Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

29
Set 17

Transcrevo um artigo publicado na revista ABC de Lisboa, a 19 de Janeiro de 1922, pelo prestigiado jornalista Gomes Monteiro, sobre a família ancorense Fernandes Fão.

“Ao falarmos da numerosa família Fernandes Fão temos a impressão de estarmos contemplando uma partitura de Wagner. Tudo ali é harmonia, ritmo, orquestração… música. Do progenitor Constantino Fernandes Fão, um grande amador musical, todos os filhos saíram músicos… e de categoria.

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Assim, José Fernandes Fão entrou para a banda da Guarda Nacional Republicana, classificado em 1ª classe, obtendo progressos. Tempos depois, uma impertinente “angina pectoris” forçava-o a abandonar a sua esperançosa carreira.

Artur Fernandes Fão entrou com o pé direito para a arte musical e, de triunfo em triunfo, é hoje o chefe indiscutível da distinta banda da Armada.

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 Francisco Fernandes Fão, músico de 1ª classe da banda da GNR e aluno do 6º ano do Conservatório em violoncelo.

Emília Fernandes Fão, alma de artista, obtendo, com distinção, o curso de piano, harmonia e violino no Conservatório.

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Finalmente, temos Joaquim Fernandes Fão que, propositadamente, reservamos para o fim, porque é dele que desejamos tratar mais detalhadamente. Bisbilhotando na sua vida de artista conseguimos apurar que o maestro Joaquim Fernandes Fão nasceu em Buenos Aires, por uma bela manhã de 3 de Maio de 187F8, quando as rosas argentinas desabrochavam para a vida, ungidas de orvalhos matinais. Quando ainda aprendia as primeiras letras, seu pai, seguindo o uso, ensinou-lhe a compreender os encantos do solfejo, entregando-o, em seguida, aos cuidados de um professor inglês de violino, sendo depois trazido para Portugal.

E já nessa idade pueril – 12 anos – em que todas as crianças se dedicam às suas travessuras, Joaquim Fão compunha já valsas para 3 violinos, dando-lhes a missão de um executar o canto, o segundo substituir o rabecão e o terceiro fazer o acompanhamento. Depois de fazer o exame de instrução primária, em Âncora, e a seguir frequentar o Liceu de Viana do Castelo, até ao 4ºano, assentou praça em infantaria 3 desta cidade, continuando sempre a instrução musical de violino e piano para a qual sentia uma irresistível vocação.

Transferido para infantaria 12, seguia, pouco depois, para Lisboa, a fazer parte da banda de infantaria 2, onde ficou como músico de 3ª classe. Mas o génio, tal como uma gema de subido valor, fulgurando à luz acerada dos espelhos, manifestou-se logo. A breve trecho, o músico de 3ª classe era promovido a chefe, tomando a regência da banda de infantaria 26, em Ponta Delgada.

É curioso notar que que, neste concurso, Joaquim Fernandes Fão triunfou sobre 25 concorrentes, conquistando a 1ª classificação. Quando ainda músico de 1ª classe e sub-chefe da banda de infantaria 2, compôs vários números de música ligeira que foram executadas com o maior agrado. Chefe da banda do 26, compôs números de música militar, tendo também escrito música para as operetas “Gata borralheira” e “Hotel do novo mundo”, que foram acolhidas com gerais aplausos pelo público de S. Miguel.

Apesar de se encontrar lá longe afastado por muitas léguas de oceano, o seu nome andava já de boca em boca, proferido com aquela admiração tributada aos consagrados. Por escolha dos músicos da GNR, deu ingresso na regência da mesma, reorganizando-a e dando-lhe uma arquitectura moderna, de forma a poder executar a verdadeira música de concerto.

Aparte as suas composições originais, o maestro Fão tem dedicado grande parte do seu tempo a instrumentar música de Wagner, Beethoven, Listz, Berlioz, Mozart e tantos outros. Como obras de vulto, escreveu a “Abertura Sinfónica” que foi executada pela orquestra Blanch e ums “suite”, composta por 4 números – “Prelúdio” – “Minuette” – “Intermezzo dramático” - e “Marcha Militar” – que foi executada pela orquestra de David de Sousa. O “Minuette” foi agora executado, em S. Carlos, pelo maestro Guy, tendo obtido os calorosos aplausos duma plateia de entendedores de boa música. Sobre o libreto de Alfredo Pinto (Sacavém) escreveu o poema sinfónico “Sylmires” que, no Teatro Politeama foi executado pela orquestra de Viana da Mota.

Em suma, o maestro Joaquim Fernandes Fão conquistou um lugar proeminente na música nacional, sendo um dos poucos que soube compreender os voos gigantescos da águia wagneriana. Sob a sua direcção, a banda da GNR tem percorrido o país, visto que todo o país tem direito de a admirar e deliciar-se com a sua execução primorosa.

Três vezes foi a Espanha, tendo percorrido Vigo, Badajoz e Valencia del Cid. A propósito, lembramos que tendo-se realizado nesta ultima cidade espanhola, um certame de 11 bandas, maestro Fão foi escolhido para presidir ao júri, representando esta escolha uma homenagem, aliás merecida, ao português que lhes dera as honras da sua visita.

Julgamos ter falado bastante sobre o músico consagrado, não sabendo ainda se o visado nos perdoará termos aprofundado tão intimamente a sua biografia artística. Mas, seja como for, uma vez que nos propusemos a dizer a verdade, devemos frisar que o maestro Fão, tendo tocado violino em todas as orquestras a que pertenceu, sendo, por vezes, o solista na ópera no Coliseu dos Recreios e viola solista na orquestra Blanch, é hoje um regente firme, impecável, que nos últimos concertos realizados no Teatro Politeama, nos tem feito acreditar em contos de fadas, tomando a batuta mágica por uma verdadeira varinha de condão – Gomes Monteiro.”

O pai destes músicos, Constantino Fernandes Fão esteve emigrado na Argentina e terá regressado a Gontinhães com a família por volta de 1890. Em 1905, dando largas às suas paixões, a música e a terra natal, reorganiza a banda local, que será composta essencialmente por elementos muito jovens. A dirigi-la estará até ao fim da vida, salvo breves interrupções, o seu filho José Fernandes Fão, que vem a falecer em 1933. Em todos os serviços de coro, que nessa altura eram muitos, a regência era de Constantino Fernandes Fão.

Mais dados sobre o historial das bandas de música de Vila Praia de Âncora podem ser consultados aqui.

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 A Banda de Música extinguiu-se há muito tempo, mas a memória destes músicos continua viva, não só na toponímia da vila, mas essencialmente na Academia de Música local, a qual foi, muito justamente, designada por "Fernandes Fão".

publicado por Brito Ribeiro às 11:09
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24
Set 17

Nem tudo o que reluz é ouro”, dizia a minha mãe, às vezes a propósito, outras vezes nem tanto. Ao fazer esta citação, à falta de outra mais apropriada, quero também atribuir o significado que há sempre duas versões (pelo menos) para a mesma “história”. E é de história que vos falo, mais concretamente da ponte rodoviária de Caminha, sobre o Rio Coura.

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Encontrei duas versões com discrepâncias sobre este tema que me causam alguma perplexidade, tanto mais que estamos a referir-nos a um passado não muito distante, quando já existiam fontes documentais bastante rigorosas e acessíveis.

 

A versão transcrita em “Caminha através dos tempos, o movimento marítimo e outros meios de transporte” de João da Silva Santos, resumidamente, diz que até meados do século XIX a travessia do Rio Coura entre Caminha e Seixas fazia-se por barco. 

Em 1844, construiu-se uma ponte em madeira, cujos pegões são construídos com a pedra das Torres da Piedade e de Vilar de Mouros, que nessa altura são arrasadas. À entrada da ponte, na margem Sul, existia uma pequena casa onde se pagava a portagem. Os peões pagavam 5 reis e os carros 400 reis, pela sua passagem. Rendia uns 1.500$000 reis anuais aos quais se acrescentava o imposto do sal, verbas que chegavam para a conservação da ponte. Mais tarde, com a abertura da via-férrea, o imposto do sal desapareceu, ficando a conservação da ponte apenas a contar com o produto da portagem. 

Durante a guerra de 14/18, a portagem já era insuficiente para custear a sua conservação, tendo a Câmara entregue a ponte ao Governo. Começaram então a aparecer buracos e a atravessá-la com dificuldade, até que em Agosto de 1920 pegaram-Ihe fogo.

A partir desta data, nem sequer peões passavam e os carros tinham que ir à volta por Vilar de Mouros. 

Foi então decidido construir uma nova ponte em cimento com um orçamento de 1.010 contos. Porém, a empreitada acabou por ficar por mais 400 contos que o previsto. A 14 de Agosto de 1930, voltaram a passar automóveis, ficando concluída a obra em Novembro e fazendo-se a entrega, em 2 de Dezembro de 1930. 

Esta ponte ficou com duas rampas, uma à entrada e outra à saída, devido à sua subida de nível. Na antiga, de madeira, a quantidade de pegões era superior e o nível do tabuleiro idêntico ao actual.

Finalmente, já na segunda metade deste século, a ponte sofreu umas modificações, fazendo-se desaparecer as rampas. 

 

Contudo, em “História Nossa” de Paulo Torres Bento, afirma-se que a ponte foi inaugurada em 1839, nos primórdios do liberalismo e que a sua manutenção fora sempre uma fonte de problemas para a Câmara Municipal. Após um incendio que se suspeita ser intencional em 1884, que destruiu 14 metros do tabuleiro, as condições de atravessamento vem a piorar, até que a Câmara delibera em 1905, enquanto proprietária “taxar a passagem dos automóveis na ponte de madeira sobre o Coura, em 200 reis cada passagem, e as motocicletas em 40 reis também pela passagem de ida e volta”, conforme acta da CMC de 23 de Outubro de 1905.

Em 1920 o estado ruinoso do tabuleiro obrigou a Câmara a proibir, por questões de segurança, o trânsito automóvel, sendo desviado para a ponte de Vilar de Mouros. Em 1922, após outro incendio, até o trânsito pedonal foi desviado para a ponte ferroviária a montante.

Valeria a Caminha a intervenção do senador ancorense Luís Inocêncio Ramos Pereira que em 1924 conseguiu do governo a aprovação do projecto para a reconstrução do tabuleiro em cimento armado. A obra começaria dois anos depois e após muitos atrasos seria reaberta ao trânsito automóvel em Dezembro de 1930, estatal e livre de portagem.

 

Num período o em que todos oferecem bonés, chapelinhos e santinhos, prometendo festarola e foguetório para o futuro das nossas vidas, fica a triste realidade de há cem anos haver tantas dificuldades para simples travessia do Rio Coura.

Fica também para a história o exemplo de um homem, um senador da república, que levou para Lisboa o problema e lutou pelos recursos necessários para a empreitada.

Para concluir, digam lá que a história não tem coisas interessantes!!!

 

 

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 10:33
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25
Ago 17

Relatório integral dos agentes da PIDE sobre o Festival de música "Pop" em Vilar de Mouros em 1971, distribuido à Presidência do Conselho, Ministério do interior e Ministério da Educação Nacional.

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"A seguir se transcreve o texto de uma informação redigida por um nosso elemento informativo que assistiu ao “festival” em questão, que teve lugar nos dias 7 e 8 do corrente, a qual se reproduz na íntegra, para não alterar os detalhes que foram alvo do seu espírito de observação: “Dias antes do festival, foram distribuídos, nas estradas do País e nas estradas espanholas de passagem de França para Portugal, panfletos pedindo aos automobilistas que dessem boleias aos indivíduos que iam ver o festival.

No 1º dia, o espectáculo começou às 18h00 e prolongou-se até às 4 da manhã. Ao anoitecer, o organizador, um tal Barge, anunciou que tinham sido vendidos 20 mil bilhetes (a 50$00 cada). Esperavam vender 50 mil bilhetes para cobrir as despesas, que seriam aproximadamente a 2.500 contos. Diziam que tiveram de mandar vir o conjunto Manfred Mann de Inglaterra, mas parece que estava no Algarve, e por isso, a despesa com eles não foi tão grande como parecia.

Um dos cantores, Elton John, causou desde o começo má impressão, com os seus modos soberbos e as suas exigências: carro de luxo para as deslocações, quartos de luxo para os acompanhantes e guarda-costas, etc. O recinto do festival era uma clareira cercada de eucaliptos, com um taipal à volta e uma grade de arame do lado do ribeiro.

Na noite de 7 estavam muitos milhares de pessoas e muita gente dormiu ali mesmo, embrulhada em cobertores e na maior promiscuidade. Entre outros havia: crianças de olhar parado indiferentes a tudo grupos de homens, de mão na mão, a dançar de roda um rapaz deitado, com as calças abaixadas no trazeiro um sujeito tão drogado que teve de ser levado em braços, com rigidez nos músculos relações sexuais entre 2 pares, todos debaixo do mesmo cobertor na zona mais iluminada sujeitos que corriam aos gritos para todos os lados bichas enormes a comprar laranjadas e esperando a vez nas retretes (havia 7 ou 8 provisórias) mas apesar disso, houve quem se aliviasse no recinto do espectáculo. porcaria de todo o género no chão (restos de comida, lama, urina) e pessoas deitadas nas proximidades. Viam-se algumas bandeiras. Uma vermelha com uma mão amarela aberta no meio (um dos símbolos usados na América pelos anarquistas); outra branca, com a inscrição “somos do Porto” com raios a vermelho e uma estrela preta.

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A população da aldeia, e de toda a região, até Viana do Castelo, a uns 30 km de distância, estava revoltada contra os “cabeludos” e alguns até gritavam de longe ao passar “vai trabalhar”. Foram vistos alguns a comer com as mãos e a limparem os dedos à cabeleira. Viam-se cenas indecentes na via pública, atrás dos arbustos e à beira da estrada. Em Viana do Castelo dizia-se que os “hippies” tinham comprado agulhas e seringas nas farmácias da cidade. Havia muitos estudantes de Coimbra, e outros que talvez fossem de Lisboa ou do Porto.

Alguns passaram a noite em Viana do Castelo em pensões, e viam-se alguns de muito mau aspecto, parece que vindos de Lisboa, que ficaram numa pensão. Houve gritos de Angola é... (qualquer coisa) durante a actuação do conjunto Manfred Mann (de que faz parte um comunista declarado, crê-se que chamado Hugg). Fora do recinto, junto do rio e de uma capela, havia muitas tendas montadas e gente a dormir encostada a árvores ou muros e embrulhada em cobertores. Houve grande confusão junto às portas de entrada.

Havia quatro bilheteiras em funcionamento permanente e muito trânsito. Toda aquela multidão de famintos, sem recursos para adquirir géneros alimenticios indispensáveis, como se de uma praga de gafanhotos se tratasse, se lançou sobre as hortas próximas colhendo batatas e outros produtos hortícolas, causando assim, grandes contrariedades aos seus proprietários, muitos deles de débeis recursos económicos."

publicado por Brito Ribeiro às 16:26
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01
Jul 17

Os dólmens surgem na Europa sensivelmente entre 4000 e 2000 a.C., sendo que na Península Ibérica parece irradiarem da Andaluzia e sul de Portugal para o resto do território.

Estes monumentos megalíticos eram originalmente tapados em forma cónica com terra e pequenas pedras, sendo ao longo dos tempos destapados para pilhagem e já nos nossos dias, para estudo arqueológico.

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O que me leva a escrever este pequeno artigo não é a dissertação sobre estes marcos funerários, mas antes uma reflexão sobre o relacionamento das pessoas com os dolmens, as crenças e superstições que lhe estão associadas.

Andam ligadas a estes monumentos superstições e crendices, levando a que alguns tenham sido utilizados para variados destinos como abrigo de gente e de gado, arrecadação de alfaias, na expectativa de “energias” positivas que protejam até a adaptação a templos católicos. Andam também as antas ligadas a factos de culto com invocações locais e à toponímia local e regional.

Desde sempre o homem acreditou na capacidade dos mortos influenciarem a ação criadora dos deuses e do próprio ciclo da natureza, designadamente no renascimento dos vegetais e das culturas que os demónios e os maus espíritos associados ao inverno fizeram desaparecer.

Esta crença está na origem de muitas práticas relacionadas com o culto dos mortos, que em regra começam em Novembro e prolongam-se até à Serração da Velha, passando pelo solstício de inverno (saturnais) e pelos festejos do carnaval. Os ritos vão variando conforme as celebrações em causa, mas mantem entre si uma finalidade comum, que é assegurar que o ciclo da vida e da morte não se interrompa, ou seja, que ao indesejado inverno, suceda a almejada primavera.

Investigações feitas na área da arqueologia e da antropologia, concluíram que as práticas do culto dos mortos tiveram o seu início na fase de transição do paleolítico para o neolítico, sendo disso testemunho os inúmeros monumentos funerários como os dolmens ou antas e inscrições votivas.

Uma característica curiosa é a orientação da abertura do dólmen, geralmente virada a sudeste, coincidente com o amanhecer do solstício de inverno.

Muitos dos nomes dos dólmens ou antas estão relacionados com entidades misteriosas, que criaram mitos mais ou menos generalizados. Outros porque foram cristianizados os vestígios dos velhos cultos pagãos, adaptando-se a invocações religiosas como templos, nichos e alminhas; há casos em que se contruiu ou ergueu um sinal cristão sobre os monumentos ou ao seu lado, ou ainda, numa manifestação mais evoluída desta progressão espiritual, transformaram a anta em capela.

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Aos mouros são atribuídos pelo povo todos os monumentos arcaicos e suas ruinas, por isso “construíram” as antas e vivem nelas as “mouras encantadas”, que segundo a lenda, carregaram as pedras à cabeça para a sua construção, bem como para pontes, castelos e penedos avantajados. A lenda põe essas mouras encantadas com a roca à cinta para irem fiando, a aturar o tempo e a canseira, ou a amamentar uma criança enquanto transportavam as pesadas pedras pelos caminhos.

Lembro que a invasão mulçulmana na península iniciou-se por volta do ano 711 da nossa era, portanto, cerca de três mil anos após a construção dos ultimos dólmens.

Além das referencias aos mouros encontram-se vestígios de  arcaicos cultos pagãos, apresentamdo-se de duas formas: uma de sentido agrícola, simultaneamente propiciatório e divinatório; outra de utilização divinatória também, mas casamenteira ou erótica, em prática de ritos de fricção e escorregamento.

O que se atribui às grutas, lapas abertas nas pedras, covas fundas e a penedos sobrepostos, as pedras baloiçantes ou “bulideiras”, repete-se nos dólmens: as mouras ou os mouros guardaram aí tesouros encantados de riquezas fabulosas, que os devotos de S. Cipriano ou não, ainda hoje, procuram freneticamente com pás e picaretas.

No Vale do Âncora, além do Dólmen da Barrosa (também conhecida por Lapa dos Mouros), existem outras antas de menor dimensão, mas igualmente representativas desse período da pré história, como a Anta do Santo de Vile, Mamoa da Aspra ou Cova da Moura na freguesia de Âncora, Mamoa da Ereira na freguesia de Afife ou Mamoa do Chão da Pica na freguesia de S. Lourenço da Montaria.

publicado por Brito Ribeiro às 16:02

01
Fev 17

Desde criança que ouvia falar do Convento ou Mosteiro de Bulhente; muitas vezes por lá passei, onde se via uma parede incompleta pertença de uma edificação, fosse mosteiro ou outra coisa qualquer. Há dias por ouvir um amigo referir-se ao dito, decidi debruçar-me um pouco sobre o assunto e passar o resumo a escrito.

Popularmente, sobre este convento avançavam-se as mais fantasiosas lendas, onde se misturavam tuneis secretos, frades, freiras e não sei que mais para apimentar a estória.

Porém, o rigor histórico não se compadece destas fantasias e consultando alguns dados sobre esta matéria, cedo nos assolam dúvidas mais que fundadas sobre a existência de um convento na medieva freguesia de Bulhente.

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Cruzeiro de Bulhente - Rampa do Calvário

A primeira referencia a S. Salvador de Bulhente surge em 1258 e nos séculos imediatos não se encontra o termo “mosteiro” aplicado à igreja paroquial existente.

Na acta de inquirição de 1258, mandada executar por D. Afonso III, feita em St.ª Maria de Caminha sobre Bulhente, conclui-se que era uma aldeia povoada há relativamente pouco tempo, talvez aquando da presúria de Paio Vermudes no século XII, onde os povoadores ergueram uma ermida consagrada ao Divino Salvador, usufruindo por isso de padroado, que lhes permitia apresentar clérigo para celebrar actos de culto. Tinham obrigação de pagar foro ao rei pelas terras outorgadas e o dote desta igreja devia ter alguma importância, pois eram cobiçados pelos descendentes de um tal Nuno Velho, figura da corte de D. Afonso Henriques, que malgrado a oposição dos fregueses, tentavam apoderar-se deles pela força.

No Censual da Terra da Vinha, em 1321, Bulhente já não figura como ermida mas como “yglesia”, ou seja, freguesia. A partir de 1436 ou até antes, Bulhente “hé tornada sem cura porque nom tinha freigueses”, portanto estava despovoada.

O padroado e as rendas de Bulhente estavam divididas desde o início do reinado de D. Fernando em duas partes iguais, uma sem cura, outra com cura, havendo longo rol de confirmações até 1598, quando é unida ao Colégio de S. Pedro do Seminário Conciliar de Braga.

É precisamente em 1598 que surge a primeira referência “…do mosteiro de São Salvador de Bulhente da comarcua de Vallença” num registo de confirmação (Arquivo Distrital de Braga, Registo geral, nº 318, fls. 77-77v), numa época que já se sabia estar a paróquia desabitada.

Curiosamente é o mesmo escrivão da câmara da comarca e administração de Valença, Feliciano de Carvalho Barreto, que a 30 de Maio de 1598 apelidou de “mosteiro” e quatro meses antes, a 23 de Janeiro do mesmo ano, a apelidou de “igreja”.

Mais tarde, aparece outra alusão ao Mosteiro de Bulhente nas Inquirições Paroquiais de 1758, onde o abade de Gontinháes, Gonçalo Pinto de Carvalho Medeiros, ao responder ao inquérito, escreve:

A Cappella de Salvador de Bulhente, que antiguamente estava junto ao alto da Serra para aparte do Norte em sitio, que Chamão Bulhente, e por tradição foy Mosteyro de Religiosos Mendicantes que se extinguio há perto de trezentos anos…” Mais à frente refere: “Outros querem dizer também per tradicam, que otal Mosteyro fora de Religiozas

É muito improvável que a ordem fosse dos Mendicantes (Dominicanos e Franciscanos), pois estes estavam vocacionados para a pregação e testemunho de pobreza, preferindo os meios urbanos para se fixarem. Neste sentido, referir uma Ordem Mendicante levanta imediatamente suspeita, pois Bulhente fica isolada a meia encosta de um monte agreste e difícil de aceder, contrariando as localizações tradicionais destas Ordens, fossem dentro de recintos amuralhados fossem fora, mas nas imediações.

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Coluna da igreja de Bulhente - Terreno particular

A própria duvida sobre se era um mosteiro masculino ou feminino, não abona nada em favor da sua existência.

É já no século XIX, quando Pinho Leal publicou “Portugal antigo e moderno” que deparamos com fantasiosas afirmações de Bulhente ser um Mosteiro de freiras Beneditinas e que “já existia no tempo dos Suevos”.

Com o caminho preparado por uma suposta informação histórica, faz um conjunto de afirmações apenas explicadas por um anticlericalismo exacerbado e uma falta de rigor confrangedora:

As freiras d’aqui eram, como as de Requião (vide esta palavra que traz coisas curiosíssimas com respeito às freiras) praticando toda a casta de escândalos com quem lhes aparecia, principalmente com os frades de S. João de Cabanas, na freguesia de Afife, que ficavam perto, parecendo mais sacerdotisas de Venus, do que religiosas christans. Tantas fizeram que o bispo de Ceuta, suprimiu este convento, pelos anos de 1460, e parece que até o mandou arrasar”.

Na obra de João de Barros de 1548, Geografia d’Entre Douro e Minho, que registou outros mosteiros da região, incluindo despovoados, como o de Cabanas, nada consta sobre um hipotético Mosteiro de Bulhente; também o cronista da Ordem de S. Bento, Frei Leão de S. Tomás, na sua obra Benedictina Lusitana não faz nenhuma referência ao hipotético Mosteiro.

Esta paróquia junta-se à extensa lista de aldeias e instituições portuguesas que não sobreviveram à crise demográfica e económica dos séculos XIV e XV, sensivelmente entre 1330 e 1450.

Em jeito de conclusão, não há nenhuma prova consistente da existência de um Mosteiro em Bulhente, pelo contrário, existem razões muito fundamentadas para duvidar do rigor histórico das Inquirições de 1758 e principalmente do “Portugal antigo e moderno” de Pinho Leal.

Fontes consultadas: "O mosteiro de Bulhente não existiu" de José Marques; "Monografia do Concelho de Caminha" de Lourenço Alves

publicado por Brito Ribeiro às 10:46

28
Jan 17

As festividades em honra da Senhora da Bonança ter-se-ão iniciado em Gontinhães no ano de 1883, no seguimento de uma devoção dos pescadores locais pela Senhora da Bonança, de Carreço, que tinha festividade e confraria com estatutos desde 1727.

9134819_gqWnU.jpegEnquanto em Carreço a festividade definhava, ao ser transferida para o Lugar da Lagarteira, em Gontinhães, ganhou rapidamente projeção, trazendo à povoação grandes quantidades de forasteiros. Dizia o correspondente local do Jornal da Manhã, no dia 21 de Setembro de 1885:

“Domingo, dia 13 do corrente, realizou-se nesta praia a romaria e festividade de Nª Sª das Necessidades, sita no Lugar da Lagarteira, que é localidade de banhos, denominada Praia d’Âncora.

No sábado à noite houve música de arraial, fogo d’ar e iluminação da capela e de algumas casas próximas, sendo muito grande a concorrência de famílias a banhos e de povo desta freguesia e das circunvizinhas.

No domingo de manhã fez-se a festa de capela a grande instrumental e sermão pelo distinto orador padre João Luís Afonso, encomendado da freguesia e de tarde houve procissão e sermão, pelo exímio orador padre capelão de Infantaria 3.

De tarde, principalmente, foi enorme a concorrência de povo de todas as freguesias vizinhas, vendo-se também grande número de pessoas mais gradas de Caminha e algumas de Viana.

Esta romagem e festa foi instituída há três anos pelos pescadores e é já a segunda da freguesia em pompa e brilho, vindo antes de pouco a ser a primeira.”

O apontamento deste jornal do Porto encerra um erro, pois a festa da Senhora das Necessidades, à época a mais importante de Gontinhães, realizava-se na segunda-feira de Pascoela e nunca na segunda semana de Setembro. A confusão ter-se-á dado pelo facto da capela que recolhia a Senhora da Bonança denominar-se “das Necessidades”.

dfdgfg.jpegA festividade da Senhora das Necessidades, conhecida popularmente por Feira da Lagarteira ou Feira das Trocas, foi declinando com o passar do tempo e deixa de se festejar com a abolição do feriado da Pascoela. A Feira das Trocas era muito apreciada pela juventude que, por um dia, trocava-se de namorado(a). Nesse dia os namorados ficavam “livres” e era habitual entabularem conversa com outra moça ou rapaz e irem durante a tarde apanhar rosmaninho para a Gelfa.

A ligação da comunidade piscatória da Lagarteira às gentes de Carreço explica-se pelo facto de alguns pescadores durante o verão arribarem às praias e enseadas de Carreço para nelas desembarcarem e venderem o peixe capturado, e por ali pernoitavam em condições precárias, tal como o fizeram os seu pais e avós galegos que visitavam sazonalmente a enseada natural do Moureiro, na Lagarteira, antes de fixarem residência no primeiro quartel do século XIX. Por outro lado como havia bons pesqueiros por aquelas bandas, poupavam o esforço da viagem de ida e regresso ao porto de origem na Lagarteira. Acresce ainda que Carreço tinha uma pequena comunidade piscatória, que até conseguiu construir um pequeno portinho de abrigo na praia do Lumiar.

praia-do-lumiar-2.jpgÀ Confraria da Senhora da Bonança de Carreço pertenceram vários Irmãos, distribuídos pelas comunidades marítimas entre a Lagarteira e Viana. Entre elas, a família Enes Azevedo, do Lugar de Paçô, que se fixou na Lagarteira em 1870 e durante várias gerações ocupou cargos na mesa daquela confraria, o que pressupõe uma forte ligação espiritual àquela padroeira. Na falta de uma padroeira dos pescadores da Lagarteira, estes tornaram-se devotos da santa de Carreço, acabando o processo na transferência daquela devoção para as terras ancorenses, tudo isto sem a oposição do povo de Carreço.

Esta festividade sempre teve um caracter misto, convivendo a parte religiosa com a parte profana, atraindo grande quantidade de visitantes à zona da Lagarteira e ao bairro marítimo, local onde decorriam grande parte das cerimónias mais emblemáticas, como as procissões, os sermões ou a bênção das embarcações.

Hoje continua a ser a festa maior de Vila Praia de Âncora e a ter como pano de fundo o portinho e a zona piscatória, pese embora a prevalência mercantil da festividade, em detrimento da devoção da comunidade piscatória.

 

Fontes: "De Santa Marinha de Gontinhães a Vila Praia de Âncora" de Maria Aurora Botão Rego; "A Masseira Ancorense" de Brito Ribeiro e Celestino Ribeiro

 

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 11:34
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23
Out 16

Encontrei, por mero acaso, um apontamento sobre o médico Policarpo António Esteves Galeão, que me parece importante reproduzir, porque era um cidadão do Vale do Âncora e hoje totalmente esquecido, ou pior, desconhecido.

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 O Dr. Policarpo Galião nasceu a 13 de Março de 1836 em Freixieiro de Soutelo, filho de Francisco António Esteves Galião e de Alexandrina Barbosa. Frequentou a Escola Médico-Cirurgica do Porto entre 1858 e 1862, obtendo diversos prémios ao longo desta fase de estudos. Terminou o curso de medicina em 25 de Julho de 1862 com a defesa da dissertação “Da auto-plastia periostia nas pseudo-arthroses” um manuscrito de quatro capítulos, com 18 páginas.

Foi residir para Viana do Castelo tendo contraído matrimónio em 1864 com uma senhora abastada desta cidade. Exerceu medicina na cidade e no Vale do Âncora, primeiro como cirurgião ajudante e por fim como cirurgião-môr de diversos regimentos militares entre os quais Infantaria 3, tendo-se reformado com o posto de major, a 10 de Dezembro de 1892.

O Dr. Galião, como era popularmente conhecido, era uma pessoa modesta, moderado na palavra e nas relações, dedicando parte do seu tempo ao estudo e orientando a sua actividade no aperfeiçoamento das condições do exercício da medicina. Como naquela época não se cultivavam especialidades nas escolas de medicina, não será estranho encontrar referencias a áreas como a oftalmologia, a cirurgia abdominal ou o tratamento experimental a leprosos no quotidiano do Dr. Galião.

Quando em 1900 se fundou em Lisboa a “Liga Nacional contra a Tuberculose”, organizaram-se núcleos distritais, sendo o do Viana um dos primeiros. O Dr. Galião não se alheou da iniciativa e fez parte da direcção com o cargo de tesoureiro, dando apoio ao trabalho de propaganda então iniciado.

Com o seu feitio simples e despretensioso, abeirava-se dos doentes e procurava acudir-lhes com o seu saber, experiencia e dedicação.

Faleceu em Viana do Castelo a 28 de Maio de 1905, com 69 anos, vítima de tifo exantemático, contraído na assistência a infectados no bairro dos pescadores, irradiação da doença que então grassava no Porto e na Póvoa de Varzim.

Assim viveu entre a estima dos camaradas como militar, entre o respeito dos colegas como médico e da veneração dos pacientes, principalmente das classes mais desprotegidas.

Fontes: Arquivo do Alto Minho, Dicionário Histórico

publicado por Brito Ribeiro às 11:47
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18
Out 16

Por ocasião do IX Congresso Internacional de Antropologia e Arqueologia realizado em Lisboa no ano de 1880, Francisco Martins Sarmento, então com 48 anos, chamou as atenções da Europa culta para o nosso país, devido às eloquentes comunicações ao Congresso, a propósito dos trabalhos de investigação por ele realizados, com destaque para as escavações na Citânia de Briteiros e em Sabroso, iniciadas cinco anos antes. Os estudos em seguida publicados por estes homens de ciência, quer em Memórias e Relatórios, quer na imprensa, apresentaram Martins Sarmento aos meios culturais como tendo realizado um importante avanço, nos domínios da arqueologia peninsular.

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Conhecedor de várias línguas, completou no recolhimento do seu gabinete uma sólida preparação científica e um conhecimento profundo em áreas como a arqueologia, epigrafia, etnologia, etnografia, antropologia, linguística, mitologia e na interpretação das fontes clássicas greco-romanas da História da Península Ibérica.

Com este conhecimento, pode entrar na prática dos trabalhos de exploração no campo, que o inculcaram logo como um consumado arqueólogo. Não se assistiu à sua formação mental científica, que foi discreta e gradualmente preparada ao longo de anos, à mesa de estudo.

Concebeu a arqueologia no seu verdadeiro alcance, instrumento de confirmação e contra prova, pela análise directa dos monumentos, do conjunto de estudos e deduções teóricas sobre as origens e o desenvolvimento da civilização de um povo. Foi, portanto, igualmente notável nas duas modalidades do seu trabalho, quer na concentração do gabinete de estudo, quer empunhando a picareta do explorador.

As suas indagações e pesquizas não se limitaram a Briteiros e Sabroso, tendo reconhecido mais de sessenta castros, em grande parte inéditos.

Particularmente no distrito de Viana do Castelo localizou mamôas e dolméns procedendo a várias escavações tais como a Cividade de Âncora-Afife (iniciada a 17-10-1879), o Dólmen de Gontinhães (iniciada a 6-10-1879) e de Vile (iniciada a 13-10-1879).

Costumava o arqueólogo passar à beira mar dois meses por ano, geralmente em Setembro e Outubro, sendo as suas praias escolhidas, Âncora e Póvoa do Varzim. Na sua correspondência e cadernos de estudo encontram-se provas de ter estado a veranear em Âncora nos anos de 1879, 1881, 1882, 1888 e 1894.

Francisco Martins Sarmento era natural de Guimarães, tendo nascido a 9 de Março de 1833 e falecido a 9 de Agosto de 1899.

 

Resumo de um artigo escrito em Novembro de 1933 por Mário Cardoso, para o nº 1 do Arquivo de Viana do Castelo de 1934.

publicado por Brito Ribeiro às 15:22
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13
Out 16

Ainda a propósito do post anterior dedicado à apanha do sargaço, devo esclarecer que na vizinha Freguesia de Afife havia o costume das raparigas irem “ao mar” com um traje um pouco diferente das outras fainas habituais.

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Assim, era costume usarem chapéu de palha vulgar na cabeça e sobre este a trouxa de roupa, para vestir depois do trabalho na apanha do sargaço.

Camisa de linho grosseiro (estopa). O colete é igual ao do traje de ir à erva, ou seja, um colete mais simples do que o de luxo, mas com desenhos a vidrilho e lentejoulas.

Ao peito, lenço vermelho, simples com penachos ou franjas, a que chamam “lenço garôto”, idêntico ao que é usado na cabeça do traje de ir à erva.

Nos pés usam sapato de pano resistente e a saia é de estopa grosseira, com barra estreita, aos quadrados miúdos, azuis e brancos.

Ao ombro carregam o “redenho”, instrumento próprio para a apanha do sargaço.

 

Fonte: Monografia de Afife (1945)

publicado por Brito Ribeiro às 11:03
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09
Out 16

Além dos naufrágios, aponta-se a emigração para o Brasil e colónias Africanas como uma das causas para a despovoação de homens aptos e a substituição pelas mulheres, em tarefas como a apanha do sargaço, que a partir do século XVIII teve forte procura por parte dos agricultores locais e também dos lavradores abastados, provenientes de terras do interior do país, que pagavam em dinheiro vivo.

Este súbito incremento na procura das algas, está relacionado com a introdução do milho e da batata na dieta alimentar portuguesa, sendo responsável pela melhoria da alimentação, logo pelo aumento da esperança e qualidade de vida.

Desde finais do século XVIII até aos anos sessenta do século passado, o crescimento da produção de batata e milho no litoral norte, conduziu à expansão dos campos agrícolas e ao aproveitamento de novos terrenos com menor aptidão produtiva, como solos arenosos, que só a custa de fertilização abundante com algas ou patelo, podiam tornar mais produtivos.

Esta expansão foi tão relevante que a pesca do patelo e a apanha do sargaço se transformaram em prósperos motores económicos do litoral norte, gerando proveitos a pescadores e lavradores que possuíam os meios necessários ao negócio (uns o barco, outros o dinheiro), dando trabalho a grande quantidade de pessoas, camponeses sem terras, carreteiros, carregadores e cabaneiros.

Os grupos de sargaceiros, outrora constituídos exclusivamente por homens passam a mistos, embora com a oposição de alguns sectores da sociedade, como a Igreja.

Ao sargaço retirado da praia aplicava-se o imposto universal do dízimo, 10% do produto recolhido revertia para a igreja, com excepção do sargaço que fosse para adubar as terras da própria freguesia; se este fosse vendido já era aplicado o dízimo. Existiu uma longa disputa entre os moradores e a Igreja, que se prolonga entre os séculos XVI e XIX, sobre os dias em que se podia apanhar o sargaço.

Na coerência da doutrina da Igreja a apanha das algas, como qualquer outro trabalho, não devia realizar-se aos domingos e dias santos feriados. Porém, devido ao elevado valor do sargaço e porque as algas por vezes davam à costa aos domingos, a pressão para que a apanha de algas nesses dias foi tal, que começa por ser tolerada pelo bispo de Braga em 1725, embora com regras, cuja não observância conduzia ao pagamento de multas, conhecidas popularmente por "As penitencias do argaço". Existiam disposições especiais para a apanha de algas por mulheres tais como, não podiam apanhar algas à noite na presença de homens e mulheres solteiras só podiam apanhar algas à noite na companhia do pai.

Os Franciscanos que habitavam no Convento da Ilha da Ínsua, na foz do Rio Minho, opunham-se a que mulheres (mesmo vestidas de homem) procedessem à apanha de algas na ilha da Ínsua e nem os homens podiam pernoitar na ilha, sendo obrigados a rumar a terra ao fim da tarde.

Raul Brandão, na obra “Os Pescadores”, diz a determinado ponto,

 "Em Âncora, homens e mulheres apanham, secam, dobram em mantas, carregam nos carros, a dorso de jericos, ou simplesmente à cabeça, o sargaço e as algas, que, com o patelo, são o alimento e a fartura destas terras. As mulheres de gadanho e ancinho, de saia ensacada e perna à mostra, apanham as algas na flor das ondas ou no fundo das poças quando a maré vaza; rapam-na de pedras esverdeadas; estendem-nas no areal a secar ou despejam-na nos carros enquanto os bois pastam as ervas e amargas que crescem à beira-mar, salpicadas de espuma.

Embora no Portinho d’Âncora se fizesse apenas a apanha apeada do sargaço com as ferramentas próprias, havia nas proximidades outros portos que utilizavam a masseira para esta finalidade. Existiam 1 masseira na Ínsua, 10 em Moledo, 2 no Caneiro do Forte do Cão, 8 em Afife, 12 em Paçô (Montedor Norte), 2 em Fornelos (Montedor Sul) e 6 na Fonte do Mar (Montedor Sul).

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1930 - Portinho d'Âncora - Lavradores carregam o sargaço

A apanha do sargaço era também motivo para grandes discussões e desavenças, designadamente quando se relacionava com a questão do interdito religioso. Os cidadãos que respeitavam a proibição e se abstinham de ir à praia nos dias santificados, pelo menos antes da missa, protestavam contra os que não cumpriam estas regras, e daí surgirem frequentemente as discórdias e as pancadarias, que naturalmente se agravavam se alguns dos contendores procediam de freguesias vizinhas.

Há comunidades em que a apanha do sargaço estava associada a uma indumentária própria, o que não é o caso das gentes de Âncora, que iam para o mar com as suas roupas habituais, levando consigo uma muda de roupa seca, para usar quando saíssem da água. Isto porque a apanha do sargaço na zona da Lagarteira era efectuada após o mar ter arrojado as algas ou então entre as pedras da “ribeira”, não havendo necessidade de entrar mar adentro para arrastar o sargaço para terra. Presume-se também que a competição nesta actividade agro marítima não fosse aqui tão intensa como noutras comunidades, onde os sargaceiros eram forçados a avançar mar a dentro para serem os primeiros a alcançar o sargaço. 

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Sargaceiros da zona da Apúlia

Em comunidades como a Apúlia, Esposende ou A Ver-o-Mar utilizava-se uma vestimenta própria, a branqueta, que designa o casaco de abas largas, tipo saio romano, até meio da coxa, cingido ao corpo até à cintura e alargando para baixo, em forma de saiote, de modo a deixar livres os movimentos das pernas. É abotoado de alto a baixo por pequenos botões e remata, no pescoço, com gola baixa. As mangas são compridas e justas ao braço. À cintura o sargaceiro usa largo cinto preto, de cabedal.

Na cabeça o sargaceiro usa o sueste, espécie de capacete romano, com copa de quatro gomos reforçados e duas palas: uma, curta, na frente, e outra, mais larga e comprida, atrás. Deste modo é-lhe possível enfrentar as ondas alterosas, sem que a água lhe molhe a cabeça e o pescoço, e lhe penetre nas costas. Feito do mesmo tecido da branqueta, passa por diversas fases de impermeabilização e é, por fim, pintado com tinta branca.

Nestas comunidades a mulher sargaceira assume um papel secundário durante a mareada, já que o trabalho árduo e perigoso de enfrentar as ondas é da exclusiva responsabilidade do homem. Por isso a sua indumentária é mais delicada e, normalmente, apenas entra no mar com água até ao joelho, para ajudar o homem a arrastar para terra o galhapão cheio de sargaço arrebatado ao mar. Assim, ela veste saia rodada, do mesmo tecido da branqueta, bem cingida à anca por larga faixa preta, sarjada, e blusa branca, de linho. Um colete adamascado preto, sem mangas, e bordado a linha de seda em cores garridas, envolve-lhe o tronco e protege-lhe o peito. Na cabeça usa lenço de merino.

 

Foi já no século XX que se instituiu que para proceder à apanha do sargaço era necessário estarem munidos das respectivas licenças emitidas pela Capitania e do direito de seca na parte alta da praia ou dunas.

Nos portos em que era usada a masseira para a apanha do sargaço, as embarcações andavam entre os rochedos junto à costa para os tripulantes arrancarem o sargaço ainda preso. Depois de cheia, a masseira varava na areia, a carga era descarregada para as “padiolas” e estendida a secar nas dunas ou carregada directamente para o carro de bois.

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 1956 - No "caneiro" do Forte do Cão - Âncora

Esta actividade agro marítima começou a definhar nos anos sessenta do século passado, passando os campos a serem adubados com preparados químicos, mais fáceis de adquirir e mais práticos de distribuir. Hoje em dia, é uma actividade residual, em que o transporte é efectuado com o auxílio de tratores agrícolas.

 

Bibliografia: A Masseira Ancorense

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 18:10
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