Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

20
Jan 26

Nasceu em Mirandela em 1904, filho de um juiz do Supremo Tribunal de Justiça, João Baptista da Silva e de Isménia Augusta Mesquita da Silva. Frequentou os três primeiros anos do Ensino Primário em Mirandela e o último ano na cidade de Chaves. 

Fez o Ensino Secundário no Liceu Alexandre Herculano no Porto e mais tarde matriculou-se  na Faculdade de Engenharia do Porto completando os três primeiros anos. 

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Dr. Artur Mesquita da Silva em 1933

Verificando que essa não seria a sua vocação, inscreve-se na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto licenciando-se em 1932 com 28 anos de idade.

Foi assistente de ortopedia no Hospital de Santo António no Porto, por convite do seu diretor, Professor Doutor Carlos Lima.

Casou-se em 1932, aos 28 anos de idade com Olinda Augusta Pinheiro de Oliveira (22-05-1910 / 11-05-2013). Do matrimónio nasceram 4 filhos: Fernando Artur (já falecido), Maria Leonor ( já falecida), Maria Teresa e Nuno Manuel.

Pouco depois do casamento, equaciona ir trabalhar para a Diamang em Angola, mas decide aceitar o convite para dirigir o Sanatório Marítimo da Gelfa em 1933. Veio residir para Vila Praia de Âncora onde também começou a exercer clínica privada. 

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Quando o Sanatório foi transformado em Centro Psiquiátrico continuou à frente dos destinos desta instituição. Manteve este cargo de 1933 até 1976, altura em que se reformou por doença.

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No Sanatório, acompanhado do Dr. João Araujo e de vários doentes

Desde que abriu consultório, apoiou gratuitamente os elementos da GNR e os funcionários dos CTT locais. Dava consultas bissemanais gratuitas no Dispensário Antituberculoso de Viana do Castelo. Desde a implantação da Casa do Povo de Afife e da Casa dos Pescadores de Vila Praia de Âncora deu apoio gratuito a estas instituições[1].

Foi médico anestesista no Hospital de Caminha onde trabalhou com o Dr. Luís Guerreiro. Trabalhou no Pavilhão Cirúrgico de Viana do Castelo com o cirurgião Dr. José Maria Carvalho. Foi Director Clínico do Hospital da Misericórdia de Viana do Castelo.

Teve um papel importante na assistência às populações do Vale do Âncora durante a epidemia de febre tifoide, tendo ele próprio contraído a doença que quase o vitimava.

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Homenagem ao Dr. Mesquita após a sua convalescencia da febre tifoide

Foi presidente da direção dos Bombeiros de Vila Praia de Âncora durante cinco mandatos[2] e presidente da Assembleia Geral da mesma associação durante nove mandatos[3].

Foi um dos maiores impulsionadores da construção do cineteatro e foi o primeiro presidente da AG do Clube Ancorense de Pesca e Caça em 1951.

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Dr. Mesquita acompanhados dos seus cães setter (Pomba) e perdigueiro português (Tomi) em Vale de Juncal

Foi um excelente nadador tendo sido Campeão Nacional de Water Polo pelo Futebol Clube do Porto. Efectuou diversas travessias a nado do Rio Douro, entre o Arieiro e a Foz do Douro. Pertenceu ao Orfeon do Porto e à Tuna do Porto onde cantava e tocava cavaquinho.

Era um caçador apaixonado, sendo o Setter inglês o cão predilecto nas suas jornadas de caça.

Faleceu em 1980 e está sepultado no cemitério de Vila Praia de Âncora.

[1] Nestas duas instituições, quando o serviço médico passou a remunerado e foi a concurso o Dr. Mesquita da Silva foi preterido sem motivo plausível.

[2] 1939-1940, 1942-1947

[3] 1951-1963

Fontes: "Os Médicos do Centenário" de Dr. Rui Taxa Araújo

 

publicado por Brito Ribeiro às 17:07

13
Jan 26

Com a denominação de “Sociedade de Instrução e Desporto Ancorense”, após uma reunião magna efetuada a 21 de junho de 1925, apresentou-se um projeto de estatutos que viriam a ser aprovados, quase três anos depois, em janeiro de 1928 pelo Governo Civil de Viana do Castelo. A primeira designação desta nova associação teria sido “Sociedade de Instrução e Desporto”, mas foi necessário ser mais específico na localização, por isso é acrescentado o “Ancorense”.

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Prédio onde funcionou a Assembleia Ancorense e a Sociedade, esta do lado direito da foto

A finalidade desta associação, que doravante designarei por SIDA, era a instrução e recreio dos sócios, como refere o artigo 1º dos Estatutos.

Para atingir esse fim a associação:

1º - Criará diferentes secções onde serão ministrados aos sócios conhecimentos da sua especialidade;

2º - Essas secções serão de cultura física, música e instrução geral;

3º - Junto a essa secção será criada uma biblioteca onde haverá livros, de preferência, da sua especialidade;

4º - Haverá também uma sala de jogos lícitos e bilhar para recreio dos sócios;

A sua primeira direção era composta por José da Silva Moura, presidente; Gastão Portela, vice-presidente; Arnaldo Pereira Rego, tesoureiro; Elias Gonçalves Presa, 1º secretário; Emídio Sebastião Domingues, 2º secretário.

No início a atividade recreativa foi a que motivou maior entusiasmo na Sociedade, sobretudo a que se relaciona com a organização de bailes e festas, mas rapidamente se organizam secções desportivas e culturais que muito contribuíram para a notoriedade da coletividade.

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Equipa de futebol da SIDA - 1949

Em janeiro de 1926 arrancou a secção desportiva com a organização de uma equipa de futebol. Os responsáveis pela secção eram os associados Carlos Viana, Amílcar Lopes Moura e Gastão Portela. Apesar das dificuldades e da falta de recursos estes atletas deslocavam-se a povoações próximas, geralmente de comboio, para realizar os jogos “fora”. Em “casa”, provavelmente usariam o campo de futebol das Águas Férreas, mas era possível que também usassem o Campo do Castelo, isto porque, à época, já existiam diversas equipas locais a competir.

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Equipa de futebol SIDA - cerca de 1950

Recorde-se que o Campeonato de Portugal em futebol começou a realizar-se na temporada 1921-1922, o que deu grande impulso a este desporto e à proliferação de equipas amadoras.

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Equipa de futebol da SIDA - 1952

A 7 de março de 1931 foi decidido organizar um grupo dramático para realizar espetáculos e assim angariar fundos para a SIDA. Os responsáveis desta secção eram Francisco Nunes da Silva, Elias Presa, Edmundo Presa, Gaspar Sotto Mayor, Jorge Meira, Artur Domingues, Augusto Martins dos Santos e Justino Botão.

De imediato, decidiram levar a cena a comédia em três atos “A situação complicada” com os seguintes personagens: Elias Presa, Gaspar Sotto Mayor, Sebastião Mateus, Jorge Meira, Francisco Silva, Ludovina Seixas e Ana Lima. Edmundo Presa era o ponto. Além desta peça, estavam incluídos no programa números de variedades como coros, monólogos, declamações, duetos e canções, acompanhadas por uma orquestra formada por José Fernandes Fão, António Chapela e Artur Domingues.

Ainda nesse ano, nova peça dramática foi levada a cena no Teatro Ancorense, desta vez “O Judeu” com encenação de Artur Presa.

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Publicidade a espetaculo do Grupo Cénico da SIDA, no Teatro Ancorense - 1937

Após a compra de um piano ao dr. Jaime de Magalhães, a secção de arte dramática ganhou ainda mais projeção e, em 15 de agosto de 1932, apresentou uma opereta e um espetáculo de variedades com o seguinte elenco: Geraldina Pereira, Maria Alves da Costa, Rosa Alves da Costa, Tobias Esteves, Artur Domingues, Adélio Luís, Sidónio da Silva, António Cerqueira e Engrácia Gandres Meira, sendo ensaiador Artur Presa. A opereta recebeu os maiores elogios, não só dos Ancorenses como de todos os banhistas que por cá estavam a banhos.

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Excursão a Coimbra - 1935

Toda esta atividade levou a que na Assembleia Geral de fevereiro de 1933 se organizasse o Grupo Musical constituído por Joaquim Ramos Júnior, Mário Pinho e Tobias Esteves, que foram encarregues de elaborar o respetivo regulamento interno do grupo, que ficou responsável por tocar todos os domingos durante a época balnear, o que prova o interesse já manifestado pela direção da SIDA em proporcionar aos banhistas uma animação variada.

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Grupo musical da SIDA - 1939 - Valentim do Calaco, David Rocha, Cesário Lagido, Carlos Amorim das Pereiras, Vasco Moreira, Alberto Campelo do Zé da Linha e Nuno Presa

Mas a direção e os associados tinham outras preocupações, designadamente com a assistência médica, numa época em que o Estado não assegurava praticamente nada nessa área e os poucos recursos existentes estavam geralmente nas mãos das Misericórdias.

Em 26 de abril de 1934 era criada a secção de Assistência Médica a Sócios. O médico contratado foi o dr. Rocha e Sá tendo-se acordado que as visitas domiciliárias custavam 10$00; as consultas dentro do horário do consultório seriam gratuitas; em caso de intervenção cirúrgica a SIDA pagaria a consulta, mas não a intervenção; qualquer chamada de urgência feita durante a noite a SIDA pagaria o dobro ao clínico que se comprometia a comparecer sempre que chamado.

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Convite para a inauguração do novo estandarte da SIDA

Em abril de 1937 é entregue à direção o estandarte da SIDA bordado a ouro com a presença de individualidades, coletividades locais e de localidades próximas. Este estandarte foi bordado por Angelina Presa, esposa de Edmundo Presa, que foi durante muitos anos um dos mais assíduos e entusiastas colaboradores da SIDA.

Nesse dia o presidente Cesar Rodrigues de Oliveira informa que vai começar a funcionar uma biblioteca “para alimento espiritual dos sócios” bem como uma aula de ginástica e uma secção náutica.

A Comissão Administrativa que iniciou funções em junho de 1939, composta por Francisco Presa (presidente), Adérito Moreira (tesoureiro), Constantino Rodrigues (secretário), nomeou como diretores das secções: Secção Musical, Nuno Presa; Secção Desportiva, José Pinheiro Júnior; Secção Cénica e Recreativa, Gregório Presa; Secção Excursionista, Evaristo Presa.

Em outubro de 1940 era criada a secção de tiro ao alvo tendo-se adquirido uma espingarda e três meses depois nova secção, a de Beneficência, para dar apoio às famílias mais necessitadas, não só no Natal, mas ao longo do ano.

Ao longo desta década as atas e os relatórios relatam os melhores êxitos, conseguidos com o esforço dos dirigentes e de muitos associados que colaboravam nas iniciativas.

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Outro grupo excursionista da SIDA

Na década seguinte aconteceu o contrário e a equipa de futebol desapareceu por falta de interesse dos sócios e dos fracos resultados desportivos; na secção de beneficência nada se fez e na dramática, por falta de raparigas para o teatro, deixou de haver apresentação de peças.

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Grupo de raparigas vestidas com o equipamento da equipa de futebol da SIDA, branco e vermelho - Carnaval de 1953

Porém, nem tudo corria mal, pois foi com as instalações da sede que as direções mais se preocuparam, contraindo até um empréstimo junto do Banco Nacional Ultramarino, assim como ao sócio Joaquim Mourão para os trabalhos de demolição de paredes e ampliação do salão de festas, empreitada a cargo do construtor Ancorense Álvaro Loureiro.

Em janeiro de 1959 na secção Cultural e Dramática, forma-se um coral misto sob a regência do padre José Pereira Lima, que efetuou diversos espetáculos que foram êxitos artísticos e de bilheteira.

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Primeira atuação do orfeão da SIDA em 1958 

Na década de 60 há uma melhoria geral da atividade nas diversas secções. Em fevereiro de 1960 eram diretores das secções: Excursionista, Daniel Pereira, Joaquim Pinheiro e Fernando Loureiro; Desporto, Jorge Moreira, Alfredo Mourão e Fernando Martins; Cultural, Leones Miranda e Indaleto Rego; Orfeão, padre Lima.

Organizou-se uma campanha de recolha de livros para a biblioteca e elaborou-se o programa das Comemorações Henriquinas em colaboração com outras coletividades locais.

Em março de 1961 dá-se uma cisão na secção cultural, que à época tinha como diretor Ludgero Rego, motivada pela incompatibilidade entre os ensaios do orfeão três vezes por semana, e o impedimento dos sócios frequentarem a sede nesses dias para não perturbarem o trabalho dos orfeonistas. A direção aceitou a saída do orfeão, que em 1963 se constituiu como uma associação cultural autónoma.

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Classe de Karaté - 1976

Na década de setenta a atividade da SIDA esteve mais vocacionada para o aspeto lúdico e desportivo, com bailes de Carnaval e verão, excursionismo, torneios de ténis de mesa e aulas de karaté.

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Entrega de prémios do torneio de Ping Pong - cerca de 1968

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Conjunto musical A'tmos 70 no palco do salão de festas da SIDA

Na década seguinte a SIDA manteve em funcionamento a sua sede, que abria todos as noites para os sócios verem televisão, jogar as cartas ou dominó, jogarem bilhar, ping-pong ou simplesmente beberem café e conversarem um pouco.

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Joaquim Barreiros (Joaquinzinho) e Ezequiel no palco do salão de festas da SIDA

Os bailes continuavam a ser o ponto alto da mobilização dos associados, mas as condições do edifício sede degradaram-se ao ponto de ser inviável, até por questões de segurança, continuar com a sede aberta ou fazer qualquer tipo de atividade.

O desinteresse dos sócios também pesou, e a “Sociedade de Instrução e Desporto Ancorense” fechou portas nos primeiros anos da década de noventa, para nunca mais abrir.

Fontes: Apontamentos de Francisco Sampaio, "O que se via e ouvia ao balcão do Portela" de Paulo Barreto, Rafael Capela.

publicado por Brito Ribeiro às 15:56

03
Jan 26

Da autoria do historiador guardês José António Uris Guisantes a descrição do fim trágico desta embarcação construida nos estaleiros de Samposancos, no estuário do Rio Minho.

"26 de outubro de 1926, naufraxio do pailebot  “RÍO MIÑO”, construído en madeira nos asteleiros de "Candeira Hnos" en  A Pasaxe de Camposancos polo mestre carpinteiro de ribeira Joaquín Martins Moreira, natural de Portugal e veciño de A Guarda.

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O Rio Miño em construção - 1917 - Foto de  Mariano Jiménez Hueto

En ABC do 26 de outubro de 1926 comunicaran desde San Lucar (Cádiz) que foran recollidos os tripulantes náufragos do "Río Miño" , buque que quedou desfeito na barra, fronte a Torre Carbonera, salvándose a nado todos os tripulantes que foron auxiliados na costa por carabineiros ao mando do cabo José González Callejón.

Os tripulantes eran: patrón, José González Varela (patrón), José González Castro, José Costa Lista, Ramón e José Chauch Costa e Juan Cousillas Monteavaro, todos eles de Corme (A Coruña).

O buque transportaba tella dende Villajoyosa (Slicante) a Vigo.

Foi sorprendido o día anterior por un forte temporal a altura do Cabo Santa María, tentando entrar no porto de Cádiz pero o buque quedou sen arboradura polo que de seguido naufragou.

O Río Miño tiña unha eslora de 28’45 metros, 7’85 metros de puntal, 2’90 metros de puntal, e 144 toneladas de rexistro bruto, foi botado o cinco de maio de 1919.

Este buque fora encargado por don Antolín Silva Vicente (75%) e a firma Nandín Vicente y Cía (25%).

O  23 de febreiro de 1923 don Antolín vendera súas accións a Nandín Vicente y Cía, pero a estas alturas de 1926 o "Río Miño" fora vendido a outros industriais, sendo a tripulación de Corme."

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 16:17
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01
Jan 26

Francisco José Torres Sampaio nasceu em Barcelos a 7 de junho de 1937, passando a residir com a família em Afife durante a infância e juventude. Estudou no seminário, tendo abandonado os estudos eclesiásticos para casar.

Mais tarde, licenciou-se em Ciências Históricas pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, obtendo uma pós-graduação em Programa de Direção de Empresas, pelo Instituto de Estudos Superiores da Empresa.

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Trabalhou no Centro de Saúde Mental em Viana do Castelo e entre 1973 a 1979 presidiu à Junta de Turismo de Vila Praia de Âncora, no concelho de Caminha, onde residia. Foi fundador e presidente da Região de Turismo do Alto Minho, sendo considerado uma referência do turismo da região do Alto Minho e uma das maiores figuras do turismo de Portugal.

Esteve na presidência desta instituição desde 1980 até se reformar em 2009, defendendo a instalação da sede no Castelo Santiago da Barra, onde também está instalada desde 2007 a Escola de Turismo e Hotelaria.

Também conhecido por “Senhor Turismo”, foi docente do ensino secundário e membro da Comissão Instaladora da Escola Superior de Tecnologia e Gestão (ESTG) do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, onde foi professor e coordenador do curso superior de Turismo, assim como presidente do Conselho Pedagógico, entre 1993 e 2000.

Foi fundador da Confraria dos Gastrónomos do Minho, da qual foi juiz entre 1984 e 2012, tendo, neste âmbito, sido responsável pela organização de uma quinzena de Congressos de Gastronomia, assumindo a publicação de diversas obras no âmbito da Gastronomia e Vinhos, produto turístico reconhecido em 2007, em grande medida pelo trabalho que desenvolveu.

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Foi o principal impulsionador da aproximação estratégica do Alto Minho à Galiza, desenvolvendo de um e outro lado da fronteira múltiplas iniciativas, no âmbito da cultura luso galaica.

Ao longo de 40 anos colaborou com no planeamento e implementação das Festas da Senhora da Agonia, nas quais se destacava como organizador do Cortejo Histórico e Etnográfico, bem como do guião para a Festa do Traje. Era tido como um dos maiores conhecedores das tradições da Romaria d'Agonia, tendo redigido a Declaração de Interesse para o Turismo da Romaria d'Agonia, aprovada em 2013. Desenvolveu um trabalho semelhante nas Festas da Senhora da Bonança, em Vila Praia de Âncora.

É autor de cerca de 50 livros sobre temas de caráter histórico, arqueológico, turístico, etnográfico e gastronómico, sendo também colaborador de várias publicações do Alto Minho e de centenas de pequenas publicações em jornais e revistas.

Com provas dadas no associativismo, foi diretor artístico e maestro do Grupo Coral do Orfeão de Vila Praia de Âncora, presidente da direção da Associação dos Bombeiros Voluntários de Vila Praia de Âncora, fundador do Lions Clube de Vila Praia de Âncora, presidente da Assembleia Geral do Centro Social e Cultural de Vila Praia de Âncora e presidente da Comissão de Festas de Nossa Senhora da Bonança.

Em 1996, foi condecorado com a Medalha de Mérito Turístico – Grau Prata, da Secretaria de Estado do Turismo. Em 2000, recebeu a Medalha de Ouro ao Mérito Turístico, do Comércio de Pontevedra. Em 2003, foi agraciado com a Medalha de Honra – Grau Prata, da Junta da Galiza, recebendo em 2004 o título de Cidadão de Mérito de Viana do Castelo atribuído pela Câmara Municipal. Em 2005, recebeu a Medalha de Mérito Turístico – Grau Ouro, da Secretaria de Estado de Turismo, e em 2007, a Medalha da Academia Portuguesa de Gastronomia.

Em junho de 2019, o Município de Viana do Castelo atribuiu o nome de Francisco Sampaio à galeria do piso 0 do Museu do Traje.

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Em outubro de 2021, foi homenageado numa cerimónia que contou com a presença dos presidentes da Entidade de Turismo do Porto e Norte (ETPN), da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N) e da Câmara Municipal de Viana do Castelo. Durante a homenagem, foi atribuído o nome de Francisco Sampaio ao Centro de Congressos do Castelo Santiago da Barra, em Viana do Castelo.

Faleceu em 31 de dezembro de 2021.

 

Fontes: Blogue do Minho; Wikipedia; festasdagonia.com

 

publicado por Brito Ribeiro às 17:35

30
Dez 25

A história do Patronato remonta a uma época de fome, os anos 40 do século passado, que assolou as terras do Vale do Âncora e que motivou uma onda de solidariedade entre diversas pessoas criando-se a “Sopa dos Pobres”, que era servida na residência de Adelina Cabrera Rocha (D. Lina), primeiro às crianças das escolas e depois aos restantes, com a ajuda do pessoal da “Acção Católica”, chegando a servir por dia cerca de 400 refeições. 

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Adelina Cabrera Rocha (D. Lina) rodeada de crianças e Irmãs Franciscanas

Os maiores benfeitores desta “Sopa dos Pobres” eram a família Cordeiro Feio, Dr. Teixeira de Queiróz, Carlos Ribeiro da Silva, Padre Amadeu e família Presa. Face ao aumento constante dos utentes e às dimensões da casa, concluiu-se que seriam precisas instalações maiores.

Conseguiu-se a doação de um pequeno terreno, mas era preciso dinheiro para a construção e para outros gastos. O terreno ficou em nome da D. Lina que ofereceu duas libras de ouro para as primeiras despesas.

A construção ia avançando com o trabalho de elementos da “Acção Católica” e alguns operários a quem o Padre Amadeu pagava e dava de comer. Fizeram-se espetáculos e outras iniciativas para angariar fundos.

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Padre Amadeu

O sr. Carlos Cordeiro Feio conseguiu, através do Ministro do Interior um subsídio de 70 contos, destinando-se metade para a construção da “Sopa dos Pobres” e outra metade para a construção de uma cantina escolar. Com esta verba terminaram-se as paredes do edifício, por fora, acabou-se o telhado e fizeram-se pequenas benfeitorias nas instalações sanitárias.

Antes da atribuição deste subsídio, Cordeiro Feio já tinha conseguido dois subsídios de 20 contos cada, por intermédio do Almirante Henrique Tenreiro, em 1947 e 1949, para apoio das despesas da “Sopa dos Pobres”.

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Crianças do Patronato e Irmãs Franciscanas

Com o apoio financeiro da D. Lina instalaram-se as janelas e portas, rebocaram-se as paredes por dentro, cimentou-se a cozinha, forraram-se as paredes do salão de festas e refeitório, aplicou-se mosaico no chão e fez-se a instalação elétrica. A benemérita senhora não queria continuar com a casa em seu nome, por isso ofereceu-a ao Prelado.

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Adelina Cabrera Rocha (D. Lina)

O papel de benemérita da D. Lina não termina aqui, pois ao perceber que escasseavam as ajudas para tratar das crianças e confecionar as refeições, conseguiu mobilizar e atrair à vila um grupo de religiosas (Irmãs Franciscanas da Imaculada Conceição), que se formaram no Patronato para tratar do mesmo e das crianças.

Assim, a Instituição que estava sob a proteção de Nossa Senhora da Bonança, origem do seu nome Patronato Nossa Senhora da Bonança, vê os seus estatutos aprovados em 12 de julho de 1951, pelo Arcebispo Primaz de Braga, D. António Bento Martins Júnior.

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Estatutos do Patronato

Destes estatutos destacamos:

Art. 1º - É fundada na freguesia de Santa Marinha de Vila Praia de Âncora, concelho e arciprestado de Caminha, uma instituição de beneficência e assistência, denominada “Patronato de Nª Sª da Bonança”.

Art. 2º - O Patronato coloca-se sob proteção de Nª Sª da Bonança, padroeira dos pescadores, cuja festa celebrará com toda a piedade e brilho.

Art. 3º - O Patronato tem por fim: Ministrar instrução e educação moral, religiosa, civil, física e profissional às crianças e jovens da freguesia de Vila Praia de Âncora; dar assistência material, na medida do possível, às que forem pobres; auxiliar a todas na sua colocação, quando estiverem devidamente preparadas.

Art. 4º - O Patronato para consecução dos seus fins, poderá criar as secções que lhe forem necessárias; procurará, com a maior perfeição possível, montar os seus serviços de administração e contabilidade, de educação, de instrução, de assistência, de colocação; diligenciará adquirir ou arrendar e mobilar os prédios que forem necessários à conveniente instalação e funcionamento das suas secções e serviços.

Durante muitos anos o Patronato desempenhou as missões para que foi criado – assistência às crianças pobres da freguesia.

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Atividades das crianças em sala

Porém, havendo necessidade urgente de se fazerem obras, em 1977 foi solicitado apoio da Secretaria de Estado da Segurança Social que financiou praticamente todas as obras de restauro do Patronato, transformando-o num prático imóvel onde passou a funcionar o primeiro Jardim-de-infância de Vila Praia de Âncora, fundado pelo Orfeão de Vila Praia de Âncora, que não tinha instalações próprias e adequadas.

Em 1992, o Patronato integrou nos seus quadros o pessoal e as crianças da Creche da Casa dos Pescadores que funcionava num edifício da Quinta da Sobreira, pertencente à Santa Casa da Misericórdia de Caminha, que encerrou as suas instalações na vila.

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Atividades das crianças no recinto exterior

Valeria a pena fazer-se a história da “Sopa dos Pobres” e, sobretudo, dar-se público (re)conhecimento de todos quantos, graciosamente, contribuíram para esta obra, quer em generosos subsídios, quer em dias de trabalho ou géneros, de modo a ficar perpetuado no tempo este magnifico exemplo de solidariedade humana, que foi e será sempre o Patronato de Nª Sª da Bonança.

Fontes: Blogue do Minho; https://patronatobonanca.wixsite.com/patronatovpa; Apontamentos de Francisco Sampaio

 

 

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 16:09

25
Dez 25

Esta atividade agro-marítima remonta certamente ao século XIX e as primeiras informações escritas ocorrem em 1885 pela descrição de Baldaque da Silva no seu livro “O Estado actual das Pescas em Portugal”.

Neste trabalho foco-me apenas na pesca do patelo ou pilado, como lhe queiramos chamar, em Vila Praia de Âncora. Sabemos que existiram formas e métodos diferentes ao longo da costa e dos diversos portos de captura deste pequeno crustáceo, usado para adubar as terras de cultivo.

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A pesca do caranguejo pequeno em cardume, conhecido por pilado, patelo, mexoalho ou escasso para adubação das terras, era em conjunto com a apanha das algas, principalmente o sargaço, uma importante faina que interessava à lavoura, mas que tinha lugar no mar, onde coexistiam aspetos agrícolas e piscatórios muito sugestivos.

Esta atividade agro-marítima, às vezes efetuada por agricultores que desciam ao litoral e usavam pequenas embarcações suas para esta pesca, outras vezes limitando-se a comprar o patelo recolhido por pescadores profissionais que no final do verão, após a safra maior da sardinha, se dedicavam à apanha do patelo.

Era uma arte de arrasto em que, geralmente, se utilizavam duas embarcações, uma maior e outra mais pequena, mas também se arrastava ao patelo apenas com uma masseira. Esses eram os mais pobres de entre os pobres, que utilizavam esta técnica para arrecadar quantidades menores de patelo, mas que, mesmo assim, não deixava de ser um importante contributo para as finanças familiares.

86 - Masseira Senhora da Bonança fundeada no Port

Masseira Ancorense

Estimava-se que um bom lanço daria entre um a um e meio carro de bois de patelo. Acima disso, e não era raro acontecer, seria um lanço excecional. Numa maré, a correr tudo bem, podiam-se fazer dois ou três lanços, regressando a terra as duas embarcações carregadas, onde eram esperadas pelas mulheres que faziam a descarga com cestos à cabeça.

A apanha do patelo faz parte da memória dos mais antigos, que viam as companhas da Póvoa e da Apúlia arribarem ao Portinho d’Âncora nos finais do mês de agosto para a safra, a quem os ancorenses chamavam “camaradinhas” e que amontoavam em pilhas nauseabundas, no Campo do Castelo, o resultado do seu labor, até serem carregados pelos compradores.

Chegavam a juntar-se 30 a 40 embarcações de “camaradinhas” no portinho de Âncora. Estas embarcações eram de “tipo poveiro”, sendo as menores masseiras ou caíques.

46 - Barcos dos camaradinhas descaregam o patelo -

Barcos tipo poveiro dos "camaradinhas" varados no Portinho - 1910

Assim, a companha do pilado era composta, em Âncora, por 6 ou 7 pescadores, 4 ou 5 no barco grande e 2 no barco auxiliar. Se a pesca era boa e o vento estava de feição, em vez de virem descarregar ao portinho de Âncora, navegavam diretamente para as suas terras de origem, regressando após a descarga.

Fernando Galhano[1] descrevia assim a apanha do patelo por volta de 1930:

 

“No dia previsto do regresso, vinham chegando à praia, à espera dos barcos que haviam saído, gentes e carros de bois, grupos de moças com grandes chapéus de palha sobre os lenços garridos e as saias enfaixadas, curtas, mostrando-lhes, até aos joelhos, as pernas fortes e trigueiras… Ao longe os barcos eram pontos que mal se distinguiam. Mas pouco a pouco esses pontos cresceram, as velas enfunadas pela brisa ligeira. Espaçadas umas das outras, as companhas iam-se aproximando de terra, onde já um bulício quebrara o sossego de há pouco. Para junto da água, para o lugar de varadouro dos barcos mais próximos, iam descendo os carros de caniços escuros e bois vermelhos de grandes cornos brancos. E quando aqueles chegavam, tirados para terra os remos, mastros e velas, a descarga começava. E enquanto do seu largo bojo dois homens enchiam cesto após cesto, a massa translucida de corpos e pernas movediças, as mulheres, carregando-os aos ombros, esvaziavam-no no caniço do carro, metido na água até ao eixo, logo ali a par. Quando o barco, mais leve, se podia puxar mais para cima, e se aquietava, o carro avançava, subia um pouco ainda afastando-se dele; e o lidar das moças tornava-se mais vivo, as ancas mais sacudidas, pelo peso. E caindo do alto, escorregando pelas roupas molhadas, patinhando na areia revolvida, os pequenos caranguejos vermelhos escapavam-se em todas as direcções. O caniço era cheio, era o carro levado até ao alto do areal.”

 

Se em tempos mais recuados, os barcos tipo poveiro dos pescadores da Praia d’Âncora, também se dedicavam à apanha do patelo, foram progressivamente deixando de lado esta arte de pesca, substituindo-a pela pesca da lagosta e da pescada. O seu lugar foi, entretanto, ocupado por algumas masseiras que operavam de forma diferente, pois como já foi referido, eram tripuladas por dois ou três homens, o que reduzia a capacidade de arrasto e varredura. Assim, era usado o “arrastão”, um saco de arrasto de menores dimensões, igualmente eficaz, mas sem a rentabilidade dos barcos maiores.

Em Âncora, o patelo era em grande medida pescado por encomenda prévia dos lavradores locais; a venda era ao cesto, em “verde” e, ora era vendido na areia, vindo o lavrador busca-lo à praia, ora era o pescador quem devia levá-lo até ao “campo[2], onde vinham busca-lo os pretendentes, por vezes de muito longe.

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Monte de patelo na areia do Portinho

Saíam muitas camionetas em direção à região de Esposende, Póvoa ou para zonas mais interiores, que carregavam a colheita dos “camaradinhas” e até vagões de comboio, que eram carregados à noite pelas mulheres.

A pesca do patelo não tinha regulamento específico e a melhor quadra era durante o final do verão até outubro, porque no inverno o caranguejo enterra-se na areia e não se pode secar. Em Âncora, as saídas até aos “limpos[3] mais próximos ou de Afife iniciavam-se ao fim da tarde.

Os “camaradinhas” trabalhavam mais fora, nos “limpos” até às “Rodas”, enquanto os pescadores ancorenses, nas masseiras faziam o arrasto nos “limpos” mais perto da costa, entre o “Penedo Redondo” e a “Pedra Nova”.

Chegavam, fundeavam e esperavam que a noite caísse para começar a trabalhar, regressando de madrugada ou manhã dentro, para a descarga e venda do patelo.

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Ilustração de Fernando Galhanos - Rede de arrasto do patelo

Nesta faina, que era desenvolvida principalmente por pescadores externos à comunidade Ancorense, muitas mulheres locais eram contratadas para carregar e transportar a safra até às camionetas ou para as “pilhas” no Campo do Castelo. O relacionamento entre os “camaradinhas” e os pescadores ancorenses era boa, quer pela jorna que davam às mulheres, mas também pelos géneros que ofereciam, pois eles vinham bem abastecidos de batatas, azeite, fruta e vinho.

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"Cacos" perdidos da rede de arrasto que, por vezes, ainda aparecem junto ao mar

Durante o período em que estavam deslocados em Âncora, se viesse mal tempo ou condições impróprias de mar para desenvolver a pesca do patelo, regressavam de comboio às suas terras, deixando os barcos e o equipamento à guarda de pescadores ancorenses, que depois recompensavam com os géneros alimentícios atrás referidos.

A partir de meados da década de cinquenta, estas atividades, por toda a costa portuguesa, foram sucessivamente perdendo importância, encontrando-se hoje totalmente extintas

Quer por escassez do caranguejo, quer porque se encontraram outras formas de enriquecer as terras com adubos químicos, que exigiam com menor esforço de trabalho, a apanha do patelo e o convívio com os “camaradinhas” passaram a ser uma memória da comunidade piscatória de Vila Praia de Âncora.

[1] Fernando Galhano (1904-1990), investigador, ilustrador e etnógrafo português.

[2] Campo do Castelo

[3] Zona com fundo de areia.

Fontes: “Actividades agro-marítimas em Portugal” de Ernesto V. Oliveira, Fernando Galhano e Benjamim Pereira; “A Masseira Ancorense” de Celestino Ribeiro e Brito Ribeiro

publicado por Brito Ribeiro às 17:43

20
Dez 25

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Rafael Francisco Martins Pinheiro (1830-1911)

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Rosa Afonso de Amorim (1841-1921)

Já depois de ter publicado um post sobre esta família, chegaram às minhas mãos duas fotos magníficas do casal Pinheiro e um artigo/obituário do jornal "O Povo", publicado em Viana do Castelo a 10 de setembro de 1911, provavelmente escrito por José Alves de Sousa:

 

"CORRESPONDENCIAS

Âncora, 4

Falleceu ante-hontem e foi sepultado o sr. Raphael Francisco Martins Pinheiro, pae do nosso correligionário e amigo sr. Manoel Thomé Martins Pinheiro, presidente das commissões parochial administrativa e política, d'esta freguesia, e dos nossos amigos Sebastião e José Maria M. Pinheiro.

O veneravel ancião que, durante annos, militou e teve influencia no partido progressista, adheriu ha quatro annos ao partido republicano, enojado, dizia, com os desmandos do regimen extincto. Era um espirito forte, uma envergadura moral pouco vulgar na sua idade e no seu meio, chegando, por vezes, a alentar-nos quando a esperança da redempção da Patria nos fugia. "Tende confiança rapazes, que eu, apesar de velho, ainda a hei de ver". E viu. Não se imagina a alegria e a confiança que se lhe espalhou no rosto, quando soube, em quatro de outubro, do anno passado, que, em Lisboa, o povo e o exercito estavam na praça publica, soltando os primeiros gritos de revolta redemptora. Apenas comentara: Que faz o Porto? Que faz o resto do país? Que fazemos nós? Bello homem! Apesar dos seus oitenta e um annos, ainda queria lançar a sua pedra na grande obra!

A ultima vez que falamos, ainda nos disse:"Agora, o que é preciso é juizo, muito juizo!" Tinha razão, oxalá tenhamos todos... muito juizo!

Descança em paz bom velho!"

 

publicado por Brito Ribeiro às 09:53

18
Dez 25

 Benjamim Enes Pereira nasceu dia de Natal de 1928, no lugar de Montedor, freguesia de Carreço. Foi um antropólogo, etnólogo e museólogo português que contribuiu para o desenvolvimento da antropologia e da museologia em Portugal.

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Benjamim integrou em 1959, a convite de António Jorge Dias, o Centro de Estudos de Etnologia, criado como o primeiro pólo verdadeiramente dedicado à investigação antropológica em Portugal. Passou assim a fazer parte do grupo de excelência que, a partir dos finais da década de 1950, marcou decisivamente a etnografia portuguesa e a antropologia no país. Desse grupo faziam parte Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Margot Dias, que foram responsaveis pela criação do Museu Nacional de Etnologia.

Muda-se para Lisboa em 1963, quando é criado o Centro de Estudos de Antropologia Cultural e do qual Benjamim será um dos membros fundadores ao lado dos restantes membros do grupo liderado por Jorge Dias.

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Embora fosse o único da equipa sem curso, é lhe atribuída a tarefa de organizar a Bibliografia Analítica de Etnografia Portuguesa que será publicada pelo Instituto de Alta Cultura em 1965.

Realiza os seus primeiros filmes etnográficos, em 1960, quando a equipa compra uma máquina de filmar que será utilizada por ele no trabalho de campo para filmar a realidade rural portuguesa e a cultural popular. Esteve directamente envolvido nas filmagens levadas a cabo em Portugal, pelo Instituto do Filme Científico de Göttingen em 1970, onde os filmes realizados eram encarados não como uma forma de expressão mas sim como uma técnica de registo complementar à descrição escrita e fotográfica. Isto reforça a sua ideia de que fotografar e filmar eram importantes, não só para o trabalho de investigação, como para contextualizar aquando da sua exposição em museus e similares.

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Trabalha para o Museu Nacional de Etnologia até se reformar em 2000. Durante todo esse tempo, foi responsável por várias exposições, entre as quais se encontra a dedicada aos Instrumentos Musicais Populares Portugueses. Deve-se também a ele a organização das primeiras reservas que podem ser visitadas e que são conhecidas como Galerias da Vida Rural. É lá que se encontra reunida, a maior parte dos objectos que ele e Ernesto Veiga de Oliveira recolheram de forma sistemática, enquanto estavam no terreno.

Após se ter reformado, Benjamim Pereira coordenou vários projectos na área da museologia. Foi ele quem projectou o Museu da Luz criado com a finalidade de salvaguardar o património da região que ficou submersa após a construção da barragem do Alqueva. O Centro Cultural Raiano (Idanha-a-Nova), o Museu do Traje de Viana do Castelo, o Museu Francisco Tavares Proença Júnior (Castelo Branco) e o Museu do Abade de Baçal, foram outros projectos museológicos em que se envolveu.

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Faleceu a 1 de janeiro de 2020, no Hospital de Viana do Castelo, onde se encontrava internado. Aquando do seu falecimento em 2020, foram várias as entidades que apresentaram publicamente o seu voto de pesar, nomeadamente o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, a Ministra da Cultura Graça Fonseca, a Direcção Geral do Património Cultural (DGCP), o Instituto de História Contemporânea (FCSH), entre outras.

 

Fontes: Blogue do Minho; "Os Caminhos do Benjamim" de Clara Saraiva

publicado por Brito Ribeiro às 12:25

16
Dez 25

O velho Lugar da Rocha em Vila Praia de Âncora foi o berço de uma família que veio a tornar-se muito influente na antiga freguesia de Gontinhães, sobretudo no século XIX até meados do século XX. Referimo-nos aos “Martins Pinheiro”.

No início do século XVII há referencias a estes apelidos. Permanece na memória dos nascidos neste lugar, o nome de um sítio, não muito longe da casa mãe, conhecido por “Lugar das Pinheiras”.

É sobretudo do século XIX, que chegam até nós ecos da atividade desta família. Em 1830, nasce no Lugar da Rocha, Rafael Francisco Martins Pinheiro, popularmente conhecido por “Rafael Ferreiro”. Provavelmente segue a arte do pai Sebastião Martins Pinheiro, vindo a tornar-se um notável forjador.

Em 1868 casa com Rosa Afonso de Amorim, nascendo nove filhos desta união. Três deles morrem em criança, algo comum no final do século XIX, quando a mortalidade infantil era muito elevada.

São trabalhos seus a maioria dos portões metálicos dos cemitérios do Vale do Âncora. O do cemitério de Vila Praia de Âncora não resta dúvida, porque está documentado, tal como o portão vertical da casa/jardim do Dr. Morais Cabral.

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Portão e gradeamento do cemitério de Vila Praia de Âncora

Em 1850 é fundada em Gontinhães uma filarmónica e Rafael Pinheiro integra a banda. Um pouco mais tarde, finais da década de 70 desse século, surgem os ideais republicanos e os partidos políticos que se opunham à monarquia. Rafael Pinheiro é um entusiasta desses movimentos e faz-se militante do PRP – Partido Republicano Português. Os novos ideais entraram no seio da filarmónica, dando origem à dissidência de uma parte dos músicos. Liderada por si, surge em 1886 uma nova banda filarmónica: A Banda Nova. No tempo em que Rafael Pinheiro foi mestre da Banda Nova de Gontinhães ocorreu um atentado à bomba na sua residencia; apesar de fraca potencia ainda provocou alguns estragos no edifício.

Rafael Francisco Martins Pinheiro faleceu em 1911, a tempo de festejar a implantação da República. O jornal vianense “O Povo” no seu número de 10 de setembro de 1911, noticia o seu falecimento.

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Manuel Tomé Martins Pinheiro e família

Manuel Tomé Martins Pinheiro, o filho mais velho, herdou a casa mãe e continuou a trabalhar na forja; no inverno era também produtor de manteiga. Teve com os irmãos Sebastião e José Maria uma sociedade: “Serralharia Mecânica a Vapor Pinheiro & Irmãos” com atividade variada.

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Foi um dos fundadores do Club Recreativo Ancorense em 1906; iniciado na maçonaria em 1913 na “Loja Fraternidade” de Viana do Castelo, foi um dos fundadores da Loja Maçónica Ancorense “A Vedeta do Norte” em 1914.

Também Sebastião Pinheiro e José Maria Pinheiro foram iniciados na maçonaria fazendo parte da “Vedeta do Norte”.

Mais tarde, o irmão mais novo, José Maria Martins Pinheiro, abriu oficina na rua 5 de outubro, no edifício onde, mais tarde, vai funcionar a oficina mecânica “Armando & Rocha” e posteriormente a Caixa Geral de Depósitos.

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Nessas instalações fabricava, entre outros equipamentos de precisão, uma medidora de azeite e petróleo de marca “Âncora” que vendia para o mercado do Alto Minho e Galiza. A marca “Âncora” estava registada e era muito requisitada pelos merceeiros minhotos.

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A abertura desta oficina nos anos trinta de século XX, em termos tecnológicos, constituiu um progresso para Vila Praia de Âncora e levou ao encerramento da forja do irmão Manuel Tomé; os seus dois empregados deixaram a ruralidade do Lugar da Rocha e foram trabalhar para uma oficina, mais moderna, urbana e a pagar melhor.

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Operários à porta da oficina na Rua 5 de Outubro em Vila Praia de Âncora

Como nota de curiosidade, a família Torres de Vilar de Mouros veio por essa época para Vila Praia de Âncora, tendo o sr. Abílio Torres começado a trabalhar nessa empresa, tal como se comprova por uma foto do interior da oficina.

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Interior da oficina em pleno funcionamento

 

Fontes: Testemunho e fotos de Rafael Capela e Paulo Barreto

 

publicado por Brito Ribeiro às 15:34
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14
Nov 25

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António Pedro dispensa apresentações formais. Nasceu em 1909 na cidade da Praia, em Cabo Verde. Cresceu e estudou em várias localidades, entre elas a povoação galega de A Guarda, onde frequentou o Colégio Jesuíta "Instituto Nun' Álvares". Estudou Direito e Letras em Lisboa e Arte e Arqueologia na Sobornne. Na década de trinta, já em Portugal, fundou a "Galeria UP", aderiu ao movimento surrealista, dirigiu a revista "Variante", colaborou com a revista luso brasileira "Atlântico" e com o semanário "Mundo Literário". Em 44 e 45 encontra-se em Londres a trabalhar na BBC como crítico de arte e cronista. Em 1944, devido a um incêndio, perdeu-se a maior parte da sua obra como pintor. Regressado a Portugal abraçou a sua velha paixão, o teatro, sendo director do "Teatro Apolo" em Lisboa e fundando o "Teatro Experimental do Porto". Retirou-se para Moledo do Minho onde residiu até falecer em 1966.

 

Texto de António Pedro, publicado originalmente na revista "Panorama" nº 15 e 16 - julho de 1943

 

CONDIÇÕES TURÍSTICAS DE MOLEDO DO MINHO

Esta deliciosa praia minhota - a que dedicamos neste número um artigo assinado por António Pedro – possui uma Pensão limpa e aceitável. Casas mobiladas para alugar, desde 700$00 a temporada. Agua encanada, luz elétrica, telefone. Dunas magníficas para acampamentos campistas. Ténis. Pesca do robalo, à linha, nos penedos da praia; no rio Minho, salmão, lampreia, sável, e solha à fisga; trutas no Coura. Caça: além do coelho e da perdiz, rolas de passagem, com o leste, no Camarido, patos no Minho, narceja nos juncais do rio Coura, a três quilómetros. Canoa em ambos os rios. Vela e remo no maior, com um estuário de quási dois quilómetros. Caminho-de-ferro. Ainda não insultaram a paisagem com nenhuma «esplanada» de balaústres românticos de cimento armado. Outros informes, dá-os a Comissão de Turismo a quem os pedir.

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"A Praia do Moledo é onde começa Portugal a encontrar-se com o mar. O namoro começa ai.

Na Galiza não há praias. As que há são uma nesga de areia que lá consegue esgueirar-se entre rochedos e onde o mar, de apertado, nem tem espaço para rolar uma onda com jeito.

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O resto é rocha, a pique, empinando-se recortada a todo o longo da costa, e que às vezes parece, do melindre, espuma que se fês preta de velha, ali parada a impedir a brincadeira do mar, às vezes; em moles lisas, sobrepostas e imensas, faz supor que os montes se arrependeram tarde de entrar por ele dentro, e acomodaram a sua beleza, desajeitada e tamanhona, a um contraste que os esfria.

É claro que isto é literatura, e da má, mas aquilo pede literatura. Dizem que parece os fjords. Do que eu conheço, não se parece com nada.

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Depois há o Minho, que é um assombro, mas um assombro suave. Creio que é no rio Minho que se fabrica aquela cor doirada da luz do céu, por estas paragens, mais subtil que nenhuma. A luz entra pelo meio das galhas dos pinheiros e lubrifica-as de sonho, poisa sobre a mata do Camarido e alfombra-lhe os reflexos, entremeia-se nos milhos, desenha as casinhas brancas de Cristelo, na encosta do monte, respira-a a gente, e tudo resulta leve como uma suspeita de alegria.

Sei lá se isto é assim. Sei que não há terra bonita no mundo mais bonita que esta Praia do Moledo que pega na areia da foz do rio e a traz, por uma porção de quilómetros, até aos rochedos de S. Isidoro, uma areia fina, acolhedora e sensível que parece feita para brincar.

Tudo em Moledo é de propósito para ser lindo! A concha da praia, que é enorme, fecha-a pelo Nascente a corda dos montes, que vêm da Serra de Arga, e ali se ajeitam, proporcionados. Ao Norte, a Galiza acaba por um cone de pedra e árvores, como se quisesse ter fechado a fronteira com um monumento natural. É Santa Tecla. Na desembocadura do rio há uma ilha que foi poiso de monges militares, a ínsua, fortaleza maneirinha plantada no meio do mar como num cenário.

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E o mar é verde, azul, espantoso como sempre, até a um horizonte nítido. Moledo é assim. Não precisa de nenhum pitoresco de almanaque folclórico. Chega-lhe o mar, a terra e o céu para não ter inveja de ninguém.

Monte maninho para subir quem quiser desenferrujar as pernas em alpinismo barato, ou de escopeta, para os coelhos e perdizes, na falda do monte, uma aldeia rural com igreja, capela de devoção, cruzeiro de pedra, lindo, as parreiras do e verde t a ensombrar os caminhos pedregosos onde há “alminhas” em nichos junto às dunas da praia, ao longo da estrada nacional, umas dúzias de casas, as dos banhistas, e cerca de uma delas, uma capelinha linda, do século XVII, que foi para ali amorosamente transplantada de uns dez quilómetros de distância uma mata admirável de pinheiros e acácias, o Camarido, para abrigar da nortada ou ir dormir a sesta, numa rede, a encher os pulmões de saúde, a praia como nenhuma, e, se o mar traz sargaço, a faina de colhê-lo, com redanhos e ancinhos, os homens e as mulheres vestidos de oleado, os boisinhos minhotos, piscos e galegos, a ajudarem o arraste, o cheiro forte do iodo, o treme-treme do ar com a evaporação das algas, o guincho do eixo dos carros carregados pela praia fora, a azáfama da gente, é um espetáculo inesquecível num cenário inesquecível.

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Ah, é verdade! Aqui as mulheres andam vestidas à moda do Minho. À moda de Moledo do Minho. Não se parece nada com o Carnaval…"

publicado por Brito Ribeiro às 15:13
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