Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

31
Mar 20

2 - Vista parcial do Portinho e Avenida Marginal -

Este conjunto de sete posts sobre o início da comunidade piscatória de Vila Praia de Âncora procura esclarecer algumas dúvidas designadamente, sobre a construção do portinho e a sua evolução ao longo dos séculos XIX e XX.

O texto foi retirado e adaptado do livro "A Masseira Ancorense" que eu próprio e o amigo Celestino Ribeiro escrevemos em 2015.

 

O longo areal entre o Moureiro e Penedim (afloramento rochoso no Lugar da Gelfa), tal como a bacia natural bem abrigada por entre penedos, eram con­dições propícias às incursões de piratas e corsários do norte e da pirataria ber­bere vinda do norte de África.

Por isso, a povoação de Gonti­nhães, que a partir de 1924 passou a designar-se Vila Praia de Âncora, cres­ceu afastada do mar e destes perigos, sem nunca deixar de explorar os benefí­cios que dele podia extrair.

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Sazonalmente, durante os meses de verão, faziam a apanha de algas para fertilizaram as terras e o peixe que nas trancadas (armadilha que consiste em estender uma rede transversal ao curso do rio para capturar o peixe que sobe ou desce para o mar) do rio ou nas camboas (recinto vedado com pedras soltas, entre a linha de praia-mar e baixa-mar, onde se apanham os peixes que ali ficam presos com a descida da maré) logravam capturar.

A pretexto da Guerra da Restauração (1640-1668) e porque esta cos­ta era frequentemente fustigada pelas incursões de piratas, foram cons­truídos no final do século XVII um conjunto de fortificações no Norte de Portugal, designadamente o Forte do Cão e o Forte da Lagarteira, junto à referida bacia natural. Com o problema da segurança resolvido, Gontinhães vai progressivamente descer dos montes, mas a actividade marítima parece não ter sido desenvolvida pelos seus habitantes.

Do lado sul do Forte da Lagarteira é identificável uma pequena reen­trância entre a penedia que inflecte para sueste a partir do seu ponto mais proeminente, a Ponta das Medas, e os afloramentos rochosos do Moureiro a desvanecer para dar lugar à zona arenosa que se estende até Penedim, no outro extremo da enseada, onde a costa retoma novamente a característica rochosa até às praias de Afife.

Refere o Abade de Gontinhães em 1758 (Inquirições de 1758),

“nesta freguesia há um Porto de Mar por natureza, aonde chamam o Porto de Âncora no sítio do lugar da Lagarteira, pelo qual entram somente barcos de pescadores, e algumas lanchas de Galiza e Caminha, principal­mente nos meses de verão, ou estando o Mar sereno”.

Nesta reentrância destacam-se em pormenor a característica rochosa do leito, às vezes parcialmente assoreado, a proeminência do lado norte da Pedra Fanequeira e mais a poente desta, o baixio do Lira semi-submerso.

O varadouro é arenoso a partir da linha de meia maré. Na zona envolvente do varadouro são já visíveis as primeiras constru­ções, umas simples instalações onde se guardam alfaias e o sargaço, aqui abundante, depois de seco. Esta actividade de recolha, secagem sobre a penedia e armazenamento do sargaço, é exercida pelos lavradores da fre­guesia, que são os proprietários das instalações e das parcelas de terreno anexas.

Por esta altura encontram-se aqui, junto às pequenas instalações do sargaço, três ou quatro barcos de pesca propriedade de lavradores da fre­guesia que, na acalmia dos meses de verão pescam para consumo e eram utilizadas na recolha do sargaço que arrancavam na baixa-mar com a ajuda de foices. Tratava-se, talvez, de pequenos caíques, tripulados por um ou dois homens.

A reentrância que vai dar origem ao Portinho é assinalada numa carta da costa portuguesa de 1753 com a seguinte descrição:

“Segue-se a costa mais áspera até ao rio Âncora, em recifes de pedras. Junto deste rio, por entre penedos, há uma entrada de braça de fundo, amparado do tempo, onde se recolhem muitos barcos portugueses e ga­legos.“ (Peixoto, 2001)

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Esta é uma confirmação do carácter sazonal da actividade piscatória e que era desenvolvida por gentes estranhas à comunidade local, que ficavam por alguns dias ou semanas acantonados precariamente em cobertos ou mesmo no aconchego possível dos barcos varados na areia.

Um manuscrito de 1818, assinado por “Presa”, refere-se a esta reen­trância chamando-lhe “Portinho de Âncora, guarnecido com um bom castelo”. E faz alusão à ac­tividade piscatória desenvolvida dizendo que “Corre aqui muito dinheiro todos os anos e por isso lhe chamam “porto do ouro”.

publicado por Brito Ribeiro às 13:16

A expressão “Portinho” é a designação futura do conjun­to da reentrância, varadouro e zona envolvente onde vai nas­cer o bairro piscatório, no lugar da Lagarteira.

Não refere, porém, donde vêm estes pescadores, mas presume-se, que, então, havia pescadores vindos de fora radicados neste lugar, pelo me­nos durante parte do ano.

Eram pescadores que ficavam por algum tempo, dias ou semanas, livremente ou retidos pelas condições adversas do tempo e das condições de mar, acantonados pacificamente nas instalações onde os lavradores arma­zenavam o sargaço ou no aconchego precário das embarcações varadas na areia. Neste caso, geralmente, viravam a embarcação de fundo para cima e metiam-se lá dentro ao abrigo do frio noturno e da chuva.

Assim descreverá em 1886, Baldaque da Silva:

“Antigamente havia aqui três ou quatro barcos de pesca pertencentes a lavradores, não existindo ainda obra alguma para abrigo.”

 

Ainda não há qualquer referência a masseiras, mas tão só a lanchas e barcos. Ora, este tipo de embarcações eram as principais embarcações de pesca durante muitos anos em A Guarda. Eram embarcações de tipologia poveira introduzidas pelos poveiros no porto guardês, onde estiveram juntos com vianeses e outros, vindos de outras partes a quem se deve ainda hoje o nome de uma rua de A Guarda: a Rua dos Malteses. Era gente de fora que foi para ali trabalhar em grupo, ou em malta. Mas foram os poveiros que, no séc. XVIII, estiveram nas rias galegas aquando da introdução da arte da xávega pelos fomentadores catalães e aí conheceram a lancha xeiteira das rias, que depois adaptaram à navegação oceânica e assim nasce o barco poveiro.

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Em Gontinhães, a economia de subsistência baseada na pequena pro­priedade rural, foi desde sempre o modo de vida desta gente.

Só em 1825 aparece mencionado nos registos paroquiais um pesca­dor galego, António Verde, nascido em A Guarda, casado com Rosa Beñita de Peña, com a mesma naturalidade. Registam em Gontinhães o seu sexto filho e têm com eles a viver os outros cinco, nascidos naquela paróquia ga­lega (Rego, 2012).

Mas a hipótese de que um reduzido número destes pescadores migran­tes já estar, por essa altura, aqui definitivamente instalados, mantém-se.

O Rio Minho é uma fronteira facilmente transponível e as condições naturais de abrigo marítimo da enseada da Lagarteira tornam-se atraentes para os pescadores guardeses.

Até esta data não há qualquer registo de naufrágios ou qualquer re­ferência à existência de pescadores, apenas referências ocasionais às acti­vidades piscatórias durante a acalmia de verão e às disputas na apanha do sargaço entre populações das paróquias vizinhas. É bem conhecida a dispu­ta entre os residentes de Gontinhães e de Moledo a propósito da apanha do sargaço, tendo até dado origem ao topónimo do lugar em litígio, o “Caído” (Porto Caído, perto da Capela de Santo Isidoro).

Entre 1825 e 1839 existiam 7 famílias de origem galega instaladas no lugar da Lagarteira, número que subiu para 26 no período compreendido entre 1860 e 1879.

A nova actividade económica não era exclusivamente preenchida por galegos, pois chegaram pescadores de portos vizinhos como Seixas e Cami­nha, Montedor, Viana, Castelo do Neiva ou Fão e ainda residentes na paró­quia, das famílias mais pobres. Em 1855 existiam 13 lanchas e 5 masseiras; as lanchas eram embarcações maiores, mais robustas, usadas na pesca ao largo, para captura de espécies como a pescada ou a lagosta.

1 - Ilustração de Domingos Luís Verde, o Pinga.

A fragilidade das condições naturais ofere­cidas pelo portinho natu­ral, motivavam frequen­tes acidentes, logo que o mar ficava mais agitado. Pressionadas pelas notí­cias dos naufrágios ocor­ridos, as Obras Públicas Distritais, por dotação do Ministério do Fomento e Obras Públicas, iniciaram em 1862 a construção de um quebra-mar pelo nor­te do Forte da Lagarteira, formado por um muro de pedra encaixada, do mesmo modo que as paredes das camboas.

A segurança resultante desta obra era pouco animadora e o quebra-mar foi várias vezes destruído e reconstruído.

Entretanto, várias famílias galegas vinham instalar-se na Lagarteira, transformando a frequência sazonal do Verão em residência fixa durante todo o ano. Importa agora perceber o motivo para a emigração galega, sen­do certo que o Rio Minho promovia uma falsa separação, pois as afinidades socioculturais e linguísticas eram imensas.

No início do séc. XIX vivia-se na Galiza uma fase de pobreza econó­mica, em parte devida ao aumento populacional. Esta pressão demográfica e o desequilíbrio entre recursos disponíveis e população é a causa maior da emigração galega, se bem que os conflitos bélicos, o agravamento dos impostos e as levas militares também tivessem contribuído para a mobilida­de galega. Se a maioria rumou à América, outros demandavam Lisboa e o Porto, bem como a zona do Douro, uma minoria recolheu-se nos povoados portugueses próximos da fronteira. Assim fizeram os pescadores guardeses, que com eles trouxeram todas as suas técnicas, as ferramentas e os equi­pamentos de pesca.

publicado por Brito Ribeiro às 13:11

O período mais significativo da demanda do Portinho de Gontinhães por pescadores de A Guarda, no século XIX, insere-se no contexto geral da diáspora galega, que a poetisa Rosalia de Castro, num lamento sentido, canta:

     “Este parte, aquele parte

      E todos, todos se vão;

     Galiza ficas sem homens,

     Que possam cortar teu pão.”

 

Com efeito, as guerras, as convulsões políticas e sociais já decorren­tes do século anterior, agudizaram neste século as condições económicas da Galiza, mergulhando-a na insegurança e na pobreza. Eram já razões bastan­tes para partir.

Entre 1825 e 1924, 43% dos nascimentos re­gistados na freguesia de Gontinhães, tinham, pelo menos, um dos progenito­res como imigrante galego, o que atesta a importân­cia que esta comunidade ganhou ao longo dos anos (Rego, 2012).

Nessa época, tal como na actualidade, a emigração é a busca por melhores condições de vida e a ela recorrem os sectores mais vulneráveis da sociedade.

Pinho Leal escreve com preocupação e até uma ponta de amargura sobre a Lagarteira:

“Na Lagarteira ha um fortim que foi reparado em 1865 e que tem uns 3 ou 4 veteranos de guarnição; mas há muitos anos está completamente desartilhado.

Também há aqui, junto e ao S. do tal fortim, um varadouro chamado Por­tinho, onde só podem entrar as pequenas lanchas de pesca. Está de todos os lados cercado de penhascos, onde quasi todos os annos há desgraças a lamentar, pois os barcos n’elles se despedaçam com frequência. É verdade que em 1865 se concluiu um quebra-mar, ao N. do Portinho, por conta das obras públicas do districto, que evita alguns perigos e sinistros; mas muito mais útil seria aos pobres pescadores d’aqui, se fosse mais sólida e scientificamente construído. Este, no estado em que está, não dá grande crédito a quem o deliniou!

O mar, com qualquer temporal (que é quando o corta-mar era precizo) galga sobre elle com a maior semceremonia!” (Leal, 1875).

10 - Ilustração de Pinho Leal. O Portinho antes

Face ao aumento de movimento de barcos e de pescado, às notí­cias das perdas de vidas nos naufrágios e à crescente impor­tância da Praia d’Âncora como estância balnear, decidiram as Obras Públicas Distritais cons­truir a sul do Forte da Lagartei­ra dois molhes convergentes e delimitantes do varadouro. As obras de construção dos mo­lhes, corte das pedras do inte­rior e aprofundamento, duraram até 1884 e tiveram um custo de 10:661.820 reis.

Neste valor estão incluídas despesas com diversas obras de recons­trução, já que durante este período o mar continuou a fazer estragos nos molhes; o quebra-mar a norte ficou abandonado (foi sensivelmente sobre este pequeno e tosco quebra-mar que se construiu em 1935 o molhe do Porto Novo).

Após a conclusão das obras, os episódios de destruição desta infra-estrutura são frequentes e ocorrem até mais de uma vez por ano, para desespero dos pescadores e dos Serviços Fluviais e Marítimos que tinham a responsabilidade da sua conservação.

Exmo. Snr. Engenheiro Chefe da 1ª Secção da 1ª Direcção dos Serviços Fluviais e Marítimos

Já tenho ido por três vezes ao portinho de Gontinhães para proceder ao conserto de que V. Exc. me deu ordem mas não tem sido possível poder-se fazer o referido conserto por o mar estar muito levantado, agora dei ordem aos pedreiros para ser feito na ocasião das marés vivas, o que também me parece que temos no molhe sul mais ou menos estrago o que poderei ob­servar na ocasião das marés vivas.

Deus guarde V. Exc.

Riba d’Âncora 30 de Dezembro de 1903

O apontador de 2ª classe

João José Rodrigues Gomes de Oliveira

 

A troca de correspondência entre os homens no terreno e a Direcção Distrital da Obras Públicas (esta correspondência está conservada no Arquivo Distrital de Viana do Castelo, Secção de Hidráulica) era abundante, apontando frequentemente er­ros de concepção e construção como causa das avarias.

Exmo. Senhor Engenheiro Chefe da 1ª Secção da 1ª Direcção dos Serviços Fluviais e Marítimos

Exmo. Snr.

Depois que recebi a nota de serviço nº 149 datada de 18 do ano e mês findo em que me ordenou que procedesse sem perca de tempo às repa­rações do estrago feito no molhe norte do portinho de Gontinhães, não me foi possível proceder logo aos três consertos por não haver pedreiros na ocasião e que na mesma ocasião assentei com o pedreiro Constantino Sobreiro o dia em que ele tinha pedreiros e que havia de proceder aos re­paros, o que disto dei parte a V. Exc.. Porém no dia marcado 28 do mês e ano findo não foi possível proceder-se aos referidos reparos por causa da chuva e alteração do mar. Em vistas de tudo isto determinei e ficou para as marés vivas de que dei parte naquela mesma ocasião a V. Exc. Na qual também lhe dizia que no molhe sul me parecia haver estrago, todavia on­tem que se havia de dar princípio aos reparos mas que se não pode dar por causa do mar e chuva e o mesmo aconteceu hoje, mas que todavia hoje pude descobrir que no molhe sul é preciso fazer em uma pequena distan­cia recalce, o que no dia 7 do corrente é que assentei com o Constantino procedermos aos consertos caso o mar e chuva deixe. E para isso convido a V. Exc. Para vir até cá ver a que há a fazer. Enquanto a vigilância com­binei com o Lopes o ele vigiar de noite e eu e ele de dia, porém, segundo informações não houve mão mal fazeja como ao principio parecia, e que os pescadores dizem que tudo é motivado da falta do penedo que se quebrou.

Deus guarde V. Exc.

Riba d’Âncora, 5 de Janeiro de 1904

O apontador de 2ª classe

João José Rodrigues Gomes D’Oliveira

publicado por Brito Ribeiro às 13:06

Em 1886, Baldaque da Silva (Capitão Tenente da Armada, engenheiro hidrográfico e membro da Comissão Permanente das Pescas) descrevia o Portinho de Gontinhães da seguinte forma:

“Situado entre a embocadura do Rio Âncora e o forte do mesmo nome, fica um pequeno porto oceânico formado por dois paredões ou quebra mares convergentes, que o abrigam um pouco das vagas, a que chamam Portinho de Gontinhães ou da Lagarteira.

Para o interior da praia deste porto estão as casas dos pescadores, habi­tando também na povoação de Gontinhães e nas freguesias circunvizinhas desta.”

 

Esclarece ainda, que nesse ano estavam registadas 5 lanchas, 28 bar­cos e 32 masseiras, portanto 65 embarcações e 164 tripulantes.

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Este número de tripulantes pode estar incompleto, pois em cada lan­cha pescavam cerca de 20 homens, nos barcos, que seriam catraias grandes e catraias pequenas, embarcavam 4 ou 5 tripulantes e cada masseira em­barcava 2 homens, às vezes três. Tudo somado daria um total de cerca de 300 tripulantes.

Os números que aqui registamos são os que habitualmente embar­cavam, no mínimo, em cada tipo de embarcação no Portinho de Âncora. Também deve ser tomado em consideração que, nessa época, o registo dos marítimos era menos rigoroso e provavelmente continuaria a praticar-se alguma migração sazonal entre o Portinho d’Âncora e A Guarda.

As tripulações dos mesmos tipos de embarcações, ou similares, dos portos de Viana do Castelo e Póvoa de Varzim eram bastante superiores, a saber, lanchas de 14 metros 20-30 tripulantes cada; catraias grandes de 8 metros de comprimento, 8-10 tripulantes cada; catraias pequenas, de 6 metros de comprimento, 5-8 tripulantes; caíques de 3,60 metros, 2-4 tripulantes.

Sobre o Porto Novo dizia Baldaque da Silva:

“Pelo norte do forte de Âncora existe uma espécie de varadouro, cortado na penedia, começo de uma obra para refúgio das embarcações de pesca, que não se chegou a concluir, conhecido pelo nome de Porto Novo, que é actualmente aproveitável como porto de sargaço”. (Silva, 1891)

Reclamando sobre as condições de segurança do Portinho, também o semanário “A Voz do Âncora” (Semanário local que se publicou entre 3 de Janeiro de 1904 e 31 de Dezembro de 1905, do qual era director João José de Brito), insurgia-se frequentemente:

“Ali temos, por exemplo, o nosso porto de pesca, isto é, uma perfeita “ratoeira” para apanhar homens, se a muita prudência daqueles, que, no mar, buscam os meios de vida, os não aconselhasse a procurar outros abrigos, apenas o grande elemento mostra indícios de embravecer”;

(…)

“Têm vindo para aí, por diversas vezes, uns centos de mil reis para fazer reparos nos “molhes” que formam o nosso porto(?). Os trabalhos que,

com tal dinheiro, se tem feito não têm sido mais que um entretenimento para o mar, na quadra tempestuosa do inverno.”;

“Os pescadores bem gritam que, assim, de nada serve perder tempo e di­nheiro; bem indicam a maneira de se fazer, duma vez, coisa que sirva, mas… não há meio. Os governos preferem ir estragando a pouco e pouco, embora isso lhes custe mais caro que lhes cus­taria a obra bem feita.”;

(…)

“E é para tudo que diga respeito ao mar, esse fac­tor da nossa vida comercial e indus­trial, que nós pedi­mos mais instan­temente a atenção dos que, pelo lugar que ocupam, po­dem, por assim di­zer, mandar.”

Em 1911, insatisfeito com as condições de segurança dos pescadores ancorenses, o senador republicano Luís Inocêncio Ramos Pereira, grande amigo da classe piscatória ancorense, dirige um requerimento ao Ministro do Fomento, solicitando diversos esclarecimentos, sendo emitida uma ordem de serviço aos serviços técnicos no sentido de dar provimento à demanda do senador.

Ministério do Fomento – Direcção Geral de Obras Públicas – Repartição de Obras Públicas – Ordem de serviço nº 980

A fim de satisfazer um requerimento do Senhor Deputado Luís Inocêncio Ramos Pereira queira V. Exc. Prestar os seguintes esclarecimentos:

1º Em quanto importou a construção do porto de pesca (varadouro) de Gontinhães do concelho de Caminha?

2º Quanto se tem despendido nas reparações?

3º Em que tem constituído essas reparações?

4º Qual o seu estado actual?

5º Quais as suas condições de segurança?

6º Tem em todas as marés água suficiente para a entrada de qualquer embarcação de pesca?

7º Que obras merece se lhe façam?

Direcção Geral de Obras Públicas e Minas, em 12 de Agosto de 1911

Para o Engenheiro Director dos Serviços Fluviais e Marítimos (1ª Direcção)

O Director Geral, Severiano Monteiro

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Está conforme

Porto, 17 de Agosto de 1911

António D’Albergaria Pereira

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A resposta chega cerca de duas semanas mais tarde, o que denuncia, pela brevidade, que havia pensamento feito sobre este assunto e sobre a forma de corrigir o Portinho de Âncora.

Nota de serviço nº 129, em 30 de Agosto de 1911

Respondendo ao que me foi determinado em nota de serviço da Direcção nº 941 de 17 de Agosto corrente que acompanhou a ordem de serviço do Ministério nº 980 de 12 do referido mês, compete-me informar o seguinte:

1º Que o custo do porto de pesca (varadouro) de Gontinhães, do Con­celho de Caminha, construído desde 1862 até 1884 importou segundo as notas existentes de despesa dessas datas 10:661,820 reis.

2º Que tem sido diversas as reparações principalmente no molhe norte que em diferentes anos o mar tem destruído na parte extrema do molhe, montando as despesas feitas com essas reparações em 1:863,380.

3º Que essas reparações têm sido, como acima digo, em reconstruir principalmente o molhe norte junto da entrada do porto, limpeza deste feita por várias vezes e consertos de vários rombos no molhe sul.

4º Que no estado actual encontra-se o leito do varadouro entulhado de pedras principalmente junto do molhe norte, pedra que é proveniente deste molhe, em virtude da sua destruição de cerca de trinta metros, junto da entrada do porto.

5º Que tem sido diversas vezes que o molhe norte sofreu avarias e será difícil fazer a reconstrução de tal forma que o mar não produza sucessiva­mente ruinas iguais às que se tem dado, porque a superfície das rochas naturais sobre que se tem de assentar o molhe são muito inclinadas e a direcção do molhe recebe a pancada do mar quase mortalmente.

6º No estado actual o varadouro não tem água para entrarem os barcos de pesca em qualquer ocasião ficando nas baixas marés de águas vivas todo a seco como se vê na planta que junto remeto e a classe piscatória pede com urgência a limpeza do porto e a abertura de uma espécie de canal com a largura de oito metros e a profundidade de 1,50 desde a entrada do porto até à rampa de varagem, petição esta que considero justíssima e que se deve atender desde já.

7º Todos os anos o mar causa mais ou menos ruinas naquele molhe e a conservação dele tem de ser indefinidamente mais ou menos dispendiosa. Parecendo-me por isso, que o mais conveniente seria tirá-lo fora cortando a rocha sobre o qual ele assenta e ainda toda a que existe ao norte até perto do cunhal do Forte de Âncora à cota um metro abaixo de zero Hidro­gráfico. Desta forma amplia-se muito a superfície do varadouro, sem al­terar a sua entrada podendo os barcos de pesca ficar constantemente em flutuação e evitando-se a varagem para junto das casas, salvo no caso de tempestade ou mar muito agitado. O rochedo existente a nascente do ac­tual portinho ficará sendo um abrigo natural do alargamento, que entendo deve fazer-se, não sendo preciso molhe de abrigo. O aumento da superfí­cie do varadouro será cerca de 1400m2 e o volume de rocha de 7000m3, cortada até um metro abaixo do zero hidrográfico. O corte e transporte deste volume quase todo extraído a seco, não deve importar em mais que 7:000.000 reis, isto é, 1000 reis por metro cubico. Finalmente as despesas a fazer com o portinho d’Âncora dividem-se em duas partes, uma urgente que é a limpeza e corte de um metro e cinquenta centímetros de altura com a largura de oito metros no actual varadouro e o alargamento deste para o norte. A primeira entendo que se faz com sete contos de reis e a segunda com três contos.

O Eng. Chefe de Secção (assinatura ilegível)

publicado por Brito Ribeiro às 12:58

Depois de todas as vicissitudes porque estes processos de estudo e intervenção passaram, acaba por decidir-se o prolongamento do molhe nor­te até à Pedra Fanequeira, algo reivindicado pela classe piscatória, que se concretiza através do telegrama de 24 de Abril de 1913.

Cópia – Manda o Governo da República que o Director dos Serviços Fluviais e Marítimos (1ª Direcção) seja autorizado a dispender no ano económico corrente nos trabalhos da “Reparação do muro do cais do norte do por­tinho de Âncora até à pedra da Faniqueira” e por conta do orçamento a elaborar a quantia de seiscentos mil reis (600$000) pelo capítulo 2º artigo 18º do desenvolvimento da despesa para o ano económico de 1912-1913.

Paços do Governo da República, 24 de Abril de 1913

António Maria da Silva

Está conforme

Porto 26 de Abril de 1913

António d’Albergaria Pereira

 

O sonho de o prolongar até ao baixio do Lira, respon­sável por tantos acidentes, alguns deles fatais, nunca se concretizou. Esta é, até à actualidade, a sina do Porti­nho ancorense: ficar sempre aquém das expectativas em todos as intervenções que foram feitas. O mesmo acon­teceu com as obras do Porto de Abrigo de Vila Praia de Ân­cora executadas entre 2002 e 2003.

O erro desta obra, que não satisfaz e desiludiu a classe piscatória e os ancorenses em geral, começou com os estudos que fundamentaram o projec­to e acabou na obra, apesar dos constantes apelos e chamadas de atenção durante a fase de obra, que se via caminhar para o erro. Mas os responsáveis não quiseram ouvir as reclamações dos pescadores, nem as denúncias da imprensa local. Mais uma vez, a actividade da pesca em Vila Praia de Âncora está irremediavelmente comprometida.

Em consequência dos erros cometidos somam-se os constantes asso­reamentos e outras tantas intervenções de desassoreamento a onerar cada vez mais a obra, tal como no século XIX, criando dificuldades aos pescado­res que se debatem com problemas de segurança, tanto para si próprios como para as suas embarcações.

Segundo Aurora Rego (historiadora ancorense), entre 1825 e 1924 entraram em Gontinhães 137 galegos, 64 dos quais eram de A Guarda, formando um total de 60 famí­lias em que pelo menos um dos cônjuges era de origem galega. No mesmo período contabilizaram-se 2107 descendentes o que representou 43% do total de nascimentos registados, como resultado de uma forte endogamia matrimonial e elevado coeficiente de fecundidade (Rego, 2012).

Era comum os casais terem oito, dez ou mais filhos, que dilataram ra­pidamente a comunidade piscatória. Os homens dedicavam-se predominan­temente à pesca, auxiliados pelas mulheres e filhas que vendiam o peixe e se dedicavam ainda às tarefas domésticas e ao cultivo de pequenas hortas.

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Após a abertura da Estrada Real e, principalmente, da construção do caminho-de-ferro, surgiu como actividade complementar à economia do­méstica o aluguer das habitações para os banhistas que demandavam o litoral, para os medicinais banhos de água quente e banhos de mar, durante o Verão e parte do Outono.

Na folha literária nº 29 da “Pero Gallego” (outubro de 1882), Rocha Páris assina um artigo sobre a Praia de Âncora:

“Actualmente pode di­zer-se afoitamente que a Praia de Âncora – a única deste distrito – é uma da­quelas de Portugal onde mais animada e comoda­mente se passa a época balnear. Não há luxo nem o fausto doutras praias, mas há – e isso vale mais – entre os diversos ba­nhistas uma cordialidade e franqueza, deveras apre­ciável, que faz de todos eles uma grande família”.

 

As famílias de pescadores que chegavam ocupavam os baldios frente ao mar, próximos do portinho natural e perto da segurança oferecida pelo Forte da Lagarteira.

A sua implantação, certamente pouco ordenada, fez-se conforme as posses e as necessidades. Com as reformas liberais (após a entrada em vigor da Carta Constitucional de 1826), tendo por princípio a libertação das terras das peias feudais e a sua individualização, as ocupações e apropriações dos baldios tornaram-se práticas co­muns, pelo que foi necessário produzir legislação para regu­larizar a ocupação, de facto, do território.

publicado por Brito Ribeiro às 12:54

Até meados do século XIX a comunidade rural de Gonti­nhães não mostrava qualquer interesse pelos terrenos litorais, não agrícolas, desabrigados e frequente­mente invadidos pelo mar durante os temporais. Devido à crescente ac­tividade da praia de banhos e ao fluxo comercial gerado pela comunidade piscatória, a propriedade baldia no litoral passou também a ser disputada pelos proprietários rurais, comerciantes e burgueses, que queriam construir comércios ou habitações frente ao mar.

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A construção da Estrada Real nº 4 (Viana-Valença) em 1858 e a linha do caminho-de-ferro em 1878, deram um forte incremento ao desenvolvi­mento de Gontinhães, que se estendeu ao longo destas duas vias paralelas. Porém, a comunidade piscatória também ficou mais isolada e separada fisi­camente da comunidade rural.

A comunidade piscatória competiu com a praia de banhos durante décadas pela ocupação do areal, mas face à crescente importância desta actividade e ao reduzido poder económico dos pescadores, não lhes sobrou outra alternativa do que alargar a sua área de residência para norte ou in­troduzir melhoramentos e ampliações nas habitações existentes, designada­mente para alojar as novas gerações.

No final do século XIX, o Lugar da Lagarteira está densamente povoa­do, não só pela fixação da comunidade piscatória, mas também pela fixação de algumas famílias da comunidade rural, ex-emigrantes bem sucedidos e in­divíduos vindos do exterior, que construíram habitação, comércios e serviços.

Se até 1840 os residentes na Lagarteira eram 9% da população total de Gontinhães, em 1924 já re­presentavam mais de 36%, o que atesta a crescente importância des­te lugar outrora desabitado (Rego, 2012).

“Perto de Âncora fica a povoação de Gontinhães, de pescadores e de pedreiros, os pescadores ao pé do mar, os outros lá em cima no Calvá­rio, unidos pelo caminho da Lagarteira, torto e lajeado.” (Brandão, 1989).

 

Gradualmente, o centro nevrálgico da freguesia, situado à volta da Igreja Matriz vai-se deslocar para o litoral. Esta concentração na orla maríti­ma está na causa directa da demolição da pequena ermida da Senhora das Necessidades, construída pelo Abade Gonçalo Pinto Medeiros de Carvalho, entre 1760 e 1765, conforme se justificava a urgência pela voz da imprensa,

“…edificação de uma nova igreja, porque a localidade é muito populosa, e à qual, nas épocas balneares, afluem milhares de pessoas, há apenas uma capela que comporta, quando muito 50 pessoas” (Jornal da Manhã, Porto – nº 222, 13 de Agosto de 1876)

A construção da nova e ampla capela da Senhora das Necessidades, teve início em 1889, após doação de 200m2 de terreno, por Manuel Fernan­des de Mendonça; mais tarde, a designação desta capela foi alterada para Senhora da Bonança e o Largo das Necessidades, com a queda da monar­quia, para Praça da República.

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A revista “Ilustração Portugueza”, em  Outubro de 1922, dedicou uma página à Praia de Âncora, com referências ao seu património histórico e ao ambiente pitoresco que anima o portinho junto ao Forte da Lagarteira:

“Âncora é uma das mais lindas povoações do Minho, e pode considerar-se privilegiada da Natureza, pois que ao encanto da sua praia alia a beleza dos seus campos, onde não se nota a aridez própria das proximidades do mar. Quando este é rude, no Inverno, a gente laboriosa da pitoresca es­tancia volta-se para a terra, que não lhe nega o sustento.

Muito frequentada no verão por banhistas, principalmente do norte, é para estes um espectáculo interessante o da venda do peixe na praia, quando, á tarde, os barcos voltam da sua faina, depois de levantadas as redes.

Âncora é também um logar de atração para os amadores de arqueologia, visto que no sítio existem dolmens e outras antiguidades prehistoricas já estudadas pelo notável arqueólogo Martins Sarmento, bem conhecido pela exploração completa que fez da citania de Briteiros, perto de Guimarães.”

publicado por Brito Ribeiro às 12:45

O contributo dos marítimos galegos, principalmente guardeses, no desenvolvimento da pesca foi fundamental. Como referimos, em 1825 havia uma família a residir permanentemente na Lagarteira e em 1840 registadas quatro, sendo que três delas eram lideradas por elementos da família Verde.

Em 1843 já havia catorze embarcações, com a particularidade que seis dedicavam-se à venda do pescado e oito pescavam para autoconsumo. Dada a tonelagem referida nas oito embarcações (entre 0,750 e 1 Ton.), as­sim como o número reduzido de tripulantes de cada uma, conclui-se que se tratavam de pequenas embarcações, certamente gamelas guardesas.

Não há dúvidas que os primeiros barcos a visitar a enseada da La­garteira deviam ser lanchas e barcos de tipologia poveira, mas os primeiros imigrantes vieram apetrechados com embarcações mais pequenas, mais po­bres, tal como eles, que tinham de abandonar as suas terras na busca do sustento.

As gamelas, ou masseiras, de estrutura mais modesta e simples, fo­ram as que por mais tempo e melhor se adaptaram às condições rudimen­tares do varadouro. Chegaram aqui como mala de viagem pela facilidade de manobra e pela ousadia de navegar no oceano. Haviam de resistir aos barcos de modelo poveiro até aos nossos dias, evoluindo e adaptando-se através das transformações e das novas condições tecnológicas.

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Em 1855, o mapa das embarcações mostra que havia treze lanchas e cinco masseiras e como apontámos anteriormente, em 1886 as embar­cações registadas eram 65, valores que confirmam o desenvolvimento da actividade marítima e que as sucessivas gerações continuavam na mesma actividade familiar.

Era também reconhecida a importância económica da pesca em Gon­tinhães no contexto local e até regional.

O semanário “A Voz do Âncora” exprime publicamente esse reconhe­cimento a 3 de Janeiro de 1904:

Esta classe, sem dúvida a mais numerosa da nossa terra, vae ter em nós, desde já o asseguramos um defensor tão intrépido como valoroso quanto as nossas forças o permitirem. E é justo, porque, se é nella que nós vamos procurar um grande número de auxiliares, é sobre ella também que devem recahir os primeiros benefícios advindos do brado que vamos soltar em favor de todos.

O pescador representa, entre nós, a mais poderosa alavanca do bem estar geral. Bastam oito dias de abundancia para ele, para a abundancia se fazer sentir em toda a parte. Que o digam os proprietários de todos os estabe­lecimentos commerciaes, que o digam todos os industriaes e lavradores.

Apenas no nosso pequeno porto há pescado em quantidade razoável, já os credores e devedores respiram, porque a moeda, em quantidade rela­tivamente grande, começo a circular.

A vida comercial e industrial depende, pois, sobremaneira, da vida do mar e, d’aquela, depende geralmente a vida do nosso publico.

Mas esta classe, a marítima, tão trabalhadora quanto pobre e infortuna­da, vê-se, no momento actual, a braços com a miséria. É ver as creanças, quasi completamente nuas, esmolando, de porta em porta, umas côdeas duras; é atentar nos homens e nas mulheres, recorrendo a todos para empenharem os últimos farrapos com que deviam guardar do frio os seus corpos esqueléticos.

Para esta penúria, tomamos a liberdade de chamar a atenção do exm.º sr. Governador Civil do districto e temos a convicção de que o não fazemos em vão. S. ex.ª pode interceder pelos nossos pobres pescadores, perante as di­recções dos cofres dos “Socorros a Naufragos” e “Inundados” e con­fiamos em que o fará, porque, asseguramo-lo sem receio de desmen­tido, a sua alma de eleito não pode conser­var-se insensível ante a miséria dos povos que, sob a sua esclarecida superintendência, são administrados.

 

Numa comparação entre o volume de pescado registado, entre os vários portos pesqueiros, verifica-se que em 1886, o valor registado em Gontinhães era apenas inferior aos portos de Viana e de Esposende. Os registos podem não traduzir a verdadeira dimensão das quantidades capturadas, pois sempre foi tradição o pescador “fugir” com o peixe ao dízimo e mais tarde à lota, evitando assim de pagar os impostos em vigor.

Convém salientar que nem todos os tripulantes tinham cédula maríti­ma e muitos não estavam matriculados nas embarcações, havendo também embarcações sem registo e embarcações registadas em outros portos mas que por conveniência pescavam em Âncora, mesmo que sazonalmente. Os registos marítimos da época eram pouco rigorosos e essa foi uma das razões para mais tarde ser criada uma Capitania local. A falta de rigor nos registos pode alterar significativamente a conclusão sobre o número de embarca­ções, tripulantes e valores do pescado. Mas não deixa de ser uma referência.

As lanchas que conviveram durante décadas com as masseiras, eram embarcações maiores e mais robustas, adequadas à pesca no alto mar, tra­zidas pelos pescadores poveiros que as disseminaram por todo o norte de Portugal e pela Galiza. Estas lanchas iniciaram o seu declínio por volta de 1930 desaparecendo pelos anos cinquenta (1953-1954), devido ao surgimento das mo­toras, traineiras e “trucks”, que em Âncora se designavam “truques” (Pequena traineira).

20 - Truque Timor - Tio Feito e filhosManuel e Aqu

Não fica um único barco tipo poveiro para testemunhar a sua passagem por aqui. Surgem os barcos a motor e o esforço pesqueiro não tem preceden­tes. Instalam-se dois postos de abastecimento de combustível: um no molhe norte do portinho velho, da Sonap, e o outro no cais do porto novo, da Shell. A Lota abre e inicia-se um processo de vendagem moderno. Não foi pacífico esse processo, a aceitação da nova disciplina, método de arrematação do pes­cado e percentagens a descontar para o Estado. O peixe deixa de ser leiloado na praia e o dízimo taxa­do pela Guarda Fiscal dá lugar a um novo proces­so administrativo adap­tado a novas exigências de índole regulamentar e social.

As masseiras, pe­quenas embarcações de fundo chato trazidas pe­los guardeses, sobrevi­veram a estas alterações porque eram utilizadas na captura de espécies costeiras, se bem que aos poucos e com algumas adaptações, tivessem uma utilização mais diversificada e se aventurassem em pesqueiros mais afastados da costa.

Os pescadores das masseiras constituíam uma subcultura caracteri­zada pelos mais humildes da classe. Era a embarcação dos pobres, unidos naquela perspectiva definida por E. P. Thompson, citado por Staffan Mörling (Morling, 1989):

As classes sociais desenvolvem-se quando homens e mulheres experimen­tam as suas condições de produção e quando sofrem as suas circunstâncias”.

 

Com efeito, o papel desempenhado pelas lanchas e barcos tinha um estatuto e prestígio com um peso específico na paisagem social e cultural da comunidade piscatória, como veremos mais adiante quando tratarmos dos casamentos na comunidade marítima.

Mas os pescadores guardeses não trouxeram apenas a sua força de trabalho, trouxeram as artes e o saber de toda a prática marítima, nomea­damente a construção naval.

publicado por Brito Ribeiro às 12:36

20
Mar 20

Farol de Montedor, Viana do Castelo (1).jpg

Faz hoje, sexta-feira, 20 de março, 110 anos que começou a funcionar o Farol de Montedor, localizado no Lugar de Montedor, Freguesia de Carreço (8 km a norte de Viana do Castelo).

Com 28 metros de altura, tem um alcance de 22 milhas (40 km). É um dos 15 faróis visitáveis em Portugal continental que integram o programa lançado pela Marinha Portuguesa.

Assim sendo, todas as quartas-feiras, das 14h00 às 17h00, no período de verão e das 13h30 às 16h30, no período de inverno, aproveite as visitas gratuitas para conhecer por dentro este magnífico farol. Não há dois faróis iguais, cada um tem características físicas e um código de luz próprio.
No entanto, Informa-se que os Faróis e o Núcleo Museológico da Direção de Faróis se encontram encerrados a visitas por tempo indeterminado, como medida preventiva para conter a propagação do coronavírus (Covid-19).

Para um conhecimento mais pormenorizado deste farol pode consultar aqui o meu post de 2008.

Farol de Montedor, Viana do Castelo.JPG

Fotos e texto do blog olharviana.blogspot.pt

 

publicado por Brito Ribeiro às 12:13

14
Mar 20

Ciclicamente, despontavam surtos de doença que provocavam picos de mortalidade na região. Quando atingia o estatuto de epidemia, afectava principalmente os grupos populacionais mais frágeis e desfavorecidos, como o da Lagarteira, que trabalhavam e viviam em condições de segurança e de higiene mais precárias.

No século XIV a peste negra que varreu a Europa dizimando cerca de 30% da população talvez tenha sido a epidemia mais mortífera, mas outras se seguiram quer no século XVII com diversos surtos de tifo, quer no século XIX com os surtos de cólera que começaram por 1833 e se prolongaram até 1852, resultaram em falta de mão-de-obra, levando à escassez de cereais e ao aumento exponencial do preço destes, decorrendo situações de fome e pobreza, agravando as precárias condições de higiene e subnutrição.

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Em 1895 uma epidemia de varíola varre Gontinhães, sendo 60,9% dos óbitos registados na zona litoral da freguesia. Especialmente nos meses mais quentes, as epidemias de varíola e tifo ou difteria, atribuídas aos “maus cheiros” dos estrumes do patêlo, que por ali se costumava empregar como estrume, pelo que as autoridades administrativas ordenaram que este estrume depois de colhido no mar seja imediatamente enterrado a um palmo de profundidade (Rego, 2012).

O correspondente local de “O Jornal da Manhã” refere na sua crónica sobre Gontinhães:

nesta freguesia há muito a fazer, particularmente no porto de pesca, e nas casas de alguns lavradores que, nada cuidadosos da sua saúde, têm as cortes dos gados vacum e suíno juntas ou por baixo dos aposentos em que habitam e dormem

Como os cadáveres eram inumados no átrio da Igreja e este já estivesse sobrelotado, o Governo Civil de Viana do Castelo exige à Administração da Câmara de Caminha que proceda de imediato à aquisição dos terrenos necessários à construção do cemitério. Esta delibera rapidamente e por unanimidade na compra 886 m2, mas será a Junta de Paróquia  de Gontinhães a efectuar empréstimos e a lançar derramas para custear a obra, que se concluirá em 1897.

Apesar de alguns surtos epidémicos de média dimensão no século XX, é a epidemia de gripe espanhola ou pneumónica que vai marcar profundamente a sociedade portuguesa. Este surto de pneumónica ter-se-á iniciado junto das tropas aliadas no final do conflito mundial de 1914-1918 e rapidamente se espalhado por todo o Globo com a desmobilização dos militares.

Embora estejam registados cerca de 8.000 óbitos no Distrito de Viana do Castelo, é provável que o número real de mortes seja perto do dobro do registado e o número de contágios em Gontinhães, incidia maioritariamente em residentes do Lugar da Lagarteira.

A partir do dia 4 de outubro de 1918 surgiram inúmeros casos de marinheiros, grumetes, marítimos, remadores, fogueiros e barqueiros infectados. Fica claro que estes indivíduos, ligados à atividade marítima, contaminaram os restantes elementos das respetivas famílias, surgindo posteriormente casos de internamentos de peixeiras, criadas, jornaleiras e domésticas.

15 - Familia Maçarongo.jpg

Assim, parece-nos evidente que esta primeira vaga de pneumónica teve origem, quer ao nível do concelho quer ao nível da paróquia, junto das comunidades marítimas, através de uma constante comunicabilidade com parceiros económicos portuários, em particular de origem galega, apesar de oficialmente estar encerrada a fronteira com Espanha.

A expansão da gripe, reportada pelo Provedor da Misericórdia, iniciou-se nas paróquias que mantinham maior contato com a raia fronteiriça e litoral (Caminha, Gontinhães, Seixas, Moledo, Cristelo), tendo alastrado posteriormente para o interior do concelho.

Esta epidemia acabou por se propagar a outros setores da população, de tal modo que, afetando as demais atividades económicas, se repercutiu no volume da mão-de-obra, em particular afeta à produção agrícola. (Rego, 2012)

publicado por Brito Ribeiro às 12:25
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Ainda o Vale do Minho não se tinha refeito da epidemia de cólera que levou em 1885 ao fecho da fronteira, quando rebentou em todo o mundo outro vírus tão ou mais perigoso do que aquele que grassara 30 anos antes.

Estávamos em 1918 e acabara a Grande Guerra. A pneumónica, também conhecida como gripe espanhola, estava a ceifar vidas aos milhares por onde passava.

O contágio disseminou-se com a desmobilização das tropas na Europa e rapidamente alastrou até Portugal, com particular incidência no norte.

A doença varreu o país a uma grande velocidade, tanto assim que a falta de caixões para os funerais foi um dos resultados imediatos, o que fazia que muitas famílias os comprassem por antecipação e guardassem debaixo das camas onde os seus membros agonizavam”, escreveu o Diário de Notícias num artigo em 2018, no ano em que passaram 100 anos sobre este flagelo.

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As deploráveis condições de vida, agravadas pelos efeitos da I Grande Guerra, facilitaram a rápida propagação da gripe, a par de outros fatores, como o desconhecimento da assepsia, o acesso limitado a fármacos ou a inexistência de antibióticos” (Alexandra Esteves - O Impacto da Gripe Pneumónica em alguns concelhos do Alto Minho).

O vírus entrou no Vale do Minho e as autoridades decidiram encerrar a ponte de Valença. Porém foi Vila Nova de Cerveira a sofrer as primeiras vítimas em Outubro de 1918.

Em Gontinhães, o cenário continuava preocupante; em Monção, as vítimas eram às centenas; na freguesia de Lanhelas, concelho de Caminha, os doentes eram mais de 150; na capital do distrito, o panorama parecia mais animador, permitindo, inclusive, a reabertura das igrejas”, refere a investigadora.

O mês seguinte foi fatídico para Valença. A epidemia continuava a grassar com intensidade. Do outro lado do rio Minho, na Galiza, contavam-se 8.000 infetados e as comunicações entre os dois países continuavam suspensas.

Imediatamente após as primeiras mortes ocorridas em Monção, foram lançadas medidas para conter o seu alastramento, que passavam pelos cuidados com a higiene pessoal e o asseio da casa e pela recomendação de recorrer a apoio médico logo que surgissem os primeiros sintomas. Só que a realidade era bem mais negra que as simples recomendações vindas de Lisboa.

Em finais de 1918, faltava praticamente tudo em Monção, desde bens essenciais como arroz, açúcar, carvão, azeite e petróleo, bem como apoio médico e sanitário.

Em outubro de 1918, o cenário no Município de Melgaço ia de mal a pior. Valter Alves, conta no seu Blog Melgaço: Entre o Minho e a Serra, que o jornal A Gazeta do Lima noticiou nessa altura que no concelho “as cousas se encontravam n’um estado pavoroso, pois até os enfermeiros da Misericórdia tinham fugido abandonando os doentes, foi uma columna da delegação da Cruz Vermelha d’esta cidade para fazer serviço n’um hospital de campanha que se instalou na casa da Escola”.

A maior parte das pessoas doentes da vila recusava ir para o Hospital da Misericórdia. “Nota-se neste concelho uma grande repugnância que não tem razão de ser. É a repugnância que muitos doentes sentem em ir para o hospital e essa repugnância vem de se dizer que lá só dão aos doentes leite e caldo e alguns querem presunto no Inverno e salada no Verão”, noticiou o Jornal de Melgaço em novembro desse ano.

Em Caminha, no Hospital de Nª Srª da Visitação, a tragédia não é menor. “As carências de toda a ordem que atormentavam o seu quotidiano expunham os pacientes a todo o género de enfermidades, nomeadamente do foro dermatológico e respiratório”, descreve a investigadora Alexandra Esteves.

Nas enfermarias, proliferava gente ligada ao campo e à faina no mar. Um “elevado número de marinheiros, pescadores, barqueiros e remadores hospitalizados. Os militares foram igualmente atacados pela pneumónica, obrigando ao internando de cinco soldados”.

Implacável, a pneumónica avançava em Valença, que sem fugir à regra, preferia os mais jovens. Cerdal, Taião, Friestas, Gondomil e Boivão estavam entre as freguesias mais afetadas.

Com a doença a alastrar, o Município implementa várias medidas: “ruas e casas foram lavadas; fizeram-se defumações; quinino, sinapismos e folhas de tília foram distribuídos pelos empregados da linha férrea do Minho; a equipa médica foi reforçada com dois médicos. O administrador do concelho apelava à solidariedade dos valencianos para que ajudassem as famílias pobres atingidas pela epidemia”.

Mas no Hospital Civil o cenário era desolador. Faltavam profissionais de saúde, medicamentos e diversos produtos associados à composição de mezinhas. As orações passavam a ser o único recurso que não escasseava.

A pneumónica fez as primeiras vítimas em Vila Nova de Cerveira, mas um mês passado o quadro era menos grave que nos concelhos vizinhos.

Como se já não bastassem os acessos difíceis, Paredes de Coura tinha em outubro de 1918 o hospital superlotado, chegando a receber mais de 40 pacientes, excedendo a sua capacidade. Tratava-se de uma instituição relativamente recente, datada da década de 80 do século XIX. A doença teve ainda mais impacto “nas zonas rurais, mais isoladas, onde a ajuda médica dificilmente chegava e as recomendações sanitárias não eram escutadas”.

A Gripe de 1918 frequentemente citada como Gripe Espanhola foi uma pandemia que atingiu quase todo o planeta. Foi causada por uma estirpe do vírus Influenza, no subtipo H1N1. Estima-se que tenha causado perto de 100 milhões de mortos em todo o mundo.

publicado por Brito Ribeiro às 11:39
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