Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

02
Abr 14

Texto de Rita Bouça publicado no jornal digital Caminha2000 (www.caminha2000.com)

 

É muito difícil conhecer com exactidão em que época os portugueses iniciaram a faina da pesca do bacalhau, na medida em que se encontra intimamente ligada à história dos Descobrimentos Portugueses, dos séc. XV e XVI

Porém, é conhecido que já no início do século XVI havia na Terra Nova grupos de pescadores oriundos de Aveiro e Viana, muito embora não fosse provável a existência de uma frota bacalhoeira organizada nesse tempo.

Mais tarde, já no reinado de D. Manuel I, foi o porto de Aveiro que mais pescadores enviou à Terra Nova.

Numa carta escrita em 1578 por um mercador de Bristol, Anthony Parkhurst, referindo-se à Terra Nova, é dito que: "Havia ali, em geral, mais de 100 velas espanholas pescando bacalhau, 50 velas portuguesas, 150 velas francesas e bretãs e 50 velas inglesas".

Durante o reinado de D. Sebastião a pesca do bacalhau continuou a desenvolver-se de forma activa.

Quando Portugal ficou sob o domínio Filipino aquela actividade sofreu um declínio assustador devido à trágica organização da Armada Invencível da responsabilidade de Filipe II de Espanha. Foram requisitados os navios que tivessem as melhores condições para as diferentes manobras de guerra e a frota portuguesa da pesca do bacalhau foi drasticamente arrasada, de modo que em 1624 não existia nenhum barco nos portos de Aveiro e Viana que pescasse na Terra Nova.

Foi preciso decorrer muitos e muitos anos até que Portugal recuperasse daquele fatídico desastre e só a partir do Séc. XIX o país passou a viver da importação do bacalhau, que se tornou no principal alimento de consumo corrente e com real significado na economia nacional.

No entanto, é no período que vai de 1830 a 1901 que se verifica um gradual crescimento da nossa frota pesqueira, embora devido a pesados emolumentos fiscais essa expansão não deixava produzir os resultados expectáveis.

A partir de 1901 em diante a frota bacalhoeira começa a ver resultados e é com este avanço que fica conhecida como "Época Heróica" e nesta época os pescadores portugueses exerciam a sua faina no Grande Banco que pertencia ao Banco da Terra Nova.

As condições de trabalho eram deveras difíceis, não só pelo rigor climatérico, mas também a rudimentar "pesca à linha" era o único método utilizado. Em que consistia? Cada navio de pesca à linha transportava entre 40 a 60 dóris, empilhados no convés. Os dóris eram botes de cerca de 4 metros com fundo chato. Os dóris eram colocados na água e cada pescador partia sozinho em busca de um local onde lançar as linhas. A pesca era feita com 20 linhas ligadas entre si formando aquilo a que se chamava um " trol ". O " trol " levava mil anzóis com iscos que podiam ser lulas, sardinhas, vísceras de cagarras ou de outras aves marinhas. No fim do dia de trabalho, o navio — mãe tocava um sino ou uma sirene e então os dóris regressavam. Os bacalhaus eram descarregados no convés e aí começavam a ser preparados para salgar nos porões.  *

Passado cerca de trinta e poucos anos, mais precisamente em 1934 o método arcaico de pesca — "pesca à linha" — mantinha-se inalterado. Apesar de tudo, o Estado Novo começa a manifestar interesse pela indústria bacalhoeira. A reconversão da frota de pesca "à linha", em arrasto, poderia ser uma possibilidade. No entanto, os armadores entendiam que se tratava de um investimento dispendioso e difícil de concretizar. Verificou-se que à medida que as embarcações iam ficando sem utilidade a sua natural substituição acontecia.

Porém, até aos anos sessenta os lucros obtidos pelos armadores, à custa de uma exploração de mão-de-obra sem limites, não se destinavam à modernização da frota, mas pelo contrário, à armação de novos navios.

Tratava-se de uma mão-de-obra  miserável, sem condições de trabalho, oriunda principalmente do distrito de Viana do Castelo e Póvoa de Varzim, composta essencialmente por homens que para escaparem à guerra das colónias também passaram a vir de todo o País. O governo da altura decidiu equiparar sete campanhas de pesca à linha (sete anos) ao cumprimento do serviço militar. Serviam durante 5 anos seguidos ou seis intercalados. Era quase escravatura. Apesar de tudo a produção nacional do bacalhau aumentou significativamente até 1967.

 

No entanto, a nossa frota pesqueira nunca poderia competir com as de outros países europeus que possuíam navios tecnicamente mais preparados para a pesca de arrasto. Os armadores portugueses não equiparam as embarcações com as condições exigidas para que as frotas pesqueiras pudessem enfrentar as difíceis condições climatéricas que frequentemente fustigavam as zonas da pesca do bacalhau. Assim, havia períodos de longas paragens que favoreciam a faina dos outros países.

Apesar de tudo, a produtividade foi-se mantendo, provavelmente devido ao "benemérito" Estado Novo que criou um sistema de protecção à pesca nacional criando créditos com baixos juros e até subsídios não reembolsáveis. Será importante dizer que os destinatários desses benefícios eram grupos pertencentes ao corporativismo instalado no conhecido tempo do Estado Novo (Ver "Henrique Tenreiro — Um biografia política" de Álvaro Garrido, edição Círculo de Leitores e Temas e Debates).

As restrições à pesca em águas internacionais, a partir de 1967 e ampliadas a partir dos anos 70 devido à escassez dos recursos biológicos e à crescente competição internacional, são as primeiras causas de ordem externa determinantes para o início da crise na actividade.

No que concerne às causas internas será importante referir que a indústria bacalhoeira nunca acompanhou a de outros países devido à falta de visão na renovação e modernização das suas frotas, mantendo uma estrutura débil e pouco organizada. Por outro lado, os pescadores desta faina cansados de uma vida de autêntica escravatura começaram a repensar o seu "modus vivendi" e encontraram na emigração novas formas mais vantajosas de vida, partindo para a Alemanha, França onde o trabalho seria mais compensatório e a sua dignidade mais respeitada.

A 25 de Abril de 1974 assistia-se já a uma morte anunciada da indústria bacalhoeira tendo atingido o verdadeiro fim a partir de 1986, aquando da entrada de Portugal na União Europeia.

 

 * https://www.youtube.com/watch?v=Rez67FA6ZxQ

 

BIBLIOGRAFIA:

BALDAQUE DA SILVA, António — Estado actual das Pescas em Portugal (1892)

LOPES, Ana Maria e MARQUES, Francisco — Faina Maior - A Pesca do Bacalhau nos Mares da Terra Nova (Quetzal,1996)

MOUTINHO, Mário — História da Pesca do Bacalhau (Estampa, 1985)

Museu Marítimo de Ílhavo, Âncora Editora, 2008

QUIRINO DA FONSECA, Henrique — Os Portugueses no Mar (Dinalivro, 1989)

SAMPAIO, A — As póvoas marítimas, Estudos Históricos e Económicos, Vol. I Porto, 1923.

 

Rita Bouça

 

publicado por Brito Ribeiro às 11:23
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