Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

09
Fev 16

Tomei conhecimento que a Junta de Freguesia de Vila Praia de Âncora pretende adquirir uns terrenos para alargamento do cemitério. Referiram-me também, que seria necessário vender alguns terrenos que possui noutros locais para custear o investimento.

Não me choca a solução, face à urgência em tornar realidade esta obra, mas sinto um amargo de boca quando recordo que as coisas poderiam ter sido melhor delineadas, sem a visão míope do miserabilismo que caracteriza boa parte das decisões quando toca a investimentos em Vila Praia de Âncora.

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O ancestral costume de enterrar os corpos no interior das igrejas e nos adros, foi revertido, em termos de legislação, em 1835, durante o regime liberal e marca o início da secularização dos cemitérios. Porém, a adesão a esta nova disposição nem sempre foi pacífica, estando até na origem daquilo que se conhece por “Revolta da Maria da Fonte”.

Esta revolta ocorrida em 1846 e iniciada na zona da Póvoa de Lanhoso, resultou das tensões sociais remanescentes das guerras liberais, exacerbadas pelo grande descontentamento popular gerado pelas novas leis de recrutamento militar, por alterações fiscais e pela proibição de realizar enterros dentro de igrejas.

Em Gontinhães, assim se chamava a nossa terra à época, não ocorreram conflitos, porque se continuou a enterrar os defuntos no adro, mas o problema foi-se agravando até que no final do século XIX em consequência de um conjunto de surtos epidémicos que provocaram grande mortandade entre a população, ocasionando a saturação do adro da igreja matriz e a consequente falta de condições de salubridade que potenciava os riscos de contágio.

Após o surto de cólera que grassou entre 1833 e 1852, uma epidemia de varíola varreu Gontinhães em 1895, sendo 60,9% dos óbitos registados na zona litoral da freguesia. Especialmente nos meses mais quentes, as epidemias de varíola e tifo ou difteria, atribuídas aos “maus cheiros” dos estrumes do patêlo, que por ali se costumava empregar como estrume, pelo que as autoridades administrativas ordenaram que este estrume depois de colhido no mar fosse imediatamente enterrado a um palmo de profundidade. O correspondente local de “O Jornal da Manhã” refere na sua crónica sobre Gontinhães:

 “nesta freguesia há muito a fazer, particularmente no porto de pesca, e nas casas de alguns lavradores que, nada cuidadosos da sua saúde, têm as cortes dos gados vacum e suíno juntas ou por baixo dos aposentos em que habitam e dormem

Como os cadáveres eram inumados no átrio da Igreja e este já estivesse sobrelotado, o Governo Civil de Viana do Castelo exigiu à Administração da Câmara de Caminha que procedesse de imediato à aquisição dos terrenos necessários à construção do cemitério. Esta deliberou rapidamente e por unanimidade na compra 886 m2, mas será a Junta de Paróquia  de Gontinhães a efectuar empréstimos e a lançar derramas para custear a obra, que se concluirá em 1897.

Um século depois, mais ou menos há vinte e cinco anos atrás, após muitos anos de reivindicação, a autarquia caminhense financiou um alargamento do cemitério que ficou muito aquém das expectativas e das necessidades, como lamentavelmente vimos a constatar por mais uma intervenção que terá de ser feita no futuro próximo e que, recorrentemente, vai ter de ser custeada pela Freguesia e pelo seu património.

publicado por Brito Ribeiro às 16:53

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