Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

27
Mar 18

Artigo que escrevi para a revista Vale Mais do passado mês de Janeiro, onde abordo questões de identidade cultural e um caso concreto ocorrido no Vale do Âncora.

 

O que é o património cultural? De forma resumida, porém objectiva, é o conjunto de bens, materiais e imateriais, considerados de interesse colectivo, com importância suficiente para serem perpetuados.

O património remete-nos para o passado, porque é um testemunho, uma manifestação e uma convocação desse mesmo passado. É sua função criar uma memória dos acontecimentos mais importantes, reunidos no conceito de memória social, que recorrendo ao património, legitima a identidade de um grupo.

O património desenha a identidade histórica e as vivências de um povo, seja de uma nação pelo conceito de identidade nacional, de um grupo étnico, comunidade religiosa, tribo, clã, família ou outro. É a herança cultural passada, que vivida no presente, será transmitida às gerações futuras.

Deve-se ter em conta que, por vezes, há manipulação ideológica do que pode ou não pode ser património. Quem decide o que é relevante preservar é um grupo (elite) e não o colectivo como um todo (povo). Atendendo à estreita relação entre património e identidade, a identidade de um grupo ou de uma sociedade é sempre um processo selectivo e fragmentado.

Em regra, a preservação do património implica custos e como os recursos públicos são sempre escassos, todos conhecemos casos mais ou menos óbvios de abandono, ruina ou esquecimento que nos revoltam, abalando a nossa confiança nos gestores da causa pública.

Ponte Eiffel - 1989 antes de ser desmontada.jpg

O caso que vos relato passa-se em Vila Praia de Âncora, de onde sou natural e causa-me algo mais que um simples desconforto.

Em 1989 a CP, por razões técnicas, decidiu substituir a centenária ponte ferroviária sobre o Rio Âncora, construída pela Casa Eiffel em 1876, por uma estrutura mais moderna e capaz de suportar as exigências atuais, quer em tonelagem, quer em velocidade das composições.

A estrutura antiga foi desmontada e depositada nas proximidades, aguardando destino condigno. Não faltaram sugestões locais para uma reforma condigna da ponte, a condizer com os seus pergaminhos.

Certo é que esteve oito anos a aguardar destino, acabando por ser transportada (1997) por uma força da Engenharia do Exército, para o Município de Póvoa de Lanhoso, onde foi mais uma vez abandonada junto ao rio Cávado cerca de vinte anos, até ser transportada para as traseiras de uma fábrica metalúrgica onde ainda se encontra, abandonada, sem préstimo e que mais tarde ou mais cedo terá como destino ser entregue a um sucateiro para desmantelar.

Se em 1997 a autarquia Caminhense não estava muito sensível à preservação deste património, hoje a Junta de Freguesia de Santa Maria de Âncora empenha-se ativamente no regresso daquela estrutura, faltando apenas um maior empenho das Câmaras Municipais de Caminha e da Póvoa de Lanhoso, da comunicação social e das associações locais de defesa do património, para o retorno deste marco da arquitectura ferroviária do século XIX.

A análise sobre património cultural não se esgota neste simples texto, nem no exemplo dado. Longe disso, mas proporciona ao leitor uma melhor compreensão da necessidade de preservar o património natural e cultural, não apenas a nível global, mas a nível local, de forma a legarmos às gerações vindouras uma memória e uma identidade onde cada indivíduo se reconheça.

Importa, pois, ter em conta a existência de culturas locais específicas, às quais está agregado um património que, assim, dá origem a identidades culturais com referências locais.

 

publicado por Brito Ribeiro às 09:28
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31
Dez 17

Para terminar o ano deixo-vos um conto policial que escrevi em 2010 e ao qual perdi o rasto neste intricado labirinto de arquivo digital. Hoje, por acaso, encontrei-o. Espero que gostem.

 

Coçou a orelha direita e deixou-se ficar encostado à ombreira da porta que dava para o longo corredor. O inspector Maurício seguia com olhar as idas e vindas dos elementos da brigada técnica que recolhiam os vestígios possíveis.

- Raio de sítio para um gajo esticar o pernil – observa o Cabral espreitando para dentro da sala – Encontraram alguma coisa?

- Não… e tu?

- É pá, cambada de murcões… ninguém sabe nada. Não viram o gajo chegar e a sala devia estar fechada.

- Quem é que tem a chave?

- Deve haver uma dúzia de chaves pelo menos. Desde as gajas da limpeza, aos professores, o segurança… sei lá, são mais que as mães!

- Vais apurar isso de seguida e aproveitar para dizer-lhes que não saem daqui até novas ordens. Temos de os começar a interrogar em seguida… O Ramos deve estar aí a chegar e vêm um ou dois estagiários para ajudar.

- Ajudar ou estorvar, carago! Sabes bem…

- Deixa-te de coisas, que tu também foste maçarico… Vai lá saber da questão das chaves e diz ao segurança que venha ter aqui comigo. – Atalha o inspector da Judiciária.

Dentro da sala um dos técnicos esvaziava os bolsos ao cadáver que teve de ser virado pois fora encontrado de bruços. Uma grande mancha de sangue tinha ensopado a camisa de flanela na zona do peito.

- Passa-me a carteira – pede o Inspector enquanto enfiava umas luvas de látex.

A carteira preta era fina, vulgar, em material sintético e fechada com velcro. No interior a carta de condução, o bilhete de identidade, um talão de compras de uma conhecida loja de material electrónico e um cartão multibanco. Indiferente, voltou a entregar a carteira que foi fazer companhia aos outros objectos retirados do cadáver e acondicionados num saco de plástico transparente.

- Foi o senhor que me mandou chamar? – pergunta um homem fardado no meio do corredor.

- Aaah… o segurança! Sim, quero perguntar-lhe umas coisas. Não é um interrogatório formal, mas preciso que me elucide sobre o ambiente aqui na escola.

-Sim senhor, estou à sua disposição.

- Há por aqui algum sítio onde se pode falar…

- Uma das outras salas ou então temos lá ao fundo uma pequena sala de convívio usada pelos funcionários.

- É longe?

- É ali ao fundo, à esquerda e não deve estar lá ninguém a esta hora.

- Então vamos lá.

O segurança percorreu o corredor um passo à frente do inspector que aproveitou para melhor o apreciar. Calças e blusão da farda cinzentos, um crachá brilhante ao peito com a insígnia da empresa. Cerca de um metro e oitenta, crânio rapado a disfarçar uma calvície precoce, não deveria ultrapassar os trinta e cinco anos.

- Então diga-me lá, o homem era presidente da associação de estudantes?

- Exactamente.

- Mas ele já não é novo!

- Pois não, ele já está na escola há muitos anos.

- Estou a ver, não ligava nada aos estudos e a família…

- Não é isso – interrompe o segurança – ele já está a fazer o terceiro curso.

- Não tinha mais nada que fazer?

- Ele tem uma empresa de alumínios… Acho que tem um sócio. Não sei bem.

- Sabe o nome da empresa?

- Não sei o nome da firma, mas ele é de Santa Marta.

- De Penaguião? Tão longe?

- Não, senhor inspector. Estou a referir-me a Santa Marta de Portuzelo. Aqui perto na estrada para Ponte de Lima.

- E da chave da sala que me diz?

- Todos os professores que dão aulas nessa sala têm a chave. Eu tenho outra na portaria e uma no chaveiro central.

- E o pessoal de limpeza?

- É verdade, já me esquecia.

- Hoje de manhã o falecido… tenho aqui anotado o nome… Exactamente, Jorge Gonçalves! O que eu quero saber é se o viu entrar?

- Não senhor, pela porta principal não passou.

- Tem a certeza?

- Absoluta, absoluta… não!

- Porquê?

- Porque houve um momento que fui ao WC e mais tarde fui ao gabinete do Sr. Ricardo dar-lhe um recado.

- Onde?

- Na secretaria, foram só uns segundos, mas podia muito bem ter entrado nesse momento e eu não o ter visto.

- Tem alguma ideia do que podia estar a fazer na escola logo de manhã?

- Que saiba não havia nenhuma reunião agendada e não faço ideia o que o levou até àquela sala.

- O Jorge Gonçalves tinha lá aulas habitualmente?

- Ele é de desporto que só usam as salas novas.

- Explique-me isso que não estou a perceber.

- Ele é aluno… huum… era aluno do curso de desporto, que só tem aulas teóricas na parte nova da escola. Posso levá-lo lá se quiser…

- Mais tarde. Quer dizer que o crime foi cometido numa das salas antigas.

- Exactamente, senhor inspector.

- Sabe se ele tinha algum problema com alguém? Um colega ou professor…

- Não lhe sei dizer. Repare, eu pouco lido com os alunos, apesar de os ver passar todos os dias à minha frente ao entrarem e à saída. Da maior parte, nem sei os nomes, nem os cursos. Apenas os conheço de vista…

- Mas este era bem conhecido.

- Claro, já fazia parte da mobília, como se costuma dizer. Além disso passava muito tempo na associação…

- Que tem instalações na escola…

- Exactamente e bem perto daqui, por sinal.

- Sim?

- Por trás deste espaço há umas escadas que levam às duas salas da associação de estudantes.

- E já foi lá alguém ver se estava tudo normal?

- Quando chamamos a polícia fui lá com um agente e a porta está fechada.

- Entraram?

- Não senhor…

- Tem as chaves dessa porta?

- Tenho… quero dizer, não! Estão na portaria.

- Então vá buscá-las para darmos uma vista de olhos.

Enquanto aguardava, o inspector Maurício tirou do bolso a caixa das cigarrilhas e meteu uma entre os lábios. Percorreu o largo corredor para lá e para cá distraidamente, olhando para o campo de jogos relvado que ocupava todo o espaço traseiro do recinto escola. Voltou a guardar a cigarrilha enquanto reflectia sobre o que levaria um aluno, que era também presidente da associação de estudantes a comparecer às 9 da manhã de um dia de férias numa sala de aulas. Sobre a causa da morte não subsistiam grandes dúvidas, pois eram visíveis dois golpes profundos no lado esquerdo do peito, apesar de não terem ainda encontrado a arma do crime. Uma faca bastante fina ou um estilete tinha-lhe dito o técnico que examinara o cadáver.

- Preciso de um café – resmungou e dirigiu-se para o bar quando viu o segurança avançar na sua direcção. Deu meia volta e encaminhou-se para as escadas estreitas que levavam a sede da associação de estudantes.

Quando o segurança abriu a porta e viram uma sala que se tinha como iluminação natural a luz que se esgueirava pelos acanhados postigos posicionados ao nível do jardim. A sede estava a precisar de uma boa arrumação pensou o inspector ao avançar para a sala do fundo, um misto de sala de reuniões e gabinete da direcção. Parou à porta ao distinguir um vulto caído sobre a puída carpete.

- Outro…

- Outro, quê, senhor inspector?

- Outro corpo, carago… Esta merda vai-nos dar que fazer… Vá lá acima dizer a um dos técnicos que venha cá. Eu fico por aqui.

Pegou no telemóvel, ligou para o inspector chefe Peres a comunicar a descoberta e a pedir reforços perante o avolumar de trabalho que iria ter pela frente.

- Tenha paciência mas de momento não tenho ninguém para o ir ajudar – dizia-lhe o chefe - Vá-se desenrascando com o seu pessoal, mais logo, quando tiver gente livre envio-os aí para Viana… Antes que me esqueça, tenha cuidado…

- Com a imprensa! Já sei, chefe, já sei!

- Ponha esses calões da PSP a trabalhar! Estão mal habituados, só a passar multas e com o cu alapado na cadeira.

O inspector Maurício sorriu ao pensar que o Peres passara os últimos quatro anos com o “cu alapado”, como ele dizia, desde que fora promovido a inspector chefe.

- Se um dia lá chegar, até fico apanhado só de pensar que tenho de estar o tempo todo a folhear relatórios que nem para limpar o cu servem – dizia o inspector Maurício aos colegas, quando o tema de conversa caía nas sempre polémicas promoções e nos louvores atribuídos.

O cadáver encontrado na sala da associação foi rapidamente identificado como sendo de um aluno de gestão artística, que também pertencia à direcção da associação de estudantes.

Os agentes Ramos e Cabral tinham-se instalado em duas salas de aulas e começaram os interrogatórios sob um coro de protestos dos professores, que se viam impedidos de sair das instalações. Os dois estagiários desdobravam-se em múltiplas diligências, mais parecendo moços de recados que agentes de investigação criminal.

O inspector Maurício tivera uma entrevista com a directora da escola e o director de serviços académicos mas tinha sido inconclusiva. Ninguém tinha ideia do que tinha acontecido. A esperança residia nos vestígios que os técnicos estavam a recolher, mas todos tinham consciência que estavam num espaço utilizado diariamente por centenas de alunos, professores e funcionários. Nem queria imaginar a quantidade de impressões digitais que os técnicos de dactiloscopia teriam de analisar.

Depois de engolir no bar da escola uma sanduíche de fiambre e um sumo, convocou a sua equipa para um pequeno brienfing que teve a particularidade de se realizar no exterior junto à entrada, de forma a puder saborear a cigarrilha que passara a manhã a sair e a entrar na caixa.

- Estes gajos estão a procurar proteger-se uns aos outros.

- Ó Ramos, isso nem parece teu. Então achas que nos iriam dar pistas que os pudessem incriminar.

- Bem, afinal o que apuraram nos interrogatórios que efectuaram? – Pergunta o Maurício.

- Ninguém os viu entrar na escola, não foi Cabral?

- Pois foi… Mas os gajos foram assassinados há poucas horas… Que é que disse o Dr. Pimenta?

- O exame preliminar aponta o momento do óbito para um intervalo entre as sete e as oito da manhã… e a família deles confirma que passaram a noite em casa. A PSP já encontrou os seus automóveis?

- Ainda não senhor inspector – diz um dos estagiários – mas o mais novo… aquele que foi encontrado na cave da associação, tem o carro estacionado à porta de casa.

- Será que o outro o foi buscar?

- Falei com a irmã dele e ela ouviu-o sair de casa, mas não se apercebeu do barulho de algum automóvel a arrancar.

- Continuem com os interrogatórios que eu vou falar com o comissário da polícia. Vocês – virando-se para os estagiários - vão passar a pente fino as imediações da escola. Já vi uma estação dos correios e do outro lado há um bairro. Deve haver algum café ou mercearias… Interroguem os comerciantes e se encontrarem algo relacionado com o caso, chamem de imediato o Ramos ou o Cabral. Entendido?

 

 

- Resumindo, andamos às aranhas… concluiu o inspector chefe Peres, recostando-se na cadeira.

- Às aranhas não andamos, mas também não temos muito a que nos agarrar… – responde o inspector Maurício, sabendo que não adianta nada argumentar com o chefe.

- Bem… recebi um telefonema relacionado com o caso que tem de ser levado em consideração… Assunto sob reserva…

- Mau…

- Temos os Serviços de Informação metidos no assunto.

- Qual deles? O SIS?

- Exactamente. O tipo da associação de estudantes era agente deles.

- O presidente?

- Sim – Admite o inspector-chefe soltando um longo suspiro.

- E o outro?

- Não tinha qualquer ligação com essa gente.

- Então vamos abandonar a investigação?

- Não, eles estão igualmente preocupados, porque não encontram ligação com as tarefas desse agente… pelo que percebi ele nem sequer tinha nada entre mãos, não tinha qualquer dossier à sua responsabilidade.

- Limitava-se a vigiar..

- A coçá-los, diz muito bem… e nós a descontar para esses inúteis… Agora que pretende fazer?

- Regresso a Viana após falar com o dr. Pimenta e com alguém do laboratório.

- Mantenha-me informado e tenha cuidado com…

- Os jornalistas! – Rematou o inspector Maurício, que conhecia de ginjeira o discurso do chefe.

- Isto é pólvora, Maurício! Se cai nas malhas desses gajos, pfff…

 

 Reunidos à volta da mesa onde tomavam o pequeno-almoço, os investigadores ouviam o resumo feito pelo inspector Maurício.

- O patologista diz que foi com uma faca de escalar peixe ou algo semelhante o que nos abre outras possibilidades; podemos estar a lidar com um pescador ou pelo menos alguém que tem acesso a esse tipo de facas, em casa ou no trabalho…

- Ó pá… e o motivo carago?... não temos um motivo que justifique estes assassinatos – enerva-se o Cabral – A não ser que fossem paneleiros e viessem…

- Deixa-te disso! Já investigamos por esse lado e nada. É provável que hoje ou amanhã tenhamos a listagem com os telefonemas deles.

Toca um telemóvel, o inspector Maurício olha para o visor, franze o sobrolho, atende com um “sim” expectante.

- O próprio, não incomoda nada… diga comissário.

- …

- Vou imediatamente… Isso é para norte?

- …

- Quinze quilómetros, Sereia da Gelfa… logo a seguir, à esquerda – repete o homem da Judiciária, desligando o telefone.

- Encontraram o automóvel do Jorge Gonçalves abandonado, junto ao mar, na praia da Gelfa.

- Eu sei onde fica – diz um dos estagiários – é uma zona isolada, tem um pequeno castelo e um sanatório para malucos, mas acho que está fechado.

- Eu vou lá ver, vocês continuam com os trabalhos em curso.

 

Estacionou quando o agente da GNR o mandou parar e dirigiu-se para o bosque de austrálias que invadiam as dunas litorais. Para trás ficara o Forte do Cão, umas ruínas do século dezassete a precisarem de intervenção sempre adiada pela razão tão velha como a nacionalidade, a falta de verbas. Ao longe avistava-se uma povoação subindo a encosta do monte e uma imensa língua de areia dourada, a praia de Âncora.

Uma área tinha sido delimitada com fita plástica multicolor e vários agentes da GNR observavam os trabalhos de dois colegas do núcleo de investigação criminal. Depois de feitas as apresentações informaram-no que o automóvel fora encontrado aberto, com as chaves na ignição e sido alvo de limpeza de impressões digitais. Volante, alavanca de velocidades, manípulos de portas e outros pontos tinham sido limpos antes de o abandonarem, o que revelava a precaução consciente dos criminosos. Era ponto assente que estavam a lidar com mais de uma pessoa porque o lado direito do carro também tinha sido limpo. Dois, pelo menos, provavelmente três, porque alguém os deve ter vindo recolher àquele ponto ermo da Praia da Gelfa.

- Já vem a caminho um reboque para levar o automóvel ao laboratório. Façam-me o favor de verificar nas imediações se há algo de interesse. – pediu o inspector Maurício.

- Já demos uma volta por aí, mas vamos repetir com mais calma – informa o sargento da GNR – Amílcar e Pereira vão com o cabo Presa para o norte, por ali; os outros vão para aquele lado. Atenção, qualquer indício deve ser sinalizado…

- Já agora… - interrompe o inspector – prestem atenção a alguma situação de solo revolvido. Deve estar tudo coberto de folhas secas, não é fácil distinguir, mas pode ser importante.

 

Entre duas garfadas de esparguete atende o telemóvel, a Rosa saía de serviço no Hospital de S. João à meia-noite e não lhe agradava passar a noite sozinha. Não teria outro remédio…

- Sei lá, isto está complicado. Talvez amanhã… Tenho uma chamada da directoria em espera, desculpa… um beijo.

Do laboratório informaram-no que o automóvel encontrado poucos indícios revelava, mas um dos cães treinado na detecção de explosivos sinalizou claramente um transporte recente na bagageira.

- Andaram a transportar explosivos no carro.

- Encontraram vestígios? – Perguntou o Ramos sem levantar o olhar da costeleta de novilho que lhe enchia o prato.

- Foi o cão que detectou o cheiro.

- Dois cabrões esticados! Um deles era bufo na escola! Agora um carro que transporta explosivos… só nos falta dar de caras com uns gajos da ETA – resmunga o Cabral com a habitual linguagem de calão da Ribeira, mais propriamente da Cantareira.

- Já pensei nisso e temos que abordar a caso também por esse prisma, mas agora vamos apanhar com o SIS em cima… de certeza. O chefe já lhes deve ter telefonado.

- Então amanhã temos esses maricões a meter o nariz nos nossos cus!

- Tenho de ir ver o e-mail que o Dr. Pimenta me enviou com os dados preliminares da perícia ao automóvel. Aguentem aqui, vou ao quarto ligar o portátil e já venho.

 

O relatório revelou-se pouco esclarecedor. Na bagageira, onde o cão tinha detectado o odor de explosivos foram encontrados alguns grãos de areia grosseira e terra com elevados níveis de azoto.

- Provavelmente puseram um plástico a cobrir o fundo do carro e ao retirarem-no caiu um pouco de terra. Eles estão a fazer análises comparativas para ver se detectam a região de origem.

- Inspector – começa um dos estagiários, algo acanhado – ocorreu-me uma ideia…

- Diga, diga…

- Azoto é um fertilizante, um adubo e há zonas onde misturam areia na terra para a tomar mais macia, melhor, menos compacta e mais apropriada para certas culturas.

- Está a falar-nos de terrenos agrícolas?

- Humm… Exactamente, inspector. Estou a falar de terrenos de cultura intensiva. Possivelmente estufas…

- Onde?

- Talvez na zona da Póvoa de Varzim.

- Porquê na Póvoa? Pode ser noutro lado qualquer!

- Poder, pode… Mas na zona da Póvoa é vulgar misturar areia grossa na terra e no relatório falam de “areia grossa”. Mais, na Póvoa produzem hortícolas que precisam de muito azoto para se desenvolver. Não fala de níveis elevados de outros fertilizantes, apenas azoto.

- Bem pensado, vale a pena investigar.

- É pá onde é que aprendeste isso da agricultura? – Pergunta o Ramos intrigado.

- Os meus pais são comerciantes, mas os meus tios e os meus avós são agricultores… na Apúlia.

- Já que tens ligações à zona e ao meio vais auxiliar o Ramos a averiguar se há alguma conexão entre as vítimas e a zona da Póvoa.

 

- Sente-se e conte-me como é que arrumou o caso de Viana – convidou o inspector chefe, fechando a pasta que tinha à sua frente.

- Um caso complexo. Nem faz ideia das voltas que aquilo levou… Quem diria!

- Faça-me um resumo. Os pormenores ficam para o relatório.

- A chave estava nos grãos de areia e terra encontrados na mala do carro. Um dos nossos estagiários estabeleceu ligação com a zona da Póvoa de Varzim que coincidia com a morada da namorada do Jorge Guimarães e apurou-se que ela possuía várias estufas em A-Ver-O-Mar, não sei se sabe onde…

-Eu sei, continue!

- Ao princípio refugiou-se na choradeira do costume, mas quando recolhemos uma amostra da terra das estufas, falamos dos explosivos e de levar lá o cão para farejar… abriu-se toda! Atirou com as culpas para o namorado falecido, que a convencera a enterrar uns bidões plásticos, que de início ela pensara que era droga, mas que ele lhe mostrara que tinham apenas explosivos para serem usados pelos pescadores das traineiras. Algo inofensivo, no dizer dela.

- Para a pesca da sardinha?

- Sim… Principalmente para a sardinha. Parece-me que também se usa para outros peixes, desde que estejam em cardume. Fazem um cerco com as redes, atiram o explosivo lá para o meio e o peixe ou morre na explosão ou foge e vai ao encontro da rede. Mas eu de pesca… pouco sei. O que sabemos agora é que o tipo da associação de estudantes alem de ser agente do SIS, contrabandeava explosivos que comprava numa empresa da Póvoa de Lanhoso. Também já os entalamos, porque aquilo era uma vigarice pegada… Parecia um supermercado de material explosivo. Amonite, gelamonite, goma2, havia de tudo! Continuando… Depois enterrava o material nas estufas da namorada, tudo acondicionado dentro de uns bidões plásticos herméticos e vendia a retalho a alguns mestres de traineiras de Viana, da Póvoa e principalmente de espanhóis de Vigo e de outros portos da Galiza. O problema é que o tipo além de vender ainda quis fazer chantagem com um dos armadores, um tal Gallardo de Pontevedra, quando se apercebeu que o tipo revendia parte do material a outros e que acabavam por se perder não se sabe bem onde.

- País Basco? – Pergunta o inspector Chefe Peres.

- Não sabemos… É possível. O Jorge Gonçalves queria os contactos do Gallardo para fazer directamente o negócio ou ameaçava-o acusar perante a polícia espanhola de fornecedor dos terroristas.

- Que filho da mãe…

- O que ele não sabia é que o Gallardo é cunhado de um professor da escola e lhe montou uma armadilha ao marcar…

- O professor? – Interrompe o inspector chefe Peres.

- Bem… agora atiram as culpas um para o outro. O mais provável é que o professor soubesse que era uma armadilha, mas provavelmente pensou que o cunhado apenas queria meter um susto aos dois rapazes. Foi o professor que abriu uma porta de emergência nas traseiras, perto da sede da associação de estudantes, ao espanhol e mais tarde aos outros dois que foram habilmente separados e assassinados.

- Só não percebo porque é que o outro rapaz da associação foi ao tal encontro, se efectivamente não tinha qualquer participação no negócio dos explosivos.

- O Jorge Gonçalves levou o colega da Associação por segurança. Devia pressentir que o Gallardo era perigoso. Está detido em Pontevedra e o juiz de instrução já emitiu o respectivo pedido de extradição.

- E como descobriram o professor?

- Pelas impressões digitais deixadas na barra de abertura da porta de emergência. O normal seria encontrar impressões do pessoal auxiliar e dos seguranças, não de um professor. A partir do momento que detectamos o relacionamento familiar com o Gallardo foi simples pôr o melro a cantar. Por algum motivo ele era professor de música…

 

 

 

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 13:20
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Dez 17

A Confraria da Senhora da Bonança tem origem em Carreço em data indeterminada, regendo-se desde 1727 por Estatutos aprovados a 22 de Novembro, pelo Arcebispo de Braga D. Rodrigo de Moura Teles.

Sabe-se que estes novos estatutos vieram substituir outros mais antigos que eram “supérfluos em alguas couzas e em muitas deminutos”, conforme se pode ler no 1º acórdão do “Livros dos acordos da Irmandade da Senhora da Bonança, da freguesia de Carreço”.

A mesa era constituída por um juiz, um escrivão, um procurador, um tesoureiro e oito mordomos, sendo dois por cada lugar da freguesia. A função de tesoureiro era da maior importância pois cabia-lhe zelar pelo património, desde o arrolamento dos bens doados até ao abate dos bens deteriorados, além das tarefas próprias de tesouraria como gerir o “dinheiro a juro”. Não tinha porém autonomia para receber, vender ou destruir bens, ficando-se pela elaboração do rol desses bens e apresenta-los à mesa da confraria. Igualmente competia-lhe manter as alfaias do culto em condições, fornecer a cera para as missas e funerais, levar a cruz no funeral de algum “irmão”, sob pena, nã cumprindo estas obrigações de pagar uma multa em dinheiro. O tesoureiro tinha também a incumbência de liquidar os anuais e não podia emprestar dinheiro sem licença da mesa ou na ausência do pároco, bem como admitir, por sua conta, novos irmãos, algo que seria usual antes da aprovação dos estatutos de 1727.

Igreja de Carreço (2).JPG

Visto que a freguesia se dividia em quatro populosos lugares, Troviscoso, Carreço, Montedor e Paçô, prestando cada um dos mordomos durante o ano, mês e meio de serviço efectivo, sendo sua obrigação:

  • Acender duas velas no altar da Senhora da Bonança aos domingos e dias santos durante a missa conventual à qual eram obrigados a assistir junto ao altar da Senhora com as opas vestidas;
  • Participar nas reuniões da Confraria;
  • Fazer o peditório aos domingos na igreja;
  • Pedir esmola pelos lugares no S. Miguel;
  • Acompanhar os irmãos falecidos no seu funeral com as opas vestidas e velas acesas;
  • Acompanhar os defuntos que não sendo membros da confraria, manifestassem vontade de ter o funeral como se o fossem;
  • Limpar os castiçais e manter asseado o altar;
  • Os mordomos do lugar eram obrigados a acompanhar o funeral dos descendentes de um irmão, desde que menor de catorze anos;

A Confraria tinha também influência na vizinha freguesia de Afife, que contava com um tesoureiro que prestava contas à mesa e entregava os montantes recebidos ao tesoureiro da Confraria.

Embora não fizessem parte da mesa, os párocos locais podiam assistir à eleição e confirmar os votos dos membros da mesa; o capelão deveria ser prioritariamente o coadjutor da freguesia, a quem cabia dizer as missas da capela, zelar pelo altar e informar a mesa das faltas que eventualmente os mordomos cometessem.

Pelo rol dos irmãos verifica-se que muitos residiam em Viana, Areosa, Afife e Gontinhães, chegando alguns deles, designadamente padres, a ocupar cargos de chefia na confraria.

A confraria tinha obrigações a cumprir em favor de irmãos falecidos e em relação ao culto que devia prestar à Senhora da Bonança.

Cada irmão que falecia tinha direito a doze missas, acompanhamento dos mordomos com as velas acesas e opas vestidas. Os mordomos faltosos pagavam de multa cinquenta reis.

A obrigação de culto estava voltada praticamente para a festa que se realizava no segundo domingo de Maio, com vésperas cantadas, missa, sermão e procissão no fim da missa à volta da igreja.

A mesa da Confraria era eleita no dia da festa da Senhora da Bonança e tinham de estar presentes todos ao elementos da mesa cessante. Se faltasse algum recorria-se a quem já tivesse feito parte da mesma e recomendava-se precaução para que fossem escolhidas “pessoas capazes e que dellas se espere serem zelosas pera a Confraria”.

Dois meses depois da eleição reunia-se a mesa para tomar conhecimento da situação da Confraria, o tesoureiro cessante apresentava contas escrituradas no livro respectivo, que era depois assinado por todos. No período entre a festa e o mês de Julho, o tesoureiro esforçava-se por cobrar todas as importância devidas, nomeadamente os anuais, sob pena de ser ele a repor o dinheiro em falta. No mês de Agosto reunia-se novamente a mesa para que os mordomos prestassem contas e entregavam a chave do “caixão” da cera aos novos mordomos. A mesa reunia obrigatoriamente no mês de Novembro e em Maio, para preparar a festa que se avizinhava. Não obstante esta obrigação, reuniam as vezes que entendessem necessário. Estas reuniões só tinham validade se estivessem presentes sete ou oito pessoas. Porém, os mordomos por si só não constituíam quórum, porque era necessária a presença do juiz, do escrivão e do procurador. Na falta do juiz, este era substituído pelo escrivão. O pároco devia também assistir às reuniões, esclarecendo as dúvidas surgidas e tinha tal como os demais direito a voto

A Confraria possuía um conjunto de livros onde era plasmada a vida da mesma. Apenas o escrivão os podia escriturar e só em reunião da mesa os outros elementos assinavam os documentos (actas, contractos, escrituras, inventários, contas, etc.). Os livros estavam permanentemente fechados, sendo confiadas as chaves ao tesoureiro, que por necessidade e inerência de funções, tinha em sua posse o livro dos contractos e dos anuais.

Uma das fontes de rendimento, além das cotas dos irmãos, aqui designadas por “anuais”, esmolas, peditório na missa e multas, era o empréstimo de dinheiro a juro de 5%, não podendo ser emprestado à mesma pessoa mais do que cinco mil reis.

Os “anuais” variavam conforme a idade dos candidatos a “irmão”. Quanto mais velho mais pagava por “se deixarem andar tanto sem se meter por Irmãos desta Santa Confraria”.

A devoção à Senhora da Bonança ainda que muito antiga tem a ver com o mar e os pescadores. A freguesia de Carreço tinha uma comunidade piscatória reconhecida, que nos meses de verão retirava sustento do que o mar lhes oferecia, dedicando-se à lavoura nos restantes meses do ano. Por isso se construíram barracos de aprestos e um portinho no Lumiar, bem como barracos nos lugares de Paçô e Fonte da Vila.

Também nestas enseadas naturais, durante os meses de verão, atracavam os pescadores da Lagarteira, descarregando peixe que era vendido em Carreço. Areosa e Afife.

E assim começou a devoção dos pescadores ancorenses ao culto da Senhora da Bonança. Igualmente os pescadores de Viana manifestavam devoção à Santa, sendo usual as mulheres da Ribeira de Viana, por motivo de temporal ou de naufrágio, peregrinavam a pé, com traje escuro e vela acesa na mão, pedir à Senhora da Bonança a calma das águas e dos ventos, assim como agradecer graças recebidas.

Em Vila Praia de Âncora, ou melhor no Lugar da Lagarteira da freguesia de Gontinhães, à falta de uma padroeira dos pescadores, o culto teve origem na Senhora das Necessidades, com capela erguida em 1760 pelo abade Gonçalo Pinto Medeiros de Carvalho.

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Por volta de 1889, essa pequena capela é demolida e no mesmo local é erguida uma capela mais ampla, ainda dedicada à Senhora das Necessidades e mais tarde à Senhora da Bonança, pois o culto crescia continuamente, ao contrário de Carreço, onde a Confraria entra em declínio e o culto esmorece. Sem qualquer oposição dos habitantes de Carreço, o culto à Senhora da Bonança passa para a nova capela de Gontinhães com festividade marcada para o segundo domingo de Setembro, ao contrário da festividade em honra da Senhora das Necessidades, que se realizava na segunda-feira de Pascoela. Esta festividade realizou-se até aos anos sessenta do século passado, quando em consequência da reforma do calendário religioso saído do Concílio Vaticano II, caiu em desuso, extinguindo-se a festividade.

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A festa da Senhora da Bonança começou a realizar-se em Gontinhães no ano de 1882 e poucos anos depois era já um marco nas romarias do Alto Minho. Em 1893 um grupo de pescadores ofereceu o altar de Nossa Senhora da Bonança.

Em Carreço resta o altar barroco da Senhora da Bonança do século XVIII, com uma imagem moderna, bem proporcionada, que sai anualmente para integrar a procissão da Senhora da Graça, levada aos ombros pelos poucos pescadores que restam na freguesia.

Sobre a festividade da Senhora da Bonança pode consultar este post. http://vilapraiadeancora.blogs.sapo.pt/origem-da-festa-da-senhora-da-bonanca-116362 

publicado por Brito Ribeiro às 11:44
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29
Set 17

Transcrevo um artigo publicado na revista ABC de Lisboa, a 19 de Janeiro de 1922, pelo prestigiado jornalista Gomes Monteiro, sobre a família ancorense Fernandes Fão.

“Ao falarmos da numerosa família Fernandes Fão temos a impressão de estarmos contemplando uma partitura de Wagner. Tudo ali é harmonia, ritmo, orquestração… música. Do progenitor Constantino Fernandes Fão, um grande amador musical, todos os filhos saíram músicos… e de categoria.

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Assim, José Fernandes Fão entrou para a banda da Guarda Nacional Republicana, classificado em 1ª classe, obtendo progressos. Tempos depois, uma impertinente “angina pectoris” forçava-o a abandonar a sua esperançosa carreira.

Artur Fernandes Fão entrou com o pé direito para a arte musical e, de triunfo em triunfo, é hoje o chefe indiscutível da distinta banda da Armada.

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 Francisco Fernandes Fão, músico de 1ª classe da banda da GNR e aluno do 6º ano do Conservatório em violoncelo.

Emília Fernandes Fão, alma de artista, obtendo, com distinção, o curso de piano, harmonia e violino no Conservatório.

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Finalmente, temos Joaquim Fernandes Fão que, propositadamente, reservamos para o fim, porque é dele que desejamos tratar mais detalhadamente. Bisbilhotando na sua vida de artista conseguimos apurar que o maestro Joaquim Fernandes Fão nasceu em Buenos Aires, por uma bela manhã de 3 de Maio de 187F8, quando as rosas argentinas desabrochavam para a vida, ungidas de orvalhos matinais. Quando ainda aprendia as primeiras letras, seu pai, seguindo o uso, ensinou-lhe a compreender os encantos do solfejo, entregando-o, em seguida, aos cuidados de um professor inglês de violino, sendo depois trazido para Portugal.

E já nessa idade pueril – 12 anos – em que todas as crianças se dedicam às suas travessuras, Joaquim Fão compunha já valsas para 3 violinos, dando-lhes a missão de um executar o canto, o segundo substituir o rabecão e o terceiro fazer o acompanhamento. Depois de fazer o exame de instrução primária, em Âncora, e a seguir frequentar o Liceu de Viana do Castelo, até ao 4ºano, assentou praça em infantaria 3 desta cidade, continuando sempre a instrução musical de violino e piano para a qual sentia uma irresistível vocação.

Transferido para infantaria 12, seguia, pouco depois, para Lisboa, a fazer parte da banda de infantaria 2, onde ficou como músico de 3ª classe. Mas o génio, tal como uma gema de subido valor, fulgurando à luz acerada dos espelhos, manifestou-se logo. A breve trecho, o músico de 3ª classe era promovido a chefe, tomando a regência da banda de infantaria 26, em Ponta Delgada.

É curioso notar que que, neste concurso, Joaquim Fernandes Fão triunfou sobre 25 concorrentes, conquistando a 1ª classificação. Quando ainda músico de 1ª classe e sub-chefe da banda de infantaria 2, compôs vários números de música ligeira que foram executadas com o maior agrado. Chefe da banda do 26, compôs números de música militar, tendo também escrito música para as operetas “Gata borralheira” e “Hotel do novo mundo”, que foram acolhidas com gerais aplausos pelo público de S. Miguel.

Apesar de se encontrar lá longe afastado por muitas léguas de oceano, o seu nome andava já de boca em boca, proferido com aquela admiração tributada aos consagrados. Por escolha dos músicos da GNR, deu ingresso na regência da mesma, reorganizando-a e dando-lhe uma arquitectura moderna, de forma a poder executar a verdadeira música de concerto.

Aparte as suas composições originais, o maestro Fão tem dedicado grande parte do seu tempo a instrumentar música de Wagner, Beethoven, Listz, Berlioz, Mozart e tantos outros. Como obras de vulto, escreveu a “Abertura Sinfónica” que foi executada pela orquestra Blanch e ums “suite”, composta por 4 números – “Prelúdio” – “Minuette” – “Intermezzo dramático” - e “Marcha Militar” – que foi executada pela orquestra de David de Sousa. O “Minuette” foi agora executado, em S. Carlos, pelo maestro Guy, tendo obtido os calorosos aplausos duma plateia de entendedores de boa música. Sobre o libreto de Alfredo Pinto (Sacavém) escreveu o poema sinfónico “Sylmires” que, no Teatro Politeama foi executado pela orquestra de Viana da Mota.

Em suma, o maestro Joaquim Fernandes Fão conquistou um lugar proeminente na música nacional, sendo um dos poucos que soube compreender os voos gigantescos da águia wagneriana. Sob a sua direcção, a banda da GNR tem percorrido o país, visto que todo o país tem direito de a admirar e deliciar-se com a sua execução primorosa.

Três vezes foi a Espanha, tendo percorrido Vigo, Badajoz e Valencia del Cid. A propósito, lembramos que tendo-se realizado nesta ultima cidade espanhola, um certame de 11 bandas, maestro Fão foi escolhido para presidir ao júri, representando esta escolha uma homenagem, aliás merecida, ao português que lhes dera as honras da sua visita.

Julgamos ter falado bastante sobre o músico consagrado, não sabendo ainda se o visado nos perdoará termos aprofundado tão intimamente a sua biografia artística. Mas, seja como for, uma vez que nos propusemos a dizer a verdade, devemos frisar que o maestro Fão, tendo tocado violino em todas as orquestras a que pertenceu, sendo, por vezes, o solista na ópera no Coliseu dos Recreios e viola solista na orquestra Blanch, é hoje um regente firme, impecável, que nos últimos concertos realizados no Teatro Politeama, nos tem feito acreditar em contos de fadas, tomando a batuta mágica por uma verdadeira varinha de condão – Gomes Monteiro.”

O pai destes músicos, Constantino Fernandes Fão esteve emigrado na Argentina e terá regressado a Gontinhães com a família por volta de 1890. Em 1905, dando largas às suas paixões, a música e a terra natal, reorganiza a banda local, que será composta essencialmente por elementos muito jovens. A dirigi-la estará até ao fim da vida, salvo breves interrupções, o seu filho José Fernandes Fão, que vem a falecer em 1933. Em todos os serviços de coro, que nessa altura eram muitos, a regência era de Constantino Fernandes Fão.

Mais dados sobre o historial das bandas de música de Vila Praia de Âncora podem ser consultados aqui.

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 A Banda de Música extinguiu-se há muito tempo, mas a memória destes músicos continua viva, não só na toponímia da vila, mas essencialmente na Academia de Música local, a qual foi, muito justamente, designada por "Fernandes Fão".

publicado por Brito Ribeiro às 11:09
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24
Set 17

Nem tudo o que reluz é ouro”, dizia a minha mãe, às vezes a propósito, outras vezes nem tanto. Ao fazer esta citação, à falta de outra mais apropriada, quero também atribuir o significado que há sempre duas versões (pelo menos) para a mesma “história”. E é de história que vos falo, mais concretamente da ponte rodoviária de Caminha, sobre o Rio Coura.

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Encontrei duas versões com discrepâncias sobre este tema que me causam alguma perplexidade, tanto mais que estamos a referir-nos a um passado não muito distante, quando já existiam fontes documentais bastante rigorosas e acessíveis.

 

A versão transcrita em “Caminha através dos tempos, o movimento marítimo e outros meios de transporte” de João da Silva Santos, resumidamente, diz que até meados do século XIX a travessia do Rio Coura entre Caminha e Seixas fazia-se por barco. 

Em 1844, construiu-se uma ponte em madeira, cujos pegões são construídos com a pedra das Torres da Piedade e de Vilar de Mouros, que nessa altura são arrasadas. À entrada da ponte, na margem Sul, existia uma pequena casa onde se pagava a portagem. Os peões pagavam 5 reis e os carros 400 reis, pela sua passagem. Rendia uns 1.500$000 reis anuais aos quais se acrescentava o imposto do sal, verbas que chegavam para a conservação da ponte. Mais tarde, com a abertura da via-férrea, o imposto do sal desapareceu, ficando a conservação da ponte apenas a contar com o produto da portagem. 

Durante a guerra de 14/18, a portagem já era insuficiente para custear a sua conservação, tendo a Câmara entregue a ponte ao Governo. Começaram então a aparecer buracos e a atravessá-la com dificuldade, até que em Agosto de 1920 pegaram-Ihe fogo.

A partir desta data, nem sequer peões passavam e os carros tinham que ir à volta por Vilar de Mouros. 

Foi então decidido construir uma nova ponte em cimento com um orçamento de 1.010 contos. Porém, a empreitada acabou por ficar por mais 400 contos que o previsto. A 14 de Agosto de 1930, voltaram a passar automóveis, ficando concluída a obra em Novembro e fazendo-se a entrega, em 2 de Dezembro de 1930. 

Esta ponte ficou com duas rampas, uma à entrada e outra à saída, devido à sua subida de nível. Na antiga, de madeira, a quantidade de pegões era superior e o nível do tabuleiro idêntico ao actual.

Finalmente, já na segunda metade deste século, a ponte sofreu umas modificações, fazendo-se desaparecer as rampas. 

 

Contudo, em “História Nossa” de Paulo Torres Bento, afirma-se que a ponte foi inaugurada em 1839, nos primórdios do liberalismo e que a sua manutenção fora sempre uma fonte de problemas para a Câmara Municipal. Após um incendio que se suspeita ser intencional em 1884, que destruiu 14 metros do tabuleiro, as condições de atravessamento vem a piorar, até que a Câmara delibera em 1905, enquanto proprietária “taxar a passagem dos automóveis na ponte de madeira sobre o Coura, em 200 reis cada passagem, e as motocicletas em 40 reis também pela passagem de ida e volta”, conforme acta da CMC de 23 de Outubro de 1905.

Em 1920 o estado ruinoso do tabuleiro obrigou a Câmara a proibir, por questões de segurança, o trânsito automóvel, sendo desviado para a ponte de Vilar de Mouros. Em 1922, após outro incendio, até o trânsito pedonal foi desviado para a ponte ferroviária a montante.

Valeria a Caminha a intervenção do senador ancorense Luís Inocêncio Ramos Pereira que em 1924 conseguiu do governo a aprovação do projecto para a reconstrução do tabuleiro em cimento armado. A obra começaria dois anos depois e após muitos atrasos seria reaberta ao trânsito automóvel em Dezembro de 1930, estatal e livre de portagem.

 

Num período o em que todos oferecem bonés, chapelinhos e santinhos, prometendo festarola e foguetório para o futuro das nossas vidas, fica a triste realidade de há cem anos haver tantas dificuldades para simples travessia do Rio Coura.

Fica também para a história o exemplo de um homem, um senador da república, que levou para Lisboa o problema e lutou pelos recursos necessários para a empreitada.

Para concluir, digam lá que a história não tem coisas interessantes!!!

 

 

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 10:33
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17
Set 17

Os equipamentos hidroelétricos em Portugal tiveram o seu início em 1884, com o aproveitamento de uma pequena queda de água, para fornecer energia elétrica à Real Fábrica de Fiação, em Tomar.

Em 1912 é constituída a Companhia Hidroelétrica do Coura, que vai construir e explorar a central de Covas, no Rio Coura. A Electra del Lima, em 1908, propunha-se rentabilizar as águas do Rio Lima, convertendo a potência hidráulica em energia elétrica. Assim foi construída a primitiva barragem do Lindoso entre 1915 e 1922, constituída por um muro de 5 metros de altura em alvenaria e por uma central de 8.750 kVA, naquela época a mais importante do país. Em 1922 a barragem foi elevada para 22,5 metros e até 1951 foram introduzidos outros melhoramentos ao nível do canal de derivação e do aumento de potência, que já então se cifrava em 92.500 kVA.

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Face ao aumento de consumo de eletricidade, em 1960 foi pedido ao governo autorização para proceder a estudos de ampliação do empreendimento do Lindoso. Em 1992 iniciaram-se as obras da segunda geração da barragem, designada por Alto-Lindoso, com 110 metros de altura, 21 de espessura na base e 4 no coroamento. Esta barragem deu origem a uma albufeira internacional com mais de mil hectares de área inundada e cerca de 350 milhões de metros cúbicos de água represada.

Este projeto hidroelétrico fez nascer, 17 quilómetros a jusante, o empreendimento de Touvedo, com a função de regularizar os caudais turbinados no Alto-Lindoso. A irregularidade dos caudais descarregados no Alto-Lindoso provocariam cheias diárias e fortes efeitos erosivos, pelo que a barragem de Touvedo funciona como contra embalse, minimizando o impacto sobre o ecossistema ribeirinho e permitindo condições seguras de utilização do rio a jusante, até à foz.

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No entanto, as opções técnicas destas grandes barragens, no que diz respeito aos recursos naturais da bacia do Lima, levadas a cabo nos anos oitenta e noventa do século passado, foram exclusivamente para desenvolvimento de produção energética, mas à custa de irreparáveis perdas nos recursos dos solos, da paisagem e das populações. Em concreto foi uma ação autoritária, humanamente exógena e destinada a organizar o território, prosseguindo fins energéticos.

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Estávamos pois, nos anos oitenta e noventa do século passado e estas opções técnicas estavam já desarticuladas das incipientes políticas de ambiente e de proteção dos recursos naturais que então despontavam.

As alterações nas atividades humanas (deslocamento de populações, redução da agricultura e terras de pastagem, inundação de sítios e monumentos de valor arqueológico e cultural), na saúde pública, na fauna, na vegetação e no meio aquático (alteração das correntes, modificação da qualidade das águas, diminuição do transporte de sedimentos, eutrofização da água e aumento da evaporação), são impactos negativos, permanentes e sem possibilidade de retorno.

Este caso do Alto-Lindoso e Touvedo causou a artificialização das margens e vale do Lima em mais de 35 quilómetros, dos quais mais de 7 quilómetros são de leito morto (a jusante da atual barragem do Lindoso), inviabilizando a vida e reprodução dos grandes migradores Atlânticos, que secularmente desempenhavam as funções vitais e genéticas nas águas vivas do Lima.

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Concluo com a convicção que não se aprendeu a lição, face ao recente exemplo da barragem do Tua, onde, mais uma vez, as opções técnicas adotadas, vão provocar um dano ambiental e humano, grave e irreparável.

 

Bibliografia consultada: “Uma perspectiva de ecologia humana. O caso da barragem do Alto Lindoso na zona serrana do Minho-Lima” de José da Cruz Lopes

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 15:20
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25
Ago 17

Relatório integral dos agentes da PIDE sobre o Festival de música "Pop" em Vilar de Mouros em 1971, distribuido à Presidência do Conselho, Ministério do interior e Ministério da Educação Nacional.

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"A seguir se transcreve o texto de uma informação redigida por um nosso elemento informativo que assistiu ao “festival” em questão, que teve lugar nos dias 7 e 8 do corrente, a qual se reproduz na íntegra, para não alterar os detalhes que foram alvo do seu espírito de observação: “Dias antes do festival, foram distribuídos, nas estradas do País e nas estradas espanholas de passagem de França para Portugal, panfletos pedindo aos automobilistas que dessem boleias aos indivíduos que iam ver o festival.

No 1º dia, o espectáculo começou às 18h00 e prolongou-se até às 4 da manhã. Ao anoitecer, o organizador, um tal Barge, anunciou que tinham sido vendidos 20 mil bilhetes (a 50$00 cada). Esperavam vender 50 mil bilhetes para cobrir as despesas, que seriam aproximadamente a 2.500 contos. Diziam que tiveram de mandar vir o conjunto Manfred Mann de Inglaterra, mas parece que estava no Algarve, e por isso, a despesa com eles não foi tão grande como parecia.

Um dos cantores, Elton John, causou desde o começo má impressão, com os seus modos soberbos e as suas exigências: carro de luxo para as deslocações, quartos de luxo para os acompanhantes e guarda-costas, etc. O recinto do festival era uma clareira cercada de eucaliptos, com um taipal à volta e uma grade de arame do lado do ribeiro.

Na noite de 7 estavam muitos milhares de pessoas e muita gente dormiu ali mesmo, embrulhada em cobertores e na maior promiscuidade. Entre outros havia: crianças de olhar parado indiferentes a tudo grupos de homens, de mão na mão, a dançar de roda um rapaz deitado, com as calças abaixadas no trazeiro um sujeito tão drogado que teve de ser levado em braços, com rigidez nos músculos relações sexuais entre 2 pares, todos debaixo do mesmo cobertor na zona mais iluminada sujeitos que corriam aos gritos para todos os lados bichas enormes a comprar laranjadas e esperando a vez nas retretes (havia 7 ou 8 provisórias) mas apesar disso, houve quem se aliviasse no recinto do espectáculo. porcaria de todo o género no chão (restos de comida, lama, urina) e pessoas deitadas nas proximidades. Viam-se algumas bandeiras. Uma vermelha com uma mão amarela aberta no meio (um dos símbolos usados na América pelos anarquistas); outra branca, com a inscrição “somos do Porto” com raios a vermelho e uma estrela preta.

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A população da aldeia, e de toda a região, até Viana do Castelo, a uns 30 km de distância, estava revoltada contra os “cabeludos” e alguns até gritavam de longe ao passar “vai trabalhar”. Foram vistos alguns a comer com as mãos e a limparem os dedos à cabeleira. Viam-se cenas indecentes na via pública, atrás dos arbustos e à beira da estrada. Em Viana do Castelo dizia-se que os “hippies” tinham comprado agulhas e seringas nas farmácias da cidade. Havia muitos estudantes de Coimbra, e outros que talvez fossem de Lisboa ou do Porto.

Alguns passaram a noite em Viana do Castelo em pensões, e viam-se alguns de muito mau aspecto, parece que vindos de Lisboa, que ficaram numa pensão. Houve gritos de Angola é... (qualquer coisa) durante a actuação do conjunto Manfred Mann (de que faz parte um comunista declarado, crê-se que chamado Hugg). Fora do recinto, junto do rio e de uma capela, havia muitas tendas montadas e gente a dormir encostada a árvores ou muros e embrulhada em cobertores. Houve grande confusão junto às portas de entrada.

Havia quatro bilheteiras em funcionamento permanente e muito trânsito. Toda aquela multidão de famintos, sem recursos para adquirir géneros alimenticios indispensáveis, como se de uma praga de gafanhotos se tratasse, se lançou sobre as hortas próximas colhendo batatas e outros produtos hortícolas, causando assim, grandes contrariedades aos seus proprietários, muitos deles de débeis recursos económicos."

publicado por Brito Ribeiro às 16:26
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18
Ago 17

Em Outubro de 2016 publiquei na revista "Vale Mais" um artigo sobre as consequências dos incêndios florestais. Procurei sintetizar e expor de forma clara e objectiva as implicações deste flagelo na vida das pessoas. Hoje, mais que nunca, o artigo parece-me actual.

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Neste número da revista Vale Mais não podia deixar de reflectir sobre o drama recorrente dos incêndios florestais. Durante o verão que agora finda (2016), Portugal foi fustigado por inúmeros fogos de grandes dimensões, que destruíram uma parte significativa do seu espaço rural e até de núcleos populacionais como o caso do Funchal. Isto repete-se todos os anos, com maior ou menor dimensão, dependendo de factores tão imprevisíveis como o vento, a humidade, a temperatura ou a quantidade de material combustível presente no solo.

Parece ser consensual que a maioria esmagadora das ignições é de origem humana, algumas por negligência, muitas intencionais. E a justiça entra na dança, prende, solta, volta a prender e os incendiários continuam por aí, geralmente conotados com o alcoolismo ou demência, sem se averiguar verdadeiramente as motivações e quem lucra de forma directa ou indirecta com esta calamidade.

O que é certo, é que a madeira queimada continua a vender-se ao preço da “uva mijona” e um sector como a silvicultura, que em Portugal tem um potencial avaliado em vários milhares de milhões de euros, com capacidade de gerar muitos milhares de postos de trabalho, continua a ser encarado como o parente pobre da economia, gastador de recursos e fomentador de canseiras e perigos.

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Vejamos, de forma resumida, as consequências dos incêndios florestais e os impactos que causam na natureza e na sociedade:

 

  • Depreciação cénica na paisagem 

O impacto visual após um incêndio florestal é terrível;

 

  • Morte de plantas

É o efeito mais visível e causa os mesmos problemas da desflorestação massiva;

 

  • Perdas humanas

Quase todos os anos há a lamentar a perda de vidas humanas ou ferimentos mais ou menos graves, sejam de populações ou de bombeiros;

 

  • Destruição de bens materiais

Aspecto cada vez mais mediatizado com as perdas de habitações, equipamentos e culturas agrícolas;

 

  • Quebra de receitas para o turismo

Facilmente se percebe das consequências dos incêndios no turismo de natureza;

 

  • Perda de material lenhoso

A floresta é uma fonte de receita por parte dos seus proprietários. Após a passagem de um incêndio o valor comercial do material lenhoso desce consideravelmente, perdendo mesmo, em algumas situações, todo o seu valor;

 

  • Perda de receita proveniente da resinagem

É uma actividade que estava a renascer, após longos anos de inactividade que sofre um duro golpe na área de pinhal;

 

  • Destruição de apiários

Quer a destruição das colmeias, quer a destruição dos locais de alimentação das abelhas, representam uma quebra de produtividade na apicultura e uma diminuição da acção de polinização das abelhas nas plantas silvestres;

 

  • Perda de biodiversidade

Toda a fauna e flora de uma área ardida é gravemente afectada e dependendo da intensidade, existem plantas e animais que, no limite, se extinguem.

Foi o que aconteceu no incêndio de 2010 nas serras da Madeira em que a única população de “Sorbus maderensis”, espécie endémica da ilha da Madeira, foi extinta do seu habitat natural. Valeu na altura a existência de plantas em viveiro da Direcção Regional de Florestas e Conservação da Natureza provenientes daquele local, promovendo-se à posterior instalação de novos exemplares. A população da freira-da-madeira, “Pterodroma madeira”, ave endémica da Madeira, foi na mesma altura gravemente afectada pelo mesmo incêndio;

 

  • Emissões de CO2

Um incêndio tem um efeito duplamente negativo ao nível das emissões, na medida que origina a libertação de gases com efeito estufa, como reduz a capacidade de absorção e armazenamento de CO2.

Outro factor associado às emissões é a emissão dos fumos que poderão causar constrangimentos respiratórios, além de dificultarem a logística operacional no combate com meios aéreos;

 

  • Perda de Solo

Os incêndios provocam a destruição das árvores e do coberto vegetal do solo ficando o mesmo mais susceptível à acção directa da chuva e dos ventos, podendo em zonas com maior pluviosidade e de maior pendente existir arrastamento do solo e empobrecimento por arrastamento dos nutrientes. Este fenómeno poderá igualmente provocar a contaminação de linhas de água;

 

  • Perigo de aluviões e enxurradas

As áreas afectadas por incêndios florestais, principalmente as zonas mais declivosas, tornam-se mais vulneráveis a arrastamento de massas de solo;

 

  • Surgimento de espécies invasoras

Após um incêndio as primeiras plantas a colonizarem o espaço afectado são as plantas invasoras. A expansão rápida destas espécies, algumas bem adaptadas ao fogo, como a haquea-picante, “Haquea cericia”, contribuem para a perda de biodiversidade e consequente aumento da incidência de novos incêndios;

ng8603657.JPGEstá a gerar alguma expectativa a decisão de promover durante o mês de Outubro, um Conselho de Ministros exclusivamente dedicado a tomar decisões sobre a problemática dos incêndios florestais, que ultrapassem o velho paradigma da contabilidade dos meios de combate envolvidos em cada fase Charlie ou outra qualquer designação técnica, para consumo imediato e paliativo, numa televisão perto de si.

publicado por Brito Ribeiro às 15:38
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01
Jul 17

Os dólmens surgem na Europa sensivelmente entre 4000 e 2000 a.C., sendo que na Península Ibérica parece irradiarem da Andaluzia e sul de Portugal para o resto do território.

Estes monumentos megalíticos eram originalmente tapados em forma cónica com terra e pequenas pedras, sendo ao longo dos tempos destapados para pilhagem e já nos nossos dias, para estudo arqueológico.

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O que me leva a escrever este pequeno artigo não é a dissertação sobre estes marcos funerários, mas antes uma reflexão sobre o relacionamento das pessoas com os dolmens, as crenças e superstições que lhe estão associadas.

Andam ligadas a estes monumentos superstições e crendices, levando a que alguns tenham sido utilizados para variados destinos como abrigo de gente e de gado, arrecadação de alfaias, na expectativa de “energias” positivas que protejam até a adaptação a templos católicos. Andam também as antas ligadas a factos de culto com invocações locais e à toponímia local e regional.

Desde sempre o homem acreditou na capacidade dos mortos influenciarem a ação criadora dos deuses e do próprio ciclo da natureza, designadamente no renascimento dos vegetais e das culturas que os demónios e os maus espíritos associados ao inverno fizeram desaparecer.

Esta crença está na origem de muitas práticas relacionadas com o culto dos mortos, que em regra começam em Novembro e prolongam-se até à Serração da Velha, passando pelo solstício de inverno (saturnais) e pelos festejos do carnaval. Os ritos vão variando conforme as celebrações em causa, mas mantem entre si uma finalidade comum, que é assegurar que o ciclo da vida e da morte não se interrompa, ou seja, que ao indesejado inverno, suceda a almejada primavera.

Investigações feitas na área da arqueologia e da antropologia, concluíram que as práticas do culto dos mortos tiveram o seu início na fase de transição do paleolítico para o neolítico, sendo disso testemunho os inúmeros monumentos funerários como os dolmens ou antas e inscrições votivas.

Uma característica curiosa é a orientação da abertura do dólmen, geralmente virada a sudeste, coincidente com o amanhecer do solstício de inverno.

Muitos dos nomes dos dólmens ou antas estão relacionados com entidades misteriosas, que criaram mitos mais ou menos generalizados. Outros porque foram cristianizados os vestígios dos velhos cultos pagãos, adaptando-se a invocações religiosas como templos, nichos e alminhas; há casos em que se contruiu ou ergueu um sinal cristão sobre os monumentos ou ao seu lado, ou ainda, numa manifestação mais evoluída desta progressão espiritual, transformaram a anta em capela.

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Aos mouros são atribuídos pelo povo todos os monumentos arcaicos e suas ruinas, por isso “construíram” as antas e vivem nelas as “mouras encantadas”, que segundo a lenda, carregaram as pedras à cabeça para a sua construção, bem como para pontes, castelos e penedos avantajados. A lenda põe essas mouras encantadas com a roca à cinta para irem fiando, a aturar o tempo e a canseira, ou a amamentar uma criança enquanto transportavam as pesadas pedras pelos caminhos.

Lembro que a invasão mulçulmana na península iniciou-se por volta do ano 711 da nossa era, portanto, cerca de três mil anos após a construção dos ultimos dólmens.

Além das referencias aos mouros encontram-se vestígios de  arcaicos cultos pagãos, apresentamdo-se de duas formas: uma de sentido agrícola, simultaneamente propiciatório e divinatório; outra de utilização divinatória também, mas casamenteira ou erótica, em prática de ritos de fricção e escorregamento.

O que se atribui às grutas, lapas abertas nas pedras, covas fundas e a penedos sobrepostos, as pedras baloiçantes ou “bulideiras”, repete-se nos dólmens: as mouras ou os mouros guardaram aí tesouros encantados de riquezas fabulosas, que os devotos de S. Cipriano ou não, ainda hoje, procuram freneticamente com pás e picaretas.

No Vale do Âncora, além do Dólmen da Barrosa (também conhecida por Lapa dos Mouros), existem outras antas de menor dimensão, mas igualmente representativas desse período da pré história, como a Anta do Santo de Vile, Mamoa da Aspra ou Cova da Moura na freguesia de Âncora, Mamoa da Ereira na freguesia de Afife ou Mamoa do Chão da Pica na freguesia de S. Lourenço da Montaria.

publicado por Brito Ribeiro às 16:02

01
Fev 17

Desde criança que ouvia falar do Convento ou Mosteiro de Bulhente; muitas vezes por lá passei, onde se via uma parede incompleta pertença de uma edificação, fosse mosteiro ou outra coisa qualquer. Há dias por ouvir um amigo referir-se ao dito, decidi debruçar-me um pouco sobre o assunto e passar o resumo a escrito.

Popularmente, sobre este convento avançavam-se as mais fantasiosas lendas, onde se misturavam tuneis secretos, frades, freiras e não sei que mais para apimentar a estória.

Porém, o rigor histórico não se compadece destas fantasias e consultando alguns dados sobre esta matéria, cedo nos assolam dúvidas mais que fundadas sobre a existência de um convento na medieva freguesia de Bulhente.

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Cruzeiro de Bulhente - Rampa do Calvário

A primeira referencia a S. Salvador de Bulhente surge em 1258 e nos séculos imediatos não se encontra o termo “mosteiro” aplicado à igreja paroquial existente.

Na acta de inquirição de 1258, mandada executar por D. Afonso III, feita em St.ª Maria de Caminha sobre Bulhente, conclui-se que era uma aldeia povoada há relativamente pouco tempo, talvez aquando da presúria de Paio Vermudes no século XII, onde os povoadores ergueram uma ermida consagrada ao Divino Salvador, usufruindo por isso de padroado, que lhes permitia apresentar clérigo para celebrar actos de culto. Tinham obrigação de pagar foro ao rei pelas terras outorgadas e o dote desta igreja devia ter alguma importância, pois eram cobiçados pelos descendentes de um tal Nuno Velho, figura da corte de D. Afonso Henriques, que malgrado a oposição dos fregueses, tentavam apoderar-se deles pela força.

No Censual da Terra da Vinha, em 1321, Bulhente já não figura como ermida mas como “yglesia”, ou seja, freguesia. A partir de 1436 ou até antes, Bulhente “hé tornada sem cura porque nom tinha freigueses”, portanto estava despovoada.

O padroado e as rendas de Bulhente estavam divididas desde o início do reinado de D. Fernando em duas partes iguais, uma sem cura, outra com cura, havendo longo rol de confirmações até 1598, quando é unida ao Colégio de S. Pedro do Seminário Conciliar de Braga.

É precisamente em 1598 que surge a primeira referência “…do mosteiro de São Salvador de Bulhente da comarcua de Vallença” num registo de confirmação (Arquivo Distrital de Braga, Registo geral, nº 318, fls. 77-77v), numa época que já se sabia estar a paróquia desabitada.

Curiosamente é o mesmo escrivão da câmara da comarca e administração de Valença, Feliciano de Carvalho Barreto, que a 30 de Maio de 1598 apelidou de “mosteiro” e quatro meses antes, a 23 de Janeiro do mesmo ano, a apelidou de “igreja”.

Mais tarde, aparece outra alusão ao Mosteiro de Bulhente nas Inquirições Paroquiais de 1758, onde o abade de Gontinháes, Gonçalo Pinto de Carvalho Medeiros, ao responder ao inquérito, escreve:

A Cappella de Salvador de Bulhente, que antiguamente estava junto ao alto da Serra para aparte do Norte em sitio, que Chamão Bulhente, e por tradição foy Mosteyro de Religiosos Mendicantes que se extinguio há perto de trezentos anos…” Mais à frente refere: “Outros querem dizer também per tradicam, que otal Mosteyro fora de Religiozas

É muito improvável que a ordem fosse dos Mendicantes (Dominicanos e Franciscanos), pois estes estavam vocacionados para a pregação e testemunho de pobreza, preferindo os meios urbanos para se fixarem. Neste sentido, referir uma Ordem Mendicante levanta imediatamente suspeita, pois Bulhente fica isolada a meia encosta de um monte agreste e difícil de aceder, contrariando as localizações tradicionais destas Ordens, fossem dentro de recintos amuralhados fossem fora, mas nas imediações.

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Coluna da igreja de Bulhente - Terreno particular

A própria duvida sobre se era um mosteiro masculino ou feminino, não abona nada em favor da sua existência.

É já no século XIX, quando Pinho Leal publicou “Portugal antigo e moderno” que deparamos com fantasiosas afirmações de Bulhente ser um Mosteiro de freiras Beneditinas e que “já existia no tempo dos Suevos”.

Com o caminho preparado por uma suposta informação histórica, faz um conjunto de afirmações apenas explicadas por um anticlericalismo exacerbado e uma falta de rigor confrangedora:

As freiras d’aqui eram, como as de Requião (vide esta palavra que traz coisas curiosíssimas com respeito às freiras) praticando toda a casta de escândalos com quem lhes aparecia, principalmente com os frades de S. João de Cabanas, na freguesia de Afife, que ficavam perto, parecendo mais sacerdotisas de Venus, do que religiosas christans. Tantas fizeram que o bispo de Ceuta, suprimiu este convento, pelos anos de 1460, e parece que até o mandou arrasar”.

Na obra de João de Barros de 1548, Geografia d’Entre Douro e Minho, que registou outros mosteiros da região, incluindo despovoados, como o de Cabanas, nada consta sobre um hipotético Mosteiro de Bulhente; também o cronista da Ordem de S. Bento, Frei Leão de S. Tomás, na sua obra Benedictina Lusitana não faz nenhuma referência ao hipotético Mosteiro.

Esta paróquia junta-se à extensa lista de aldeias e instituições portuguesas que não sobreviveram à crise demográfica e económica dos séculos XIV e XV, sensivelmente entre 1330 e 1450.

Em jeito de conclusão, não há nenhuma prova consistente da existência de um Mosteiro em Bulhente, pelo contrário, existem razões muito fundamentadas para duvidar do rigor histórico das Inquirições de 1758 e principalmente do “Portugal antigo e moderno” de Pinho Leal.

Fontes consultadas: "O mosteiro de Bulhente não existiu" de José Marques; "Monografia do Concelho de Caminha" de Lourenço Alves

publicado por Brito Ribeiro às 10:46

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