Com a denominação de “Sociedade de Instrução e Desporto Ancorense”, após uma reunião magna efetuada a 21 de junho de 1925, apresentou-se um projeto de estatutos que viriam a ser aprovados, quase três anos depois, em janeiro de 1928 pelo Governo Civil de Viana do Castelo. A primeira designação desta nova associação teria sido “Sociedade de Instrução e Desporto”, mas foi necessário ser mais específico na localização, por isso é acrescentado o “Ancorense”.

Prédio onde funcionou a Assembleia Ancorense e a Sociedade, esta do lado direito da foto
A finalidade desta associação, que doravante designarei por SIDA, era a instrução e recreio dos sócios, como refere o artigo 1º dos Estatutos.
Para atingir esse fim a associação:
1º - Criará diferentes secções onde serão ministrados aos sócios conhecimentos da sua especialidade;
2º - Essas secções serão de cultura física, música e instrução geral;
3º - Junto a essa secção será criada uma biblioteca onde haverá livros, de preferência, da sua especialidade;
4º - Haverá também uma sala de jogos lícitos e bilhar para recreio dos sócios;
A sua primeira direção era composta por José da Silva Moura, presidente; Gastão Portela, vice-presidente; Arnaldo Pereira Rego, tesoureiro; Elias Gonçalves Presa, 1º secretário; Emídio Sebastião Domingues, 2º secretário.
No início a atividade recreativa foi a que motivou maior entusiasmo na Sociedade, sobretudo a que se relaciona com a organização de bailes e festas, mas rapidamente se organizam secções desportivas e culturais que muito contribuíram para a notoriedade da coletividade.

Equipa de futebol da SIDA - 1949
Em janeiro de 1926 arrancou a secção desportiva com a organização de uma equipa de futebol. Os responsáveis pela secção eram os associados Carlos Viana, Amílcar Lopes Moura e Gastão Portela. Apesar das dificuldades e da falta de recursos estes atletas deslocavam-se a povoações próximas, geralmente de comboio, para realizar os jogos “fora”. Em “casa”, provavelmente usariam o campo de futebol das Águas Férreas, mas era possível que também usassem o Campo do Castelo, isto porque, à época, já existiam diversas equipas locais a competir.

Equipa de futebol SIDA - cerca de 1950
Recorde-se que o Campeonato de Portugal em futebol começou a realizar-se na temporada 1921-1922, o que deu grande impulso a este desporto e à proliferação de equipas amadoras.

Equipa de futebol da SIDA - 1952
A 7 de março de 1931 foi decidido organizar um grupo dramático para realizar espetáculos e assim angariar fundos para a SIDA. Os responsáveis desta secção eram Francisco Nunes da Silva, Elias Presa, Edmundo Presa, Gaspar Sotto Mayor, Jorge Meira, Artur Domingues, Augusto Martins dos Santos e Justino Botão.
De imediato, decidiram levar a cena a comédia em três atos “A situação complicada” com os seguintes personagens: Elias Presa, Gaspar Sotto Mayor, Sebastião Mateus, Jorge Meira, Francisco Silva, Ludovina Seixas e Ana Lima. Edmundo Presa era o ponto. Além desta peça, estavam incluídos no programa números de variedades como coros, monólogos, declamações, duetos e canções, acompanhadas por uma orquestra formada por José Fernandes Fão, António Chapela e Artur Domingues.
Ainda nesse ano, nova peça dramática foi levada a cena no Teatro Ancorense, desta vez “O Judeu” com encenação de Artur Presa.

Publicidade a espetaculo do Grupo Cénico da SIDA, no Teatro Ancorense - 1937
Após a compra de um piano ao dr. Jaime de Magalhães, a secção de arte dramática ganhou ainda mais projeção e, em 15 de agosto de 1932, apresentou uma opereta e um espetáculo de variedades com o seguinte elenco: Geraldina Pereira, Maria Alves da Costa, Rosa Alves da Costa, Tobias Esteves, Artur Domingues, Adélio Luís, Sidónio da Silva, António Cerqueira e Engrácia Gandres Meira, sendo ensaiador Artur Presa. A opereta recebeu os maiores elogios, não só dos Ancorenses como de todos os banhistas que por cá estavam a banhos.

Excursão a Coimbra - 1935
Toda esta atividade levou a que na Assembleia Geral de fevereiro de 1933 se organizasse o Grupo Musical constituído por Joaquim Ramos Júnior, Mário Pinho e Tobias Esteves, que foram encarregues de elaborar o respetivo regulamento interno do grupo, que ficou responsável por tocar todos os domingos durante a época balnear, o que prova o interesse já manifestado pela direção da SIDA em proporcionar aos banhistas uma animação variada.

Grupo musical da SIDA - 1939 - Valentim do Calaco, David Rocha, Cesário Lagido, Carlos Amorim das Pereiras, Vasco Moreira, Alberto Campelo do Zé da Linha e Nuno Presa
Mas a direção e os associados tinham outras preocupações, designadamente com a assistência médica, numa época em que o Estado não assegurava praticamente nada nessa área e os poucos recursos existentes estavam geralmente nas mãos das Misericórdias.
Em 26 de abril de 1934 era criada a secção de Assistência Médica a Sócios. O médico contratado foi o dr. Rocha e Sá tendo-se acordado que as visitas domiciliárias custavam 10$00; as consultas dentro do horário do consultório seriam gratuitas; em caso de intervenção cirúrgica a SIDA pagaria a consulta, mas não a intervenção; qualquer chamada de urgência feita durante a noite a SIDA pagaria o dobro ao clínico que se comprometia a comparecer sempre que chamado.

Convite para a inauguração do novo estandarte da SIDA
Em abril de 1937 é entregue à direção o estandarte da SIDA bordado a ouro com a presença de individualidades, coletividades locais e de localidades próximas. Este estandarte foi bordado por Angelina Presa, esposa de Edmundo Presa, que foi durante muitos anos um dos mais assíduos e entusiastas colaboradores da SIDA.
Nesse dia o presidente Cesar Rodrigues de Oliveira informa que vai começar a funcionar uma biblioteca “para alimento espiritual dos sócios” bem como uma aula de ginástica e uma secção náutica.
A Comissão Administrativa que iniciou funções em junho de 1939, composta por Francisco Presa (presidente), Adérito Moreira (tesoureiro), Constantino Rodrigues (secretário), nomeou como diretores das secções: Secção Musical, Nuno Presa; Secção Desportiva, José Pinheiro Júnior; Secção Cénica e Recreativa, Gregório Presa; Secção Excursionista, Evaristo Presa.
Em outubro de 1940 era criada a secção de tiro ao alvo tendo-se adquirido uma espingarda e três meses depois nova secção, a de Beneficência, para dar apoio às famílias mais necessitadas, não só no Natal, mas ao longo do ano.
Ao longo desta década as atas e os relatórios relatam os melhores êxitos, conseguidos com o esforço dos dirigentes e de muitos associados que colaboravam nas iniciativas.

Outro grupo excursionista da SIDA
Na década seguinte aconteceu o contrário e a equipa de futebol desapareceu por falta de interesse dos sócios e dos fracos resultados desportivos; na secção de beneficência nada se fez e na dramática, por falta de raparigas para o teatro, deixou de haver apresentação de peças.

Grupo de raparigas vestidas com o equipamento da equipa de futebol da SIDA, branco e vermelho - Carnaval de 1953
Porém, nem tudo corria mal, pois foi com as instalações da sede que as direções mais se preocuparam, contraindo até um empréstimo junto do Banco Nacional Ultramarino, assim como ao sócio Joaquim Mourão para os trabalhos de demolição de paredes e ampliação do salão de festas, empreitada a cargo do construtor Ancorense Álvaro Loureiro.
Em janeiro de 1959 na secção Cultural e Dramática, forma-se um coral misto sob a regência do padre José Pereira Lima, que efetuou diversos espetáculos que foram êxitos artísticos e de bilheteira.

Primeira atuação do orfeão da SIDA em 1958
Na década de 60 há uma melhoria geral da atividade nas diversas secções. Em fevereiro de 1960 eram diretores das secções: Excursionista, Daniel Pereira, Joaquim Pinheiro e Fernando Loureiro; Desporto, Jorge Moreira, Alfredo Mourão e Fernando Martins; Cultural, Leones Miranda e Indaleto Rego; Orfeão, padre Lima.
Organizou-se uma campanha de recolha de livros para a biblioteca e elaborou-se o programa das Comemorações Henriquinas em colaboração com outras coletividades locais.
Em março de 1961 dá-se uma cisão na secção cultural, que à época tinha como diretor Ludgero Rego, motivada pela incompatibilidade entre os ensaios do orfeão três vezes por semana, e o impedimento dos sócios frequentarem a sede nesses dias para não perturbarem o trabalho dos orfeonistas. A direção aceitou a saída do orfeão, que em 1963 se constituiu como uma associação cultural autónoma.

Classe de Karaté - 1976
Na década de setenta a atividade da SIDA esteve mais vocacionada para o aspeto lúdico e desportivo, com bailes de Carnaval e verão, excursionismo, torneios de ténis de mesa e aulas de karaté.

Entrega de prémios do torneio de Ping Pong - cerca de 1968

Conjunto musical A'tmos 70 no palco do salão de festas da SIDA
Na década seguinte a SIDA manteve em funcionamento a sua sede, que abria todos as noites para os sócios verem televisão, jogar as cartas ou dominó, jogarem bilhar, ping-pong ou simplesmente beberem café e conversarem um pouco.

Joaquim Barreiros (Joaquinzinho) e Ezequiel no palco do salão de festas da SIDA
Os bailes continuavam a ser o ponto alto da mobilização dos associados, mas as condições do edifício sede degradaram-se ao ponto de ser inviável, até por questões de segurança, continuar com a sede aberta ou fazer qualquer tipo de atividade.
O desinteresse dos sócios também pesou, e a “Sociedade de Instrução e Desporto Ancorense” fechou portas nos primeiros anos da década de noventa, para nunca mais abrir.
Fontes: Apontamentos de Francisco Sampaio, "O que se via e ouvia ao balcão do Portela" de Paulo Barreto, Rafael Capela.