Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

01
Jul 17

Os dólmens surgem na Europa sensivelmente entre 4000 e 2000 a.C., sendo que na Península Ibérica parece irradiarem da Andaluzia e sul de Portugal para o resto do território.

Estes monumentos megalíticos eram originalmente tapados em forma cónica com terra e pequenas pedras, sendo ao longo dos tempos destapados para pilhagem e já nos nossos dias, para estudo arqueológico.

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O que me leva a escrever este pequeno artigo não é a dissertação sobre estes marcos funerários, mas antes uma reflexão sobre o relacionamento das pessoas com os dolmens, as crenças e superstições que lhe estão associadas.

Andam ligadas a estes monumentos superstições e crendices, levando a que alguns tenham sido utilizados para variados destinos como abrigo de gente e de gado, arrecadação de alfaias, na expectativa de “energias” positivas que protejam até a adaptação a templos católicos. Andam também as antas ligadas a factos de culto com invocações locais e à toponímia local e regional.

Desde sempre o homem acreditou na capacidade dos mortos influenciarem a ação criadora dos deuses e do próprio ciclo da natureza, designadamente no renascimento dos vegetais e das culturas que os demónios e os maus espíritos associados ao inverno fizeram desaparecer.

Esta crença está na origem de muitas práticas relacionadas com o culto dos mortos, que em regra começam em Novembro e prolongam-se até à Serração da Velha, passando pelo solstício de inverno (saturnais) e pelos festejos do carnaval. Os ritos vão variando conforme as celebrações em causa, mas mantem entre si uma finalidade comum, que é assegurar que o ciclo da vida e da morte não se interrompa, ou seja, que ao indesejado inverno, suceda a almejada primavera.

Investigações feitas na área da arqueologia e da antropologia, concluíram que as práticas do culto dos mortos tiveram o seu início na fase de transição do paleolítico para o neolítico, sendo disso testemunho os inúmeros monumentos funerários como os dolmens ou antas e inscrições votivas.

Uma característica curiosa é a orientação da abertura do dólmen, geralmente virada a sudeste, coincidente com o amanhecer do solstício de inverno.

Muitos dos nomes dos dólmens ou antas estão relacionados com entidades misteriosas, que criaram mitos mais ou menos generalizados. Outros porque foram cristianizados os vestígios dos velhos cultos pagãos, adaptando-se a invocações religiosas como templos, nichos e alminhas; há casos em que se contruiu ou ergueu um sinal cristão sobre os monumentos ou ao seu lado, ou ainda, numa manifestação mais evoluída desta progressão espiritual, transformaram a anta em capela.

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Aos mouros são atribuídos pelo povo todos os monumentos arcaicos e suas ruinas, por isso “construíram” as antas e vivem nelas as “mouras encantadas”, que segundo a lenda, carregaram as pedras à cabeça para a sua construção, bem como para pontes, castelos e penedos avantajados. A lenda põe essas mouras encantadas com a roca à cinta para irem fiando, a aturar o tempo e a canseira, ou a amamentar uma criança enquanto transportavam as pesadas pedras pelos caminhos.

Lembro que a invasão mulçulmana na península iniciou-se por volta do ano 711 da nossa era, portanto, cerca de três mil anos após a construção dos ultimos dólmens.

Além das referencias aos mouros encontram-se vestígios de  arcaicos cultos pagãos, apresentamdo-se de duas formas: uma de sentido agrícola, simultaneamente propiciatório e divinatório; outra de utilização divinatória também, mas casamenteira ou erótica, em prática de ritos de fricção e escorregamento.

O que se atribui às grutas, lapas abertas nas pedras, covas fundas e a penedos sobrepostos, as pedras baloiçantes ou “bulideiras”, repete-se nos dólmens: as mouras ou os mouros guardaram aí tesouros encantados de riquezas fabulosas, que os devotos de S. Cipriano ou não, ainda hoje, procuram freneticamente com pás e picaretas.

No Vale do Âncora, além do Dólmen da Barrosa (também conhecida por Lapa dos Mouros), existem outras antas de menor dimensão, mas igualmente representativas desse período da pré história, como a Anta do Santo de Vile, Mamoa da Aspra ou Cova da Moura na freguesia de Âncora, Mamoa da Ereira na freguesia de Afife ou Mamoa do Chão da Pica na freguesia de S. Lourenço da Montaria.

publicado por Brito Ribeiro às 16:02

01
Fev 17

Desde criança que ouvia falar do Convento ou Mosteiro de Bulhente; muitas vezes por lá passei, onde se via uma parede incompleta pertença de uma edificação, fosse mosteiro ou outra coisa qualquer. Há dias por ouvir um amigo referir-se ao dito, decidi debruçar-me um pouco sobre o assunto e passar o resumo a escrito.

Popularmente, sobre este convento avançavam-se as mais fantasiosas lendas, onde se misturavam tuneis secretos, frades, freiras e não sei que mais para apimentar a estória.

Porém, o rigor histórico não se compadece destas fantasias e consultando alguns dados sobre esta matéria, cedo nos assolam dúvidas mais que fundadas sobre a existência de um convento na medieva freguesia de Bulhente.

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Cruzeiro de Bulhente - Rampa do Calvário

A primeira referencia a S. Salvador de Bulhente surge em 1258 e nos séculos imediatos não se encontra o termo “mosteiro” aplicado à igreja paroquial existente.

Na acta de inquirição de 1258, mandada executar por D. Afonso III, feita em St.ª Maria de Caminha sobre Bulhente, conclui-se que era uma aldeia povoada há relativamente pouco tempo, talvez aquando da presúria de Paio Vermudes no século XII, onde os povoadores ergueram uma ermida consagrada ao Divino Salvador, usufruindo por isso de padroado, que lhes permitia apresentar clérigo para celebrar actos de culto. Tinham obrigação de pagar foro ao rei pelas terras outorgadas e o dote desta igreja devia ter alguma importância, pois eram cobiçados pelos descendentes de um tal Nuno Velho, figura da corte de D. Afonso Henriques, que malgrado a oposição dos fregueses, tentavam apoderar-se deles pela força.

No Censual da Terra da Vinha, em 1321, Bulhente já não figura como ermida mas como “yglesia”, ou seja, freguesia. A partir de 1436 ou até antes, Bulhente “hé tornada sem cura porque nom tinha freigueses”, portanto estava despovoada.

O padroado e as rendas de Bulhente estavam divididas desde o início do reinado de D. Fernando em duas partes iguais, uma sem cura, outra com cura, havendo longo rol de confirmações até 1598, quando é unida ao Colégio de S. Pedro do Seminário Conciliar de Braga.

É precisamente em 1598 que surge a primeira referência “…do mosteiro de São Salvador de Bulhente da comarcua de Vallença” num registo de confirmação (Arquivo Distrital de Braga, Registo geral, nº 318, fls. 77-77v), numa época que já se sabia estar a paróquia desabitada.

Curiosamente é o mesmo escrivão da câmara da comarca e administração de Valença, Feliciano de Carvalho Barreto, que a 30 de Maio de 1598 apelidou de “mosteiro” e quatro meses antes, a 23 de Janeiro do mesmo ano, a apelidou de “igreja”.

Mais tarde, aparece outra alusão ao Mosteiro de Bulhente nas Inquirições Paroquiais de 1758, onde o abade de Gontinháes, Gonçalo Pinto de Carvalho Medeiros, ao responder ao inquérito, escreve:

A Cappella de Salvador de Bulhente, que antiguamente estava junto ao alto da Serra para aparte do Norte em sitio, que Chamão Bulhente, e por tradição foy Mosteyro de Religiosos Mendicantes que se extinguio há perto de trezentos anos…” Mais à frente refere: “Outros querem dizer também per tradicam, que otal Mosteyro fora de Religiozas

É muito improvável que a ordem fosse dos Mendicantes (Dominicanos e Franciscanos), pois estes estavam vocacionados para a pregação e testemunho de pobreza, preferindo os meios urbanos para se fixarem. Neste sentido, referir uma Ordem Mendicante levanta imediatamente suspeita, pois Bulhente fica isolada a meia encosta de um monte agreste e difícil de aceder, contrariando as localizações tradicionais destas Ordens, fossem dentro de recintos amuralhados fossem fora, mas nas imediações.

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Coluna da igreja de Bulhente - Terreno particular

A própria duvida sobre se era um mosteiro masculino ou feminino, não abona nada em favor da sua existência.

É já no século XIX, quando Pinho Leal publicou “Portugal antigo e moderno” que deparamos com fantasiosas afirmações de Bulhente ser um Mosteiro de freiras Beneditinas e que “já existia no tempo dos Suevos”.

Com o caminho preparado por uma suposta informação histórica, faz um conjunto de afirmações apenas explicadas por um anticlericalismo exacerbado e uma falta de rigor confrangedora:

As freiras d’aqui eram, como as de Requião (vide esta palavra que traz coisas curiosíssimas com respeito às freiras) praticando toda a casta de escândalos com quem lhes aparecia, principalmente com os frades de S. João de Cabanas, na freguesia de Afife, que ficavam perto, parecendo mais sacerdotisas de Venus, do que religiosas christans. Tantas fizeram que o bispo de Ceuta, suprimiu este convento, pelos anos de 1460, e parece que até o mandou arrasar”.

Na obra de João de Barros de 1548, Geografia d’Entre Douro e Minho, que registou outros mosteiros da região, incluindo despovoados, como o de Cabanas, nada consta sobre um hipotético Mosteiro de Bulhente; também o cronista da Ordem de S. Bento, Frei Leão de S. Tomás, na sua obra Benedictina Lusitana não faz nenhuma referência ao hipotético Mosteiro.

Esta paróquia junta-se à extensa lista de aldeias e instituições portuguesas que não sobreviveram à crise demográfica e económica dos séculos XIV e XV, sensivelmente entre 1330 e 1450.

Em jeito de conclusão, não há nenhuma prova consistente da existência de um Mosteiro em Bulhente, pelo contrário, existem razões muito fundamentadas para duvidar do rigor histórico das Inquirições de 1758 e principalmente do “Portugal antigo e moderno” de Pinho Leal.

Fontes consultadas: "O mosteiro de Bulhente não existiu" de José Marques; "Monografia do Concelho de Caminha" de Lourenço Alves

publicado por Brito Ribeiro às 10:46

28
Jan 17

As festividades em honra da Senhora da Bonança ter-se-ão iniciado em Gontinhães no ano de 1883, no seguimento de uma devoção dos pescadores locais pela Senhora da Bonança, de Carreço, que tinha festividade e confraria com estatutos desde 1727.

9134819_gqWnU.jpegEnquanto em Carreço a festividade definhava, ao ser transferida para o Lugar da Lagarteira, em Gontinhães, ganhou rapidamente projeção, trazendo à povoação grandes quantidades de forasteiros. Dizia o correspondente local do Jornal da Manhã, no dia 21 de Setembro de 1885:

“Domingo, dia 13 do corrente, realizou-se nesta praia a romaria e festividade de Nª Sª das Necessidades, sita no Lugar da Lagarteira, que é localidade de banhos, denominada Praia d’Âncora.

No sábado à noite houve música de arraial, fogo d’ar e iluminação da capela e de algumas casas próximas, sendo muito grande a concorrência de famílias a banhos e de povo desta freguesia e das circunvizinhas.

No domingo de manhã fez-se a festa de capela a grande instrumental e sermão pelo distinto orador padre João Luís Afonso, encomendado da freguesia e de tarde houve procissão e sermão, pelo exímio orador padre capelão de Infantaria 3.

De tarde, principalmente, foi enorme a concorrência de povo de todas as freguesias vizinhas, vendo-se também grande número de pessoas mais gradas de Caminha e algumas de Viana.

Esta romagem e festa foi instituída há três anos pelos pescadores e é já a segunda da freguesia em pompa e brilho, vindo antes de pouco a ser a primeira.”

O apontamento deste jornal do Porto encerra um erro, pois a festa da Senhora das Necessidades, à época a mais importante de Gontinhães, realizava-se na segunda-feira de Pascoela e nunca na segunda semana de Setembro. A confusão ter-se-á dado pelo facto da capela que recolhia a Senhora da Bonança denominar-se “das Necessidades”.

dfdgfg.jpegA festividade da Senhora das Necessidades, conhecida popularmente por Feira da Lagarteira ou Feira das Trocas, foi declinando com o passar do tempo e deixa de se festejar com a abolição do feriado da Pascoela. A Feira das Trocas era muito apreciada pela juventude que, por um dia, trocava-se de namorado(a). Nesse dia os namorados ficavam “livres” e era habitual entabularem conversa com outra moça ou rapaz e irem durante a tarde apanhar rosmaninho para a Gelfa.

A ligação da comunidade piscatória da Lagarteira às gentes de Carreço explica-se pelo facto de alguns pescadores durante o verão arribarem às praias e enseadas de Carreço para nelas desembarcarem e venderem o peixe capturado, e por ali pernoitavam em condições precárias, tal como o fizeram os seu pais e avós galegos que visitavam sazonalmente a enseada natural do Moureiro, na Lagarteira, antes de fixarem residência no primeiro quartel do século XIX. Por outro lado como havia bons pesqueiros por aquelas bandas, poupavam o esforço da viagem de ida e regresso ao porto de origem na Lagarteira. Acresce ainda que Carreço tinha uma pequena comunidade piscatória, que até conseguiu construir um pequeno portinho de abrigo na praia do Lumiar.

praia-do-lumiar-2.jpgÀ Confraria da Senhora da Bonança de Carreço pertenceram vários Irmãos, distribuídos pelas comunidades marítimas entre a Lagarteira e Viana. Entre elas, a família Enes Azevedo, do Lugar de Paçô, que se fixou na Lagarteira em 1870 e durante várias gerações ocupou cargos na mesa daquela confraria, o que pressupõe uma forte ligação espiritual àquela padroeira. Na falta de uma padroeira dos pescadores da Lagarteira, estes tornaram-se devotos da santa de Carreço, acabando o processo na transferência daquela devoção para as terras ancorenses, tudo isto sem a oposição do povo de Carreço.

Esta festividade sempre teve um caracter misto, convivendo a parte religiosa com a parte profana, atraindo grande quantidade de visitantes à zona da Lagarteira e ao bairro marítimo, local onde decorriam grande parte das cerimónias mais emblemáticas, como as procissões, os sermões ou a bênção das embarcações.

Hoje continua a ser a festa maior de Vila Praia de Âncora e a ter como pano de fundo o portinho e a zona piscatória, pese embora a prevalência mercantil da festividade, em detrimento da devoção da comunidade piscatória.

 

Fontes: "De Santa Marinha de Gontinhães a Vila Praia de Âncora" de Maria Aurora Botão Rego; "A Masseira Ancorense" de Brito Ribeiro e Celestino Ribeiro

 

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 11:34
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23
Out 16

Encontrei, por mero acaso, um apontamento sobre o médico Policarpo António Esteves Galeão, que me parece importante reproduzir, porque era um cidadão do Vale do Âncora e hoje totalmente esquecido, ou pior, desconhecido.

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 O Dr. Policarpo Galião nasceu a 13 de Março de 1836 em Freixieiro de Soutelo, filho de Francisco António Esteves Galião e de Alexandrina Barbosa. Frequentou a Escola Médico-Cirurgica do Porto entre 1858 e 1862, obtendo diversos prémios ao longo desta fase de estudos. Terminou o curso de medicina em 25 de Julho de 1862 com a defesa da dissertação “Da auto-plastia periostia nas pseudo-arthroses” um manuscrito de quatro capítulos, com 18 páginas.

Foi residir para Viana do Castelo tendo contraído matrimónio em 1864 com uma senhora abastada desta cidade. Exerceu medicina na cidade e no Vale do Âncora, primeiro como cirurgião ajudante e por fim como cirurgião-môr de diversos regimentos militares entre os quais Infantaria 3, tendo-se reformado com o posto de major, a 10 de Dezembro de 1892.

O Dr. Galião, como era popularmente conhecido, era uma pessoa modesta, moderado na palavra e nas relações, dedicando parte do seu tempo ao estudo e orientando a sua actividade no aperfeiçoamento das condições do exercício da medicina. Como naquela época não se cultivavam especialidades nas escolas de medicina, não será estranho encontrar referencias a áreas como a oftalmologia, a cirurgia abdominal ou o tratamento experimental a leprosos no quotidiano do Dr. Galião.

Quando em 1900 se fundou em Lisboa a “Liga Nacional contra a Tuberculose”, organizaram-se núcleos distritais, sendo o do Viana um dos primeiros. O Dr. Galião não se alheou da iniciativa e fez parte da direcção com o cargo de tesoureiro, dando apoio ao trabalho de propaganda então iniciado.

Com o seu feitio simples e despretensioso, abeirava-se dos doentes e procurava acudir-lhes com o seu saber, experiencia e dedicação.

Faleceu em Viana do Castelo a 28 de Maio de 1905, com 69 anos, vítima de tifo exantemático, contraído na assistência a infectados no bairro dos pescadores, irradiação da doença que então grassava no Porto e na Póvoa de Varzim.

Assim viveu entre a estima dos camaradas como militar, entre o respeito dos colegas como médico e da veneração dos pacientes, principalmente das classes mais desprotegidas.

Fontes: Arquivo do Alto Minho, Dicionário Histórico

publicado por Brito Ribeiro às 11:47
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18
Out 16

Por ocasião do IX Congresso Internacional de Antropologia e Arqueologia realizado em Lisboa no ano de 1880, Francisco Martins Sarmento, então com 48 anos, chamou as atenções da Europa culta para o nosso país, devido às eloquentes comunicações ao Congresso, a propósito dos trabalhos de investigação por ele realizados, com destaque para as escavações na Citânia de Briteiros e em Sabroso, iniciadas cinco anos antes. Os estudos em seguida publicados por estes homens de ciência, quer em Memórias e Relatórios, quer na imprensa, apresentaram Martins Sarmento aos meios culturais como tendo realizado um importante avanço, nos domínios da arqueologia peninsular.

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Conhecedor de várias línguas, completou no recolhimento do seu gabinete uma sólida preparação científica e um conhecimento profundo em áreas como a arqueologia, epigrafia, etnologia, etnografia, antropologia, linguística, mitologia e na interpretação das fontes clássicas greco-romanas da História da Península Ibérica.

Com este conhecimento, pode entrar na prática dos trabalhos de exploração no campo, que o inculcaram logo como um consumado arqueólogo. Não se assistiu à sua formação mental científica, que foi discreta e gradualmente preparada ao longo de anos, à mesa de estudo.

Concebeu a arqueologia no seu verdadeiro alcance, instrumento de confirmação e contra prova, pela análise directa dos monumentos, do conjunto de estudos e deduções teóricas sobre as origens e o desenvolvimento da civilização de um povo. Foi, portanto, igualmente notável nas duas modalidades do seu trabalho, quer na concentração do gabinete de estudo, quer empunhando a picareta do explorador.

As suas indagações e pesquizas não se limitaram a Briteiros e Sabroso, tendo reconhecido mais de sessenta castros, em grande parte inéditos.

Particularmente no distrito de Viana do Castelo localizou mamôas e dolméns procedendo a várias escavações tais como a Cividade de Âncora-Afife (iniciada a 17-10-1879), o Dólmen de Gontinhães (iniciada a 6-10-1879) e de Vile (iniciada a 13-10-1879).

Costumava o arqueólogo passar à beira mar dois meses por ano, geralmente em Setembro e Outubro, sendo as suas praias escolhidas, Âncora e Póvoa do Varzim. Na sua correspondência e cadernos de estudo encontram-se provas de ter estado a veranear em Âncora nos anos de 1879, 1881, 1882, 1888 e 1894.

Francisco Martins Sarmento era natural de Guimarães, tendo nascido a 9 de Março de 1833 e falecido a 9 de Agosto de 1899.

 

Resumo de um artigo escrito em Novembro de 1933 por Mário Cardoso, para o nº 1 do Arquivo de Viana do Castelo de 1934.

publicado por Brito Ribeiro às 15:22
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13
Out 16

Ainda a propósito do post anterior dedicado à apanha do sargaço, devo esclarecer que na vizinha Freguesia de Afife havia o costume das raparigas irem “ao mar” com um traje um pouco diferente das outras fainas habituais.

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Assim, era costume usarem chapéu de palha vulgar na cabeça e sobre este a trouxa de roupa, para vestir depois do trabalho na apanha do sargaço.

Camisa de linho grosseiro (estopa). O colete é igual ao do traje de ir à erva, ou seja, um colete mais simples do que o de luxo, mas com desenhos a vidrilho e lentejoulas.

Ao peito, lenço vermelho, simples com penachos ou franjas, a que chamam “lenço garôto”, idêntico ao que é usado na cabeça do traje de ir à erva.

Nos pés usam sapato de pano resistente e a saia é de estopa grosseira, com barra estreita, aos quadrados miúdos, azuis e brancos.

Ao ombro carregam o “redenho”, instrumento próprio para a apanha do sargaço.

 

Fonte: Monografia de Afife (1945)

publicado por Brito Ribeiro às 11:03
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09
Out 16

Além dos naufrágios, aponta-se a emigração para o Brasil e colónias Africanas como uma das causas para a despovoação de homens aptos e a substituição pelas mulheres, em tarefas como a apanha do sargaço, que a partir do século XVIII teve forte procura por parte dos agricultores locais e também dos lavradores abastados, provenientes de terras do interior do país, que pagavam em dinheiro vivo.

Este súbito incremento na procura das algas, está relacionado com a introdução do milho e da batata na dieta alimentar portuguesa, sendo responsável pela melhoria da alimentação, logo pelo aumento da esperança e qualidade de vida.

Desde finais do século XVIII até aos anos sessenta do século passado, o crescimento da produção de batata e milho no litoral norte, conduziu à expansão dos campos agrícolas e ao aproveitamento de novos terrenos com menor aptidão produtiva, como solos arenosos, que só a custa de fertilização abundante com algas ou patelo, podiam tornar mais produtivos.

Esta expansão foi tão relevante que a pesca do patelo e a apanha do sargaço se transformaram em prósperos motores económicos do litoral norte, gerando proveitos a pescadores e lavradores que possuíam os meios necessários ao negócio (uns o barco, outros o dinheiro), dando trabalho a grande quantidade de pessoas, camponeses sem terras, carreteiros, carregadores e cabaneiros.

Os grupos de sargaceiros, outrora constituídos exclusivamente por homens passam a mistos, embora com a oposição de alguns sectores da sociedade, como a Igreja.

Ao sargaço retirado da praia aplicava-se o imposto universal do dízimo, 10% do produto recolhido revertia para a igreja, com excepção do sargaço que fosse para adubar as terras da própria freguesia; se este fosse vendido já era aplicado o dízimo. Existiu uma longa disputa entre os moradores e a Igreja, que se prolonga entre os séculos XVI e XIX, sobre os dias em que se podia apanhar o sargaço.

Na coerência da doutrina da Igreja a apanha das algas, como qualquer outro trabalho, não devia realizar-se aos domingos e dias santos feriados. Porém, devido ao elevado valor do sargaço e porque as algas por vezes davam à costa aos domingos, a pressão para que a apanha de algas nesses dias foi tal, que começa por ser tolerada pelo bispo de Braga em 1725, embora com regras, cuja não observância conduzia ao pagamento de multas, conhecidas popularmente por "As penitencias do argaço". Existiam disposições especiais para a apanha de algas por mulheres tais como, não podiam apanhar algas à noite na presença de homens e mulheres solteiras só podiam apanhar algas à noite na companhia do pai.

Os Franciscanos que habitavam no Convento da Ilha da Ínsua, na foz do Rio Minho, opunham-se a que mulheres (mesmo vestidas de homem) procedessem à apanha de algas na ilha da Ínsua e nem os homens podiam pernoitar na ilha, sendo obrigados a rumar a terra ao fim da tarde.

Raul Brandão, na obra “Os Pescadores”, diz a determinado ponto,

 "Em Âncora, homens e mulheres apanham, secam, dobram em mantas, carregam nos carros, a dorso de jericos, ou simplesmente à cabeça, o sargaço e as algas, que, com o patelo, são o alimento e a fartura destas terras. As mulheres de gadanho e ancinho, de saia ensacada e perna à mostra, apanham as algas na flor das ondas ou no fundo das poças quando a maré vaza; rapam-na de pedras esverdeadas; estendem-nas no areal a secar ou despejam-na nos carros enquanto os bois pastam as ervas e amargas que crescem à beira-mar, salpicadas de espuma.

Embora no Portinho d’Âncora se fizesse apenas a apanha apeada do sargaço com as ferramentas próprias, havia nas proximidades outros portos que utilizavam a masseira para esta finalidade. Existiam 1 masseira na Ínsua, 10 em Moledo, 2 no Caneiro do Forte do Cão, 8 em Afife, 12 em Paçô (Montedor Norte), 2 em Fornelos (Montedor Sul) e 6 na Fonte do Mar (Montedor Sul).

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1930 - Portinho d'Âncora - Lavradores carregam o sargaço

A apanha do sargaço era também motivo para grandes discussões e desavenças, designadamente quando se relacionava com a questão do interdito religioso. Os cidadãos que respeitavam a proibição e se abstinham de ir à praia nos dias santificados, pelo menos antes da missa, protestavam contra os que não cumpriam estas regras, e daí surgirem frequentemente as discórdias e as pancadarias, que naturalmente se agravavam se alguns dos contendores procediam de freguesias vizinhas.

Há comunidades em que a apanha do sargaço estava associada a uma indumentária própria, o que não é o caso das gentes de Âncora, que iam para o mar com as suas roupas habituais, levando consigo uma muda de roupa seca, para usar quando saíssem da água. Isto porque a apanha do sargaço na zona da Lagarteira era efectuada após o mar ter arrojado as algas ou então entre as pedras da “ribeira”, não havendo necessidade de entrar mar adentro para arrastar o sargaço para terra. Presume-se também que a competição nesta actividade agro marítima não fosse aqui tão intensa como noutras comunidades, onde os sargaceiros eram forçados a avançar mar a dentro para serem os primeiros a alcançar o sargaço. 

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Sargaceiros da zona da Apúlia

Em comunidades como a Apúlia, Esposende ou A Ver-o-Mar utilizava-se uma vestimenta própria, a branqueta, que designa o casaco de abas largas, tipo saio romano, até meio da coxa, cingido ao corpo até à cintura e alargando para baixo, em forma de saiote, de modo a deixar livres os movimentos das pernas. É abotoado de alto a baixo por pequenos botões e remata, no pescoço, com gola baixa. As mangas são compridas e justas ao braço. À cintura o sargaceiro usa largo cinto preto, de cabedal.

Na cabeça o sargaceiro usa o sueste, espécie de capacete romano, com copa de quatro gomos reforçados e duas palas: uma, curta, na frente, e outra, mais larga e comprida, atrás. Deste modo é-lhe possível enfrentar as ondas alterosas, sem que a água lhe molhe a cabeça e o pescoço, e lhe penetre nas costas. Feito do mesmo tecido da branqueta, passa por diversas fases de impermeabilização e é, por fim, pintado com tinta branca.

Nestas comunidades a mulher sargaceira assume um papel secundário durante a mareada, já que o trabalho árduo e perigoso de enfrentar as ondas é da exclusiva responsabilidade do homem. Por isso a sua indumentária é mais delicada e, normalmente, apenas entra no mar com água até ao joelho, para ajudar o homem a arrastar para terra o galhapão cheio de sargaço arrebatado ao mar. Assim, ela veste saia rodada, do mesmo tecido da branqueta, bem cingida à anca por larga faixa preta, sarjada, e blusa branca, de linho. Um colete adamascado preto, sem mangas, e bordado a linha de seda em cores garridas, envolve-lhe o tronco e protege-lhe o peito. Na cabeça usa lenço de merino.

 

Foi já no século XX que se instituiu que para proceder à apanha do sargaço era necessário estarem munidos das respectivas licenças emitidas pela Capitania e do direito de seca na parte alta da praia ou dunas.

Nos portos em que era usada a masseira para a apanha do sargaço, as embarcações andavam entre os rochedos junto à costa para os tripulantes arrancarem o sargaço ainda preso. Depois de cheia, a masseira varava na areia, a carga era descarregada para as “padiolas” e estendida a secar nas dunas ou carregada directamente para o carro de bois.

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 1956 - No "caneiro" do Forte do Cão - Âncora

Esta actividade agro marítima começou a definhar nos anos sessenta do século passado, passando os campos a serem adubados com preparados químicos, mais fáceis de adquirir e mais práticos de distribuir. Hoje em dia, é uma actividade residual, em que o transporte é efectuado com o auxílio de tratores agrícolas.

 

Bibliografia: A Masseira Ancorense

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 18:10
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09
Fev 16

Tomei conhecimento que a Junta de Freguesia de Vila Praia de Âncora pretende adquirir uns terrenos para alargamento do cemitério. Referiram-me também, que seria necessário vender alguns terrenos que possui noutros locais para custear o investimento.

Não me choca a solução, face à urgência em tornar realidade esta obra, mas sinto um amargo de boca quando recordo que as coisas poderiam ter sido melhor delineadas, sem a visão míope do miserabilismo que caracteriza boa parte das decisões quando toca a investimentos em Vila Praia de Âncora.

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O ancestral costume de enterrar os corpos no interior das igrejas e nos adros, foi revertido, em termos de legislação, em 1835, durante o regime liberal e marca o início da secularização dos cemitérios. Porém, a adesão a esta nova disposição nem sempre foi pacífica, estando até na origem daquilo que se conhece por “Revolta da Maria da Fonte”.

Esta revolta ocorrida em 1846 e iniciada na zona da Póvoa de Lanhoso, resultou das tensões sociais remanescentes das guerras liberais, exacerbadas pelo grande descontentamento popular gerado pelas novas leis de recrutamento militar, por alterações fiscais e pela proibição de realizar enterros dentro de igrejas.

Em Gontinhães, assim se chamava a nossa terra à época, não ocorreram conflitos, porque se continuou a enterrar os defuntos no adro, mas o problema foi-se agravando até que no final do século XIX em consequência de um conjunto de surtos epidémicos que provocaram grande mortandade entre a população, ocasionando a saturação do adro da igreja matriz e a consequente falta de condições de salubridade que potenciava os riscos de contágio.

Após o surto de cólera que grassou entre 1833 e 1852, uma epidemia de varíola varreu Gontinhães em 1895, sendo 60,9% dos óbitos registados na zona litoral da freguesia. Especialmente nos meses mais quentes, as epidemias de varíola e tifo ou difteria, atribuídas aos “maus cheiros” dos estrumes do patêlo, que por ali se costumava empregar como estrume, pelo que as autoridades administrativas ordenaram que este estrume depois de colhido no mar fosse imediatamente enterrado a um palmo de profundidade. O correspondente local de “O Jornal da Manhã” refere na sua crónica sobre Gontinhães:

 “nesta freguesia há muito a fazer, particularmente no porto de pesca, e nas casas de alguns lavradores que, nada cuidadosos da sua saúde, têm as cortes dos gados vacum e suíno juntas ou por baixo dos aposentos em que habitam e dormem

Como os cadáveres eram inumados no átrio da Igreja e este já estivesse sobrelotado, o Governo Civil de Viana do Castelo exigiu à Administração da Câmara de Caminha que procedesse de imediato à aquisição dos terrenos necessários à construção do cemitério. Esta deliberou rapidamente e por unanimidade na compra 886 m2, mas será a Junta de Paróquia  de Gontinhães a efectuar empréstimos e a lançar derramas para custear a obra, que se concluirá em 1897.

Um século depois, mais ou menos há vinte e cinco anos atrás, após muitos anos de reivindicação, a autarquia caminhense financiou um alargamento do cemitério que ficou muito aquém das expectativas e das necessidades, como lamentavelmente vimos a constatar por mais uma intervenção que terá de ser feita no futuro próximo e que, recorrentemente, vai ter de ser custeada pela Freguesia e pelo seu património.

publicado por Brito Ribeiro às 16:53

10
Nov 15

Jose_malhoa_bebados.jpg

Sobretudo no norte e no centro, o dia 11 de Novembro é, de um modo geral, festejado com magustos de vinho e castanhas. Em muitas regiões rurais, designadamente no Minho, a festa está associada à matança do porco, e é influenciada pela euforia e pelo sentido de plenitude que possui a natureza de uma festa doméstica, muitas vezes a mais importante do calendário familiar. Todavia, o significado mais profundo e original do S. Martinho deve procurar-se nas suas relações com o vinho.

 

     No dia de S. Martinho,

     Mata o teu porco

     E prova o teu vinho.

 

Tradicionalmente é no dia de S. Martinho que se inaugura o vinho novo, que este se prova e se atestam as pipas. A velha legislação municipal proibia em muitos locais a venda do vinho novo antes do S. Martinho, sob pena de multa.

Nas zonas vinícolas há cerimónias características como as “procissões dos bêbados", onde se parodiam os cortejos religiosos e tem na sua base, por vezes, uma irmandade burlesca, a “Ordem” ou “Confraria” de S. Martinho, cujos membro se recrutam entre os mais afamados “bebedolas” da localidade, sendo atribuído o cargo de “juiz” ao maior bêbado, seguido do “mordomo”, do “secretário”, “tesoureiro”, “vogais”, etc.

 

     No S. Martinho bebe o vinho,

     E deixa a água para o moinho.

 

Fonte: Festividades Cíclicas em Portugal - Ernesto Veiga de Oliveira

publicado por Brito Ribeiro às 12:34
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05
Nov 15

O vapor “S. Nicolau”, recentemente saído de Lisboa em serviço da Inglaterra (a), fôra apreendido em Cabo Verde e levava um importante carregamento de pau de campeche, quando foi torpedeado. Era comandado por Amâncio José Azevedo, natural da Ilha Brava, e levava como imediato Tibério da Costa Malheiro, natural de Caminha. A restante tripulação, de 36 homens, era da ilha. O capitão e 16 tripulantes foram salvos e dos restantes nada se sabe.

(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 21 de Novembro de 1916)

 

(a) Em sentido contrário à notícia, o navio estava previsto ser entregue à Furness, Withy, ou seja, posto sob contrato com o governo inglês, após a chegada ao Havre, conforme estaria previamente acordado. Em função do ataque e afundamento ter acontecido em fase anterior à entrega, o vapor encontrava-se ainda sob armação e pavilhão português.

 

O vapor “S. Nicolau”

Como previamente referido, do vapor português “S. Nicolau”, torpedeado na mancha, o capitão e 16 tripulantes foram salvos por um vapor italiano, que os desembarcou em Falmouth, onde estão sob a protecção da autoridade consular respectiva.

A tripulação deste navio era assim constituída:

Comandante, José de Azevedo; imediato, Tibério Pinto Malheiro; 3º piloto, António da Transladação Pinto Neto; carpinteiro, Joaquim Costa Pereira; contra-mestre, Marcelino Silva Pinto; marinheiros: Manoel Fortes Monteiro, Roberto António Soares, Júlio Gonçalves Oliveira, Miguel Fortes do Carmo e António Correia; moços: João Paulo Silva, António Luís da Graça, Francisco Pedro Évora, Abel Vera Cruz Pinto e Valdemiro Cristino Lima; 1º maquinista, José Manuel dos Santos; 2º maquinista, Luís da Silva Gama; 3º maquinista, José Francisco Silva; pilotos maquinistas: Álvaro Sant’Ana Estanislau, Marcelino Brito de Lima, Manoel Lopes e António Vieira; fogueiros; José Maria da Silva, João de Matos, Luiz Machado, Mateus Marques, Manoel Diogo Neves e António de Oliveira Lopes; chegadores: Pedro Diogo Neves, Martins Fortes e José Pereira Barradas; despenseiro, António Mateus Gonçalves; cozinheiro, Manoel Duarte; ajudante de cozinheiro, Belarmino da Conceição Ferreira; criados: Júlio de Brito Lima e Lourenço Peres Viana; moço praticante, João Batista Salgado.

(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 21 de Novembro de 1916)

 

 

TME - SÃO NICOLAU FT.jpg

 Imagem do vapor "S. Nicolau" e foto do capitão Amâncio Azevedo

(In "Ilustração Portuguesa", Nº 565 de 18 de Dezembro de 1916)

 

Características do vapor “S. Nicolau”

1916-1916

Armador: Transportes Marítimos do Estado, Lisboa

Nº Oficial: N/s - Iic: H.S.N.I. - Porto de registo: Lisboa

Construtor: Akt. Ges. “Neptun”, Rostock, 1905

ex “Dora Horn”, Reederei Horn, Lubeca, 1905-1916

Arqueação: Tab 2.678,83 tons - Tal 1.698,47 tons

Dimensões: Pp 88,70 mts - Boca 13,40 mts

Propulsão: Do construtor - 1:Te - 9,5 m/h

Equipagem: 37 tripulantes

 

Os náufragos do “S. Nicolau”

No ministério da Marinha foi recebido um telegrama do vice-cônsul de Portugal em Falmouth, com a seguinte relação dos náufragos do vapor “S. Nicolau”, que fôra torpedeado por um submarino:

Capitão Amâncio José de Azevedo, 3º piloto António Pinto Neto, contra-mestre Marcelino Silva Pinto, marinheiro Manoel Fortes Monteiro, moços Abel Vera Cruz Pinto e António Luís da Graça, 2º e 3º maquinistas Luís Gama e José Francisco Silva, praticante Álvaro Sant’Ana Estanislau, azeitadores Marcelino Brito de Lima, Manoel Lopes e António Vieira, fogueiros Mateus Marques, João de Matos e Luiz Machado, chegador Pedro Diogo Neves, despenseiro António Mateus Gonçalves e criado Lourenço Peres Viana. Sobre o destino dos outros tripulantes aguardam-se informações que já foram pedidas.

(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 22 de Novembro de 1916)

 

A bordo do vapor “Dresna” da Mala Real Inglesa, chegado hoje ao Tejo, vieram os 18 tripulantes do vapor “S. Nicolau”, canhoneado por um submarino alemão na Mancha.

Entre os tripulantes figurava o comandante, sr. Amâncio José de Azevedo, velho lobo-do-mar, natural da Ilha Brava, que imediatamente se dirigiu à comissão de administração dos transportes marítimos, a fim de apresentar o seu relatório sobre a perda do navio.

Tivemos ocasião de nos avistar com esse oficial, recolhendo as impressões da primeira vítima dos alemães em tripulações que guarnecem os navios em serviço dos aliados. É profundamente dolorosa e trágica a aventura que esse valoroso marinheiro nos refere:

«O “S. Nicolau”, que tinha saído de Lisboa no dia 11 de Novembro, com destino ao Havre, onde devia ser entregue ao representante do governo inglês, encontrava-se dois dias depois, pelas 11 horas, a 15 milhas leste do ilhote Cassequets, espécie de pedregulho que se destaca na costa bretã. Faltava apenas um dia para chegar ao ponto do destino.

Nessa ocasião, o piloto veio comunicar-me – diz o comandante Amâncio – que a curta distância, encaminhando-se em direção ao navio, vinha uma embarcação que parecia ser uma chalupa.

Dispunha-me a examinar mais detidamente esse barco, quando de bordo dele foi feito o primeiro tiro. Não houve, portanto, aviso prévio algum. O primeiro tiro atingiu o “S. Nicolau” por avante e logo outros dois se seguiram. O último desarvorou a chaminé.

Imediatamente a tripulação correu às baleeiras, que foram lançadas ao mar, sob o fogo do inimigo. O submarino fez ao todo 17 tiros para destruir o navio e fazê-lo submergir totalmente.

A tragédia desenrolara-se sob um céu admirável de beleza e clemencia. As nossas baleeiras andavam ao sabor das ondas quando o submarino se aproximou daquela em que eu ia e de uma outra governada pelo imediato, convidando-nos a passar ao submarino. Ali pediram-nos os papéis de bordo. Como lhes dissemos que os tínhamos deixado lá e que nem o boné conseguíramos trazer porque fôramos atacados de surpresa, mandaram-nos passar à baleeira, entregando-nos à fortuna do mar.

O “S. Nicolau” jazia então nas profundezas das águas. Aproamos as baleeiras à costa francesa. O tempo, porém, mudou de tal maneira que, daí a pouco, o temporal era medonho. Não há marinheiro que não conheça estas súbitas mudanças do mar naquelas paragens.

Para fugir ao perigo de nos despedaçarmos de encontro aos penedos da costa bretã, não hesitamos virar a popa ao ansiado refúgio, fazendo-nos de novo ao mar, em busca da costa inglesa.

Não se pode dizer o que foi essa dolorosa travessia da Mancha, até que o navio salvador foi em nosso auxílio. Foram 30 horas de intraduzível angústia.

Na embarcação em que eu ia morreu de frio o marinheiro Miguel do Carmo; os olhos saltaram-lhe das orbitas. Piedosamente o lançamos ao mar. O homem do leme, com o frio, tinha as mãos inchadas que pareciam uns cepos. Estávamos todos exaustos e desfalecidos. Apenas o 1º maquinista conseguia ainda reunir um pouco de esforço para mexer nos remos.

Finalmente surgiu o vapor italiano “Fido”, que nos veio socorrer.

Todos nós, absolutamente sem forças, fomos içados para bordo e ali alvo da mais carinhosa solicitude. O vapor italiano fez rumo a Plymouth, onde tivemos também uma generosa hospitalidade.

O submarino que afundara o “S. Nicolau” prosseguiu a sua tenebrosa tarefa, afundando outros navios que se viam no horizonte.

Durante a tempestade perdemos de vista a baleeira que conduzia os nossos restantes camaradas.»

(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 28 de Novembro de 1916)

 

O afundamento do vapor “São Nicolau” foi efectuado pelo submarino alemão UC-26, que se encontrava sob o comando do capitão-tenente Matthias Graf von Schmettow. Teve lugar a 16 de Novembro de 1916, no Canal da Mancha, a este-nordeste da Ilha de Batz, na posição 49º20’N 03º46’W.

A segunda baleeira relatada nas notícias, governada pelo imediato Tibério da Costa Malheiro, onde se encontravam 18 dos tripulantes que compunham a guarnição do navio, nunca chegou a ser encontrada, totalizando por esse motivo o registo de 19 vítimas mortais, em resultado do ataque ao navio, quando este se encontrava em viagem de Lisboa para o Havre.

 

Registo publicado no blog http://naviosenavegadores.blogspot.pt/

publicado por Brito Ribeiro às 15:35
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