Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

23
Ago 18

Nesta imagem vemos crianças da zona piscatória a brincar na praia de onde eram regularmente corridos pelo cabo do mar. Fotografia do início dos anos cinquenta.

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publicado por Brito Ribeiro às 10:05
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20
Ago 18

Fotografia de Júlio Coutinho tirada em 1960.

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publicado por Brito Ribeiro às 16:28
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23
Jul 18

Com a chegada da primavera, inicia-se pelo país inteiro um frenesim de festas até às primeiras evidências do outono. As aldeias celebram o seu patrono na igreja e na praça em redor, em alternativa, um santo titular de uma capela secundária na periferia do povoado ou mesmo numa ermida rural, distante e alcandorada em encosta ingreme.

As cidades e vilas mais importantes desdobram as festas, que culminam com a festa municipal ou festa do Concelho, durante vários dias com ajuntamento de forasteiros e emigrantes, para assistirem aos desfiles, eventos musicais e cerimónias religiosas. Para alguns santuários converge parte significativa da população da região, de automóvel, autocarro ou comboio e, muitas vezes, grupos de caminhantes ao som de música popular.

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As mulheres decoram os altares, colocam as melhores colchas nas janelas ou à varanda ao passar da procissão, recebem alegremente os familiares de longe e preparam os melhores pitéus para que nada falte à mesa nesses dias. Os homens vestem o melhor fato, assistem à missa, carregam os pesados andores, lançam os foguetes anunciando o festim e, para acompanhar a boa comida, escolhem sempre o melhor vinho, reservado antecipadamente para o efeito.

Nos últimos anos, os guias turísticos focam com particular enfase este aspeto festivo da vida social portuguesa, tornando atraente e simpática aquela “terra” aos olhos dos turistas estrangeiros, exaltando os esplendores da festa, a mais bela da região.

O emigrante, novo ou velho, residente em França ou em Lisboa, tem sempre a intenção de ir à terra por ocasião da próxima festa, mesmo que há vários anos não ponha os pés na sua aldeia.

Como as festas decorrem em volta e em homenagem a um santo, há lugar a promessas que são pagas durante o período festivo, seja em peregrinação, esmola em dinheiro ou em cera.

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Mas a romaria não se faz apenas de crentes dedicados a atividades religiosas. A festa tem um lado profano, tem o seu arraial vivido por todos, nas suas múltiplas manifestações musicais, de dança, de barracas de comes e bebes, de tendas com as últimas novidades de vestuário, calçado, brinquedos, ferramentas e, não poderia faltar o fogo-de-artifício e o foguetório a anunciar os momentos mais importantes e mais solenes.

Na espontaneidade da consciência popular, no seu coletivo, a romaria assume um todo, vivo e necessariamente imbricado. Isolar alguns elementos que a compõe, é uma problemática desagregadora, e é aqui que frequentemente surge a tensão entre os organizadores e representantes populares, com a ideologia do clero. Da mesma forma que se visita a capela ou santuário, se paga a promessa e se acompanha a procissão, também se canta, dança, come, luta, se processam encontros de raiz erótica, se instala provisoriamente a vida, se cozinha e se dorme.

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A romaria ou a festa da aldeia, tem inculcada uma função económica. Para o comércio local, para os negociantes, para os feirantes e para a igreja. Todavia, no plano familiar e mesmo para a população local, a festa constitui uma realidade disfuncional, pois grande parte é financiada com os seus contributos, sendo os proveitos arrecadados pelos terceiros acima referidos.

A festa do povo é, em suma, um momento de reencontro e de apaziguamento de uma identidade cultural e matricial de uma determinada sociedade. Para nós, portugueses e alto-minhotos, não há festa como a nossa!

 

publicado por Brito Ribeiro às 10:58
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08
Mai 18

Grande reportagem dos jornalistas João Santos Duarte, Jaime Figueiredo e Carlos Paes, sobre o navio Atlantida, que custou quase 70 milhões de euros aos portugueses e levou ao fundo os Estaleiros Navais de Viana do Castelo. O artigo foi publicado no jornal Expresso e conta toda a história do navio rejeitado ao longo de dez anos, e que agora começa uma nova vida na Noruega.

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 “Hurtigruten” é hoje em dia o nome da maior empresa de transportes marítimos noruegueses. Apesar de nas últimas décadas ter apostado mais na rentabilidade das viagens turísticas, os seus navios continuam a cumprir a importante missão de transportar correio e mercadorias entre várias localidades na costa do país. Mas a empresa quer continuar a crescer para norte e aumentar a capacidade de transporte de passageiros e exploração no círculo polar ártico. Só que a Hurtigruten tinha um problema. Se encomendasse a qualquer estaleiro a construção de um navio de raiz teria de esperar entre dois a três anos até o ter operacional, o que era demasiado tempo. Foi assim que pôs os seus intermediários à procura à volta do mundo para encontrarem um navio que pudesse servir os objetivos da empresa e, mais importante do que isso, estar operacional e a fazer cruzeiros no espaço de apenas 18 meses. Acabaram por encontrar a solução em Viana do Castelo, numa embarcação que estava parada há anos, mas que tinha tudo para ser adaptada num navio que pudesse seguir rumo às águas geladas do norte.

 

"Estivemos meses a estudar o barco e chegámos à conclusão que conseguíamos transformar esta embarcação exatamente no navio de que tínhamos necessidade", declarou Danniel Skeljdam, CEO da Hurtigruten. A Hurtigruten formalizou a compra do referido navio em julho de 2015 e os trabalhos de reconstrução teriam início em dezembro. Ficaram terminados no início de junho. A empresa cumpriu assim o objetivo de ter menos de 12 meses entre a entrega da embarcação e conseguir de facto colocá-la ao serviço, o que permite avançar mais rapidamente com o plano de expansão para o Ártico. Em entrevista ao Expresso, o CEO da Hurtigruten, Dabiel Skjeldam explica como um navio que nunca chegou a ser aproveitado em Portugal, e que custou milhões de euros aos contribuintes, se tornou na escolha perfeita para a empresa norueguesa. E deixa rasgados elogios ao barco que foi construído nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo.

 

Agora batizado “MS Spitsbergen” - em honra da maior ilha do arquipélago de Svalbard, onde Richard With iniciou há mais de 100 anos as suas atividades de exploração pelo Ártico -, o navio é, na verdade, o “Atlântida”, que parece estar sob uma maldição há uma década, desde que começou a ser projetado. O novo “cisne do gelo” da frota da Hurtigruten foi ao longo dos anos o patinho feio, enjeitado por todos, desde o governo regional dos Açores - que o encomendou em primeiro lugar - à Venezuela, ainda no tempo de Hugo Chávez, ou a empresa portuguesa de cruzeiros “Douro Azul”, o último dono da embarcação antes de passar para mãos norueguesas. Tem sido, até ao momento, o “navio indesejado”, envolto por várias polémicas em Portugal, num processo que está ainda longe de estar esclarecido.

 

9 de abril de 2009. Se há uma data central em todo o processo do navio “Atlântida”, este é o dia que acaba por ser decisivo. Atualmente presidente do Governo Regional dos Açores, Vasco Cordeiro era, à altura, secretário regional da Economia e foi ele quem deu nesse dia a conferência de imprensa em que o executivo açoriano anunciava a rescisão do contrato com os Estaleiros Navais de Viana do Castelo para a construção de dois navios que deveriam fazer a ligação entre as ilhas: o “Atlântida”, que já estava construído à altura, e o “Anticiclone”, cuja construção já estava a ser preparada nos estaleiros. Em causa estava o não cumprimento do caderno de encargos. O “Atlântida” não tinha sido entregue na data prevista (que era um ano antes) e não atingia a velocidade pretendida.

 

O que agora já poucos recordam é que essa decisão surgiu apenas vinte dias depois do Tribunal de Contas ter questionado as alterações que o armador, a empresa regional “Atlânticoline”, exigiu ao projeto inicial. Os navios haviam sido adjudicados em 2006 por uma verba a rondar os 50 milhões de euros, no somatório de ambos. Mas as alterações propostas encareceram o projeto em mais 11,2 milhões de euros. No caso do “Atlântida”, as mudanças, exigidas pelo armador já quando a construção estava em curso, passaram, entre outras medidas, pela duplicação do número de suítes e de alguns camarotes.

 

As alterações tiveram um impacto estrutural decisivo no navio. Consideravelmente mais pesado após a introdução de uma cinta de lastro, não chega a atingir nos testes de mar os 19 nós (cerca de 35 km/h) contratualizados inicialmente. Mesmo com os motores a funcionar a 100% da potência, fica-se pelos 17,78. Ainda assim, muitos especialistas consideram que a situação não seria impeditiva para que o ferry pudesse ser usado para fazer a ligação entre as ilhas. Num relatório de 2009 elaborado por dois especialistas do Instituto Superior Técnico de Lisboa, Carlos Guedes Soares e Manuel Filipe Ventura, lê-se que, “apesar de formalmente a Atlânticoline ter razão quando pede a resolução do contrato por incumprimento da velocidade mínima contratual, não se pode deixar de estranhar a sua indisponibilidade para procurar uma solução negociada”. Os peritos consideram ainda que a diferença de velocidade em causa “não será muito relevante para as pequenas distâncias entre ilhas”.

 

No final de 2009 o Tribunal de Contas produziria um segundo relatório em que se pronuncia sobre o caso. De acordo com o TC, “as autorizações de modificação (aos projetos iniciais), por não serem enquadráveis no regime de trabalhos suplementares, foram tipificadas como infrações financeiras de natureza sancionatória”. Os administradores da “Atlânticoline” que as autorizaram safaram-se com o pagamento de uma multa. Sendo que, após cancelar o contrato com os estaleiros, a empresa regional fechou um contrato por ajuste direto, com uma empresa estrangeira, para fretar dois navios por dois anos para fazer o transporte entre ilhas. Verba a pagar: mais de 20 milhões de euros.

 

Um outro relatório, elaborado na altura por um assessor da Empordef - a empresa pública que estava responsável pela gestão dos estaleiros - aponta no entanto também deficiências na forma como o próprio construtor geriu todo o processo. Indica que os estaleiros acabaram por aceitar prazos de construção que não eram realistas, não validaram tecnicamente o projeto básico de construção que tinha sido feito pela empresa russa Petrovalt, e deixaram ainda passar as alterações pedidas pela “Atlânticoliine” sem terem em conta o impacto que as mesmas iriam ter na estrutura do navio e na velocidade.

 

No final de tudo, os estaleiros seriam obrigados a devolver aos Açores 32 milhões de euros que já tinham sido pagos (devolução que, aliás, foi financiada com uma ajuda do Estado que viria a ser considerada ilegal). A essa verba acresceram as indemnizações pelo atraso na entrega da embarcação e o incumprimento do contrato, que atirariam o valor total a pagar à “Atlânticoline” para os 40 milhões de euros. Os estaleiros de Viana foram obrigados a pedir um empréstimo para fazer face às obrigações e aumentaram ainda mais o seu endividamento global. Só em setembro de 2014 a dívida com os Açores seria finalmente saldada, com o pagamento de uma última tranche de 7,85 milhões de euros.

 

O caso foi alvo de uma comissão parlamentar de inquérito, cujo relatório seguiu para a Procuradoria-Geral da República. Em julho de 2014, a comissão concluiu que a rejeição do navio Atlântida por parte do Governo Regional Açoriano representou a “certidão de óbito dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo”. Contas feitas, com a devolução do dinheiro, as indemnizações por incumprimento de contrato, os juros e os custos de manutenção de um navio que acabaria por ficar parado sem qualquer uso, o buraco ascendeu a 70 milhões de euros. Isto num negócio efetuado entre duas empresas públicas, e numa altura em que o governo regional até estava politicamente alinhado com o continente. À frente do executivo açoriano estava o socialista Carlos César. O primeiro-ministro era José Sócrates.

  

A 24 de outubro de 2010 Hugo Chavez visita o navio Atlantida em Viana do Castelo e fica entusiasmado com a qualidade da construção, garantindo ter projetos ambiciosos para a embarcação. Seria a pedra de toque de um novo turismo social, o turismo do povo, ao bom estilo da revolução socialista do líder venezuelano. “Eu quero meter todos esses meninos pobres de La Guaira, as famílias mais pobres, no tremendo ferry, a classe média também. São 800 pessoas. Aí está um modelo do ferry que já pronto está a partir de Portugal. Esta será uma linha de ferry de turismo popular, turismo venezuelano”, afirma ainda em Portugal. Mas não é só o Atlântida que está na calha. “Uma linha são três, quatro ou cinco ferries”, sublinha Chávez. No ar fica a hipótese de alargar os negócios com os Estaleiros Navais de Viana do Castelo. E de a Venezuela comprar igualmente o “Anticiclone”, a outra embarcação que tinha sido encomendada pelo Governo Regional dos Açores. Está ali, pensam todos, uma tábua de salvação para o gigantesco buraco que fora criado. Mas não foi nada disso que aconteceu.

 

Em fevereiro do ano seguinte há aparente fumo branco: o governo venezuelano anuncia que vai comprar o Atlântida por 42,5 milhões de euros. Os meses passam mas não há qualquer desenvolvimento no negócio. Até que, em novembro, a Empordef admite finalmente que Caracas desistiu da compra. O único “Atlântida” que Chávez levou para a Venezuela foi uma réplica do barco em miniatura que lhe havia sido oferecida na passagem por Portugal. O navio verdadeiro já tinha entretanto rumado a sul, à Base Naval do Alfeite, em Almada, onde aguardava para seguir para a América do Sul. Acabaria por ficar três anos parado no mesmo sítio.

 

O tempo passou sem que ninguém estivesse interessado na compra do navio. A 11 de março de 2014, a administração dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo lançou um concurso público internacional para tentar vender o Atlântida. Não foi estabelecido qualquer preço mínimo. E foi assim que um navio que tinha sido avaliado em 50 milhões de euros acaba por ir, na prática, a um leilão do tipo Ebay, cujo único critério é a melhor oferta que seja posta em cima da mesa.

 

O concurso é ganho pela empresa grega Thesarco Shipping. O armador oferece 13 milhões de euros, a melhor de três propostas. Pensa-se que o Atlântida teria novo futuro, desta vez na Grécia. Mas tal nunca chega a acontecer. A empresa é notificada duas vezes da decisão favorável no concurso público, mas, por razões que nunca ficaram bem esclarecidas, não chega a dar os passos necessários para a formalização do contrato. O barco passa para a segunda melhor oferta.

 

A Mystic Cruises tinha sido criada em 2011 pelo grupo Douro Azul, do conhecido empresário portuense Mário Ferreira. O objetivo era internacionalizar a empresa, até aí conhecida pelos cruzeiros no rio Douro, e apostar no mercado de cruzeiros fora de portas. A empresa tinha ficado longe da melhor oferta no concurso, mas com a desistência dos gregos passou a ter o direito da opção. E foi assim que Mário Ferreira arrematou o Atlântida por 8,75 milhões de euros, pagos com capitais próprios, garante o empresário (na altura, o navio já estava depreciado e avaliado em 29 milhões de euros no relatório e contas dos Estaleiros relativo a 2012, quando deveria ter rendido inicialmente 50 milhões).

 

O contrato de compra e venda do navio foi assinado em setembro de 2014 entre o Estado Português, representado pela comissão liquidatária dos Estaleiros de Viana do Castelo, e a Douro Azul. No mesmo mês, o navio regressaria aos estaleiros, cuja concessão tinha agora sido entregue à Martifer, para ser remodelado. Mário Ferreira iria gastar seis milhões de euros em obras de remodelação que iriam transformar o ferry num cruzeiro de luxo a operar na Amazónia, a partir do início de 2016.

 

Mário Ferreira é um daqueles homens de negócios que nunca perdem uma oportunidade para fazer dinheiro. Terá percebido cedo que o que tinha ali em mãos era umas dessas oportunidades. Alguns meses depois da compra do navio lança um comunicado de imprensa em que anuncia uma inversão completa nos planos iniciais. “A qualidade técnica e operacional do navio Atlântida não passou despercebida a vários operadores internacionais que contactaram a Douro Azul no sentido de, em parceria ou individualmente, darem um novo destino à embarcação”,

 

Chegaram a ser avançadas várias hipóteses na altura. No total existiriam nove interessados de todas as partes do mundo: Austrália, Singapura, Estados Unidos, Grécia, Espanha, Malta, África Ocidental… Mas Mário Ferreira acaba por acertar a venda do barco para a Noruega, para a empresa de cruzeiros Hurtigruten, num negócio que passou por vários intermediários. A imprensa avança na altura que o negócio terá sido feito por 17 milhões de euros, o dobro do valor pelo qual o navio foi comprado. O empresário nunca chega a confirmar a verba. Apenas que lucrou bastante com isso.

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Em 2016 cinco inspetores da Polícia Judiciária chegam aos estaleiros Navais de Viana do Castelo e dirigem-se ao gabinete que a Empordef ainda mantém nas instalações. Procuravam, entre outras coisas, documentos da venda do Atlântida em setembro de 2014 à Mystic Cruises, de Mário Ferreira. A 29 de abril deste ano era lançada para o terreno a Operação “Atlantis”. Envolve 30 inspetores da Unidade de Combate à Corrupção da Judiciária, cinco procuradores, dois juízes de instrução criminal e dois juízes desembargadores. Além de Viana do Castelo, decorrem ainda buscas nas instalações da Douro Azul e em outras duas casas do empresário, e nas instalações do Ministério da Defesa, em Lisboa. “Em causa estão factos relacionados com a subconcessão dos Estaleiros Navais de Viana e a venda do navio Atlântida”, informaria mais tarde a Procuradoria-Geral da República em comunicado. As autoridades investigam a eventual prática dos crimes de administração danosa, corrupção e participação económica em negócio no âmbito da gestão de estaleiros. Mas, até este momento, ninguém foi constituído arguido.

 

O empresário foi rápido a reagir. “Quem não deve, não teme.” E defende que é preciso investigar, isso sim, quem construiu o navio e quem acabou por o rejeitar. Como se explica afinal que um privado tenha comprado um navio ao Estado português a preço de saldo e que nem um ano mais tarde o tenha revendido a outro privado alegadamente pelo dobro do valor? Porque não conseguiu a comissão liquidatária dos Estaleiros fazer essa mais-valia com o navio? Mário Ferreira não tem dúvidas em falar de incompetência. “Ainda tivemos muito trabalho para o preparar, licenciar e certificar, porque ele não estava certificado. Se tivessem feito esse trabalho e o tivessem certificado, poderiam ter vendido o navio por muito mais.”

 

Este ano, a Atlânticoline vai gastar 5,6 milhões de euros para fretar dois navios que façam o transporte entre as ilhas açorianas de 28 de abril a 25 de setembro. A empresa planeia adquirir embarcações próprias, mas ainda deverá ter pela frente pelo menos mais dois anos a fretar navios. Em fevereiro de 2014, a Atlânticoline lançou um concurso público internacional para a construção de dois navios, no valor de 85 milhões de euros. Os navios teriam  capacidade para transportar 650 passageiros e 150 viaturas e atingir a velocidade de 25 nós. O concurso acabaria por ser anulado. O motivo? Nenhum dos estaleiros candidatos reuniu “todas as exigências do caderno de encargos”.

 

Entre 2006 e 2014, ano em que o Atlântida foi vendido a um privado, as contas públicas ficaram lesadas em vários milhões de euros…  Indiferente a todas estas polémicas, o Atlântida começa agora finalmente uma nova vida na Noruega - e com um novo nome. Depois de ter sido comprado em julho de 2015, o Atlântida seguiu para o norte da Europa e passou ainda três meses na Suécia, onde, em conjunto com a empresa sueca Tillberg Design, foi estudado o processo de remodelação de interiores do navio. No final desse ano rumou aos estaleiros da Fosen Yard, em Rissa, na Noruega, onde passou todo o inverno a ser reconstruído, em conjunto com outros dois navios da frota da Hurtigruten.

 

A reestruturação foi profunda e dispendiosa. Mas, à semelhança dos valores envolvidos na compra, Daniel Skjeldam recusou igualmente revelar ao Expresso o dinheiro que foi gasto na transformação. “Apenas lhe posso dizer que investimos nele uma verba muito substancial.” A nível estrutural, o barco sofreu várias alterações, sendo agora um quebra-gelo preparado para navegar em águas polares. Os decks também foram remodelados e o espaço que estava destinado à garagem para os carros alberga agora camarotes, um hospital e ainda um “deck de expedição”. É que além dos passageiros, o navio vai levar a bordo uma equipa com oito cientistas de várias áreas, que poderão fazer investigação e dar palestras aos passageiros sobre vários pontos de interesse no Ártico.

 

A empresa garante que o navio é moderno e amigo do ambiente e que foram introduzidas alterações para reduzir ainda mais as emissões poluentes e o consumo de combustível. A popa do navio também teve mudanças e conta agora com um ginásio, sauna e jacuzzi ao ar livre, onde os passageiros poderão relaxar num ambiente descontraído. Quanto aos novos interiores do navio, a inspiração foram as deslumbrantes paisagens escandinavas. Predominam os azuis do mar e dos fiordes e o branco das paisagens geladas, num estilo moderno e elegante. Muitos dos materiais são naturais, como madeira, ardósia e couro.

 

Dez anos depois de o projeto ter sido lançado, o navio que Portugal rejeitou - mas que os contribuintes portugueses acabaram por pagar a peso de ouro - vai finalmente ter um uso. Mas continuarão a ser muitas as interrogações que pairam sobre o seu passado (e sobre certas decisões tomadas por pessoas que ocupavam e ocupam importantes cargos políticos).

publicado por Brito Ribeiro às 11:00

27
Mar 18

Artigo que escrevi para a revista Vale Mais do passado mês de Janeiro, onde abordo questões de identidade cultural e um caso concreto ocorrido no Vale do Âncora.

 

O que é o património cultural? De forma resumida, porém objectiva, é o conjunto de bens, materiais e imateriais, considerados de interesse colectivo, com importância suficiente para serem perpetuados.

O património remete-nos para o passado, porque é um testemunho, uma manifestação e uma convocação desse mesmo passado. É sua função criar uma memória dos acontecimentos mais importantes, reunidos no conceito de memória social, que recorrendo ao património, legitima a identidade de um grupo.

O património desenha a identidade histórica e as vivências de um povo, seja de uma nação pelo conceito de identidade nacional, de um grupo étnico, comunidade religiosa, tribo, clã, família ou outro. É a herança cultural passada, que vivida no presente, será transmitida às gerações futuras.

Deve-se ter em conta que, por vezes, há manipulação ideológica do que pode ou não pode ser património. Quem decide o que é relevante preservar é um grupo (elite) e não o colectivo como um todo (povo). Atendendo à estreita relação entre património e identidade, a identidade de um grupo ou de uma sociedade é sempre um processo selectivo e fragmentado.

Em regra, a preservação do património implica custos e como os recursos públicos são sempre escassos, todos conhecemos casos mais ou menos óbvios de abandono, ruina ou esquecimento que nos revoltam, abalando a nossa confiança nos gestores da causa pública.

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O caso que vos relato passa-se em Vila Praia de Âncora, de onde sou natural e causa-me algo mais que um simples desconforto.

Em 1989 a CP, por razões técnicas, decidiu substituir a centenária ponte ferroviária sobre o Rio Âncora, construída pela Casa Eiffel em 1876, por uma estrutura mais moderna e capaz de suportar as exigências atuais, quer em tonelagem, quer em velocidade das composições.

A estrutura antiga foi desmontada e depositada nas proximidades, aguardando destino condigno. Não faltaram sugestões locais para uma reforma condigna da ponte, a condizer com os seus pergaminhos.

Certo é que esteve oito anos a aguardar destino, acabando por ser transportada (1997) por uma força da Engenharia do Exército, para o Município de Póvoa de Lanhoso, onde foi mais uma vez abandonada junto ao rio Cávado cerca de vinte anos, até ser transportada para as traseiras de uma fábrica metalúrgica onde ainda se encontra, abandonada, sem préstimo e que mais tarde ou mais cedo terá como destino ser entregue a um sucateiro para desmantelar.

Se em 1997 a autarquia Caminhense não estava muito sensível à preservação deste património, hoje a Junta de Freguesia de Santa Maria de Âncora empenha-se ativamente no regresso daquela estrutura, faltando apenas um maior empenho das Câmaras Municipais de Caminha e da Póvoa de Lanhoso, da comunicação social e das associações locais de defesa do património, para o retorno deste marco da arquitectura ferroviária do século XIX.

A análise sobre património cultural não se esgota neste simples texto, nem no exemplo dado. Longe disso, mas proporciona ao leitor uma melhor compreensão da necessidade de preservar o património natural e cultural, não apenas a nível global, mas a nível local, de forma a legarmos às gerações vindouras uma memória e uma identidade onde cada indivíduo se reconheça.

Importa, pois, ter em conta a existência de culturas locais específicas, às quais está agregado um património que, assim, dá origem a identidades culturais com referências locais.

 

publicado por Brito Ribeiro às 09:28
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31
Dez 17

Para terminar o ano deixo-vos um conto policial que escrevi em 2010 e ao qual perdi o rasto neste intricado labirinto de arquivo digital. Hoje, por acaso, encontrei-o. Espero que gostem.

 

Coçou a orelha direita e deixou-se ficar encostado à ombreira da porta que dava para o longo corredor. O inspector Maurício seguia com olhar as idas e vindas dos elementos da brigada técnica que recolhiam os vestígios possíveis.

- Raio de sítio para um gajo esticar o pernil – observa o Cabral espreitando para dentro da sala – Encontraram alguma coisa?

- Não… e tu?

- É pá, cambada de murcões… ninguém sabe nada. Não viram o gajo chegar e a sala devia estar fechada.

- Quem é que tem a chave?

- Deve haver uma dúzia de chaves pelo menos. Desde as gajas da limpeza, aos professores, o segurança… sei lá, são mais que as mães!

- Vais apurar isso de seguida e aproveitar para dizer-lhes que não saem daqui até novas ordens. Temos de os começar a interrogar em seguida… O Ramos deve estar aí a chegar e vêm um ou dois estagiários para ajudar.

- Ajudar ou estorvar, carago! Sabes bem…

- Deixa-te de coisas, que tu também foste maçarico… Vai lá saber da questão das chaves e diz ao segurança que venha ter aqui comigo. – Atalha o inspector da Judiciária.

Dentro da sala um dos técnicos esvaziava os bolsos ao cadáver que teve de ser virado pois fora encontrado de bruços. Uma grande mancha de sangue tinha ensopado a camisa de flanela na zona do peito.

- Passa-me a carteira – pede o Inspector enquanto enfiava umas luvas de látex.

A carteira preta era fina, vulgar, em material sintético e fechada com velcro. No interior a carta de condução, o bilhete de identidade, um talão de compras de uma conhecida loja de material electrónico e um cartão multibanco. Indiferente, voltou a entregar a carteira que foi fazer companhia aos outros objectos retirados do cadáver e acondicionados num saco de plástico transparente.

- Foi o senhor que me mandou chamar? – pergunta um homem fardado no meio do corredor.

- Aaah… o segurança! Sim, quero perguntar-lhe umas coisas. Não é um interrogatório formal, mas preciso que me elucide sobre o ambiente aqui na escola.

-Sim senhor, estou à sua disposição.

- Há por aqui algum sítio onde se pode falar…

- Uma das outras salas ou então temos lá ao fundo uma pequena sala de convívio usada pelos funcionários.

- É longe?

- É ali ao fundo, à esquerda e não deve estar lá ninguém a esta hora.

- Então vamos lá.

O segurança percorreu o corredor um passo à frente do inspector que aproveitou para melhor o apreciar. Calças e blusão da farda cinzentos, um crachá brilhante ao peito com a insígnia da empresa. Cerca de um metro e oitenta, crânio rapado a disfarçar uma calvície precoce, não deveria ultrapassar os trinta e cinco anos.

- Então diga-me lá, o homem era presidente da associação de estudantes?

- Exactamente.

- Mas ele já não é novo!

- Pois não, ele já está na escola há muitos anos.

- Estou a ver, não ligava nada aos estudos e a família…

- Não é isso – interrompe o segurança – ele já está a fazer o terceiro curso.

- Não tinha mais nada que fazer?

- Ele tem uma empresa de alumínios… Acho que tem um sócio. Não sei bem.

- Sabe o nome da empresa?

- Não sei o nome da firma, mas ele é de Santa Marta.

- De Penaguião? Tão longe?

- Não, senhor inspector. Estou a referir-me a Santa Marta de Portuzelo. Aqui perto na estrada para Ponte de Lima.

- E da chave da sala que me diz?

- Todos os professores que dão aulas nessa sala têm a chave. Eu tenho outra na portaria e uma no chaveiro central.

- E o pessoal de limpeza?

- É verdade, já me esquecia.

- Hoje de manhã o falecido… tenho aqui anotado o nome… Exactamente, Jorge Gonçalves! O que eu quero saber é se o viu entrar?

- Não senhor, pela porta principal não passou.

- Tem a certeza?

- Absoluta, absoluta… não!

- Porquê?

- Porque houve um momento que fui ao WC e mais tarde fui ao gabinete do Sr. Ricardo dar-lhe um recado.

- Onde?

- Na secretaria, foram só uns segundos, mas podia muito bem ter entrado nesse momento e eu não o ter visto.

- Tem alguma ideia do que podia estar a fazer na escola logo de manhã?

- Que saiba não havia nenhuma reunião agendada e não faço ideia o que o levou até àquela sala.

- O Jorge Gonçalves tinha lá aulas habitualmente?

- Ele é de desporto que só usam as salas novas.

- Explique-me isso que não estou a perceber.

- Ele é aluno… huum… era aluno do curso de desporto, que só tem aulas teóricas na parte nova da escola. Posso levá-lo lá se quiser…

- Mais tarde. Quer dizer que o crime foi cometido numa das salas antigas.

- Exactamente, senhor inspector.

- Sabe se ele tinha algum problema com alguém? Um colega ou professor…

- Não lhe sei dizer. Repare, eu pouco lido com os alunos, apesar de os ver passar todos os dias à minha frente ao entrarem e à saída. Da maior parte, nem sei os nomes, nem os cursos. Apenas os conheço de vista…

- Mas este era bem conhecido.

- Claro, já fazia parte da mobília, como se costuma dizer. Além disso passava muito tempo na associação…

- Que tem instalações na escola…

- Exactamente e bem perto daqui, por sinal.

- Sim?

- Por trás deste espaço há umas escadas que levam às duas salas da associação de estudantes.

- E já foi lá alguém ver se estava tudo normal?

- Quando chamamos a polícia fui lá com um agente e a porta está fechada.

- Entraram?

- Não senhor…

- Tem as chaves dessa porta?

- Tenho… quero dizer, não! Estão na portaria.

- Então vá buscá-las para darmos uma vista de olhos.

Enquanto aguardava, o inspector Maurício tirou do bolso a caixa das cigarrilhas e meteu uma entre os lábios. Percorreu o largo corredor para lá e para cá distraidamente, olhando para o campo de jogos relvado que ocupava todo o espaço traseiro do recinto escola. Voltou a guardar a cigarrilha enquanto reflectia sobre o que levaria um aluno, que era também presidente da associação de estudantes a comparecer às 9 da manhã de um dia de férias numa sala de aulas. Sobre a causa da morte não subsistiam grandes dúvidas, pois eram visíveis dois golpes profundos no lado esquerdo do peito, apesar de não terem ainda encontrado a arma do crime. Uma faca bastante fina ou um estilete tinha-lhe dito o técnico que examinara o cadáver.

- Preciso de um café – resmungou e dirigiu-se para o bar quando viu o segurança avançar na sua direcção. Deu meia volta e encaminhou-se para as escadas estreitas que levavam a sede da associação de estudantes.

Quando o segurança abriu a porta e viram uma sala que se tinha como iluminação natural a luz que se esgueirava pelos acanhados postigos posicionados ao nível do jardim. A sede estava a precisar de uma boa arrumação pensou o inspector ao avançar para a sala do fundo, um misto de sala de reuniões e gabinete da direcção. Parou à porta ao distinguir um vulto caído sobre a puída carpete.

- Outro…

- Outro, quê, senhor inspector?

- Outro corpo, carago… Esta merda vai-nos dar que fazer… Vá lá acima dizer a um dos técnicos que venha cá. Eu fico por aqui.

Pegou no telemóvel, ligou para o inspector chefe Peres a comunicar a descoberta e a pedir reforços perante o avolumar de trabalho que iria ter pela frente.

- Tenha paciência mas de momento não tenho ninguém para o ir ajudar – dizia-lhe o chefe - Vá-se desenrascando com o seu pessoal, mais logo, quando tiver gente livre envio-os aí para Viana… Antes que me esqueça, tenha cuidado…

- Com a imprensa! Já sei, chefe, já sei!

- Ponha esses calões da PSP a trabalhar! Estão mal habituados, só a passar multas e com o cu alapado na cadeira.

O inspector Maurício sorriu ao pensar que o Peres passara os últimos quatro anos com o “cu alapado”, como ele dizia, desde que fora promovido a inspector chefe.

- Se um dia lá chegar, até fico apanhado só de pensar que tenho de estar o tempo todo a folhear relatórios que nem para limpar o cu servem – dizia o inspector Maurício aos colegas, quando o tema de conversa caía nas sempre polémicas promoções e nos louvores atribuídos.

O cadáver encontrado na sala da associação foi rapidamente identificado como sendo de um aluno de gestão artística, que também pertencia à direcção da associação de estudantes.

Os agentes Ramos e Cabral tinham-se instalado em duas salas de aulas e começaram os interrogatórios sob um coro de protestos dos professores, que se viam impedidos de sair das instalações. Os dois estagiários desdobravam-se em múltiplas diligências, mais parecendo moços de recados que agentes de investigação criminal.

O inspector Maurício tivera uma entrevista com a directora da escola e o director de serviços académicos mas tinha sido inconclusiva. Ninguém tinha ideia do que tinha acontecido. A esperança residia nos vestígios que os técnicos estavam a recolher, mas todos tinham consciência que estavam num espaço utilizado diariamente por centenas de alunos, professores e funcionários. Nem queria imaginar a quantidade de impressões digitais que os técnicos de dactiloscopia teriam de analisar.

Depois de engolir no bar da escola uma sanduíche de fiambre e um sumo, convocou a sua equipa para um pequeno brienfing que teve a particularidade de se realizar no exterior junto à entrada, de forma a puder saborear a cigarrilha que passara a manhã a sair e a entrar na caixa.

- Estes gajos estão a procurar proteger-se uns aos outros.

- Ó Ramos, isso nem parece teu. Então achas que nos iriam dar pistas que os pudessem incriminar.

- Bem, afinal o que apuraram nos interrogatórios que efectuaram? – Pergunta o Maurício.

- Ninguém os viu entrar na escola, não foi Cabral?

- Pois foi… Mas os gajos foram assassinados há poucas horas… Que é que disse o Dr. Pimenta?

- O exame preliminar aponta o momento do óbito para um intervalo entre as sete e as oito da manhã… e a família deles confirma que passaram a noite em casa. A PSP já encontrou os seus automóveis?

- Ainda não senhor inspector – diz um dos estagiários – mas o mais novo… aquele que foi encontrado na cave da associação, tem o carro estacionado à porta de casa.

- Será que o outro o foi buscar?

- Falei com a irmã dele e ela ouviu-o sair de casa, mas não se apercebeu do barulho de algum automóvel a arrancar.

- Continuem com os interrogatórios que eu vou falar com o comissário da polícia. Vocês – virando-se para os estagiários - vão passar a pente fino as imediações da escola. Já vi uma estação dos correios e do outro lado há um bairro. Deve haver algum café ou mercearias… Interroguem os comerciantes e se encontrarem algo relacionado com o caso, chamem de imediato o Ramos ou o Cabral. Entendido?

 

 

- Resumindo, andamos às aranhas… concluiu o inspector chefe Peres, recostando-se na cadeira.

- Às aranhas não andamos, mas também não temos muito a que nos agarrar… – responde o inspector Maurício, sabendo que não adianta nada argumentar com o chefe.

- Bem… recebi um telefonema relacionado com o caso que tem de ser levado em consideração… Assunto sob reserva…

- Mau…

- Temos os Serviços de Informação metidos no assunto.

- Qual deles? O SIS?

- Exactamente. O tipo da associação de estudantes era agente deles.

- O presidente?

- Sim – Admite o inspector-chefe soltando um longo suspiro.

- E o outro?

- Não tinha qualquer ligação com essa gente.

- Então vamos abandonar a investigação?

- Não, eles estão igualmente preocupados, porque não encontram ligação com as tarefas desse agente… pelo que percebi ele nem sequer tinha nada entre mãos, não tinha qualquer dossier à sua responsabilidade.

- Limitava-se a vigiar..

- A coçá-los, diz muito bem… e nós a descontar para esses inúteis… Agora que pretende fazer?

- Regresso a Viana após falar com o dr. Pimenta e com alguém do laboratório.

- Mantenha-me informado e tenha cuidado com…

- Os jornalistas! – Rematou o inspector Maurício, que conhecia de ginjeira o discurso do chefe.

- Isto é pólvora, Maurício! Se cai nas malhas desses gajos, pfff…

 

 Reunidos à volta da mesa onde tomavam o pequeno-almoço, os investigadores ouviam o resumo feito pelo inspector Maurício.

- O patologista diz que foi com uma faca de escalar peixe ou algo semelhante o que nos abre outras possibilidades; podemos estar a lidar com um pescador ou pelo menos alguém que tem acesso a esse tipo de facas, em casa ou no trabalho…

- Ó pá… e o motivo carago?... não temos um motivo que justifique estes assassinatos – enerva-se o Cabral – A não ser que fossem paneleiros e viessem…

- Deixa-te disso! Já investigamos por esse lado e nada. É provável que hoje ou amanhã tenhamos a listagem com os telefonemas deles.

Toca um telemóvel, o inspector Maurício olha para o visor, franze o sobrolho, atende com um “sim” expectante.

- O próprio, não incomoda nada… diga comissário.

- …

- Vou imediatamente… Isso é para norte?

- …

- Quinze quilómetros, Sereia da Gelfa… logo a seguir, à esquerda – repete o homem da Judiciária, desligando o telefone.

- Encontraram o automóvel do Jorge Gonçalves abandonado, junto ao mar, na praia da Gelfa.

- Eu sei onde fica – diz um dos estagiários – é uma zona isolada, tem um pequeno castelo e um sanatório para malucos, mas acho que está fechado.

- Eu vou lá ver, vocês continuam com os trabalhos em curso.

 

Estacionou quando o agente da GNR o mandou parar e dirigiu-se para o bosque de austrálias que invadiam as dunas litorais. Para trás ficara o Forte do Cão, umas ruínas do século dezassete a precisarem de intervenção sempre adiada pela razão tão velha como a nacionalidade, a falta de verbas. Ao longe avistava-se uma povoação subindo a encosta do monte e uma imensa língua de areia dourada, a praia de Âncora.

Uma área tinha sido delimitada com fita plástica multicolor e vários agentes da GNR observavam os trabalhos de dois colegas do núcleo de investigação criminal. Depois de feitas as apresentações informaram-no que o automóvel fora encontrado aberto, com as chaves na ignição e sido alvo de limpeza de impressões digitais. Volante, alavanca de velocidades, manípulos de portas e outros pontos tinham sido limpos antes de o abandonarem, o que revelava a precaução consciente dos criminosos. Era ponto assente que estavam a lidar com mais de uma pessoa porque o lado direito do carro também tinha sido limpo. Dois, pelo menos, provavelmente três, porque alguém os deve ter vindo recolher àquele ponto ermo da Praia da Gelfa.

- Já vem a caminho um reboque para levar o automóvel ao laboratório. Façam-me o favor de verificar nas imediações se há algo de interesse. – pediu o inspector Maurício.

- Já demos uma volta por aí, mas vamos repetir com mais calma – informa o sargento da GNR – Amílcar e Pereira vão com o cabo Presa para o norte, por ali; os outros vão para aquele lado. Atenção, qualquer indício deve ser sinalizado…

- Já agora… - interrompe o inspector – prestem atenção a alguma situação de solo revolvido. Deve estar tudo coberto de folhas secas, não é fácil distinguir, mas pode ser importante.

 

Entre duas garfadas de esparguete atende o telemóvel, a Rosa saía de serviço no Hospital de S. João à meia-noite e não lhe agradava passar a noite sozinha. Não teria outro remédio…

- Sei lá, isto está complicado. Talvez amanhã… Tenho uma chamada da directoria em espera, desculpa… um beijo.

Do laboratório informaram-no que o automóvel encontrado poucos indícios revelava, mas um dos cães treinado na detecção de explosivos sinalizou claramente um transporte recente na bagageira.

- Andaram a transportar explosivos no carro.

- Encontraram vestígios? – Perguntou o Ramos sem levantar o olhar da costeleta de novilho que lhe enchia o prato.

- Foi o cão que detectou o cheiro.

- Dois cabrões esticados! Um deles era bufo na escola! Agora um carro que transporta explosivos… só nos falta dar de caras com uns gajos da ETA – resmunga o Cabral com a habitual linguagem de calão da Ribeira, mais propriamente da Cantareira.

- Já pensei nisso e temos que abordar a caso também por esse prisma, mas agora vamos apanhar com o SIS em cima… de certeza. O chefe já lhes deve ter telefonado.

- Então amanhã temos esses maricões a meter o nariz nos nossos cus!

- Tenho de ir ver o e-mail que o Dr. Pimenta me enviou com os dados preliminares da perícia ao automóvel. Aguentem aqui, vou ao quarto ligar o portátil e já venho.

 

O relatório revelou-se pouco esclarecedor. Na bagageira, onde o cão tinha detectado o odor de explosivos foram encontrados alguns grãos de areia grosseira e terra com elevados níveis de azoto.

- Provavelmente puseram um plástico a cobrir o fundo do carro e ao retirarem-no caiu um pouco de terra. Eles estão a fazer análises comparativas para ver se detectam a região de origem.

- Inspector – começa um dos estagiários, algo acanhado – ocorreu-me uma ideia…

- Diga, diga…

- Azoto é um fertilizante, um adubo e há zonas onde misturam areia na terra para a tomar mais macia, melhor, menos compacta e mais apropriada para certas culturas.

- Está a falar-nos de terrenos agrícolas?

- Humm… Exactamente, inspector. Estou a falar de terrenos de cultura intensiva. Possivelmente estufas…

- Onde?

- Talvez na zona da Póvoa de Varzim.

- Porquê na Póvoa? Pode ser noutro lado qualquer!

- Poder, pode… Mas na zona da Póvoa é vulgar misturar areia grossa na terra e no relatório falam de “areia grossa”. Mais, na Póvoa produzem hortícolas que precisam de muito azoto para se desenvolver. Não fala de níveis elevados de outros fertilizantes, apenas azoto.

- Bem pensado, vale a pena investigar.

- É pá onde é que aprendeste isso da agricultura? – Pergunta o Ramos intrigado.

- Os meus pais são comerciantes, mas os meus tios e os meus avós são agricultores… na Apúlia.

- Já que tens ligações à zona e ao meio vais auxiliar o Ramos a averiguar se há alguma conexão entre as vítimas e a zona da Póvoa.

 

- Sente-se e conte-me como é que arrumou o caso de Viana – convidou o inspector chefe, fechando a pasta que tinha à sua frente.

- Um caso complexo. Nem faz ideia das voltas que aquilo levou… Quem diria!

- Faça-me um resumo. Os pormenores ficam para o relatório.

- A chave estava nos grãos de areia e terra encontrados na mala do carro. Um dos nossos estagiários estabeleceu ligação com a zona da Póvoa de Varzim que coincidia com a morada da namorada do Jorge Guimarães e apurou-se que ela possuía várias estufas em A-Ver-O-Mar, não sei se sabe onde…

-Eu sei, continue!

- Ao princípio refugiou-se na choradeira do costume, mas quando recolhemos uma amostra da terra das estufas, falamos dos explosivos e de levar lá o cão para farejar… abriu-se toda! Atirou com as culpas para o namorado falecido, que a convencera a enterrar uns bidões plásticos, que de início ela pensara que era droga, mas que ele lhe mostrara que tinham apenas explosivos para serem usados pelos pescadores das traineiras. Algo inofensivo, no dizer dela.

- Para a pesca da sardinha?

- Sim… Principalmente para a sardinha. Parece-me que também se usa para outros peixes, desde que estejam em cardume. Fazem um cerco com as redes, atiram o explosivo lá para o meio e o peixe ou morre na explosão ou foge e vai ao encontro da rede. Mas eu de pesca… pouco sei. O que sabemos agora é que o tipo da associação de estudantes alem de ser agente do SIS, contrabandeava explosivos que comprava numa empresa da Póvoa de Lanhoso. Também já os entalamos, porque aquilo era uma vigarice pegada… Parecia um supermercado de material explosivo. Amonite, gelamonite, goma2, havia de tudo! Continuando… Depois enterrava o material nas estufas da namorada, tudo acondicionado dentro de uns bidões plásticos herméticos e vendia a retalho a alguns mestres de traineiras de Viana, da Póvoa e principalmente de espanhóis de Vigo e de outros portos da Galiza. O problema é que o tipo além de vender ainda quis fazer chantagem com um dos armadores, um tal Gallardo de Pontevedra, quando se apercebeu que o tipo revendia parte do material a outros e que acabavam por se perder não se sabe bem onde.

- País Basco? – Pergunta o inspector Chefe Peres.

- Não sabemos… É possível. O Jorge Gonçalves queria os contactos do Gallardo para fazer directamente o negócio ou ameaçava-o acusar perante a polícia espanhola de fornecedor dos terroristas.

- Que filho da mãe…

- O que ele não sabia é que o Gallardo é cunhado de um professor da escola e lhe montou uma armadilha ao marcar…

- O professor? – Interrompe o inspector chefe Peres.

- Bem… agora atiram as culpas um para o outro. O mais provável é que o professor soubesse que era uma armadilha, mas provavelmente pensou que o cunhado apenas queria meter um susto aos dois rapazes. Foi o professor que abriu uma porta de emergência nas traseiras, perto da sede da associação de estudantes, ao espanhol e mais tarde aos outros dois que foram habilmente separados e assassinados.

- Só não percebo porque é que o outro rapaz da associação foi ao tal encontro, se efectivamente não tinha qualquer participação no negócio dos explosivos.

- O Jorge Gonçalves levou o colega da Associação por segurança. Devia pressentir que o Gallardo era perigoso. Está detido em Pontevedra e o juiz de instrução já emitiu o respectivo pedido de extradição.

- E como descobriram o professor?

- Pelas impressões digitais deixadas na barra de abertura da porta de emergência. O normal seria encontrar impressões do pessoal auxiliar e dos seguranças, não de um professor. A partir do momento que detectamos o relacionamento familiar com o Gallardo foi simples pôr o melro a cantar. Por algum motivo ele era professor de música…

 

 

 

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 13:20
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21
Dez 17

A Confraria da Senhora da Bonança tem origem em Carreço em data indeterminada, regendo-se desde 1727 por Estatutos aprovados a 22 de Novembro, pelo Arcebispo de Braga D. Rodrigo de Moura Teles.

Sabe-se que estes novos estatutos vieram substituir outros mais antigos que eram “supérfluos em alguas couzas e em muitas deminutos”, conforme se pode ler no 1º acórdão do “Livros dos acordos da Irmandade da Senhora da Bonança, da freguesia de Carreço”.

A mesa era constituída por um juiz, um escrivão, um procurador, um tesoureiro e oito mordomos, sendo dois por cada lugar da freguesia. A função de tesoureiro era da maior importância pois cabia-lhe zelar pelo património, desde o arrolamento dos bens doados até ao abate dos bens deteriorados, além das tarefas próprias de tesouraria como gerir o “dinheiro a juro”. Não tinha porém autonomia para receber, vender ou destruir bens, ficando-se pela elaboração do rol desses bens e apresenta-los à mesa da confraria. Igualmente competia-lhe manter as alfaias do culto em condições, fornecer a cera para as missas e funerais, levar a cruz no funeral de algum “irmão”, sob pena, nã cumprindo estas obrigações de pagar uma multa em dinheiro. O tesoureiro tinha também a incumbência de liquidar os anuais e não podia emprestar dinheiro sem licença da mesa ou na ausência do pároco, bem como admitir, por sua conta, novos irmãos, algo que seria usual antes da aprovação dos estatutos de 1727.

Igreja de Carreço (2).JPG

Visto que a freguesia se dividia em quatro populosos lugares, Troviscoso, Carreço, Montedor e Paçô, prestando cada um dos mordomos durante o ano, mês e meio de serviço efectivo, sendo sua obrigação:

  • Acender duas velas no altar da Senhora da Bonança aos domingos e dias santos durante a missa conventual à qual eram obrigados a assistir junto ao altar da Senhora com as opas vestidas;
  • Participar nas reuniões da Confraria;
  • Fazer o peditório aos domingos na igreja;
  • Pedir esmola pelos lugares no S. Miguel;
  • Acompanhar os irmãos falecidos no seu funeral com as opas vestidas e velas acesas;
  • Acompanhar os defuntos que não sendo membros da confraria, manifestassem vontade de ter o funeral como se o fossem;
  • Limpar os castiçais e manter asseado o altar;
  • Os mordomos do lugar eram obrigados a acompanhar o funeral dos descendentes de um irmão, desde que menor de catorze anos;

A Confraria tinha também influência na vizinha freguesia de Afife, que contava com um tesoureiro que prestava contas à mesa e entregava os montantes recebidos ao tesoureiro da Confraria.

Embora não fizessem parte da mesa, os párocos locais podiam assistir à eleição e confirmar os votos dos membros da mesa; o capelão deveria ser prioritariamente o coadjutor da freguesia, a quem cabia dizer as missas da capela, zelar pelo altar e informar a mesa das faltas que eventualmente os mordomos cometessem.

Pelo rol dos irmãos verifica-se que muitos residiam em Viana, Areosa, Afife e Gontinhães, chegando alguns deles, designadamente padres, a ocupar cargos de chefia na confraria.

A confraria tinha obrigações a cumprir em favor de irmãos falecidos e em relação ao culto que devia prestar à Senhora da Bonança.

Cada irmão que falecia tinha direito a doze missas, acompanhamento dos mordomos com as velas acesas e opas vestidas. Os mordomos faltosos pagavam de multa cinquenta reis.

A obrigação de culto estava voltada praticamente para a festa que se realizava no segundo domingo de Maio, com vésperas cantadas, missa, sermão e procissão no fim da missa à volta da igreja.

A mesa da Confraria era eleita no dia da festa da Senhora da Bonança e tinham de estar presentes todos ao elementos da mesa cessante. Se faltasse algum recorria-se a quem já tivesse feito parte da mesma e recomendava-se precaução para que fossem escolhidas “pessoas capazes e que dellas se espere serem zelosas pera a Confraria”.

Dois meses depois da eleição reunia-se a mesa para tomar conhecimento da situação da Confraria, o tesoureiro cessante apresentava contas escrituradas no livro respectivo, que era depois assinado por todos. No período entre a festa e o mês de Julho, o tesoureiro esforçava-se por cobrar todas as importância devidas, nomeadamente os anuais, sob pena de ser ele a repor o dinheiro em falta. No mês de Agosto reunia-se novamente a mesa para que os mordomos prestassem contas e entregavam a chave do “caixão” da cera aos novos mordomos. A mesa reunia obrigatoriamente no mês de Novembro e em Maio, para preparar a festa que se avizinhava. Não obstante esta obrigação, reuniam as vezes que entendessem necessário. Estas reuniões só tinham validade se estivessem presentes sete ou oito pessoas. Porém, os mordomos por si só não constituíam quórum, porque era necessária a presença do juiz, do escrivão e do procurador. Na falta do juiz, este era substituído pelo escrivão. O pároco devia também assistir às reuniões, esclarecendo as dúvidas surgidas e tinha tal como os demais direito a voto

A Confraria possuía um conjunto de livros onde era plasmada a vida da mesma. Apenas o escrivão os podia escriturar e só em reunião da mesa os outros elementos assinavam os documentos (actas, contractos, escrituras, inventários, contas, etc.). Os livros estavam permanentemente fechados, sendo confiadas as chaves ao tesoureiro, que por necessidade e inerência de funções, tinha em sua posse o livro dos contractos e dos anuais.

Uma das fontes de rendimento, além das cotas dos irmãos, aqui designadas por “anuais”, esmolas, peditório na missa e multas, era o empréstimo de dinheiro a juro de 5%, não podendo ser emprestado à mesma pessoa mais do que cinco mil reis.

Os “anuais” variavam conforme a idade dos candidatos a “irmão”. Quanto mais velho mais pagava por “se deixarem andar tanto sem se meter por Irmãos desta Santa Confraria”.

A devoção à Senhora da Bonança ainda que muito antiga tem a ver com o mar e os pescadores. A freguesia de Carreço tinha uma comunidade piscatória reconhecida, que nos meses de verão retirava sustento do que o mar lhes oferecia, dedicando-se à lavoura nos restantes meses do ano. Por isso se construíram barracos de aprestos e um portinho no Lumiar, bem como barracos nos lugares de Paçô e Fonte da Vila.

Também nestas enseadas naturais, durante os meses de verão, atracavam os pescadores da Lagarteira, descarregando peixe que era vendido em Carreço. Areosa e Afife.

E assim começou a devoção dos pescadores ancorenses ao culto da Senhora da Bonança. Igualmente os pescadores de Viana manifestavam devoção à Santa, sendo usual as mulheres da Ribeira de Viana, por motivo de temporal ou de naufrágio, peregrinavam a pé, com traje escuro e vela acesa na mão, pedir à Senhora da Bonança a calma das águas e dos ventos, assim como agradecer graças recebidas.

Em Vila Praia de Âncora, ou melhor no Lugar da Lagarteira da freguesia de Gontinhães, à falta de uma padroeira dos pescadores, o culto teve origem na Senhora das Necessidades, com capela erguida em 1760 pelo abade Gonçalo Pinto Medeiros de Carvalho.

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Por volta de 1889, essa pequena capela é demolida e no mesmo local é erguida uma capela mais ampla, ainda dedicada à Senhora das Necessidades e mais tarde à Senhora da Bonança, pois o culto crescia continuamente, ao contrário de Carreço, onde a Confraria entra em declínio e o culto esmorece. Sem qualquer oposição dos habitantes de Carreço, o culto à Senhora da Bonança passa para a nova capela de Gontinhães com festividade marcada para o segundo domingo de Setembro, ao contrário da festividade em honra da Senhora das Necessidades, que se realizava na segunda-feira de Pascoela. Esta festividade realizou-se até aos anos sessenta do século passado, quando em consequência da reforma do calendário religioso saído do Concílio Vaticano II, caiu em desuso, extinguindo-se a festividade.

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A festa da Senhora da Bonança começou a realizar-se em Gontinhães no ano de 1882 e poucos anos depois era já um marco nas romarias do Alto Minho. Em 1893 um grupo de pescadores ofereceu o altar de Nossa Senhora da Bonança.

Em Carreço resta o altar barroco da Senhora da Bonança do século XVIII, com uma imagem moderna, bem proporcionada, que sai anualmente para integrar a procissão da Senhora da Graça, levada aos ombros pelos poucos pescadores que restam na freguesia.

Sobre a festividade da Senhora da Bonança pode consultar este post. http://vilapraiadeancora.blogs.sapo.pt/origem-da-festa-da-senhora-da-bonanca-116362 

publicado por Brito Ribeiro às 11:44
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29
Set 17

Transcrevo um artigo publicado na revista ABC de Lisboa, a 19 de Janeiro de 1922, pelo prestigiado jornalista Gomes Monteiro, sobre a família ancorense Fernandes Fão.

“Ao falarmos da numerosa família Fernandes Fão temos a impressão de estarmos contemplando uma partitura de Wagner. Tudo ali é harmonia, ritmo, orquestração… música. Do progenitor Constantino Fernandes Fão, um grande amador musical, todos os filhos saíram músicos… e de categoria.

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Assim, José Fernandes Fão entrou para a banda da Guarda Nacional Republicana, classificado em 1ª classe, obtendo progressos. Tempos depois, uma impertinente “angina pectoris” forçava-o a abandonar a sua esperançosa carreira.

Artur Fernandes Fão entrou com o pé direito para a arte musical e, de triunfo em triunfo, é hoje o chefe indiscutível da distinta banda da Armada.

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 Francisco Fernandes Fão, músico de 1ª classe da banda da GNR e aluno do 6º ano do Conservatório em violoncelo.

Emília Fernandes Fão, alma de artista, obtendo, com distinção, o curso de piano, harmonia e violino no Conservatório.

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Finalmente, temos Joaquim Fernandes Fão que, propositadamente, reservamos para o fim, porque é dele que desejamos tratar mais detalhadamente. Bisbilhotando na sua vida de artista conseguimos apurar que o maestro Joaquim Fernandes Fão nasceu em Buenos Aires, por uma bela manhã de 3 de Maio de 187F8, quando as rosas argentinas desabrochavam para a vida, ungidas de orvalhos matinais. Quando ainda aprendia as primeiras letras, seu pai, seguindo o uso, ensinou-lhe a compreender os encantos do solfejo, entregando-o, em seguida, aos cuidados de um professor inglês de violino, sendo depois trazido para Portugal.

E já nessa idade pueril – 12 anos – em que todas as crianças se dedicam às suas travessuras, Joaquim Fão compunha já valsas para 3 violinos, dando-lhes a missão de um executar o canto, o segundo substituir o rabecão e o terceiro fazer o acompanhamento. Depois de fazer o exame de instrução primária, em Âncora, e a seguir frequentar o Liceu de Viana do Castelo, até ao 4ºano, assentou praça em infantaria 3 desta cidade, continuando sempre a instrução musical de violino e piano para a qual sentia uma irresistível vocação.

Transferido para infantaria 12, seguia, pouco depois, para Lisboa, a fazer parte da banda de infantaria 2, onde ficou como músico de 3ª classe. Mas o génio, tal como uma gema de subido valor, fulgurando à luz acerada dos espelhos, manifestou-se logo. A breve trecho, o músico de 3ª classe era promovido a chefe, tomando a regência da banda de infantaria 26, em Ponta Delgada.

É curioso notar que que, neste concurso, Joaquim Fernandes Fão triunfou sobre 25 concorrentes, conquistando a 1ª classificação. Quando ainda músico de 1ª classe e sub-chefe da banda de infantaria 2, compôs vários números de música ligeira que foram executadas com o maior agrado. Chefe da banda do 26, compôs números de música militar, tendo também escrito música para as operetas “Gata borralheira” e “Hotel do novo mundo”, que foram acolhidas com gerais aplausos pelo público de S. Miguel.

Apesar de se encontrar lá longe afastado por muitas léguas de oceano, o seu nome andava já de boca em boca, proferido com aquela admiração tributada aos consagrados. Por escolha dos músicos da GNR, deu ingresso na regência da mesma, reorganizando-a e dando-lhe uma arquitectura moderna, de forma a poder executar a verdadeira música de concerto.

Aparte as suas composições originais, o maestro Fão tem dedicado grande parte do seu tempo a instrumentar música de Wagner, Beethoven, Listz, Berlioz, Mozart e tantos outros. Como obras de vulto, escreveu a “Abertura Sinfónica” que foi executada pela orquestra Blanch e ums “suite”, composta por 4 números – “Prelúdio” – “Minuette” – “Intermezzo dramático” - e “Marcha Militar” – que foi executada pela orquestra de David de Sousa. O “Minuette” foi agora executado, em S. Carlos, pelo maestro Guy, tendo obtido os calorosos aplausos duma plateia de entendedores de boa música. Sobre o libreto de Alfredo Pinto (Sacavém) escreveu o poema sinfónico “Sylmires” que, no Teatro Politeama foi executado pela orquestra de Viana da Mota.

Em suma, o maestro Joaquim Fernandes Fão conquistou um lugar proeminente na música nacional, sendo um dos poucos que soube compreender os voos gigantescos da águia wagneriana. Sob a sua direcção, a banda da GNR tem percorrido o país, visto que todo o país tem direito de a admirar e deliciar-se com a sua execução primorosa.

Três vezes foi a Espanha, tendo percorrido Vigo, Badajoz e Valencia del Cid. A propósito, lembramos que tendo-se realizado nesta ultima cidade espanhola, um certame de 11 bandas, maestro Fão foi escolhido para presidir ao júri, representando esta escolha uma homenagem, aliás merecida, ao português que lhes dera as honras da sua visita.

Julgamos ter falado bastante sobre o músico consagrado, não sabendo ainda se o visado nos perdoará termos aprofundado tão intimamente a sua biografia artística. Mas, seja como for, uma vez que nos propusemos a dizer a verdade, devemos frisar que o maestro Fão, tendo tocado violino em todas as orquestras a que pertenceu, sendo, por vezes, o solista na ópera no Coliseu dos Recreios e viola solista na orquestra Blanch, é hoje um regente firme, impecável, que nos últimos concertos realizados no Teatro Politeama, nos tem feito acreditar em contos de fadas, tomando a batuta mágica por uma verdadeira varinha de condão – Gomes Monteiro.”

O pai destes músicos, Constantino Fernandes Fão esteve emigrado na Argentina e terá regressado a Gontinhães com a família por volta de 1890. Em 1905, dando largas às suas paixões, a música e a terra natal, reorganiza a banda local, que será composta essencialmente por elementos muito jovens. A dirigi-la estará até ao fim da vida, salvo breves interrupções, o seu filho José Fernandes Fão, que vem a falecer em 1933. Em todos os serviços de coro, que nessa altura eram muitos, a regência era de Constantino Fernandes Fão.

Mais dados sobre o historial das bandas de música de Vila Praia de Âncora podem ser consultados aqui.

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 A Banda de Música extinguiu-se há muito tempo, mas a memória destes músicos continua viva, não só na toponímia da vila, mas essencialmente na Academia de Música local, a qual foi, muito justamente, designada por "Fernandes Fão".

publicado por Brito Ribeiro às 11:09
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24
Set 17

Nem tudo o que reluz é ouro”, dizia a minha mãe, às vezes a propósito, outras vezes nem tanto. Ao fazer esta citação, à falta de outra mais apropriada, quero também atribuir o significado que há sempre duas versões (pelo menos) para a mesma “história”. E é de história que vos falo, mais concretamente da ponte rodoviária de Caminha, sobre o Rio Coura.

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Encontrei duas versões com discrepâncias sobre este tema que me causam alguma perplexidade, tanto mais que estamos a referir-nos a um passado não muito distante, quando já existiam fontes documentais bastante rigorosas e acessíveis.

 

A versão transcrita em “Caminha através dos tempos, o movimento marítimo e outros meios de transporte” de João da Silva Santos, resumidamente, diz que até meados do século XIX a travessia do Rio Coura entre Caminha e Seixas fazia-se por barco. 

Em 1844, construiu-se uma ponte em madeira, cujos pegões são construídos com a pedra das Torres da Piedade e de Vilar de Mouros, que nessa altura são arrasadas. À entrada da ponte, na margem Sul, existia uma pequena casa onde se pagava a portagem. Os peões pagavam 5 reis e os carros 400 reis, pela sua passagem. Rendia uns 1.500$000 reis anuais aos quais se acrescentava o imposto do sal, verbas que chegavam para a conservação da ponte. Mais tarde, com a abertura da via-férrea, o imposto do sal desapareceu, ficando a conservação da ponte apenas a contar com o produto da portagem. 

Durante a guerra de 14/18, a portagem já era insuficiente para custear a sua conservação, tendo a Câmara entregue a ponte ao Governo. Começaram então a aparecer buracos e a atravessá-la com dificuldade, até que em Agosto de 1920 pegaram-Ihe fogo.

A partir desta data, nem sequer peões passavam e os carros tinham que ir à volta por Vilar de Mouros. 

Foi então decidido construir uma nova ponte em cimento com um orçamento de 1.010 contos. Porém, a empreitada acabou por ficar por mais 400 contos que o previsto. A 14 de Agosto de 1930, voltaram a passar automóveis, ficando concluída a obra em Novembro e fazendo-se a entrega, em 2 de Dezembro de 1930. 

Esta ponte ficou com duas rampas, uma à entrada e outra à saída, devido à sua subida de nível. Na antiga, de madeira, a quantidade de pegões era superior e o nível do tabuleiro idêntico ao actual.

Finalmente, já na segunda metade deste século, a ponte sofreu umas modificações, fazendo-se desaparecer as rampas. 

 

Contudo, em “História Nossa” de Paulo Torres Bento, afirma-se que a ponte foi inaugurada em 1839, nos primórdios do liberalismo e que a sua manutenção fora sempre uma fonte de problemas para a Câmara Municipal. Após um incendio que se suspeita ser intencional em 1884, que destruiu 14 metros do tabuleiro, as condições de atravessamento vem a piorar, até que a Câmara delibera em 1905, enquanto proprietária “taxar a passagem dos automóveis na ponte de madeira sobre o Coura, em 200 reis cada passagem, e as motocicletas em 40 reis também pela passagem de ida e volta”, conforme acta da CMC de 23 de Outubro de 1905.

Em 1920 o estado ruinoso do tabuleiro obrigou a Câmara a proibir, por questões de segurança, o trânsito automóvel, sendo desviado para a ponte de Vilar de Mouros. Em 1922, após outro incendio, até o trânsito pedonal foi desviado para a ponte ferroviária a montante.

Valeria a Caminha a intervenção do senador ancorense Luís Inocêncio Ramos Pereira que em 1924 conseguiu do governo a aprovação do projecto para a reconstrução do tabuleiro em cimento armado. A obra começaria dois anos depois e após muitos atrasos seria reaberta ao trânsito automóvel em Dezembro de 1930, estatal e livre de portagem.

 

Num período o em que todos oferecem bonés, chapelinhos e santinhos, prometendo festarola e foguetório para o futuro das nossas vidas, fica a triste realidade de há cem anos haver tantas dificuldades para simples travessia do Rio Coura.

Fica também para a história o exemplo de um homem, um senador da república, que levou para Lisboa o problema e lutou pelos recursos necessários para a empreitada.

Para concluir, digam lá que a história não tem coisas interessantes!!!

 

 

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 10:33
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17
Set 17

Os equipamentos hidroelétricos em Portugal tiveram o seu início em 1884, com o aproveitamento de uma pequena queda de água, para fornecer energia elétrica à Real Fábrica de Fiação, em Tomar.

Em 1912 é constituída a Companhia Hidroelétrica do Coura, que vai construir e explorar a central de Covas, no Rio Coura. A Electra del Lima, em 1908, propunha-se rentabilizar as águas do Rio Lima, convertendo a potência hidráulica em energia elétrica. Assim foi construída a primitiva barragem do Lindoso entre 1915 e 1922, constituída por um muro de 5 metros de altura em alvenaria e por uma central de 8.750 kVA, naquela época a mais importante do país. Em 1922 a barragem foi elevada para 22,5 metros e até 1951 foram introduzidos outros melhoramentos ao nível do canal de derivação e do aumento de potência, que já então se cifrava em 92.500 kVA.

Barragem de Aldeadávila 1.jpg

Face ao aumento de consumo de eletricidade, em 1960 foi pedido ao governo autorização para proceder a estudos de ampliação do empreendimento do Lindoso. Em 1992 iniciaram-se as obras da segunda geração da barragem, designada por Alto-Lindoso, com 110 metros de altura, 21 de espessura na base e 4 no coroamento. Esta barragem deu origem a uma albufeira internacional com mais de mil hectares de área inundada e cerca de 350 milhões de metros cúbicos de água represada.

Este projeto hidroelétrico fez nascer, 17 quilómetros a jusante, o empreendimento de Touvedo, com a função de regularizar os caudais turbinados no Alto-Lindoso. A irregularidade dos caudais descarregados no Alto-Lindoso provocariam cheias diárias e fortes efeitos erosivos, pelo que a barragem de Touvedo funciona como contra embalse, minimizando o impacto sobre o ecossistema ribeirinho e permitindo condições seguras de utilização do rio a jusante, até à foz.

Barragem do Alto-Lindoso 3.jpg

No entanto, as opções técnicas destas grandes barragens, no que diz respeito aos recursos naturais da bacia do Lima, levadas a cabo nos anos oitenta e noventa do século passado, foram exclusivamente para desenvolvimento de produção energética, mas à custa de irreparáveis perdas nos recursos dos solos, da paisagem e das populações. Em concreto foi uma ação autoritária, humanamente exógena e destinada a organizar o território, prosseguindo fins energéticos.

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Estávamos pois, nos anos oitenta e noventa do século passado e estas opções técnicas estavam já desarticuladas das incipientes políticas de ambiente e de proteção dos recursos naturais que então despontavam.

As alterações nas atividades humanas (deslocamento de populações, redução da agricultura e terras de pastagem, inundação de sítios e monumentos de valor arqueológico e cultural), na saúde pública, na fauna, na vegetação e no meio aquático (alteração das correntes, modificação da qualidade das águas, diminuição do transporte de sedimentos, eutrofização da água e aumento da evaporação), são impactos negativos, permanentes e sem possibilidade de retorno.

Este caso do Alto-Lindoso e Touvedo causou a artificialização das margens e vale do Lima em mais de 35 quilómetros, dos quais mais de 7 quilómetros são de leito morto (a jusante da atual barragem do Lindoso), inviabilizando a vida e reprodução dos grandes migradores Atlânticos, que secularmente desempenhavam as funções vitais e genéticas nas águas vivas do Lima.

barragem-08.jpg

Concluo com a convicção que não se aprendeu a lição, face ao recente exemplo da barragem do Tua, onde, mais uma vez, as opções técnicas adotadas, vão provocar um dano ambiental e humano, grave e irreparável.

 

Bibliografia consultada: “Uma perspectiva de ecologia humana. O caso da barragem do Alto Lindoso na zona serrana do Minho-Lima” de José da Cruz Lopes

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 15:20
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