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29
Set 17

Transcrevo um artigo publicado na revista ABC de Lisboa, a 19 de Janeiro de 1922, pelo prestigiado jornalista Gomes Monteiro, sobre a família ancorense Fernandes Fão.

“Ao falarmos da numerosa família Fernandes Fão temos a impressão de estarmos contemplando uma partitura de Wagner. Tudo ali é harmonia, ritmo, orquestração… música. Do progenitor Constantino Fernandes Fão, um grande amador musical, todos os filhos saíram músicos… e de categoria.

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Assim, José Fernandes Fão entrou para a banda da Guarda Nacional Republicana, classificado em 1ª classe, obtendo progressos. Tempos depois, uma impertinente “angina pectoris” forçava-o a abandonar a sua esperançosa carreira.

Artur Fernandes Fão entrou com o pé direito para a arte musical e, de triunfo em triunfo, é hoje o chefe indiscutível da distinta banda da Armada.

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 Francisco Fernandes Fão, músico de 1ª classe da banda da GNR e aluno do 6º ano do Conservatório em violoncelo.

Emília Fernandes Fão, alma de artista, obtendo, com distinção, o curso de piano, harmonia e violino no Conservatório.

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Finalmente, temos Joaquim Fernandes Fão que, propositadamente, reservamos para o fim, porque é dele que desejamos tratar mais detalhadamente. Bisbilhotando na sua vida de artista conseguimos apurar que o maestro Joaquim Fernandes Fão nasceu em Buenos Aires, por uma bela manhã de 3 de Maio de 187F8, quando as rosas argentinas desabrochavam para a vida, ungidas de orvalhos matinais. Quando ainda aprendia as primeiras letras, seu pai, seguindo o uso, ensinou-lhe a compreender os encantos do solfejo, entregando-o, em seguida, aos cuidados de um professor inglês de violino, sendo depois trazido para Portugal.

E já nessa idade pueril – 12 anos – em que todas as crianças se dedicam às suas travessuras, Joaquim Fão compunha já valsas para 3 violinos, dando-lhes a missão de um executar o canto, o segundo substituir o rabecão e o terceiro fazer o acompanhamento. Depois de fazer o exame de instrução primária, em Âncora, e a seguir frequentar o Liceu de Viana do Castelo, até ao 4ºano, assentou praça em infantaria 3 desta cidade, continuando sempre a instrução musical de violino e piano para a qual sentia uma irresistível vocação.

Transferido para infantaria 12, seguia, pouco depois, para Lisboa, a fazer parte da banda de infantaria 2, onde ficou como músico de 3ª classe. Mas o génio, tal como uma gema de subido valor, fulgurando à luz acerada dos espelhos, manifestou-se logo. A breve trecho, o músico de 3ª classe era promovido a chefe, tomando a regência da banda de infantaria 26, em Ponta Delgada.

É curioso notar que que, neste concurso, Joaquim Fernandes Fão triunfou sobre 25 concorrentes, conquistando a 1ª classificação. Quando ainda músico de 1ª classe e sub-chefe da banda de infantaria 2, compôs vários números de música ligeira que foram executadas com o maior agrado. Chefe da banda do 26, compôs números de música militar, tendo também escrito música para as operetas “Gata borralheira” e “Hotel do novo mundo”, que foram acolhidas com gerais aplausos pelo público de S. Miguel.

Apesar de se encontrar lá longe afastado por muitas léguas de oceano, o seu nome andava já de boca em boca, proferido com aquela admiração tributada aos consagrados. Por escolha dos músicos da GNR, deu ingresso na regência da mesma, reorganizando-a e dando-lhe uma arquitectura moderna, de forma a poder executar a verdadeira música de concerto.

Aparte as suas composições originais, o maestro Fão tem dedicado grande parte do seu tempo a instrumentar música de Wagner, Beethoven, Listz, Berlioz, Mozart e tantos outros. Como obras de vulto, escreveu a “Abertura Sinfónica” que foi executada pela orquestra Blanch e ums “suite”, composta por 4 números – “Prelúdio” – “Minuette” – “Intermezzo dramático” - e “Marcha Militar” – que foi executada pela orquestra de David de Sousa. O “Minuette” foi agora executado, em S. Carlos, pelo maestro Guy, tendo obtido os calorosos aplausos duma plateia de entendedores de boa música. Sobre o libreto de Alfredo Pinto (Sacavém) escreveu o poema sinfónico “Sylmires” que, no Teatro Politeama foi executado pela orquestra de Viana da Mota.

Em suma, o maestro Joaquim Fernandes Fão conquistou um lugar proeminente na música nacional, sendo um dos poucos que soube compreender os voos gigantescos da águia wagneriana. Sob a sua direcção, a banda da GNR tem percorrido o país, visto que todo o país tem direito de a admirar e deliciar-se com a sua execução primorosa.

Três vezes foi a Espanha, tendo percorrido Vigo, Badajoz e Valencia del Cid. A propósito, lembramos que tendo-se realizado nesta ultima cidade espanhola, um certame de 11 bandas, maestro Fão foi escolhido para presidir ao júri, representando esta escolha uma homenagem, aliás merecida, ao português que lhes dera as honras da sua visita.

Julgamos ter falado bastante sobre o músico consagrado, não sabendo ainda se o visado nos perdoará termos aprofundado tão intimamente a sua biografia artística. Mas, seja como for, uma vez que nos propusemos a dizer a verdade, devemos frisar que o maestro Fão, tendo tocado violino em todas as orquestras a que pertenceu, sendo, por vezes, o solista na ópera no Coliseu dos Recreios e viola solista na orquestra Blanch, é hoje um regente firme, impecável, que nos últimos concertos realizados no Teatro Politeama, nos tem feito acreditar em contos de fadas, tomando a batuta mágica por uma verdadeira varinha de condão – Gomes Monteiro.”

O pai destes músicos, Constantino Fernandes Fão esteve emigrado na Argentina e terá regressado a Gontinhães com a família por volta de 1890. Em 1905, dando largas às suas paixões, a música e a terra natal, reorganiza a banda local, que será composta essencialmente por elementos muito jovens. A dirigi-la estará até ao fim da vida, salvo breves interrupções, o seu filho José Fernandes Fão, que vem a falecer em 1933. Em todos os serviços de coro, que nessa altura eram muitos, a regência era de Constantino Fernandes Fão.

Mais dados sobre o historial das bandas de música de Vila Praia de Âncora podem ser consultados aqui.

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 A Banda de Música extinguiu-se há muito tempo, mas a memória destes músicos continua viva, não só na toponímia da vila, mas essencialmente na Academia de Música local, a qual foi, muito justamente, designada por "Fernandes Fão".

publicado por Brito Ribeiro às 11:09
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