Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

20
Jul 15

Hamburgo 3 - Envolto em chamas após ter colidido com o navio holandês “Simonskerk”, no dia 2 de Fevereiro de 1966, o cargueiro português “Conceição Maria”, de 1.819 toneladas, propriedade da Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes e registado em Lisboa, derivou perigosamente em direcção aos reservatórios petrolíferos da Transocean – informou a guarda costeira holandesa.

As autoridades acrescentam que o rebocador de alto mar “Atlas” está a tentar passar um cabo ao navio português, a fim de o afastar dos depósitos e evitar a possibilidade de uma catástrofe ainda maior. Entretanto, os vinte e seis tripulantes portugueses do “Conceição Maria” foram recolhidos pelo navio dos pilotos da barra do Ems, “Pollux”.

Mensagens de rádio recebidas de bordo do “Atlas” indicam que o “Conceição Maria” deve ter derivado perigosamente em direcção dos reservatórios da Transocean, desconhecendo-se, por enquanto, o que sucedeu ao navio holandês envolvido na colisão.

C M.jpg

Dezassete dos tripulantes portugueses recebidos pelo “Pollux” foram, mais tarde, transferidos para bordo do navio da guarda costeira “Georg Breusing”, que os levou imediatamente para terra, regressando, pouco depois, para recolher os nove restantes. Todos os sobreviventes, um dos quais apresentava ferimentos graves, foram para a ilha de Borkum, no Mar do Norte – informa a guarda costeira.

Segundo a rádio «Norddeich», a colisão deu-se ao largo do estuário do rio Ems, a doze quilómetros ao norte da ilha holandesa de Schiermonnikog.

Os vinte e seis tripulantes portugueses foram recolhidos por navios de socorro holandeses.

Por informações obtidas junto da Sociedade Geral, o cargueiro português “Conceição Maria”, propriedade daquele armador, estava fundeado perto da boia JE-2, já na área do porto de Borhum, quando foi abalroado pelo vapor “Simonskerk”, de 9.821 toneladas, que, criminosamente e ao contrário de todas as leis do mar e dos homens continuou o seu rumo. O navio português sofreu um grande rombo e incendiou-se, afundando-se mais tarde, notícia, aliás, ainda não confirmada pela Sociedade Geral.

O marinheiro ferido, Jasmim dos Santos Nascimento, natural de Mafra e que está internado no Hospital de Borkum, sofreu fratura numa perna e nas costelas. Encontrava-se na parte superior do navio e, devido ao abalroamento, foi projectado.

 

A atitude criminosa do navio abalroador

De acordo com mais informações recolhidas na Sociedade Geral, que o comandante do “Conceição Maria”, sr. Manuel Casimiro Soares Sousa, este em contacto telefónico, às 11 horas da manhã, com aquela empresa e dissera que o navio português se encontrava fundeado e devidamente sinalizado. Depois do abalroamento, que provocou grande rombo no costado do “Conceição Maria”, o navio holandês continuou viagem sem prestar assistência ao navio nem à tripulação do cargueiro português.

O “Conceição Maria” saiu de Lisboa no passado dia 29 de Janeiro de 1966, com destino a Bremen, onde devia ter chegado ontem. Levava um carregamento de cortiça e carga geral. A notícia do afundamento do navio não pôde ser confirmada pela empresa proprietária. O último telefonema pra a companhia armadora, feito a bordo do rebocador “Atlas”, onde se encontrava o comandante do navio, informava que já tinha sido lançada uma amarra ao navio português e que se faziam tentativas para o recuperarem e extinguir o incêndio.

 

A tripulação do “Conceição Maria”

São as seguintes as identidades dos membros da tripulação:

Comandante, Manuel Casimiro Soares de Sousa, de Lisboa; imediato, Vasco Dinis de Barros Freire, de Oeiras; segundo-piloto, Délio Carlos Ramos Morgado, de Loulé; praticante de piloto, Afonso Correia Bettencourt, dos Açores; radiotelegrafista, Renato Manuel da Silva Santos Medeiros; contra-mestre, José Fiúza Sampedro, de Lisboa; marinheiros, Cesário dos Santos Evangelista, de Vila Franca de Xira; Vasco Boto Macatrão, da Nazaré; Ernesto Cordeiro, da Figueira da Foz; Armindo Pereira Rico, de Vila Nova de Gaia; José Viegas Samuel, de Setúbal e Jasmim dos Santos Nascimento, de Mafra; primeiro-maquinista, António Fiel, de Lisboa; segundo-maquinista, Fernando Neves do Sacramento, também de Lisboa; terceiros-maquinistas, Domingos Augusto Beira, de Mirandela e João Lima Maranhão, do Porto; artífice, José de Oliveira Ferreira Lopes, de Lisboa; fogueiro-paioleiro, Joaquim dos Santos, da Lourinhã; ajudantes de motorista: Manuel Anselmo Freitas Maciel e Manuel Luís Delgado Gaivoto, ambos de Viana do Castelo; Alípio António da Rocha Carvalho, de Vila Praia de Âncora; cozinheiro, António Luís de Brito, dos Arcos de Valdevez; padeiro, Manuel Rodrigues da Silva, de Aveiro; e, ainda Manuel Ferreira Pousada, de Valença; António Lajes Veloso, dos Arcos de Valdevez; e João de Sousa Marques, de Vila Verde.

Todos se encontram a salvo, no porto de Borkum.

(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 4 de Fevereiro de 1966)

 

Características do navio-motor “Conceição Maria”

1948 – 1968

Armador: Soc. Geral, de Comércio, Indústria e Transportes, Lisboa

Nº Oficial: H-360 – Iic: C.S.I.U. – Registo: Lisboa, 08.07.1948

Construtor: Companhia União Fabril, Lisboa, 07.1947

Arqueação: Tab 1.735,64 tons – Tal 931,59 tons – Pm 2.974 tons

Dimensões: Ff 93,32 mt – Pp 86,40 mt – Bc 12,84 mt – Ptl 4,55 mt

Propulsão: Burmeister & Wain – 1:Di – 7:Ci – 2.500 Bhp – 13 m/h

Equipagem: 26 tripulantes

 

Emden (Alemanha Ocidental), 4 – Chegou hoje aos estaleiros Rheinstahl Nordseewerke, de Emden, o navio português “Conceição Maria”, a fim de ser reparado, pois tem o casco muito queimado.

O capitão e oito tripulantes estavam a bordo quando um rebocador da Alemanha Federal rebocou o navio para o porto de Emden.

O convés superior e a superestrutura do “Conceição Maria” estão reduzidos a ruínas negras. O navio apresenta as marcas da colisão com o navio holandês “Simonskerk”.

Um dos vinte e seis tripulantes portugueses continua hospitalizado na ilha de Borkim, no Mar do Norte.

Os restantes dezassete chegaram a Emden, vindos de Borkum, num «ferryboat» pouco depois do navio. Foram imediatamente recolhidos numa casa de marinheiros onde comeram e descansaram, antes de partirem de comboio para Portugal.

Ainda não se sabe quanto tempo demorarão as reparações que o “Conceição Maria” terá de sofrer em Emden.

 

A Sociedade Geral, empresa armadora do navio “Conceição Maria”, ante-ontem abalroado por um navio holandês, no Mar do Norte, informou que, segundo as últimas notícias recebidas, aquele cargueiro continuava a navegar, às 21 horas de ante-ontem, e estava a ser rebocado para o porto alemão de Emden, onde devia chegar, ontem, cerca das 11 horas.

Pouco antes daquela hora, o capitão do “Conceição Maria”, sr. Manuel Casimiro Soares Sousa, deixara o rebocador “Atlas” para regressar para bordo do navio português, onde o fogo, entretanto, fôra extinto.

Além do comandante Soares Sousa, estão em Emden mais sete membros da tripulação, com vista à possível reparação do navio. Só depois do “Conceição Maria” entrar naquele porto poderá ser decidido se o navio será objecto de reparação provisória em Emden, vindo depois para Lisboa, ou se também se fará na Alemanha a sua reparação definitiva.

Os outros dezoito tripulantes do “Conceição Maria” partiram, ontem à noite, de comboio, para Lisboa, onde devem chegar na segunda-feira à noite.

Vai ser posta uma acção contra o comandante do vapor holandês que não prestou assistência ao navio abalroado.

Simonskerk-01.jpg

 

A Sociedade Geral já incumbiu os seus advogados, em Londres, de prepararem a apresentação da queixa contra o comandante do navio holandês “Simonskerk”, que seguiu viagem sem prestar assistência aos sinistrados, depois do seu navio ter abalroado violentamente o “Conceição Maria”. A atitude daquele comandante, e tanto mais incompreensível, pois o “Conceição Maria” para além de seguir devidamente sinalizado, o sino de nevoeiro ia a tocar, por mera precaução.

(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 5 de Fevereiro de 1966)

 

Em função do referido no texto anterior, confirma-se ter o navio levado a cabo reparações provisórias no porto de Emden, possibilitando a viagem de regresso a Lisboa. Porém, a companhia Sociedade Geral, em função dos múltiplos danos encontrados a bordo, optou pela venda do navio ao sucateiro Américo Vasques Vale, de Lisboa, tendo a demolição acontecido no decorrer do ano de 1968.

 

Publicação original de REIMAR em http://naviosenavegadores.blogspot.pt/

publicado por Brito Ribeiro às 09:49
tags:

13
Fev 15

 

Em 1998, António Rosa Casaco, ex-inspector da PIDE, explicou ao EXPRESSO os pormenores da «Operação Outono», nome de código da armadilha montada contra Humberto Delgado. Hoje, 50 anos após a sua morte não é demais relembrar este crime pela voz de um dos seus carrascos. 

 

António Rosa Casaco chefiou a brigada da PIDE que assassinou o general Humberto Delgado, no dia 13 de Fevereiro de 1965, perto de Badajoz. Fugido do país depois do 25 de Abril, foi julgado à revelia e condenado a oito anos de prisão, sendo ainda hoje procurado pelas autoridades portuguesas e pela Interpol. À beira de completar 83 anos, o ex-inspector da polícia política, que vive no Brasil sob falsa identidade, quebra o silêncio a que sempre se remeteu e conta ao EXPRESSO a sua versão sobre o mais importante assassínio cometido pelo regime salazarista. Assume que a cilada fatal foi montada pela PIDE, confirma que o assassino foi Casimiro Monteiro, mas garante - contrariando o acórdão do Tribunal - que Arajaryr Campos, a secretária do general, foi morta por Agostinho Tienza.

A «Operação Outono» - nome de código da armadilha montada contra Humberto Delgado - começou a ser delineada «na sequência da tentativa de assalto ao quartel de Beja», explica António Rosa Casaco.

Realizado no primeiro dia de 1962, o golpe de Beja estava concebido para ser liderado pelo «general sem medo», que conseguira iludir a vigilância da polícia e entrara em território nacional disfarçado com um bigode postiço. O assalto frustrou-se, Delgado escapou-se, mas o estado-maior da PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado) resolveu que, para grandes males, grandes remédios.

ng2236765.jpg

 

Foi nessa altura que Barbieri Cardoso, cérebro e estratego da polícia, «decidiu estudar o modo de neutralizar as actividades de carácter político» do general, «designadamente as que assumiam formas violentas de assalto ao poder constituído e que beneficiavam os sectores mais à esquerda da Oposição».

 

Uma «toupeira» junto do general

 

Um primeiro passo foi «a introdução de uma ou mais 'toupeiras'» na «entourage» do general, capazes de ganharem a sua confiança, «de modo a permitir a detecção de todos os seus movimentos e das actividades revolucionárias que congeminava».

O próprio Barbieri se encarregou de procurar a pessoa indicada. Subdirector-geral desde Abril de 1962, Agostinho Barbieri de Figueiredo Batista Cardoso ingressara na polícia, como inspector, em 1948, vindo da GNR. Nascido em Lisboa em 1907, mas de ascendência italiana, Barbieri «mantinha contactos regulares da mais diversa natureza com personalidades italianas da direita e extrema-direita». Entre elas, contavam-se Ernesto Bisogno - um médico com clínica em Roma, e Pascoale Pascuelino - «ex-oficial do exército fascista que fugira de um campo de concentração na Índia e atingira Diu». Cunhado do inspector Cunha Passo, Pascuelino era tradutor da PIDE, valendo-se dos seus impressionantes dotes linguísticos, já que «falava cerca de 21 línguas e dialectos diferentes».

 

Duas viagens a Roma

 

Pasquelino e Bisogno detectaram em Roma a presença de um cidadão português, Mário Alexandre de Carvalho, «que alegava ser oposicionista e refugiado político e que privava com Delgado, sendo, aparentemente, pessoa da sua estrita confiança». Carvalho, um lisboeta da freguesia dos Anjos, nascido em 1912, residia em Itália há um punhado de anos e possuía um estranho e sinuoso currículo. No prolongado e paciente trabalho de aliciamento de Mário de Carvalho envolveu-se o próprio Barbieri que «efectuou algumas viagens a Roma, sozinho», bem como Pereira de Carvalho, o director dos chamados Serviços Reservados. Nascido na Figueira da Foz em 1920, Álvaro Augusto das Neves Pereira de Carvalho entrara para a PIDE em 1956, como inspector, e era considerado, com propriedade, o nº 3 da hierarquia.

Inspector desde 1962, Rosa Casaco era um dos mais experimentados e eficientes operacionais da polícia, para onde entrara em 1937. Colocado na Secção Central, em Lisboa, e gozando da total confiança de Barbieri Cardoso, foi chamado a participar na «Operação Outono», tendo sido enviado a Roma várias vezes com o objectivo de «controlar» a dupla Ernesto Bisogno/Mário de Carvalho. De uma das vezes, foi na companhia de Barbieri e de Pereira de Carvalho, a parelha que desde 1962 dirigia o nevrálgico serviço de informações. Numa segunda viagem a Roma, foi secundado por um sub-inspector, de nome Ernesto Lopes Ramos, que de certo modo entrara na PIDE pelas suas mãos. Nascido nas Caldas da Rainha, em 1933, formado em Direito, concorrera aos serviços noticiosos da RTP nos seus primórdios. Hábil e destemido, Ernesto Lopes estagiara na CIA e era um operacional de mão-cheia, razão porque foi adstrito a Casaco. «Tínhamos de assegurar-nos, sem margem para quaisquer dúvidas, de que realmente o Mário de Carvalho dispunha, como afirmava, de acesso íntimo ao general.»

As eventuais dúvidas desvaneceram-se por completo. Carvalho passou a trabalhar activamente para a polícia, que lhe atribuiu o nome de código de «Oliveira», com uma remuneração de dez mil escudos mensais. A verba era enviada através de cheque para a conta nº 433045 da filial de Génova do Banco de Roma; sobre o cheque, a assinatura de Jorge Farinha Piano, um banqueiro e amigo de peito de Casaco.

Com Carvalho a contar para Lisboa tudo quanto Delgado dizia, urdia e fazia, a PIDE decidiu «passar à fase seguinte, ou seja, ao contacto com o próprio general». A ideia foi gizada por Barbieri e Pereira de Carvalho. Casaco possuía todas as qualidades para o tentar, mas apresentava um senão insuperável: Delgado conhecia-o perfeitamente - «nos anos 50, quando o general exercia o cargo de director-geral da Aeronáutica Civil, eu chefiava o posto do aeroporto de Lisboa, tendo tido, então, inúmeros contactos com ele». Eliminada a hipótese Casaco, a escolha acabou por incidir em Ernesto Lopes.

 

Encontro em Paris no Hotel Caumartin

 

Em Dezembro de 1964, Casaco e Ernesto Lopes voaram de novo até Roma, donde tomaram um avião para Paris, com uma missão particularmente arriscada: «Manter um encontro 'conspirativo' com Humberto Delgado.» A entrevista teve lugar no dia 27 de Dezembro, no Hotel Caumartin.

O contacto, a que estiveram presentes Mário de Carvalho e o professor Emídio Guerreiro, ambos colaboradores do candidato às célebres eleições presidenciais de 1958, foi um êxito. «Mário de Carvalho apresentou Ernesto Lopes ao general como Ernesto de Castro e Sousa, nas supostas qualidades de advogado, oposicionista e recém-chegado de Portugal. É aí combinado o encontro de Badajoz, entre Humberto Delgado, Mário de Carvalho, Ernesto de Castro e Sousa e alguns 'militares' portugueses das fileiras da Oposição Democrática.» A data exacta viria a ser fixada mais tarde.

No dia imediato, 28 de Dezembro, o general apareceu inesperadamente no Hotel Commodore, onde se haviam hospedado os dois homens da PIDE. O objectivo era entregar «pessoalmente a Ernesto Lopes um maço de cartas dirigidas à Dr.ª Alcina Bastos». Era a prova provada de que Castro e Sousa - aliás, Lopes Ramos - «havia, efectivamente, granjeado a confiança pessoal de Delgado».

O sucesso da reunião de Paris permitiu consolidar o projecto delineado pelo estado-maior da PIDE. Ou, mais rigorosamente, por Barbieri e Pereira de Carvalho. Com efeito, o director-geral, Silva Pais, «discordava das linhas gerais do plano, não participando, via de regra, das conversas travadas sobre o assunto».

Natural do Barreiro, Fernando Eduardo da Silva Pais, de 54 anos, era director-geral desde Abril de 1962. Só que, apesar de ocupar o topo da hierarquia, «deixava-se intimidar um pouco perante o Barbieri. Este era muito mais culto e inteligente do que o Silva Pais, que se sentia inferiorizado». Ainda por cima «com os serviços secretos na mão», Barbieri era quem, na altura, «assumia o papel principal» na organização, «acolitado por Pereira de Carvalho, o verdadeiro nº 2», enquanto Silva Pais «havia sido relegado para funções quase marginais».

Mas em que consistia, afinal, o plano? «Raptar o general e levá-lo clandestinamente para Portugal, para lhe ser dada voz de prisão e responder em tribunal por 'actos de terrorismo'.» A ideia de Casaco, como haveria de declarar em Madrid logo após o 25 de Abril, era «cloroformizar o general», por forma a adormecê-lo, transportando-o de seguida «na mala do automóvel pela fronteira de S. Leonardo».

Casaco nega que a morte do general fosse o objectivo do plano, pelo menos tal qual lhe foi transmitido. Muitos anos depois, quando o caso subiu a tribunal, a acusação haveria de considerar que «o objectivo central» da direcção da polícia era o de «reduzir» o general «à não actuação, quaisquer que fossem os meios necessários para tanto» - o que incluiria, obviamente, a possibilidade da liquidação física. Esta tese, contudo, não foi acolhida pelos juízes do Tribunal Militar. Na sua apreciação, a morte não figurava no plano traçado, que visava, outrossim, «tentar raptar e prender» o general, «trazendo-o para Portugal».

Do ponto de vista legal, a detenção de Delgado justificar-se-ia, segundo Casaco, «por ter sido condenado pelos tribunais portugueses pelo grave crime da prática de terrorismo, tentado em Portugal por sequazes seus, oriundos do Brasil» - referência a um alegado projecto de «fazer ir pelos ares alguns postes de alta tensão e o comboio 'rápido' Lisboa-Porto, próximo de Alfarelos».

 

Brigada escolhida ou imposta a Casa?

 

A última fase da «Operação Outono» iniciou-se com a convocação de Casaco, já em Fevereiro de 1965, ao gabinete do director-geral. Presente o triunvirato da PIDE, ficou determinado, segundo o acórdão do tribunal, que «Casaco chefiaria a brigada» e que «assumiria o falso papel de Coronel do Exército» ido ao encontro do general. Diferente é a versão do inspector: «Fui incumbido de acompanhar e proteger a brigada que iria tentar deter o general em Badajoz, no dia 13.» A escolha foi justificada pelo facto «de me considerarem pessoa capaz de efectuar essa protecção, dado gozar de grande influência junto das autoridades militares e civis das províncias de Cáceres e Badajoz e, especialmente, dos altos comandos policiais de Madrid».

Casaco prossegue: «Disciplinadamente tive de aceitar a missão, mas não deixei de chamar a atenção dos meus superiores para os perigos que implicitamente acarretaria tão perigosa incumbência, porque seria extremamente arriscado fazer passar pela fronteira espanhola o general sem que este protestasse, o que poderia provocar um conflito não só entre as duas polícias, mas, principalmente, entre os governos de Portugal e de Espanha.»

A brigada seria completada pelo sub-inspector Ernesto Lopes Ramos - o elo de contacto com Delgado - e pelos chefes de brigada Agostinho Tienza e Casimiro Monteiro, ambos de 44 anos. Natural de Alcáçova (Elvas), Agostinho Giraldo Cilero Tienza entrara para a PIDE em 1947 e era o motorista de Casaco. Nascido em Goa, Casimiro Emérito Rosa Teles Jordão Monteiro só fora admitido na PIDE em Novembro do ano anterior. No seu cadastro figuravam vários crimes de sangue, particularmente na antiga Índia Portuguesa. «Era um facínora», reconhece Casaco; «matava a torto e a direito. Mas era um patriota exacerbado».

Quem escolheu estes dois agentes? O Tribunal foi peremptório, ao sentenciar que Tienza e Casimiro Monteiro «foram escolhidos» por Casaco. Este, porém, diz que «a brigada foi-me imposta pelo triunvirato». Mais: os restantes elementos «tinham sido instruídos na minha ausência» - instruções que, de resto, «não me foram dadas a conhecer».

Instado por Casaco a explicar a razão deste procedimento, Pereira de Carvalho «alegou que não se justificaria a realização de uma reunião conjunta de todos os funcionários» e reiterou que «a minha missão se limitaria, unicamente, a protegê-los de qualquer eventual interferência por parte das autoridades espanholas e nada mais».

Casaco aceitou a «diligência» de que foi incumbido, apesar de, sublinha, a ter considerado «uma estupidez, tanto mais que Delgado não oferecia qualquer perigo, por ser um homem gravemente doente (há mais de um ano que derramava pus do ventre, de forma quase incontida, e que os médicos em Roma nada puderam fazer contra este mal, dando-lhe o máximo de um ano de vida)». Além de que, em sua opinião, ele «não dispunha de qualquer crédito político ou revolucionário e, em consequência, mais tarde ou mais cedo, se apresentaria às autoridades portuguesas», até porque estava «sem fundos para a sua subsistência e da sua amante».

 

A armadilha de Badajoz

 

A brigada largou de Lisboa na tarde de 12 de Fevereiro. Monteiro e Tienza seguiram no carro deste, um Opel verde e creme, com a matrícula EI-44-39; Ernesto Lopes e Casaco foram na viatura do primeiro, o Renault Caravelle IA-65-40. As viaturas e os agentes tinham documentação falsa. Casaco utilizou um passaporte a que já recorrera numa viagem ao Brasil, em nome de Roberto Vurrita Barral, um cidadão da Guatemala; Ernesto Lopes serviu-se de documentos passados em nome de Ernesto de Castro Sousa, o tal falso advogado; Tienza seguiu como se fosse Filipe Garcia Tavares; e a Monteiro foi dada a falsa identidade de Washdeo Kundaumal Nilpuri, da ilha de Jersey.

O grupo passou a noite numa pensão em Reguengos de Monsaraz. Na manhã seguinte os dois carros tomaram a direcção do posto fronteiriço de S. Leonardo, chefiado pelo agente da PIDE António Gonçalves Semedo. Antes, substituíram as placas de matrícula de ambos os veículos por outras, falsas. Em S. Leonardo, «ordenei a todos os funcionários que deixassem as suas armas de serviço no posto fronteiriço». Casaco assegura que «as armas foram depositadas e guardadas» pelo chefe do posto - o que foi formalmente negado, em tribunal, pelo próprio António Semedo.

Já no lado espanhol da fronteira, «verifiquei que, no carro do Tienza, se encontravam um garrafão, um saco com cal, uma picareta e uma pá». Admirado ao ver o ácido sulfúrico e a cal viva, Casaco terá perguntado a Tienza «que material era aquele, respondendo-me o próprio que se destinava a umas obras que estavam em curso, na sua casa em Sintra, e que não tinha tido a oportunidade de o retirar do carro». Este pormenor não condiz com uma declaração de Casaco em Madrid, em 1974, segundo a qual «ignorava totalmente a existência daqueles produtos destrutivos» até ao momento em que os corpos foram enterrados.

Para o projectado encontro com Delgado, foi escolhido um local ermo, perto da estrada principal que liga Badajoz a Olivença. Foi aí que, cerca das 15 horas, surgiu a viatura de Ernesto Lopes, transportando o general. No assento da retaguarda, uma personagem não prevista no elenco idealizado pela PIDE: Arajaryr Campos, a secretária do general.

Carioca de 34 anos, divorciada, Arajaryr Canto Moreira de Campos era a dedicada colaboradora do general, que acompanhava para todo o lado desde há cinco anos. A apreciação de Casaco é deveras pejorativa, referindo-se sempre a Arajaryr como «a amante brasileira».

A aguardar a chegada do general estavam, ansiosos e impacientes, os outros três elementos da PIDE, supostos «oficiais do Exército português anti-situacionistas», liderados por um imaginário coronel: Casaco.

 

Monteiro dispara sobre Delgado...

 

É aqui que a versão do ex-inspector mais difere dos factos dados como provados pelo tribunal. Segundo o acórdão, Casaco estaria no interior da viatura de Tienza, a uma distância de cerca de dez metros do local onde se deteve o carro em que viajava Delgado. «Isso é falso», protesta Casaco, que assegura que não só não estava no carro como ficara «a cerca de 120 metros de distância», com o objectivo de «impedir qualquer possível intervenção das autoridades espanholas, pois o general poderia ter alguém a protegê-lo ou estar a ser seguido».

Continuando a citar o texto judicial, Rosa Casaco - que se passava por um coronel que Ernesto Lopes prometera trazer de Lisboa - saiu do carro e dirigiu-se ao encontro do general. Mais lesto, Casimiro Monteiro, que já estava fora do veículo, tomou a dianteira e, ao aproximar-se de Delgado, empunhou uma pistola e disparou sobre o general.

O revólver, de fabrico francês, de modelo «Unique», estava munido de um silenciador e não fazia parte do armamento distribuído ao pessoal da PIDE, de marca «Walther». Atingido na cabeça, Humberto Delgado teve morte imediata.

Casaco nega que se tenha dirigido ao general, até porque este o «conhecia pessoalmente», desde os tempos em que trabalhara na aeroporto de Lisboa. Mantém a versão de que assistiu a tudo de longe: «Voltando a minha atenção para a estrada, ouvi um disparo seco e vibrante, como se fosse uma pistola de pressão de ar, vindo do alto da colina, e gritos agudos femininos. Verifiquei, então, que o Casimiro Monteiro estava abatendo o general.» Estaria Delgado armado, como alguns membros da brigada viriam mais tarde a sustentar? «Eu não vi arma nenhuma.» Já o dissera, de resto, em Madrid: «O general não estava armado, tendo disso absoluta certeza.»

 

...e Tienza mata Arajaryr

 

Testemunha impotente de um assassínio a sangue frio, a secretária, descontrolada, desatou aos gritos. «Assustado», prossegue Casaco, «corri coxeando para o topo do monte e gritei: 'Calem-me essa mulher'». Após o que também Arajaryr foi mortalmente baleada. Segundo o tribunal, o autor do segundo homicídio voltou a ser Casimiro Monteiro. Casaco desmente em absoluto e acusa - tal como fizera na declaração de Madrid - o seu ex-motorista, Agostinho Tienza, o que até levou Ernesto Lopes a gritar «Eh pá, não me fodas o carro!», aparentemente mais preocupado com a viatura do que com as mortes. A arma era do mesmo modelo que a utilizada por Monteiro.

«Perante a consumação deste duplo crime», prossegue, «manifestei, de imediato, a minha veemente repulsa por tal acto tão miserável e, também, por ter sido enganado pelos meus superiores. Admiti, imediatamente, que o Monteiro e o Tienza iam predestinados e preparados para tão nefando acto, uma vez que ambos eram portadores de pistolas com silenciadores.» Casaco garante que interpelou os seus subordinados, «ao que o Casimiro Monteiro respondeu: 'O Sr. Inspector não se meta neste assunto! Isto não é nada consigo'», ao mesmo tempo que se mostrava «ameaçador, com a pistola na mão». Mais tarde, Casaco terá indagado «junto dos elementos da brigada quem tinha dado a ordem de execução», mas não obteve «qualquer resposta». Cedo se convenceu que também Ernesto Lopes «nada sabia quanto à intenção de matar, porque os seus estados de espírito e de indignação eram idênticos aos meus».

 

Inúmeras contradições

 

Os dois cadaveres foram, então, metidos nas bagageiras dos automóveis. Aqui surge mais uma contradição. Para os juízes, ambos os corpos foram colocados na mala do Opel de Tienza, levados por Monteiro e Casaco. Este nega: «Eu tinha lá força para isso! Tinha acabado de ser operado a uma perna... Quem os transportou foram o Casimiro e o Tienza, cada um para sua bagageira.»

Os corpos acabaram por ser sepultados numa vala natural, num local a cerca de seis quilómetros a sul de Villa Nueva del Fresno. O acórdão não o confirmou, mas Casaco não tem dúvidas em afirmar que os corpos foram previamente regados com ácido sulfúrico e cal viva. As roupas e os documentos pessoais das vítimas «foram queimados, posteriormente, noutro local».

Em face do adiantado da hora, o grupo pernoitou na localidade espanhola de Aracena, tendo reentrado em Portugal na manhã seguinte, pela fronteira de Vila Verde de Ficalho. Pereira de Carvalho terá sido o primeiro responsável da PIDE a ser informado do resultado da missão. Casaco diz que foi pelo telefone, a partir da pousada de Serpa, onde a brigada almoçara. O acórdão sustenta que foi pessoalmente, na noite de dia 14, na residência de Pereira de Carvalho, em Lisboa.

Na manhã do dia seguinte, já na sede da PIDE, os seus três dirigentes máximos ouviram um relato completo do que se passara. «Todos eles manifestaram surpresa, em particular o major Silva Pais, que ficou aterrorizado.»

No final da reunião ficou estabelecido que seria guardado o mais absoluto silêncio sobre o assunto. Não sem que, antes, tenha sido determinada a destruição de todas as provas susceptíveis de incriminar a PIDE no duplo homicídio - desde a documentação (verdadeira e falsa) utilizada, até às duas viaturas. Nova e farta contradição surge neste ponto. Para Casaco, «não sei exactamente como isto se processou, mas, tanto quanto pude apurar, essa destruição terá tido lugar numa quinta próxima de Sintra, previamente alugada». O acórdão, contudo, é taxativo e acusa Rosa Casaco de ter tomado a iniciativa da destruição, seja dos automóveis, seja da maior parte da documentação.

Qual a justificação que Casaco apresenta para tantas e tão graves diferenças entre a sua versão e a sentença judicial? Desde logo, os mais de trinta anos que passaram sobre os acontecimentos e os seus inevitáveis efeitos sobre a memória de um octogenário. Aduz, por outro lado, que «a minha perturbação» no momento do crime «foi grande, o choque emocional tremendo, daí qualquer confusão que tenha surgido no meu espírito». Considera, finalmente, que durante o julgamento «todos me acusaram. Era fácil descarregar tudo para cima de mim, porque eu não estava presente, não me podia defender». Guardadas as devidas proporções, conclui que «as principais vítimas em todo este processo foram o Humberto Delgado e... eu!».

 

O telefone toca duas vezes

 

Uma semana depois do crime, Casaco recebeu uma chamada telefónica de Badajoz. Era Manuel Pozo, o chefe da polícia daquela província espanhola e velho amigo, que pedia «ajuda na identificação de uns passaportes e de uma bagagem abandonada no Hotel Simancas» - o mesmo onde Delgado dormira a sua derradeira noite.

Com a indispensável autorização de Silva Pais, e ainda que «bastante contrariado», Casaco rumou a Badajoz no dia 20 de Fevereiro. As suspeitas confirmaram-se em absoluto: «A documentação, as roupas, bagagens e uma bolsa de plástico com ligaduras cheias de pus pertenciam ao general e à sua amante.»

A 25 de Abril, o telefone voltou a tocar, desta feita a partir de Madrid. Na linha, um outro amigo espanhol, general Eduardo Blanco Rodriguez, director da Dirección General de Seguridad, «dizendo-me que tinham aparecido», na véspera, «os esqueletos de um casal nas proximidades de Villa Nueva del Fresno e que se suspeitava teria sido obra de um grupo de portugueses que atravessou aquela fronteira no dia 13 de Fevereiro».

Os cadaveres haviam sido localizados junto a um caminho conhecido por «Los Malos Pasos», que conduz à fronteira portuguesa. O chefe da secreta espanhola «solicitou-me que investigasse a quem pertenciam» as matrículas registadas no posto fronteiriço espanhol. A resposta foi dada meia hora depois: «Telefonei ao general referindo que as matrículas indicadas pertenceram a um camião e a um táxi, ambos fora de circulação, há muitos anos.» Perante «tão insólito» facto, o general Blanco Rodriguez pediu ao amigo português que fosse pessoalmente a Madrid «apresentar explicações».

 

«Menti descaradamente»

 

Posta a questão à hierarquia da PIDE, esta concordou com a ida à capital espanhola, com o fito de «confirmar que a polícia portuguesa nada tinha a ver com os corpos aparecidos»

Em Madrid, as autoridades já não tinham dúvidas: os cadaveres em causa eram mesmo do general Delgado e da secretária Arajaryr.

Alarmada com as imprevisíveis consequências de um crime político daquele jaez, perpetrado no seu território, a DGS espanhola dispensou um acolhimento muito especial ao enviado da PIDE. «Fui recebido num amplo salão pelo general Blanco, pelo subdirector-geral, pelo chefe dos Serviços Secretos daquela corporação, Vicente Reguengo, e pelos chefes das 'secretas' dos três ramos das Forças Armadas espanholas.»

A selecta assistência parecia ter uma ideia já formada sobre a autoria dos dois crimes. «Notei que todos aqueles senhores estavam convencidos que o duplo assassínio tinha sido obra da polícia portuguesa. Tive dificuldade em convencê-los de que teria sido acção de terceiros, ou seja, um saldar de contas entre grupos oposicionistas rivais» - a versão oficial inventada e posta a correr pelo regime de Lisboa.

A reunião de Madrid esteve longe de ter sido agradável para o inspector português. «Fui submetido a um interrogatório implacável durante várias horas. Consegui convencer os presentes que se iria proceder a exaustivas diligências em Portugal para se tentar descobrir quem seriam os ocupantes dos dois carros suspeitos. Devo dizer que passei um mau bocado, por ter que mentir descaradamente diante daquela assembleia, alguns deles meus amigos.»

No íntimo, verberou os seus superiores por não terem «tido a coragem de se justificar diante das autoridades espanholas, fugindo às suas responsabilidades por incompetência e cobardia, 'empurrando-me' para a 'boca do lobo'».

Desde então, admite, «passei a manifestar uma irritação maior» perante a «troika» dirigente da PIDE, «por me terem envolvido no crime que considerei inútil, contraproducente e disparatado, por terem transformado o general num mito que iria ser glosado por toda a oposição durante anos».

Na sequência da convocação de Casaco a Madrid, o tenente-coronel Blanco Rodriguez veio a Lisboa a 7 de Maio. O chefe da DGS espanhola discutiu com a direcção da PIDE uma articulação entre as duas polícias em torno do escaldante crime. Com o mesmo objectivo, Barbieri Cardoso voou até Madrid em 18 de Maio. A sensação de Rosa Casaco é que «as autoridades espanholas não ficaram completamente convencidas» pela argumentação aduzida pela PIDE, ou seja, que nada tivera a haver com o duplo assassínio. Convencidas ou não, o facto é que «só vieram a saber a verdade dos factos depois do 25 de Abril de 1974».

 

Jornal EXPRESSO 1998

 

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 16:27
tags:

15
Jan 15

Artigo de 22 de Maio de 1885, do "correspondente da Praia d'Ancora", no Jornal da Manhã, publicado no Porto.  Sem mais comentários.

 

No juizo de direito da comarca de Caminha procedeu-se há dias ao auto de exame corpo de delicto directo na pessoa de Rozalina Martins Lírio, menor de 20 annos, filha do snr. Francisco Lírio, rico proprietário da freguezia d’Ancora e vereador da camara de Caminha, por participação ao ministério publico d’este snr. Contra o reverendo abbade da mesma freguesia pelas consequências funestas da seducção e relações ilícitas do pároco com a sua filha, segundo consta da participação.

Além das terríveis declarações da infeliz deshonestada foram inquiridas varias testemunhas. Mas oxalá que elle sirva de exemplo, e que nunca mais um sacerdote, e particularmente um pároco, caia em delicto tão grave e tão desairoso para uma classe inteira, que soffre sempre na sua dignidade e no seu estado, embora uma corporação ou classe não seja responsável pelas faltas de alguns dos seus membros ou de qualquer dos indivíduos que a ella pertence.

Isto é certo; mas não o é menos que hoje em dia os vícios ou crimes d’sacerdote se fazem reflectir sobre toda a classe ecclesiastica, porque não se diz -“o padre fulano cometeu esta culpa”; mas sim-“os padres comettem estas culpas e por isso é que a religião está perdida”.

Não se deve nem pode discorrer assim contra a classe sacerdotal e contra a religião; mas os que não sabem o principio de que uma classe ou corporação  não é responsável pelos abusos e delictos de qualquer dos seus membros, acusam a classe em geral e não o individuo em particular que a ella pertence, e que é o único responsável; e os inimigos d’essa classe e da religião aproveitam estes factos particulares para a consecução dos seus fins, que não são bons.

Eis o motivo principal porque sentimos profundamente que tal facto se tenha dado e que em juízo esteja a acusação d’elle. Esta facto é do domínio publico; e por isso temos direito e obrigação de nos referismos a elle.

 

No juízo ordinário da Riba d’Ancora, procedeu-se também a auto do corpo de delicto contra Gerardo Martins Lírio, a requerimento do referido abbade, que acusa aquelle individuo, irmão da desonhestada, de lhe haver atirado um tiro entre umas devezas.

É, porem, opinião geral e provável, senão certa, que similhante facto não se deu, ou pelo menos não se prova, segundo nos consta e é publico.

Entretanto esta publicidade pode ser e é proveitosa para exemplo de todos e emenda dos delinquentes.

publicado por Brito Ribeiro às 12:35
tags:

14
Nov 14

Em 1957, José Elias Martins dos Santos, um ancorense emigrado na Argentina, oferece a verba para a construção de uma cruz luminosa, que seja suficientemente alta para servir de ponto de referência e orientação dos pescadores da sua terra natal.

4.jpgFoi construída num dos pontos mais elevados do Monte Calvário no ano seguinte, pelo construtor civil e conterrâneo Álvaro Loureiro, com o custo de 14 contos e a altura aproximada de 13 metros.

 

O custo da energia eléctrica consumida ficou a cargo de um grupo de cidadãos ancorenses que se cotizavam regularmente.

No ano de 1979 a iluminação da cruz é substituída. Em 1998 depois de ter estado apagada vários anos, o Orfeão de Vila Praia de Âncora toma a iniciativa de a mandar reparar.

publicado por Brito Ribeiro às 10:10
tags:

05
Jul 14

Este é um documento inestimavel da vivencia nos mares do norte, partilhado na primeira pessoa, onde os nossos conterrâneos labutavam em condições muito duras.

Ora para fugir à fome, ora para escapar ao serviço militar, a ida ao bacalhau passou de geração em geração até ao advento da democracia, quando as condições infra humanas praticadas, foram contestadas e irradicadas.

Em boa hora a Câmara Municipal de Caminha decidiu reunir para memória futura este conjunto de testemunhos, que contribuem decisivamente para se escrever a história deste povo marinheiro.

publicado por Brito Ribeiro às 16:00
tags:

22
Jun 14

Depois de ter publicado o post sobre o afundamento do "Maria Carlota", bacalhoeiro à linha onde dois Ancorenses trabalhavam, recebi diversas informações que devo partilhar neste espaço.

O Sebastião Simões tinha por alcunha "o Lonzinho", casado com a "Pinotas", eram moradores na Rua do Sol Posto. O Francisco Pires Oliveira, conhecido por "Chico das Pontas" foi viver para Almada onde nasceram cinco filhos.

Ficha de inscrição e matrículas no Grémio do Chico das Pontas

O barco que resgatou os naufrafos do "Maria Carlota" foi o navio hospital americano USAHS Charles Stafford, deixando-os em Nova York, de onde regressaram a Portugal. Ambos apareceram em Vila Praia de Âncora com roupa nova e de boa qualidade, segundo testemunhas que ainda se recordam dos casacos vistosos que o Lonzinho e o Chico das Pontas envergavam.

publicado por Brito Ribeiro às 15:16
tags:

19
Jun 14

Foi da estação rádio-telegráfica da Armada, na Horta, que informaram o Ministério da Marinha de que o “Maria Carlota”, que vinha dos bancos da Terra nova com um carregamento de bacalhau, pedia socorro por ter água aberta e estar a afundar-se.

O capitão do lugre emitiu vários rádios informando que o seu navio começou a sofrer forte temporal e, por esse motivo, produziram-se dois rombos pelos quais esta a entrar muita água.

As bombas de bordo conseguiram esgotar a água, de modo a não deixar que o navio corresse o risco de se afundar. As vagas alterosas, porém, punham o navio em perigo. A tripulação portara-se corajosamente.

Além do “Queen Elizabeth”, outros navios navegaram em direcção ao “Maria Carlota”, entre os quais o “Caramulo”. O arrastão “Álvaro Martins Homem” também estivera em contacto com o navio sinistrado. Notícias posteriores informam que a tripulação tivera de abandonar o lugre.

O último rádio recebido em Lisboa dizia que o “Maria Carlota” estava raso com a água e, que seguia à deriva, levado pelas vagas e pelo vento, na direcção Sul-Sudoeste.

O “Maria Carlota” pertencia ao armador sr. João Gonçalves Guerra e era um navio construído em madeira, em 1918, nos estaleiros da Nova Escócia. Deslocava 230 toneladas e tinha capacidade para recolher 4.632 quintais de peixe. Fizera diversas viagens à Terra Nova, contribuindo para o abastecimento do País na medida da capacidade dos seus porões. Desta vez, trazia a bordo um carregamento apreciável de bacalhau.

 

Lista de tripulantes embarcados no “Maria Carlota”

Capitão            António Fernandes Matias,              de Ílhavo

Imediato           Jorge Fort’ Homem,                        de Ílhavo

Cozinheiro        Tomé dos Santos Ferreira Gordo,   de Ílhavo

Aj. Cozinheiro  Celestino Esteves de Figueiredo,      de Ílhavo

Pescador          António Maria Valente,                    de Matosinhos

Pescador          Bartolomeu da Silva Boia,                de Lavos

Pescador          Domingos Lucas,                             da Fuzeta

Pescador          Francisco Serrano,                           da Nazaré

Pescador          Joaquim Fernandes Parracho,          de Ílhavo

Pescador          José Rodrigues Romão,                   de Ctº. Branco

Pescador          Manuel José Inácio,                         da Fuzeta

Pescador          Manuel Portugal,                             da Nazaré

Pescador          Paulo de Jesus Figueira,                   da Nazaré

Pescador          Silvério Antunes Fialho,                   da Nazaré

Pescador          Silvestre Soares Zabumba,              da Nazaré

Pescador          Sebastião Simões,                         de V.P. Âncora

Pescador          Francisco Pires Oliveira,               de V.P. Âncora

Pescador          João Francisco Gateira,                    de Ílhavo

Pescador          Manuel Maria Valente,                     de Matosinhos

Pescador          João Aires da Silva,                         de Ílhavo

Pescador          Manuel Dinis Faria,                          de V. do Conde

Pescador          Manuel Gonçalves Puga,                 de V. Castelo

Pescador          José da Silva e Sá,                          de Ílhavo

Pescador          Paulino Figueira,                              da Fuzeta

Pescador          António Pedrosa Luís,                      da Cova

Pescador          João Baptista Barbosa Carvalho,     da Nazaré

Pescador          Joaquim António Carreira,               de Portimão

Pescador          João Saraiva Verdade,                    de Ílhavo

Pescador         Abílio da Serrana Gandaio,               da Nazaré

Pescador         António Martins Júnior,                     da Fuzeta

Pescador          José Canas Júnior,                          de Setúbal

 

(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 5 de Novembro de 1947) Publicado em http://naviosenavegadores.blogspot.pt/

publicado por Brito Ribeiro às 09:28
tags:

22
Mai 14

«...a sua absoluta probidade política, a sua invulgar intuição clínica para diagnosticar e curar com os remédios rudimentares de há mais de meio século, a sua devoção humanitária à profissão de médico, da qual fazia um apostolado, impunham-no à admiração, granjeavam-lhe a amizade e o carinhoso respeito de todos...»

 

João de Barros Morais Cabral (1)

 

Luís Inocêncio Ramos Pereira nasceu a 18 de Setembro de 1870 na cidade do Porto. Era filho do comendador José Bento Ramos Pereira, natural de Riba d'Âncora, e de Maria Gertrudes da Silva Pereira.

Estudante prodigiosamente dotado, destacou-se como um dos primeiros representantes do Partido Republicano Português em Caminha. Formou-se depois em Medicina (1897), na Escola Médico-cirúrgica. Ali, ao terminar a carreira escolar, defendeu e publicou a tese «Algumas Palavras sobre a Anesthesia Cocaïnica». Desde então, ocupou vários cargos: Médico em Vila Praia de Âncora, Paredes de Coura e dos Caminhos de Ferro do Sul e Sudeste (1910), Administrador da Companhia do Niassa, Deputado à Assembleia Constituinte por Viana do Castelo (1911-1925), Inspector da Procuradoria de Lisboa, Provedor da Assistência em Lisboa (1913) e Senador da República (1913-1926).

Desempenhou um papel importante no Congresso, foi membro da Comissão de Agricultura, autor do projecto de lei para alterar os contratos de 27 de Setembro de 1904 e 4 de Março de 1907 sobre a construção e exploração dos caminhos-de-ferro de Braga a Guimarães, Braga a Monção e Viana a Ponte da Barca. Na sessão do Senado da República, no dia 27 de Fevereiro de 1924, apresentou um projecto de lei com o objectivo de elevar à categoria de vila a freguesia de Gontinhães:

 

«Senhores Senadores. — A freguesia de Gontinhães (Praia, de Âncora), do concelho de Caminha, tem progredido consideravelmente a ponto de ser a mais populosa do concelho.

É um grande centro comercial e industrial e tudo faz antever que num futuro muito breve deseje a sua autonomia administrativa, a fim de o seu desenvolvimento mais se acentuar.

Estância de turismo, como é, tem a sua comissão de iniciativa que carinhosamente estuda os projectos que hão-de facultar a Âncora o lugar de uma das nossas primeiras praias.

As condições naturais são de primeira ordem e talvez se possa afirmar que poucas serão as praias portuguesas que as tenham melhores.

Com a sua população de cerca de 3:500 habitantes está bem nos casos de ver as suas prerrogativas aumentadas e, prestando preito aos laboriosos filhos de Gontinhães (Praia de Âncora), tenho a honra de apresentar ao vosso critério o seguinte projecto de lei:

Artigo 1. ° Elevada à categoria de vila a freguesia de Gontinhães (Praia de Âncora), a qual se ficará denominando Vila Praia de Âncora.» (2)

 

Com o parecer favorável da Comissão de Administração Pública, a proposta foi aprovada por unanimidade na Câmara de Deputados, na sessão de 2 de Julho de 1924.

A população de Vila Praia de Âncora encontrou em Ramos Pereira não só um ardente defensor dos seus interesses, mas um grande médico amigo dos humildes, um homem de carácter, de valores sagrados. Para ele, a trilogia «liberdade, igualdade e fraternidade» tinha um amplo e profundo sentido na vida quotidiana.

Em 1918-1919,quando o país foi varrido por um surto de gripe, a «pneumónica», abandonou a capital e foi socorrer os doentes de Gontinhães, Afife, Moledo, Perre, Cristelo, Vile, Carreço e Caminha, sem esperar recompensa alguma aos cuidados que oferecia. De dia ou de noite, deslocava-se a pé, de comboio, de bicicleta ou em carro de cavalos. «Não cobrava contas, e algumas vezes ainda deixava aos pobres dinheiro para caldos e remédios» (3).

Nunca abandonou as gentes e a terra do seu pai. Afeiçoou-se para sempre à paisagem azul, ao mar, à comunidade piscatória, à vila. E lá está, mesmo depois da morte, que ocorreu em Lisboa, no dia 22 de Julho de 1938, a dormir o sono do descanso em campa rasa.

 

NOTAS

(1) João de Barros Morais Cabral. Natural de Vila Praia de Âncora. Juiz-conselheiro do Supremo Tribunal da Justiça.

(2) Diário da Câmara dos Deputados, Sessão de 2 de Julho de 1924

(3) Alexandre H. S. Rodrigues, Traços Biográficos (em prosa bárbara) do Dr. Luís Inocêncio Ramos Pereira e do seu Pai José Bento Ramos Pereira, Edição de Autor, Viana do Castelo, 1970, pg. 28

 

Texto original publicado em http://luisdantas.skyrock.com/2761731020-LUIS-INOCENCIO-RAMOS-PEREIRA.html acedido em 22-05-2014

publicado por Brito Ribeiro às 15:37
tags:

22
Abr 14

Da autoria do historiador Paulo Torres Bento, publicado pelo caminha@2000, este artigo revela a iniciativa e o empenho de alguns ancorenses em prol da sua terra.

 

Principal atração das Festas de Nossa Senhora da Bonança que, anualmente, desde 1883, se realizam em Vila Praia de Âncora nos primeiros dias de setembro, nem todos sabem que a procissão naval da Senhora da Ínsua foi somente introduzida no programa da romaria em 1960. Serão contudo ainda menos aqueles que têm conhecimento que, muitas décadas antes, no ano de 1909, nos derradeiros tempos da Monarquia, um grande evento náutico, profano e desportivo, integrou a festa maior ancorense. Uma regata de barcos à vela e a remos, da qual deu então extensa notícia o jornal vianense Vida Nova:

 

"A regata em Âncora — Promete ser uma festa muito distinta a regata que amanhã [12 de setembro] se realiza em Âncora, promovida pelo núcleo da Junta Local da Liga Naval Portuguesa daquela localidade marítima. A interessante diversão inicia-se à 1 hora da tarde, com o seguinte e definitivo programa:

1ª corrida — À vela — baleeiras do "Bérrio" — 1º prémio, objecto de arte; 2º, medalha de vermeille da Liga Naval.

2ª corrida — À vela — Barcas de 24 palmos de quilha — 1º prémio, 10$000 réis e medalha de cobre da Liga Naval; 2º prémio, 5$000 réis.

3ª corrida — Barcos pequenos de 19 palmos de quilha — 1º prémio, 10$000 réis e medalha de cobre da Liga Naval; 2º prémio, 5$000 réis.

4ª corrida — Barcos pequenos de 19 palmos, a remos — 1º prémio, 10$000 réis e medalha de cobre da Liga Naval; 2º prémio, 5$000 réis. (...)

 

O espaço a percorrer pelas embarcações à vela e a remos tem a forma de um triângulo, estando ao centro

fundeado o rebocador "Bérrio". Na primeira corrida tomam parte as baleeiras deste vapor, que são timonadas pelos seus ilustres oficiais. O júri é presidido pelo sr. A. Pereira de Matos, brioso oficial e comandante da "Bérrio", fazendo parte do mesmo o sr. conde de Villas Boas e outros cavalheiros cujos nomes acima damos.

Nas balizas permanecerão, como medida preventiva em caso de desastre e ainda para fazer a respectiva fiscalização, os barcos salva-vidas desta cidade [Viana] e de Caminha, e a lancha a vapor "Infante D.Manuel", em serviço no rio Minho. Nas baterias do forte daquela praia haverá um recinto reservado para as pessoas que, comodamente, quiseram assistir à distinta diversão. Custa a entrada 120 réis.

 

Para o brilhantismo da regata muito tem trabalhado o nosso amigo e distintíssimo clínico sr. dr. Luís I. Ramos Pereira, muito digno vice-presidente da Junta Local [da Liga Naval Portuguesa] daquela vizinha e linda praia do norte. Terminada a regata, formar-se-á uma flotilha com todos os barcos que nela entrarem, a qual acompanhará o júri ao portinho de Âncora, onde se fará o desembarque. A distribuição dos prémios faz-se após a instalação solene da Junta Local da Liga Naval, como consta do programa acima publicado. Sabemos que desta cidade [Viana] vão amanhã ali muitas das mais distintas famílias, afim de presenciarem o alegre festival marítimo." (Vida Nova, 11-09-1909).

 

 

São diversos os pormenores relevantes deste texto mais que centenário, a começar pela promotora do evento náutico — a Liga Naval Portuguesa —, organização que havia sido fundada em 1901 para defender o ressurgimento marítimo nacional e pugnar pelo reforço da Marinha de Guerra, muito graças ao empenho do Segundo-tenente António Alves Pereira de Matos (1874-1930), o mesmo oficial que agora assumia o comando do Bérrio. Não surpreende pois ser este o navio que prestava apoio na Praia de Âncora à regata, nela participando com as suas baleeiras e guarnição de 68 homens — o Bérrio era um rebocador, com o deslocamento de 498 toneladas e o comprimento de 40,50 m, que atingia a velocidade de 10 nós, garantidos por uma máquina a vapor de 1070 HP.

 

 

A componente ancorense da organização, por sua vez, era assumida pela Junta Local da Liga Naval na Praia de Âncora — umas das 62 criadas em todo o país —, cuja instalação se celebrava com esta regata, onde se destacava o nome do médico e político Luís Inocêncio Ramos Pereira (1870-1938), à época clínico camarário e presidente da Comissão Municipal Republicana de Caminha. Podemos ainda considerar local a participação da lancha-canhoneira Infante D. Manuel, que fazia a fiscalização no rio Minho, bem como dos bombeiros de Viana de Castelo e dos barcos salva-vidas de Viana e Caminha.

 

Também com interesse é a notícia saída na edição seguinte do Vida Nova, com o relato e os resultados da regata a revelarem a participação do próprio Luís Ramos Pereira — os desportos náuticos eram a sua paixão e chegou a ter um barco à vela na Praia de Âncora, a "Gaivota" — que mereceria até um prémio:

 

"No sábado, a regata que se efectuou sob os auspícios da Junta Local da Liga Naval da Praia de Âncora, esteve bastante animada, não se dando o menor desastre.

Pelas 11 horas e meia levantou ferro o "Bérrio", que fora da nossa barra [Viana] fundeou afim de receber o piquete de Bombeiros Voluntários (...). Às 2 horas da tarde iniciou-se a regata. Nas margens e nas baterias do forte, onde se viam muitas senhoras da colónia balnear, foi grande o número de pessoas que assistiu ao decorrer da esplêndida festa desportiva, que deu o seguinte resultado:

1ª corrida, à vela, baleeiras do "Bérrio" — 1º prémio, objecto de arte, ao sr. António Alemão Cysneros, imediato deste barco de guerra; 2º prémio, Medalha de vermeille, ao sr.dr. Luís Ramos Pereira.

2ª corrida, à vela, profissionais — 1º prémio de 10$000 réis à lancha "Santa Margarida"; 2º, de 5$000 réis à lancha "Laurinda".

3ª corrida, barcos pequenos — 1º prémio de 10$000 réis a Manuel Vasconcelos; 2º, de 5$000 réis, a Ezequiel Presa; 3º, de 2$500 réis, a Alfredo de Vasconcelos.

4ª corrida, barcos a remos — 1º prémio de 10$000 réis à lancha nº 1614 de Manuel Vasconcelos; 2º, à barca nº 81 de Ezequiel Presa." (Vida Nova, 14-09-1909).

 

Enfim, apetece imaginar que um menino, então com apenas 8 anos de idade, exultou naquela tarde com a

perícia náutica exibida pelo pai, aí se começando a definir a sua inclinação para a carreira profissional que o honraria no futuro. No ano em que se celebram os 40 anos do falecimento do Almirante Jorge Ramos Pereira (1901-1974) — e do 25 de abril, pelo qual tanto lutou e, ingloriamente, perdeu por dias — que melhor homenagem se podia prestar aos Ramos Pereira, pai e filho, do que (re)introduzir no programa das Festas de Nossa Senhora da Bonança uma grande regata desportiva que contasse com a participação da Marinha e de clubes náuticos da região, voltando a preencher de velas içadas ao vento o largo horizonte da baía da Praia de Âncora?

 

REFERÊNCIAS

Alexandre H. S. Rodrigues. Traços biográficos (em prosa bárbara) do Dr. Luís Inocêncio Ramos Pereira e de seu pai José Bento Ramos Pereira (testemunhos e documentos). Composto e impresso na Gráfica da Casa dos Rapazes, Viana do Castelo, 1970.

Glória Maria Marreiros. Almirante Jorge Ramos Pereira — Uma vida, um exemplo. Livros Horizonte, 2001.

Joaquim Bertão Saltão. Memorial — Liga Naval Portuguesa. Revista do Clube de Oficiais da Marinha Mercante. Nº84, janeiro/fevereiro de 2008, pp.5-9.

António Silva Ribeiro. Mahan e as marinhas como instrumento político. Revista Militar. Nº2500, maio de 2010, pp.465-483.

 

Agradecemos ao Rafael Capela as informações sobre a Festa da Senhora Bonança e a disponibilização da imagem do programa das festas de 1960.

publicado por Brito Ribeiro às 21:52
tags:

02
Abr 14

Texto de Rita Bouça publicado no jornal digital Caminha2000 (www.caminha2000.com)

 

É muito difícil conhecer com exactidão em que época os portugueses iniciaram a faina da pesca do bacalhau, na medida em que se encontra intimamente ligada à história dos Descobrimentos Portugueses, dos séc. XV e XVI

Porém, é conhecido que já no início do século XVI havia na Terra Nova grupos de pescadores oriundos de Aveiro e Viana, muito embora não fosse provável a existência de uma frota bacalhoeira organizada nesse tempo.

Mais tarde, já no reinado de D. Manuel I, foi o porto de Aveiro que mais pescadores enviou à Terra Nova.

Numa carta escrita em 1578 por um mercador de Bristol, Anthony Parkhurst, referindo-se à Terra Nova, é dito que: "Havia ali, em geral, mais de 100 velas espanholas pescando bacalhau, 50 velas portuguesas, 150 velas francesas e bretãs e 50 velas inglesas".

Durante o reinado de D. Sebastião a pesca do bacalhau continuou a desenvolver-se de forma activa.

Quando Portugal ficou sob o domínio Filipino aquela actividade sofreu um declínio assustador devido à trágica organização da Armada Invencível da responsabilidade de Filipe II de Espanha. Foram requisitados os navios que tivessem as melhores condições para as diferentes manobras de guerra e a frota portuguesa da pesca do bacalhau foi drasticamente arrasada, de modo que em 1624 não existia nenhum barco nos portos de Aveiro e Viana que pescasse na Terra Nova.

Foi preciso decorrer muitos e muitos anos até que Portugal recuperasse daquele fatídico desastre e só a partir do Séc. XIX o país passou a viver da importação do bacalhau, que se tornou no principal alimento de consumo corrente e com real significado na economia nacional.

No entanto, é no período que vai de 1830 a 1901 que se verifica um gradual crescimento da nossa frota pesqueira, embora devido a pesados emolumentos fiscais essa expansão não deixava produzir os resultados expectáveis.

A partir de 1901 em diante a frota bacalhoeira começa a ver resultados e é com este avanço que fica conhecida como "Época Heróica" e nesta época os pescadores portugueses exerciam a sua faina no Grande Banco que pertencia ao Banco da Terra Nova.

As condições de trabalho eram deveras difíceis, não só pelo rigor climatérico, mas também a rudimentar "pesca à linha" era o único método utilizado. Em que consistia? Cada navio de pesca à linha transportava entre 40 a 60 dóris, empilhados no convés. Os dóris eram botes de cerca de 4 metros com fundo chato. Os dóris eram colocados na água e cada pescador partia sozinho em busca de um local onde lançar as linhas. A pesca era feita com 20 linhas ligadas entre si formando aquilo a que se chamava um " trol ". O " trol " levava mil anzóis com iscos que podiam ser lulas, sardinhas, vísceras de cagarras ou de outras aves marinhas. No fim do dia de trabalho, o navio — mãe tocava um sino ou uma sirene e então os dóris regressavam. Os bacalhaus eram descarregados no convés e aí começavam a ser preparados para salgar nos porões.  *

Passado cerca de trinta e poucos anos, mais precisamente em 1934 o método arcaico de pesca — "pesca à linha" — mantinha-se inalterado. Apesar de tudo, o Estado Novo começa a manifestar interesse pela indústria bacalhoeira. A reconversão da frota de pesca "à linha", em arrasto, poderia ser uma possibilidade. No entanto, os armadores entendiam que se tratava de um investimento dispendioso e difícil de concretizar. Verificou-se que à medida que as embarcações iam ficando sem utilidade a sua natural substituição acontecia.

Porém, até aos anos sessenta os lucros obtidos pelos armadores, à custa de uma exploração de mão-de-obra sem limites, não se destinavam à modernização da frota, mas pelo contrário, à armação de novos navios.

Tratava-se de uma mão-de-obra  miserável, sem condições de trabalho, oriunda principalmente do distrito de Viana do Castelo e Póvoa de Varzim, composta essencialmente por homens que para escaparem à guerra das colónias também passaram a vir de todo o País. O governo da altura decidiu equiparar sete campanhas de pesca à linha (sete anos) ao cumprimento do serviço militar. Serviam durante 5 anos seguidos ou seis intercalados. Era quase escravatura. Apesar de tudo a produção nacional do bacalhau aumentou significativamente até 1967.

 

No entanto, a nossa frota pesqueira nunca poderia competir com as de outros países europeus que possuíam navios tecnicamente mais preparados para a pesca de arrasto. Os armadores portugueses não equiparam as embarcações com as condições exigidas para que as frotas pesqueiras pudessem enfrentar as difíceis condições climatéricas que frequentemente fustigavam as zonas da pesca do bacalhau. Assim, havia períodos de longas paragens que favoreciam a faina dos outros países.

Apesar de tudo, a produtividade foi-se mantendo, provavelmente devido ao "benemérito" Estado Novo que criou um sistema de protecção à pesca nacional criando créditos com baixos juros e até subsídios não reembolsáveis. Será importante dizer que os destinatários desses benefícios eram grupos pertencentes ao corporativismo instalado no conhecido tempo do Estado Novo (Ver "Henrique Tenreiro — Um biografia política" de Álvaro Garrido, edição Círculo de Leitores e Temas e Debates).

As restrições à pesca em águas internacionais, a partir de 1967 e ampliadas a partir dos anos 70 devido à escassez dos recursos biológicos e à crescente competição internacional, são as primeiras causas de ordem externa determinantes para o início da crise na actividade.

No que concerne às causas internas será importante referir que a indústria bacalhoeira nunca acompanhou a de outros países devido à falta de visão na renovação e modernização das suas frotas, mantendo uma estrutura débil e pouco organizada. Por outro lado, os pescadores desta faina cansados de uma vida de autêntica escravatura começaram a repensar o seu "modus vivendi" e encontraram na emigração novas formas mais vantajosas de vida, partindo para a Alemanha, França onde o trabalho seria mais compensatório e a sua dignidade mais respeitada.

A 25 de Abril de 1974 assistia-se já a uma morte anunciada da indústria bacalhoeira tendo atingido o verdadeiro fim a partir de 1986, aquando da entrada de Portugal na União Europeia.

 

 * https://www.youtube.com/watch?v=Rez67FA6ZxQ

 

BIBLIOGRAFIA:

BALDAQUE DA SILVA, António — Estado actual das Pescas em Portugal (1892)

LOPES, Ana Maria e MARQUES, Francisco — Faina Maior - A Pesca do Bacalhau nos Mares da Terra Nova (Quetzal,1996)

MOUTINHO, Mário — História da Pesca do Bacalhau (Estampa, 1985)

Museu Marítimo de Ílhavo, Âncora Editora, 2008

QUIRINO DA FONSECA, Henrique — Os Portugueses no Mar (Dinalivro, 1989)

SAMPAIO, A — As póvoas marítimas, Estudos Históricos e Económicos, Vol. I Porto, 1923.

 

Rita Bouça

 

publicado por Brito Ribeiro às 11:23
tags:

Julho 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


Relógio
Visitantes
contador de visitas gratis
Hospedagem de Sites
O Tempo
miarroba.com
Buffering...
mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO