Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

01
Ago 14

Embora de forma breve, já fiz parte do Orfeão de Vila Praia de Âncora. Não propriamente do orfeão, leia-se grupo coral, mas da secção de teatro. Nunca tive voz para cantorias, nem jeito para dançar, mas a certa altura convenci-me que tinha alguns dotes de representação. Se calhar convenceram-me, já foi há tanto tempo…

Não recordo o ano com exactidão, mas foi pouco depois do 25 de Abril. Disso tenho a certeza!

Tudo começou com o Padre Marinho. A direcção do Orfeão “engatou-o” para director artístico do grupo de teatro e para arranjar gente capaz de dar vida àquela secção, já que ninguém queria pegar naquilo.

A cisão no Orfeão, que deu origem à criação do Etnográfico de Vila Praia de Âncora, ainda estava muito fresca e notava-se uma certa indefinição, alguma letargia, mas também muita determinação por parte de alguns elementos. Eu é que não tinha nada a ver com aquilo, mas anui com entusiasmo ao pedido do Marinho, para participar numa peça que ele queria levar à cena.

Deixem-me abrir um parêntesis para vos explicar quem era o Padre Marinho. Os da minha idade lembram-se dele, mas os mais novos não o conhecem. Era pároco em Âncora, seria, no máximo, dez anos mais velho que eu e alinhava com a malta para tudo, perdão, para quase tudo e conseguia dizer a missa em dez minutos, tipo Pepe Rápido!

Era proprietário de um Datsun 1200 e achava-se um grande condutor, o que não era bem verdade. Felizmente nunca teve nenhum acidente, mas que arriscava um bocado, arriscava! Resumindo, era o que se costuma designar por “gajo porreiro”.

Mas dizia eu, que fui parar ao grupo de teatro do Orfeão de Vila Praia de Âncora juntamente com mais um punhado de amigos, mais ou menos a malta que andava a estudar no Liceu de Viana, o “nosso” grupo.

Recordo a Fernanda Neves e a Fernanda Bouças, a Carla e a Nela, o Chico e o Churriba, o Zeca do Morrosó, o Zé da Linha, a Ilda, o Cândido e o Aristides. De certeza que havia mais alguns, mas de momento não me recordo. Como éramos todos novatos em teatro, excepto a Fernanda Neves que já tinha alguma experiencia, o Marinho decidiu ensaiar uma coisa “ligeira” e “fácil”, uma peça de Bertold Brecht, muito em voga nos meios intelectuais de esquerda da época e que se chamava “O que diz sim e o que diz não”.

Uma peça em dois actos praticamente iguais, que só eram diferentes nos cinco minutos finais (do segundo acto). De fácil não tinha nada, nem para os actores, nem para os espectadores, que ficavam completamente baralhados ao começar o segundo acto e ouvirem tudo com no princípio. Mas para uns actores de gabarito como nós, estava tudo bem!

Depois de dois ou três meses de ensaios, com muita borga pelo meio, foi marcada uma saída para participar no Encontro de Coros na Covilhã; o grupo de danças e o grupo de teatro também iam para dar um espectáculo numa aldeia vizinha.

Foi durante uma madrugada do mês de Junho que entramos para o autocarro, cruzamos o Rio Âncora pela Ponte de Estrada Real e rumamos para sul. Se aqui em Vila Praia de Âncora estava bom tempo, conforme nos aproximávamos da Covilhã a canícula ia aumentando, até se revelar um calor abrasador.

Fomos directamente para Unhais da Serra, a tal aldeia que afinal não ficava assim tão perto e lá demos o nosso espectáculo, durante o qual os espectadores barafustaram ruidosamente com frases do género “Estão outra vez a repetir a mesma merda” ou “Que c… de teatro é este?”. Foi uma barraca completa, apesar de não nos enganarmos e fazermos tudo direitinho!

A seguir actuou o grupo de danças que teve de dançar num ringue de patinagem, porque o palco onde nós actuamos era muito pequeno. Assim passamos a tarde à espera do jantar que nos ia ser servido lá em Unhais da Serra. Uma aldeia serrana, os sabores da natureza e nós a contar com os chouriços, as broas, os presuntos, aquele vinho da Cova da Beira…

Afinal, serviram-nos sandes de alface e tomate, água e vinho de garrafão, do mais reles que havia na mercearia. Foi uma grande desilusão e uma grande barrigada de fome.

Regressamos à Covilhã de orelha murcha, a tempo do grupo coral actuar à noite, mas ainda não sabíamos onde iríamos pernoitar. O calor continuava e nem com a noite refrescou.

No final do espectáculo, de regresso ao ponto combinado, junto do autocarro, ainda ninguém sabia onde se iria dormir, logo havendo alguns elementos que decidiram abalar para uma pensão próxima.

Por fim, já depois da meia-noite, apareceu um tipo da organização que guiou os homens até uma escola e as mulheres até um convento. Ahh… Pensavam que ficava tudo junto? Não, não, eram outros tempos e não havia essas confusões! Até havia, mas não se dava tanto nas vistas, percebem?

 

Ainda bem que estava calor, porque o alojamento resumia-se a uns colchões de espuma espalhados pelo chão nas salas de aula, às quais tinham tirado as mesas e as cadeiras. Acho que adormeci madrugada alta, pouco antes de nascer o sol, tendo passado o tempo a fazer todo o tipo de patifarias possíveis. Ainda recordo de ter ajudado a trazer um camarada (com colchão e tudo) para o jardim onde continuou a dormir placidamente, em cuecas.

De manhã cedo, andava o Vasco Moreira, que tinha idade para ser nosso pai, de clarinete em punho, passando pelas salas a acordar a malta, sendo recebido com toda a cerimónia, própria para estes casos “Ó Vasco, mete a gaita no cu”, vai acordar o c…” e outros mimos do género.

O meu pequeno-almoço foi num café perto da praça do município e ao qual voltei muitas vezes, mais tarde, no decurso da minha vida profissional, sempre que pelo sopé da serra pernoitava. Uma sande de queijo e um fino, uma imperial, com se diz para aqueles lados, para espanto do empregado, mais habituado a servir galões e torradas pela manhã.

Depois de todos reunidos, mais uma vez à volta do autocarro, lá arrancamos serra acima, o autocarro ronceiro que fumegava em cada curva, a dúvida residia em saber se conseguiria ultrapassar os desníveis do percurso. O local escolhido para o convívio dos Coros, já passadas as Penhas da Saúde, era aquele vale glaciar enorme, antes da subida para a Torre.

Aí assistimos a uma missa campal e conseguiu-se pôr todos os coros a cantar um hino conjunto. Não estou certo, mas seriam mais de mil e quinhentas pessoas.

No final havia o piquenique e o regresso a casa. Como no dia anterior tínhamos passado fome de cão, ansiávamos por esta refeição, até porque o ar da serra puxa pelo apetite. Não recordo o manjar, recordo a fome com que continuei e a “fita” que foi chegar ao camião onde estava o vinho.

Tudo em fila, de copo na mão, aguardando pacientemente a vez para abrir a cobiçada torneirinha. O Professor Laurentino Monteiro é que não foi de modas, ao chegar a sua vez, bebeu logo dois ou três copos seguidos, começando a ser imitado por muitos outros. Se a bicha andava devagar, passou a andar ainda mais devagar, para desespero dos sequiosos orfeonistas.

No regresso, paramos em Coimbra ou arredores, para comer qualquer coisa ,pois a larica era muita e a viagem iria durar mais algumas horas.

Recordo uma viagem animada, com muita música, muita cantoria e muita brincadeira, novos e velhos irmanados na amizade e no companheirismo.

 

Esta foi a minha primeira e ultima saída com o Orfeão, ainda demos mais um ou outro espectáculo pelos arredores, mas o Marinho acabou por admitir que a peça era “difícil”, face aos repetidos e pouco abonatórios comentários dos espectadores e à nossa recusa em continuar a fazer o papel de bombo da festa. Decidiu ensaiar outra peça, “O espantalho” que ainda era pior que a anterior e por isso deixei de ir aos ensaios, nunca mais retomando o contacto com o grupo de teatro.

Aos poucos, todos foram desistindo, o próprio Marinho também abandonou, assim se perdendo a oportunidade de motivar e de formar gente que pudesse encenar com regularidade peças interessantes. Por mim, peças do Brecht… não, obrigado!

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 16:21
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