a saia e descobriam o “rabo” voltado para o mar. Acreditavam que fazendo isso espantavam o nevoeiro. Porém, para ser eficaz tinham de ter em co­mum o nome de Maria. Eram as “três Marias”.

A forte dependência que a vida desta comunidade tinha em relação às superstições e crenças, começa a esbater-se com a alfabetização, com as campanhas de pesca de bacalhau e com a emigração, onde o contacto com outras comunidades e outras culturas, vão fazê-los, progressivamente, esquecer as antigas superstições e crenças.

publicado por Brito Ribeiro às 11:42

25
Abr 20

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Agora que estamos mais tempo em casa, vemos mais televisão e ouvimos mais notícias, seguimos quase com fervor de telenovela, os disparates diários dos presidentes dos EUA e do Brasil. Inacreditável!

Como é que imbecis deste calibre chegam à presidência de dois países, que no seu conjunto representam mais de 500 milhões de almas.

Dou um suspiro de alívio porque no meu cantinho à beira mar, temos um estado que funciona, embora com algumas deficiências e temos uma classe política que tem demonstrado responsabilidade e sentido de estado. Bem sei há quem enferme de alguns vícios e insuficiências de caracter, mas regra geral tem dado conta do recado.

Por vezes dão uma no cravo, outra na ferradura, mas também ninguém estava preparado para uma pandemia destas.

O que interessa é que todos estão a dar o seu melhor, as autarquias, o governo, a Assembleia da República e a Presidência. Temos sorte porque a oposição tem sentido de estado e ao contrário de Espanha, não tem entrado em querela de baixa política, sem polémicas inúteis e sem chicana.

Os políticos da nossa praça estão a dar agora, um bom exemplo, uma lição sobre a postura que deviam sempre ter (e não tiveram nas ultimas décadas), na preocupação em salvar vidas, na busca de melhores soluções para a saúde e para a economia.

Todos estamos ansiosos com o dia de amanhã, temos dúvidas se a vida volta ao que era antes e se as medidas de mitigação e recuperação, que vão sendo anunciadas a conta-gotas serão suficientes. De certeza que vão continuar a ser ajustadas, com mais ou menos envolvimento da União Europeia, pois o que está anunciado hoje, não chega.

Se Portugal tem uma situação sanitária que já é uma referência na Europa, deve-o a todos, ao povo que acatou as recomendações das entidades públicas e ao pessoal da saúde. Deve-o SNS que tantos (os tais que hoje estão calados) quiseram destruir, vender, alienar e entregar aos privados.

A economia que dava passos de retoma e crescimento vê-se confinada, parada e em muitos casos falida. Tem de ser ajudados, pois claro, mas com precaução e de olho alerta, porque as vigarices não estão de quarentena.

Portugal não vai cair, vamos erguer-nos de novo como tantas vezes já o fizemos ao longo de 900 anos de história.

Apesar de tudo tivemos sorte, porque se esta pandemia tivesse chegado cinquenta anos antes, face ao estado decrépito da saúde pública, do atraso cultural e inexistência de políticas de acção social, só tínhamos duas garantias, a ocultação informativa por via da censura e as valas comuns.

Pois é, referi-me a “antes” do 25 de Abril, antes de 1974. Longe vão esses tempos…

Mas também dou por mim a pensar que tivemos sorte não ter existido esta pandemia há meia dúzia de anos atrás, quando tínhamos no governo Passos Coelho e Paulo Portas e na Presidência Cavaco Silva.

Isso é que era mesmo azar!

 

Fiquem todos bem. 25 de Abril, sempre!

publicado por Brito Ribeiro às 12:47
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Abr 20

As velas que se erguiam há pouco enfunadas pela viração de norte à luz da tarde em desmaio, eram já uma visão passada. Rumo ao mar, era um espetáculo digno da tela de um pintor, ou de um registo fotográfico para reter tão nostálgicas imagens das masseiras, velas a pender para sotavento inclinadas pela brisa ligeira no recorte plano do vasto horizonte.

19 - Ilustração Portuguesa - 1922.jpeg

Agora, que a brisa cessou completamente, sobre as águas estanhadas o sol lança os últimos reflexos de luz e esconde-se por entre a cor litúrgica do martírio pintado no horizonte ao despedir-se. Uma grande quietude e silêncio só quebrado pelo rolar das redes polé afora mergulhando no mar.

A velhinha, que se tinha sentado à soleira da porta a receber os últi­mos raios de sol do fim da tarde, vendo desaparecer na distância as mas­seiras, recolhe-se agora, rogando a Deus por boa pesca. Depois, são as recordações do passado, as vozes e as imagens dos tempos da juventude. Também, a voz familiar do refraneiro que lhe soa naquele momento: “Ver­melho ao mar, velhinhas a assolhar.”

Naquele tempo não havia boletins meteorológicos que avisassem os pescadores. Vinha-lhes do conhecimento empírico e da tradição oral a leitu­ra segura dos fenómenos do tempo e de outras coisas do seu entorno laboral com influência nas coisas do mar.

Assim, o pescador bebe na sabedoria do seu refraneiro marítimo o conhecimento do mundo que o envolve.

Este refraneiro vem de longe e não há dúvida que o herdou dos seus ancestrais galegos, pois a maioria destes refrãos são comuns às comuni­dades piscatórias galegas, outra prova das origens galegas da comunidade piscatória de Vila Praia de Âncora.

Na medida do possível, procuraremos explicar o significado de alguns refrãos dos pescadores ancorenses.

52A - A chegada dos barcos.jpg

 

Assim, “Vermelho ao mar, velhinhas a assolhar”, quer dizer que no dia seguinte a este horizonte vai fazer bom tempo.

  • “A mulher e a sardinha , a mais pequenina”, ou seja, a mais jeitosi­nha, a mais graciosa.
  • “Lua em pé, marinheiro deitado”, significa que o pescador pode dor­mir descansado.
  • “Pelo São João, pinga a sardinha no pão”, quando a sardinha já está gorda.
  • “Barco à costa, capitão rico”, alusão aos naufrágios provocados pela malícia dos homens para obterem benefícios da carga. Quando ainda não havia faróis, grupos capitaneados por um chefe faziam fogueiras num determinado ponto da costa, a fim de enganar os navegantes. Estes, ao aproximarem-se acabavam por encalhar nos baixios, o barco perdia-se e os bandidos apossavam-se da carga. O chefe recebia o maior quinhão, ficava rico.
  • Mas se em vez de “capitão” dissesse “patrão”, isso tinha a ver com a carga segura. Num naufrágio, só o patrão recebia o seguro da carga. Os marinheiros até podiam perder a vida e os que se salvassem ficavam sem nada.
  • Sul arrastador, norte pescador”, o vento sul arrasta águas mais quentes e nutrientes o que atrai mais abundância de peixe. O norte bonan­çoso envolvendo as águas torna-as mais aptas a uma boa pesca.
  • “Sul de manhã, no verão, à noite remo na mão”, este vento não preo­cupa pois acalma ao fim da tarde.
  • “Norte escuro, sul seguro”, fenómeno atmosférico presságio de tempo invernoso.
  • Santa Tecla com capelo, chove logo ou venta cedo”, formação de nu­vem sobre o cone do monte. É preciso contar com esta alteração do tempo de chuva ou vento.
  • “Lua deitada, marinheiro em pé”, sinal de alerta pois o tempo muda de um momento para o outro para tempestade.
  • “Lua com anel, chuva e vento a granel”, círculo à volta da lua. Quando o vento começar a soprar há que procurar abrigo, ou preparar-se para a tormenta.
  • “Céu escamento, ou chuva ou vento”.
  • “Vermelho ao nascente,vento de repente”.
  • “Sul airoso, norte bonançoso”, sul claro, sem nuvens, preanuncia nor­te brando.

(continua)

publicado por Brito Ribeiro às 17:02

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