Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

18
Ago 15

 

"As sociedades necessitam de símbolos para representarem os seus valores. A arquitectura, a estatuária, a pintura, a arte em geral também cumprem esse papel de dar forma e local de culto ao que uma sociedade considera ser a sua essência, aquilo que pode ser designado pela sua alma. 

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Em África, por exemplo, certas culturas têm as suas árvores sagradas. Na Guiné, na Senegâmbia, chamam-lhes Irã. É ali que repousam os espíritos dos antepassados e ali que eles podem ser chamados a pronunciar-se sobre o presente e a transmitir aos atuais a sabedoria que recolheram da vida, a aconselhar, a julgar.

 

Os panteões começaram por ser os locais de reunião dos vários deuses de uma dada região e de uma dada cultura, ou civilização. Foram um primeiro passo para o monoteísmo. Ali se reuniam todos os veneráveis, num único lugar. Diferiam dos templos porque, ao contrário destes, não tinham altar, não eram lugar de sacrifício, nem de oferendas, apenas de veneração, de unanimidade sobre um certo modo de viver, que aqueles seres divinizados representavam.

 

Os modernos panteões retomaram esse espirito numa vertente laica e republicana. Pretenderam reunir aqueles que uma dada nação considerava como os seus faróis, aqueles que foram orientando a sociedade e dotando-a de uma identidade. Aqueles que foram capazes de decantar a essência do seu povo.

 

A ideia de reunir esses símbolos é em si mesmo louvável. Mas é necessário deixar que o tempo faça o seu trabalho, limpando o efémero. É necessário envelhecer bem para merecer o Panteão. Um panteão não é uma caderneta de cromos com os bonecos dos futebolistas que jogaram nesse anos na primeira divisão.

 

Vem isto a propósito da nova moda dos panteonáveis. Tenho a minha opinião sobre os que lá estão, os da primeira vaga e os da segunda, mas não é sobre um referendo a propósito de inclusões ou exclusões que me parece saudável discutir, mas sobre o conceito de “ir para o panteão”. O ir para o panteão, já, como se ouviu após a morte de Eusébio e agora com a morte de Manuel de Oliveira é o correspondente ao sanctus súbito da Igreja Católica, que deu por vezes péssimos exemplares de santos. O outro perigo é o de transformar o Panteão numa montra dos famosos da época, de amigos de um dado regime... ou num local da moda. Num cemitério de personalidades – em vez de ser uma fonte, uma árvore numa floresta sagrada.

 

É evidente que todas as personalidades ultimamente panteonadas são ilustres, a questão não é essa, é a de a sociedade portuguesa entender que o Panteão passou a ser o jazigo dos ilustres. Isto é, se o Panteão português passou a ter outra finalidade...

 

É que, se o Panteão passou a ser o cemitério do PéreLachaise de Portugal..., convém desimpedir o campo à volta de modo a albergar a vaga de famosos que mais cedo ou mais tarde falecerão e que terão tanto direito como outros a ali figurar! Lembro, sem nenhum desejo de lhes apressar o fim, longe vá o agoiro, atletas como Carlos Lopes, Rosa Mota, Joaquim Agostinho, atores e actrizes como Rui de Carvalho, ou Eunice Munõz, ou Maria de Medeiros, filósofos como Eduardo Lourenço, músicos como Chaínho, pintores como Pomar, escritores como Agustina e, pergunto, onde estarão, entre outros, o Zeca Afonso, ou Agostinho da Silva, ou Saramago, ou Eugénio de Andrade, ou Natália Correia, ou Amadeo de Souza Cardoso, administradores como Azeredo Perdição, ou engenheiros de grandes obras como Edgar Cardoso, enfim a lista podia continuar com os acrescentos e exclusões de cada um, se a ideia for panteonar os nossos ilustres concidadãos e não aqueles que dirão aos nossos descendentes onde devem lançar a âncora, aqui e não ali, as boas épocas para viajar, ou de ficar em casa, as de correr ou as de andar, as de lutar ou as de negociar…

 

No romance Para Sempre, Vergílio Ferreira (aí está outro panteonável) coloca vários escritores de várias épocas a comentarem as vicissitudes de história numa imaginária biblioteca.

 

Eu vejo o Panteão como a «biblioteca do Para Sempre», com os ilustres, que lá se encontram a reflectirem sobre Portugal, sobre os portugueses, sobre o que somos, sobre o nosso futuro e a deixarem-nos ouvi-los. Eu, por exemplo, de todos os ilustres lá imortalizados, o que me parece ter dado a melhor resposta às perguntas que eu lhe faria sobre o que de mais importante devíamos fazer para vivermos melhor e sermos melhores, sobre a causa da nossa pobre situação foi João de Deus: aprendam a ler! E deixou-nos uma cartilha! Inteligente e eficaz. Eis um caso raro!

 

Para já, o que oiço dos que andam cá por fora é: «coitado, lá vai mais um para o panteão». Ou, a nova versão da frase de Almeida Garrett: “Foge cão que te mandam para o panteão!” O que não honra o Panteão, nem quem lá está, nem quem lá deverá estar…

 

O populismo é sempre mau conselheiro e, como diz o povo, “cadelas apressadas parem cães cegos!!!” Ainda corremos o risco de lá irem parar o Alves dos Reis e o Ricardo Espírito Santo, os maiores fazedores de dinheiro falso…"

 

Artigo de Carlos de Matos Gomes

publicado por Brito Ribeiro às 14:28

16
Ago 15

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Olhar o passado para construir o futuro” é o tema da XVIII Bienal Internacional de Arte de Cerveira, que decorre até 19 setembro de 2015, em Vila Nova de Cerveira, para apresentar 400 artistas de 33 países, cerca de 500 obras de arte. Pretende-se a identificação dos saberes e tradições da região, para apresentar soluções de identificação contemporânea, conducentes a uma aposta no diálogo dos artistas criadores com a história e conhecimento dos meios onde se inscrevem geograficamente. A Direção Artística está a cargo de Henrique Silva.

O formato, adotado desde a primeira Bienal, foi mantido de acordo com o objetivo a que este evento se propõe desde 1978: um local de encontro, debate e investigação de Arte Contemporânea, num programa concertado com a vizinha Galiza e o Ensino Superior a nível Europeu.

O programa de 2015 envolve: Concurso Internacional; representações de 13 Universidades, Escolas Superiores e Politécnicos das áreas artísticas, com apresentação dos departamentos de investigação artística e as produções de alunos e professores; Artistas Convidados nacionais e estrangeiros; Curadorias nacionais e internacionais; Artistas Homenageados (Alcino Soutinho, Dacos e Eurico Gonçalves); Conferências e Debates; Ateliers e Workshops; Visitas Guiadas; Espetáculos interiores e exteriores; um Drive-in, entre outros.

A Bienal de Cerveira alarga, mais uma vez, o seu âmbito expositivo, apresentando mostras em Paredes de Coura, Caminha e Tomiño.

De destacar, ainda, a participação da artista grega Danae Stratou, que apresenta dois trabalhos de vídeo, um deles com um texto de Yanis Varoufakis, e Margarida Reis que expõe parte do seu notável trabalho artístico na área da tapeçaria contemporânea.

  

PROGRAMAÇÃO XVIII BIENAL DE CERVEIRA

 

TEMA

O desenvolvimento de objetivos nacionais e internacionais, a atualização e revisão do Estatuto de Estratégia Regional são os planos de enquadramento desta edição, onde se propôs promover uma série de workshops que serão a base da construção de uma coesão regional sustentada para a prestação de serviços culturais essenciais para o desenvolvimento criativo e económico da Bienal de Cerveira e para a sua maior internacionalização. Neste sentido, a XVIII Bienal de Cerveira levou a cabo uma identificação dos saberes e tradições da região, para apresentar soluções de identificação contemporânea conducentes a uma aposta no diálogo dos artistas criadores, com a história e conhecimento dos meios onde se inscrevem geograficamente.

Baseado num Centro de Recursos para as Indústrias Criativas que deverá contribuir para a sua subsistência e desenvolvimento económico, a componente central basear-se-á no apoio dos departamentos de investigação de Universidades e Institutos Politécnicos, como pano de fundo para uma alta e internacional referência cultural. Assim o tema proposto para esta XVIII Bienal de Cerveira é:

 

 "Olhar o Passado para Construir o Futuro”

 

CONCURSO INTERNACIONAL

O concurso foi destinado a artistas de todo o mundo, sendo que cada concorrente apresentou, para além da(s) obra(s) a concurso, um portfólio com fotografias de trabalhos da sua carreira artística, um currículo completo e uma memória descritiva sobre a integração da sua proposta no contexto do tema proposto. Foi dada preferência às obras que refletiam a cultura e tradição do país de origem dos artistas concorrentes, numa interpretação contemporânea. Pretende-se, desta forma, estabelecer um diálogo mais enriquecedor entre os concorrentes e o público em geral.

 

ARTISTAS CONVIDADOS

Com o fim de aproximar os conceitos científicos da prática laboratorial, foram convidadas Faculdades, Institutos e Escolas Superiores de Arte a participar nesta Bienal com mostras dos resultados das investigações dos respetivos departamentos das áreas artísticas, assim como em debates e conferências sobre o estado da arte, em analogia com as investigações feitas nos anos 60 por José Ernesto de Sousa sobre a valorização da “expressão ingénua” como ele lhe chamava.

Participam, nesta edição, 13 Instituições Superiores das áreas das Artes:

  • Colégio Das Artes da Universidade de Coimbra;
  • Escola Superior das Artes e Design das Caldas da Rainha;
  • Escola Superior Artística do Porto;
  • Escola Superior Gallaecia;
  • Escola Superior de Música, Artes e Espectáculo;
  • Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa;
  • Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto;
  • Instituto Politécnico de Tomar;
  • Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro;
  • Universidade Católica Portuguesa do Porto;
  • Universidade do Minho;
  • Universidade Aberta;
  • Universidade do Algarve.

 

No âmbito deste trabalho realizado em conjunto com as Instituições de Ensino Superior, a programação inlcui: exposição das obras de alunos e/ou professores, selecionadas pelas Instituições de Ensino Superior convidadas e que compõem o Conselho Científico / Artístico da Fundação Bienal de Cerveira; uma Assembleia do Conselho Científico / Artístico da Fundação Bienal de Cerveira, tendo como principal assunto a ser debatido o futuro da Fundação Bienal de Cerveira; e, finalmente, um debate público sobre o ensino tradicional versus o ensino contemporâneo das artes.

Está programado também um Retiro Doutoral, até 31 de julho, pela Universidade Aberta e Universidade do Algarve que partilham o Curso de Doutoramento em Média-Arte Digital, onde serão realizadas conferências abertas ao público, apresentação dos trabalhos dos doutorandos, defesa de projetos de teses, entre outras atividades.

Podemos, ainda, falar de dois outros convidados que marcam, com certeza, a XVIII Bienal de Cerveira: a artista Margarida Reis, cujo trabalho em tapeçaria é reconhecido internacionalmente e, ainda, a artista grega Danae Stratou, que participa com dois trabalhos de vídeo, um deles com textos de Yanis Varoufakis.

  

HOMENAGENS

É homenageado o artista Eurico Gonçalves não só pela consistência e personalidade da sua obra, mas também pela dedicação e contribuição que teve ao longo dos 37 anos da Bienal de Cerveira, cujo contributo muito marcou a Instituição, assim como o Arquiteto Alcino Soutinho (1930-2013) pela sua intervenção no ex-líbris de Vila Nova de Cerveira, chamando assim a atenção das autoridades competentes para o futuro do Castelo, onde esteve implementada a Pousada D. Dinis, e que hoje merecia uma integração mais objetiva nos destinos desta Vila das Artes.

Dacos (1940-2012) colaborou com a Bienal de Cerveira durante mais de 10 anos, tendo sido responsável pelos ateliers de gravura. Mestre gravador, muito contribuiu para o desenvolvimento da gravura no Norte de Portugal e foi co-responsável pela organização de exposições no Museu de Liège de artistas portugueses, no qual participou ativamente.

 

INTERVENÇÕES ARTÍSTICAS

Ao longo do mês de julho e agosto decorrerão ações espontâneas de artistas convidados, tanto no interior da Bienal como no espaço público, cujo conteúdo será desenhado de uma forma interventiva nos espaços.

 

WORKSHOPS

Aproveitando as sinergias do “Cluster” das Industrias Criativas da Fundação Bienal de Cerveira, dinamizar este sector com a criação de workshops, cursos e ateliers livres em áreas criativas como o desenho e pintura, cerâmica, gravura, tapeçaria, arte digital, entre outras, integrando nos serviços educativos do Museu da Bienal de Cerveira.

 

4 a 15 agosto | Ateliers

Horário – Das 15H:00 às 19H00

Local: Fórum Cultural (Oficinas)

 

Pintura – Conceção e orientação – Henrique do Vale

Cerâmica /Escultura – Conceção e orientação – Álvaro Queirós

Arte Digital – Conceção e orientação – Joel Ribeiro

Serigrafia – Conceção e orientação – Lídia Portela

Gravura – Conceção e orientação – Cabral Pinto

 

4 a 9 agosto| Workshop de Gravura

Horário| Das 15H:00 às 19H00

Local | Fórum Cultural (Oficinas)

Conceção e orientação – FACAL

 

16 a 29 agosto | Laboratório de improvisação

Horário: 15h00 às 18h00

Local | Fórum Cultural (Openspace)

Atividade Prática Exercícios de: movimento, escrita, oralidade, expressão corporal/dança, sonoros/musicais.

Conceção e orientação – Ana Maria Pintora

 

ATELIERS INFANTIS

O atelier de crianças será dirigido aos jovens em idade escolar, onde aprenderão a manipular os objetos, estimulando a criatividade e, sobretudo, desenvolvendo a capacidade de observação e o contacto com a arte contemporânea. Estão agendados de 9 a 15 de agosto, sob a coordenação de Ana Patrícia.

 

VISITAS GUIADAS

Serão organizadas visitas guiadas por artistas, cumprindo com o objetivo levar o “conhecimento a todas as populações”, único meio para o desenvolvimento social e cultural indispensável a uma melhor qualidade de vida. Já em Setembro a XVIII Bienal estará aberta exclusivamente para receber Instituições de Ensino e de Solidariedade Social.

  

CONFERÊNCIAS E DEBATES

Estão a ser preparadas conferências no âmbito do tema “Olhar o passado para construir o futuro”, tendo sido já definida uma sessão de debate intergeracional sobre a “Idade do saber”.

 

Contacto imprensa | Ana Vale Costa | gab.comunicacao@bienaldecerveira.pt | 925973911

publicado por Brito Ribeiro às 12:20
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26
Mar 15

“Era o filho mais velho de quatro irmãos, o único rapaz. Manuel, como o meu pai, o meu avô, o meu bisavô... Treinado para ser médico. Porque o meu pai era médico e toda a família, inclusive do lado da minha mãe, também. Nasci em 47. Não havia televisão. Portugal era um país muito triste. O meu pai era esquerdista, a minha mãe católica e salazarista. A família do meu pai era republicana, a da minha mãe monárquica.

10983462_1710901495803358_3649713301917296085_o.jpEu era um miúdo que não tinha graça nenhuma. Passava a vida a ler. Li tudo. Tudo. Comecei muto novo. Adorava ir para Arouca, para casa dos meus avós. E, naquela altura, as férias eram muito grandes. Em Arouca não havia nada para fazer. Então, lia Aquilino Ribeiro e Camilo Castelo Branco. Em casa do meu pai lia Eça e Antero, na dos outros avós lia os românticos. Era gordo, não tinha jeito para desporto. Joguei hóquei no Vigorosa, mas fui sempre suplente. E suplente do guarda-redes. Pior não podia ser! Mas fui sempre esforçadíssimo, isso sim. E sempre tive muita dificuldade em perder, o que é uma estupidez para um tipo gordinho que não tinha qualquer jeito para aquilo. Tinha um tratamento diferente do que era dado às minhas irmãs. Em Arouca, o meu avô deixava-me sair para ir jogar futebol para o clube. Elas dizem-me ainda hoje que o melhor bife vinha sempre para mim. Não sei se era verdade, mas provavelmente sim. Nasci no dia de Nossa Sra. da Mó, 8 de Setembro, que é a grande festa de Arouca. Portanto, a minha avó achou que era um milagre. Há uma aura que se estabelece em relação a uma criança que não tinha ponta de graça. As minhas recordações dos meus bisavós nunca sei se são mesmo verdadeiras ou se foram reconstruídas a partir das fotografias. A fotografia e o cinema são umas armas fantásticas. As minhas memórias são muito reconstruídas. Vivi desde miúdo na rua Pedro Teixeira. Todos os médicos tinham vindo viver para perto do hospital de São João, só a nossa rua tinha oito ou nove. Neste sítio onde estamos, onde é agora o IPATIMUP, eram os lameiros da Asprela. A gente brincava ou aqui ou no jardim da Arca de Água. Era um Porto rural. A minha ideia de infância da cidade não tem nada a ver com um lugar cosmopolita. Ia ao cinema em frente ao Académico, em Júlio Dinis, ao Vale Formoso. O Porto era uma cidade de bairros. Fui sempre muito bom aluno. Era um marrão, mas adequado. Ajudava os meus amigos, porque tomava notas e depois passava a limpo. Portanto, as minhas sebentas foram sempre muito cobiçadas. Quer na escola, quer no liceu, quer, mais tarde, na faculdade. Eu topava os professores. Tinha boa memória, mas acima de tudo topava... Sempre achei graça a pessoas. Se tiver de identificar a característica que me distingue mais de uma certa geração próxima da minha é essa. Nunca gostei muito de coisas, sempre gostei muito de pessoas. Não acho graça a automóveis, nunca comprei roupa para mim. Uma vez estava em Londres e precisava de comprar uma camisola. Quando a senhora me perguntou o que queria nem sabia como me explicar. Nem linguagem para isso tenho. Fui para médico sobretudo por causa da pressão familiar. E depois, dentro da Medicina, quis sempre ser professor. Esta coisa que faço, de ser vagamente cientista, é para ser melhor professor. As minhas escolhas foram sempre muito racionais. Gostava de Medicina, de estudar doenças, mas tinha muita pena dos doentes. Emocionava-me. Por exemplo, os tipos que se queixavam de doenças psiquiátricas contavam histórias tão horripilantes que pensava: ‘Eh pá, se fosse eu estava pior...’. Empatizo sempre. E para um médico isso pode ser muito complicado. Portanto, encontrei esta solução da Anatomia Patológica. Sou útil, porque faço diagnóstico. Mas há aqui uma coisa de fuga ao risco. Se não tiver a certeza faço mais colorações, se não tiver a certeza com as colorações mando para segunda opinião. Sou muito atípico nisso. Toda a minha vida foi muito certinha. Ainda não tinha acabado o curso na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto quando fui trabalhar com o professor Serrão. Numa altura havia um congresso que tinha como tema o cancro da tiróide e ele disse-me para fazer a revisão dos casos. Gosto de saber as coisas com profundidade. Não sou nada superficial. Percebi que a partir do cancro da tiróide podia perceber muito de cancro em geral. Foi assim que comecei. Fazia autópsias e não tinha percebido que ia morrer. O que é uma burrice para quem faz autópsias. O meu pai morreu cedo, com 71 anos, de cancro do pulmão. Foi uma tragédia para mim. Adorava o meu pai. Percebi que as pessoas morriam aí. Mas, é engraçado, só quando a minha neta mais velha nasceu é que percebi que eu também ia morrer também. Isso deu-me uma ternura e quase uma doçura trágica. Agora, há dois ou três anos, percebi que me ia reformar. Tenho uma má relação com o deixar de trabalhar, porque não sei fazer mais nada. Tenho um cagaço de deixar de trabalhar... No limite por orgulho, por não querer perder. Continuo a lidar muito mal com a derrota. Pessoal ou não. O que está a acontecer no país, por exemplo, é uma tragédia do ponto de vista social. Irrita-me que aconteça. Por isso tenho tendência para lutar contra. Tenho muito optimismo — ou teimosia — na acção. No limite, a teimosia é a fuga da morte. Ou o medo de perder. O medo de perder para mim é deixar de trabalhar ou que o IPATIMUP deixe de ser um sucesso. Ou que a Universidade do Porto deixe de ser o que é. Não vivo com azedume, mas vivo com irritação. E dá-me sempre para responder fazendo. O que me torna — para a minha mulher, os meus filhos e os meus netos — super irritante. Tenho sempre mais coisas para fazer do que tempo. Essa falta de tempo é tenebrosa. E, nesta altura em que a reforma se aproxima, ainda mais. Para mim, deixar de trabalhar é muito mais grave do que morrer. Por isso, quando devia estar a desacelerar, estou a acelerar. Tenho de programar a reforma. Mas como?.. Ando aterrorizado. Se tiver de definir o meu estado actual seria: triste com o país e assustado com a ideia da reforma. Tenho, talvez, de me manter numa actividade próxima da ciência e do ensino. Estou a achar cada vez mais graça aos meus netos. Tenho orgulho neles. Pode ser que eles sejam uma solução. À segunda-feira juntamo-nos todos lá em casa e tem muita graça. Ajudar a formá-los, dar-lhes livros... isso é um desafio interessante. Mas estou a ter um envelhecimento mau. Em conclusão, fui um puto sem nenhuma graça e estou a ficar um velho muito irritante. O IPATIMUP é a menina dos meus olhos. Indiscutível. Mas por ser uma espécie de emanação da Universidade do Porto. A gente quando pensou o IPATIMUP fez uma espécie de universidade, com mais graça e menos chatices. Mas isto é universidade. Não tive nunca a sedução de fazer um laboratório. Ou uma empresa. O IPATIMUP é, antes de mais, um sítio onde fizemos gente melhor do que nós. Eu não sou um cientista, nunca podia ganhar um prémio Nobel. Tenho algumas descobertas razoáveis, mas não tenho nenhuma muito boa. Mas tenho alguns miúdos que começaram comigo que são do melhor que há. Não foi só por estarem aqui, mas foi também por isso. Estas instituições vivem de fazer pessoas. Se não percebermos isso em Portugal de uma vez cometemos um erro enorme. A gente só evolui se apostarmos em fazer gerações de pessoas melhores do que nós. Nós — São João, IPO, IPATIMUP — fizemos uma escola de cancro do estômago e da tiróide que é das melhores do mundo. Esta geração de hoje é muito diferente da minha. É uma geração indutiva, aprende por tentativa e erro. Muito epidérmica, muito pouco elaborada em termos de estrutura. Por exemplo, não conseguem contar uma história com princípio meio e fim. E estamos a falar de gente inteligentíssima. São pessoas muito simplificadas na expressão verbal. É uma coisa que me assusta. São muito bem educados. Mas por imaturidade. São mais formatados e previsíveis. Provavelmente fruto do ambiente familiar. Na minha cultura a mãe estava muito mais presente, dava-nos mais maturação afectiva. Estes miúdos não têm tempo. E acho que não têm entusiasmo, o que talvez seja fruto do estado do país. Nós tínhamos um futuro. Podia não ser risonho, mas era um futuro. Eu agora falo com os meus alunos e eles querem ser médicos. Ponto. Nós queríamos ser os melhores e ir para todo o lado. Agora, houve um problema, que é estupendo mas é um problema, chamado massificação. E nós lidamos mal com a massificação. Estou a falar do ensino, que é o meu mundo. Vivo pouco fora dele. Ao estrangeiro quase só vou para trabalhar. De resto prefiro ficar cá. Todos os fins de semana vou para Âncora, nas férias grandes vou para Arouca. Sempre. Adoro fazer férias para ler. Nunca pensei sair do Porto. Tive um convite de trabalho muito bom da Suíça, país sem mar. Tive outro muito bom da Noruega, onde há pouca luz. O meu primeiro problema é o afastamento dos meus pais, das minhas irmãs e dos meus amigos. Mas preciso também de mar, luz, sol. Depois, há uma coisa muito importante que existia em Portugal e não existia em mais lado nenhum, talvez com a excepção de Espanha. A oportunidade de fazer a diferença. Durante vinte anos, isto foi uma aventura. Tenho sempre muitas visitas de estrangeiros cá. E, há uns anos, o Porto não era uma cidade muito bonita para se mostrar. Levava-os à Foz e à Ribeira. E depois fugia para o Douro e Viana do Castelo. Agora não. O Porto está lindo. A minha relação com a cidade melhorou muito.”

Portugal, Porto, 24 de Março de 2015

Porto Canal - Manuel Roberto e Mariana Correia Pinto

publicado por Brito Ribeiro às 15:36
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18
Out 14

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 Foi inaugurada há cerca de três meses o Banco de Livros, uma livraria/alfarrabista do nosso conterrâneo Rafael Capela, na Rua Cândido dos Reis, junto à passagem de nivel.

É um espaço simples, onde encontramos de tudo, desde obras de autores consagrados até pequenos opúsculos, livros de arte, monografias, enciclopédias, catálogos, folhetos, postais e (não podiam faltar) obras de autores ancorenses.

Este espaço não serve apenas para comercializar, mas também se quer afirmar como um ponto de encontro de cultura e de debate da identidade do Vale do Âncora e das suas gentes.

Possuiu um catálogo on-line no seguinte endereço: http://livrosusadosantigosraros.wordpress.com/ 

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publicado por Brito Ribeiro às 15:36
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16
Dez 12












publicado por Brito Ribeiro às 11:54
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04
Dez 12
Nos vídeos seguintes podemos apreciar algumas obras de António Pedro.















publicado por Brito Ribeiro às 09:18
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24
Nov 12

António Pedro da Costa nasceu em Cabo Verde, na Cidade da Praia a 9 de Dezembro de 1909 e faleceu em Moledo do Minho a 17 de Agosto de 1966.

Pintor, poeta, ficcionista, dramaturgo, encenador, ensaísta, passou a infância em Moledo do Minho, tendo realizado os primeiros estudos no Instituto Nuno Álvares, da Companhia de Jesus, em La Guardia, Galiza.

Frequentou os dois primeiros anos dos cursos de Direito, em Coimbra, e de Ciências Histórico-Filosóficas, na Faculdade de Letras de Lisboa.

Em Paris, entre 1934 e 1935, onde chegou a estudar no Instituto de Arte e Arqueologia da Universidade de Sobornne, evoluiu, no domínio da poesia, de uma estética próxima do decadentismo, para uma expressão poética que recupera a vertente vanguardista do modernismo e que se aproxima do dimensionismo, pela tentativa, em “15 Poèmes au Hasard”, de conciliação entre a palavra e a expressão plástica; e redige a sua primeira peça teatral, “Comédie en un Acte”, texto de nítida influência pirandelliana.

 Ligando-se a meios artísticos e intelectuais de vanguarda, assinou, juntamente com artistas ligados aos movimentos surrealista e dadaísta europeus, como Marcel Duchamp, Kadinsky, Delaunay, Picabia, Miró, entre outros, o “Manifeste Dimensioniste”.

“Apenas uma Narrativa”, de 1942, é considerada uma das primeiras manifestações do surrealismo em Portugal. Permaneceu em Londres, entre 1944 e 1945, como correspondente português na BBC, onde participou nas actividades do grupo surrealista de Londres.

De regresso a Portugal, ao lado de Mário Cesariny, participou na I Exposição Surrealista em Lisboa. integrou o Grupo Surrealista de Lisboa, publicando, no segundo número dos Cadernos Surrealistas, o “Proto-Poema da Serra d’ Arga”. A partir dos fins dos anos 40, dedicou-se quase exclusivamente à actividade teatral, desempenhando um papel fundamental na renovação do teatro português.

Depois de uma experiência frustrada com o grupo Companheiros do Pátio das Comédias (foi director do Teatro Apolo deLisboa, em 1949), fundou e dirigiu, entre 1953 e 1962, o Teatro Experimental do Porto, construindo espectáculos que contribuíram para a divulgação de grandes nomes da dramaturgia contemporânea, portugueses e estrangeiros, como Miller, Ionesco, Bernardo Santareno.

 Os textos dramáticos que escreveu, destinados às companhias que dirigiu, incluem a referida “Comédia em um Acto”, em duas versões, portuguesa e francesa; um exercício coral adaptado do romance tradicional português “Reginaldo”; uma farsa para fantoches, “O Lorpa” e três grandes peças: “Desimaginação”, “Antígona” e “Andam Ladrões Cá em Casa”, a todas sendo comum "um agudo sentido da convenção teatral, deliberadamente assumida como tal e levada às últimas consequências, muito característico [...] do teatro pós-pirandelliano e da nossa dramaturgia experimental dos anos 40."

Grande parte da sua obra como pintor perdeu-se aquando dum incêndio no seu atelier.

É possível apreciar em Caminha a sua obra realizada, em 1955, para o "Bar do João", actual Garrafeira Baco.

Fontes: Infopedia, caminha2000, You Tube, "Surrealismo" de Fiona Bradley

 

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 12:21
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