Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

26
Ago 14

Esta crónica foi escrita há cerca de dez anos e nunca a publiquei, até hoje. Não sei o que me deu (!!!) mas mudei de opinião, talvez por se aproximar a data de aniversário do meu pai que a 2 de Setembro, se fosse vivo, faria 102 anos. Propositadamente não a corrigi e a prosa é bárbara...

 

 

Em 1976 decidi não continuar a estudar, deixei de me enganar e de enganar os meus pais que não mereciam esse embuste de ver o filho todos os dias a sair de casa com os livros.

Fui trabalhar para o Porto, no armazém de artigos de papelaria e escritório, do qual o meu pai era um dos sócios. Esta empresa tinha sido fundada dez anos antes por três colegas, o Ribeiro, o Santiago e o Claudino que trabalhavam noutra firma do ramo, na rua Guedes Azevedo.

Fundaram então a “Sanori”, primeiro na rua Fernandes Tomás e mais tarde na rua do Bonfim, quando a empresa começou a crescer.

Foi nessa empresa que eu aterrei como ajudante de armazém, sem experiência de espécie alguma no ramo. Nem nesse, nem em nenhum outro!

Tinha duas colegas, a srª Cândida que era mais velha e que tinha também trabalhado na anterior empresa com o meu pai e os outros dois; a outra caixeira de armazém chamava-se Eva, uma rapariga toda despachada, que morava ali perto.

Foram elas que me ensinaram os primeiros passos do ofício. A minha última tarefa de cada dia, era varrer o armazém, tarefa que elas gostariam de me aliviar, mas que esbarrava na intransigência do meu pai que dizia “o mais novo é que faz a limpeza, sempre foi assim e não é por ser o meu filho, que mudam as regras”. Mais nada, o velho era rigoroso, mas justo.

 

Aos poucos, fui aprendendo a tratar das encomendas que os vendedores traziam, aprendi a embalar e como já tinha carta de condução, comecei a fazer entregas e despachos. Naquela época, as encomendas eram despachadas por camioneta ou por comboio, assim eram entregues em todo o país, excepto nas ilhas, que eram enviadas através dos transitários, que as despachavam por barco.

Dos três sócios, o Ribeiro era o principal vendedor, o Claudino dava um jeito no armazém e também vendia e o Santiago estava no escritório a tratar dos papéis e das “massas”.

Quem realmente puxava pela empresa era o meu pai, que teve, a dada ocasião, de baixar substancialmente o ritmo de trabalho, porque teve um enfarte do miocárdio. Foi aí que começaram a experimentar-me como vendedor, primeiro com meia dúzia de clientes, nos arredores do Porto e depois em Trás-os-montes e no Douro.

Eu achava uma certa piada ao Claudino, que era um tipo cómico e muito azelha. Talvez por isso é que lhe chamavam “o aranha”. Se era preciso qualquer coisa, assim de repente, o Claudino começava a dar voltas e mais voltas, como uma barata tonta. O homem era um espectáculo e no armazém, pouco ou nada fazia, a não ser estorvar quem lá trabalhava.

O Santiago era o contrário, um indivíduo frio, calculista, que sabia o que queria e o que fazia. Era muito religioso e a certa altura começou a meter-se nos cursos de cristandade, retiros espirituais e coisas desse género. O meu pai tinha uma grande amizade por esse indivíduo e tratava-o quase como um filho ou um irmão mais novo, o irmão que ele nunca tivera.

Eu nunca simpatizei com ele, de início era uma coisa algo irracional, pelo menos não conseguia explicar, por fim tive razões mais que suficientes. O homem nunca me tinha feito mal, a amizade que o meu pai lhe dedicava também não me afligia, mas nunca fui na “bola” dele.

Eu era vendedor a tempo parcial, andava em Trás-os-Montes e no Douro durante duas semanas, voltava para o armazém e lá ficava um mês. Dava-me um “jeitaço” porque recebia comissões sobre as vendas efectuadas, o que significava mais uns cobres para derreter. O Ribeiro vendia no Minho que era a melhor zona, eu vendia no interior norte e o Claudino fazia o resto do país, a um ritmo de “aranha”. Verdade seja dita que eram muitos clientes para visitar. Uma vez por ano, na primavera ia à Madeira e aos Açores vender e por lá “pastava” quase um mês.

 

Entretanto, decidiram comprar umas máquinas de fazer agrafes e passei a tomar conta da produção, o que me dava algumas dores de cabeça, porque era necessário estar constantemente a conferir a qualidade dos “pentes” fabricados. Era necessário muito rigor, andava sempre com o micrómetro e o “peclisse” na mão, a medir isto e aquilo.

Cada vez se vendiam mais agrafes, cada vez nós produzíamos mais quantidades e mais referências, até que concluíram não ser possível continuar com a fabriqueta daquela maneira.

Eu tinha de trabalhar no armazém, tinha de produzir agrafes e tinha que vender, o que significava que as máquinas paravam durante o tempo em que me ausentava. O espaço onde estavam instaladas, tinha sido tirado ao armazém e fazia cada vez mais falta. O barulho era ensurdecedor e não era possível coexistir a produção e o armazém no mesmo espaço.

Foi então que o Santiago veio com a história que o sogro dele queria arranjar qualquer coisa para investir e ele tinha um primo que precisava de trabalhar, tendo proposto aos sócios ficar com as máquinas, montar a fábrica com o sogro no quintal, lá da casa dele. Conseguiu artes de convencer os sócios que era um bom negócio para todos e assim, comecei a dar formação ao tal primo dele, o Mário, um rapaz excelente, que gostei muito de trabalhar com ele. Não saía ao primo!

Regressei ao meu trabalho do armazém e às vendas durante mais algum tempo, até que me entregaram a zona das Beiras e parte do distrito de Santarém. Deram-me uns bons ossos para roer, pois fazia quilómetros sem fim e a rentabilidade era baixa, mas alguém tinha que fazer aquilo!

Foi quando deixei de prestar serviço no armazém e me tornei um vendedor a sério. Começava em Chaves e Bragança e vinha por ali abaixo até Castelo Branco, virava para oeste e ainda fazia Tomar e arredores.

 

Em 1980 casei e no final de 1982, o meu pai que já tinha uma idade considerável, decidiu vender a sua parte na empresa, aos outros dois sócios, o Claudino e o Santiago.

A Sanori era então uma pequena mas próspera empresa, com uma carteira de clientes sólida, não devia nada a ninguém e o armazém estava recheado de mercadoria. Pagava a tempo e horas aos funcionários e aos fornecedores, tinha pela frente um futuro, aparentemente tranquilo.

O negócio que o “meu velho” fez foi, em minha opinião, uma “droga”, pois vendeu a sua cota baratíssima, apesar de haver gente interessada em pagar-lhe um valor superior, teimou em cedê-la aos sócios, com a condição de se manter como vendedor durante três anos, o tempo estipulado para os novos patrões lhe reembolsarem o capital. Vendeu barato e às prestações, que raio de negócio!

A surpresa surgiu ao fim de dezasseis meses quando inesperadamente abriram falência, uma falência provocada pelo Santiago, que descapitalizou ao limite a empresa, sem que "o aranha” do Claudino se apercebesse.

Se o individuo já roubava quando eram três sócios, depois do Ribeiro sair, foi “à farta e à bruta” e nem sequer teve pejo em ameaçar a funcionária do escritório, a Maria Aldina fazendo-a involuntariamente (ou não) cúmplice da sua pulhice, com mais uns trocos ao fim do mês.

Foi a primeira vez que vi o meu pai de “orelha murcha”, face à traição, ao abuso de confiança e à vigarice daquele indivíduo, que tanto estimava. Apetecia-me atirar-lhe qualquer coisa do género “está a ver, eu bem lhe dizia”, mas não tive coragem de o repreender nessa ocasião, pois o seu ânimo já estava de rastos. Quando regressávamos a Âncora, após termos ido pela última vez à empresa, entregar os carros e as colecções de mostruários, no comboio, ele disse-me:

- António, nunca mais fales desse filho da puta na minha frente.

Chocou-me porque ele não era pessoa de utilizar essa linguagem e para mais, quando o meu pai me chamava António é porque estava a falar muito a sério; dali para a frente se por casualidade, lá em casa, alguém se referia a esse gajo, olhávamos um para o outro e procurávamos, de qualquer maneira, desviar a conversa para outros temas. Era um pequeno segredo só nosso, se ele queria pôr uma pedra no assunto, não era eu que o ia contrariar.

Para o desemprego foram todos os trabalhadores, o meu pai ficou sem o dinheiro e eu entreguei o meu caso ao contencioso do Sindicato dos Técnicos de Vendas, que foram impecáveis, conseguindo reaver praticamente toda a indemnização a que tinha direito.

Nunca mais vi os meus antigos patrões, nunca mais soube nada deles, desde 1984, quando isto aconteceu. A única colega com quem contactei, alguns anos depois, foi a srª Cândida, porque veio de passeio até Vila Praia de Âncora e não se esqueceu de me visitar.

Se calhar, pelo exemplo do Santiago, é que ainda hoje, salvo raras excepções, olho com muita desconfiança para os gajos que se armam em beatos, sempre a bater com a mão no peito e a correr para a Igreja.

É que se ainda não a fizeram, estão a preparar-se para a fazer!

publicado por Brito Ribeiro às 14:31

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