Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

16
Mai 07
Como os gajos bestiais passam a bestas
Uma segunda-feira, peguei no Clio comercial que me estava distribuído e arranquei para o sul, onde me esperava a Maria Paula, nossa agente em Lisboa e que estava encarregue de não deixar parar a máquina, que recolhia as encomendas nas lojas, recepcionava as mercadorias vindas da fábrica e as entregava nas melhores condições aos clientes. Isto duas vezes por semana. Esta mulher nem tempo tinha para se coçar.
Originalmente o agente tinha sido o pai dela, o sr. Manuel Maria Silva com quem ainda aprendi algumas coisas, pois era um comercial de primeira divisão, adepto ferrenho do Belenenses, tinha-lhe dado um AVC, resistiu uma semana e finou-se.
Ficou a filha em seu lugar, que tinha trabalhado num semanário qualquer, como administrativa. Tinha a dinâmica e a disponibilidade do pai, faltava-lhe a experiência, que ganhou em pouco tempo.
 
Apesar de saber como a zona estava trabalhada e confiar no trabalho do meu antecessor, o Camilo, decidi que iria levar as coisas a eito, analisar e decidir tudo de novo. Nesse momento, a Agros já nos cortava fornecimento de leite, devido a atraso nos pagamentos e era preciso ir buscá-lo às Astúrias em camião cisterna.
As encomendas eram rateadas à nossa inteira responsabilidade, por falta de produto. O cliente pedia dez caixas de isto, cinco de aquilo, mais vinte de outro produto qualquer, e nós tínhamos que saber as disponibilidades da fábrica, saber quanto é que tocava àquela zona e depois ratear; em vez de dez, vamos mandar três, aí a Maria Paula insurgia-se e reclamava “ não pode ser, depois eu é que os aturo, tem de vir pelo menos sete caixas” e eu escrevia quatro…
Angustiava-me saber que podia vender, vender, vender e estava pendurado, estava dependente das quantidades que o Manuel de Sousa ou o Chico Santos me disponibilizavam. A empresa que eu conhecera há meia dúzia de anos, que tinha uma reputação invejável, já não existia. A empresa na qual eu ingressara, que era sinónimo de gente séria e boas contas, estava endividada até ao pescoço, eu duvidava das contas e até de alguma gente, pretensamente séria.
 
Uma manhã recebo um telefonema do Chico Santos, nós tínhamos uns telemóveis Ericsson que pesavam mais que um quilo de broa, a dizer-me, todo misterioso, todo segredeiro, que queria falar comigo: - Está bem pá, desembucha!
- Não pode ser aqui, passa no sábado pela minha casa.
- Então, eu na sexta à tarde, estou aí na fabrica…
- Não, não, nem penses nisso, na minha casa, mas não digas nada a ninguém…
Cá para mim pensei, “o Chico arranjou uma encrenca de papéis, com algum cliente, agora quer que eu safe a enrascada em Lisboa”. Já não era a primeira vez…
Sábado ao fim da tarde, peguei no carro (no meu), atravessei a Ponte de Abadim, entrei na Aspra e buzinei em frente à casa do Chico. Em vez de sair de casa, apareceu vindo da tasca do Viso, que fica paredes-meias com a sua residência, ainda com as cartas da sueca na mão.
Levou-me para a casa, para a cozinha e entregou-me um molho de papéis que foi buscar lá dentro. Comecei a ler e devo ter ficado branco, pelo menos sem pinga de sangue, eu que já estava vacinado contra todas as espécies de raiva.
O que ele me mostrou, eram cópias de relatórios semanais, da direcção comercial para a gerência, onde era analisado o desempenho de cada um dos comerciais. O que chamava mais a atenção eram os meus relatórios, melhor, eram os relatórios sobre mim, que eram demolidores. Já se passaram oito anos, desde que vi alguns desses relatórios e ainda hoje não consigo compreender o motivo de tais falsidades e de tais mentiras.
Não interessa o que lá se dizia, mas era escrito por um gajo que eu considerava quase como um irmão, fui eu que o meti na Empresa e esses relatórios eram visados pelo director que eu ajudei até ao limite, só faltou andar com ele ao colo.
Esses relatórios eram passados ao computador pela Sandra, que embora não tendo a coragem de me dizer nada, aquilo que ela escrevia e que sabia ser mentira, revoltou-a tanto, que pediu ao Chico Santos para me alertar. Aos dois, tenho essa imensa dívida de gratidão.
Não fiquei (não quis ficar) com nenhum desses relatórios, mas o Chico e a Sandra estão bem vivos e sabem a verdade sobre a pulhice que me fizeram, a mim e ao Camilo, pois também era visado, embora de uma forma mais subtil. Acho que o Chico ainda tem esses papéis.
 
Cerca de dois meses depois de ter sido despachado em grande velocidade para Lisboa, deram-me ordem de regressar à empresa, o dr. Tiago, aquela sumidade, levou sumiço, nunca mais o vimos e a coisa estava negra.
O Manuel de Sousa e o Armindo deram-me como tarefa, na fábrica, conferir as contas correntes e encontrar solução para débitos antigos. Era preciso encontrar duplicados de facturas, guias de remessa recepcionadas e assinadas e mais não sei quê.
Apesar de estar fortemente endividada, a Empresa tinha na rua cerca de meio milhão de contos, muitos deles de difícil ou nula possibilidade de recuperação, porque nunca puseram a trabalhar um advogado de Caminha que tinha uma avença há não sei quantos anos. Aquilo não era uma avença, era uma “mama” e das grandes! As duas funcionárias da tesouraria também deviam ter muito que fazer!
Algumas semanas depois, fui chamado ao gabinete do Francisco Presa, que depois de alguma conversa de circunstância, me propôs rescindir o contrato de trabalho. Até nem fiquei admirado. Acho que até já esperava!
Claro que lhe disse que estava disponível para negociar, desde que as condições fossem aceitáveis. Esclareceu-me que não era possível a empresa me indemnizar, devido às dificuldades financeiras, ao que respondi (delicadamente) que da minha parte, também não era possível andar a fazer favores desses. E lá continuei entre o arquivo e um gabinete interior, sombrio e desabitado, a pesquisar papéis velhos. Ninguém me chateava, se não fosse pelo burlesco da situação, quase podia dizer que nunca estivera melhor!
No mesmo dia, o Camilo também foi convidado a despedir-se e a resposta foi a mesma, só que mais à bruta, não fosse o Camilo um bocado destravado de língua.
O terceiro e último dos funcionários da Empresa de Lacticínios Âncora a ser convidado a “dar de frosques” foi o dr. Patrick Keating que apesar da idade, já tinha setenta e tais, sabia muito bem pôr o dedo na ferida, apontar em voz alta e português correcto, onde estavam os erros e quem eram os culpados daquelas aflições.
Aparentemente seriam estes os três funcionários, que estavam a levar a fábrica à ruína. Não só parecia anedota, como era uma verdadeira anedota.
Três dos funcionários que mais tinham lutado, sem desprimor para muitos outros, contra o estado de decadência da empresa, que analisavam e apontavam com imparcialidade as deficiências de funcionamento, eram agora, ou melhor, queriam que fossem o bode expiatório, a desculpa de mal pagador. Ainda não disse que o dr. Patrick foi o criador do queijo Serra D`Arga, o produto com mais sucesso da Empresa e que dava mais dinheiro, excepto quando era mal fabricado e vinha devolvido às toneladas.
 
 
Foi por esses dias que rebentou outro escândalo que virou tudo de pernas para o ar. Soube-se que havia um conjunto de funcionários que estavam, há muito, a trabalhar na sombra para fundar outra empresa.
Aqueles que eram bestiais, passaram a bestas, do dia para a noite. Os sentimentos eram contraditórios e chocavam entre si. Uns estavam indignados com a traição dos colegas, outros estavam lixados com a descoberta (da traição) e de se lhes acabar a "mama", outros estavam indiferentes ou simplesmente divertidos. Eu era dos indiferentes, até porque já tinha fortes suspeitas, praticamente certezas. Não estão a perceber? Vamos por partes!
Quem fez rebentar a “bomba” foi o Elias Presa; descobriu que havia uma quantidade de gajos, capitaneados pelo António Dias, um fulano que trabalhava na contabilidade, que estariam a preparar o terreno para abrir uma nova empresa de lacticínios, com o apoio do sogro desse “comandante”, um tipo qualquer de Porto Rico, Honduras ou desses lados. É pá, não me perguntem de onde veio a massa, já agora!
Quem estava na jogada era o Manuel de Sousa, o Armindo e o Vítor, todos do departamento comercial, mais meia dúzia de elementos, escolhidos a dedo em diversos sectores, desde motoristas a técnicos de fabrico, técnicos de manutenção e até uma engenheira da qualidade.
 
Eu tinha sido alertado, algumas semanas antes, pelo Natalino Ramos, um grande cliente de Moreira de Cónegos, perto de Guimarães, que tinha um apartamento de férias na Av. Ramos Pereira, a cinquenta metros da minha casa; num fim-de-semana que ele veio passar a Âncora, encontrou-me e às tantas, no meio da conversa, disse-me que tinha sido sondado, em grande segredo, pelo ainda director comercial da Âncora, para comercializar os novos iogurtes e demais produtos que iriam ter.
Por sua vez, o Camilo também tinha sido contactado por um cliente amigo, o Domingos Silva, de Guimarães, com a mesma conversa. Ligar as pontas da história e montar o filme, foi apenas um instante e nisso éramos bons. Só não conhecíamos a extensão da equipa…
Aí é que começamos a compreender os cuidados que tiveram para nos afastar da zona do Minho, de nos empurrar para longe, na tentativa de nos afastar da manobra traiçoeira que preparavam, enquanto funcionários da Âncora. Tudo isso, enquanto a gerência dormia o sono dos justos… e dos nabos!
 
Reúne a Assembleia-geral dos sócios, decidem contratar um gestor com experiência na recuperação de empresas em situação difícil, o sr. Mendes Carvalho, que fumava cigarrilhas turcas, uma pestilência e um horror quando tínhamos de ir ao seu gabinete, devido ao “smog” que lá pairava. O novo gestor não foi em cantigas e cortou a direito, nomeadamente nos privilégios dos antigos gerentes e outros directores. O homem era duro e sabia onde actuar.
Entretanto, depois da barraca ter sido descoberta, todos os envolvidos pediram a demissão, o que causou mais uma grave perturbação, principalmente a nível comercial, já que o Camilo também se tinha despedido, para ir tratar de vida noutro lado.
De repente fiquei eu e o César sozinhos! O Mendes Carvalho nunca tinha falado comigo sobre o serviço e eu também estava mudo e quedo. Uma tarde apanhou-me na sala de convívio a tomar um café, ele também tirou um da máquina, virou-se e perguntou-me de chofre o que se passava na fabrica, porque é que um tipo como eu, que tinha o cargo de adjunto do director comercial, estava a escarafunchar no arquivo e nas teias de aranha.
E eu contei, contei o que sabia, expus o que pensava, contei a minha verdade. Contei-lhe a minha versão da verdade. Ele ouviu, fumou mais uma “broca”, no final disse-me que a partir daquele momento, só responderia perante ele e que podia continuar tranquilamente a fazer o serviço que me tinham destinado.
 
Um ou dois dias depois, pediu-me para ir ao gabinete do Francisco Presa e os dois convidaram-me para assumir o cargo de director comercial da Empresa de Lacticínios Âncora.
Eu aceitei, como a advertência de ter intenção de me por a andar brevemente, o que aconteceu ao fim de pouco mais de um mês. Por isso meus amigos, não se preocupem quando passarem de bestiais a bestas, porque mais tarde ou mais cedo, voltam a ser bestiais.
Fiz asneira e hoje lamento não ter ficado na Âncora até ao seu encerramento, também por motivos financeiros, mas principalmente porque gostei de trabalhar, embora pouco tempo, com um individuo que fazia gestão em tempo real, que não perdia tempo com reuniões de treta, que aceitava a opinião dos que estavam por dentro e que acima de tudo era rigoroso com os objectivos. Tudo o que os anteriores não tinham sido!
 
A minha história na Empresa de Lacticínios Âncora termina aqui. A empresa encerrou pouco mais de um ano depois, abriu falência, foi a leilão, foi esventrada, apareceram uns espanhóis, que tem aproveitado a fabrica, mais para entreposto, do que propriamente para produzir. Trabalham lá meia dúzia de pessoas, a maior parte delas sem vínculo laboral de espécie alguma. Nem sequer uma sombra da antiga, prestigiada e lucrativa fabrica de outrora.
Não saí zangado com ninguém, mas saí triste, triste por ter razão e não ter sido escutado, triste por ter sido injustiçado e até maltratado com base em mentiras, triste por ver acabar, sem brilho, nem glória, uma fabrica com mais de cinquenta anos de vida, uma fábrica que representou, para muitos, a própria vida. Eu só lá deixei dez anos!
publicado por Brito Ribeiro às 17:47
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