Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

08
Nov 14

É com preocupação que vejo as bacias hidrográficas dos principais cursos de água do Alto Minho estarem bastante desflorestadas, originando perda de biodiversidade, erosão do solo e alteração dos ciclos da água, do oxigénio e do carbono. Uma bacia hidrográfica é definida em função de um curso de água e constitui a área em que as águas precipitadas são conduzidas para uma rede hidrográfica, ou seja, é a área total drenada por um rio e seus afluentes.

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 A desflorestação no norte de Portugal é causada quase exclusivamente pelo efeito dos incêndios florestais e com o fim do verão estes saíram da agenda política, para poderem ressurgir na próxima primavera, com declarações solenes da parte do poder, com recriminações da parte dos bombeiros, dança de cadeiras e outras negociatas, que pela frequência dos últimos anos, nem sequer chegam para nos espantar. Retemos fugazmente o horror das imagens, a memória dos dramas humanos e os testemunhos emotivos de quem sentiu as labaredas por perto. No próximo ano haverá mais.

Há muito que sabemos que a produção florestal em Portugal está seriamente condicionada pela ocorrência de incêndios e pela inércia das políticas que surgem frouxas, tarde e a más horas, deixando frequentemente tudo na mesma, com o Estado a dar o pior exemplo em termos de prevenção e regeneração das áreas ardidas.

A perda de biodiversidade, a erosão dos solos e a colonização por infestantes é notória no Alto Minho e o Estado ainda veio recentemente agravar a situação com a publicação do decreto-lei 96/2013, que na prática simplifica a plantação de eucaliptos, dificultando a plantação de espécies florestais autóctones como sobreiros, castanheiros ou carvalhos.

Na Serra D’Arga, por exemplo, aumentam descontroladamente as áreas infestadas de Haquea Cericea, um arbusto espinhoso que tem a particularidade de ser extraordinariamente resistente ao vento, à seca e ao fogo, criando densidades elevadas em grandes extensões. Forma bosquetes densos e impenetráveis impedindo o desenvolvimento da vegetação nativa, afectando a vida selvagem, reduzindo a quantidade de água disponível e aumentando a probabilidade de ocorrência de fogo.

 A erosão é a destruição do solo e das rochas e consequentemente o seu transporte, em geral feito pela água da chuva e pelo vento, destruindo as estruturas que compõem o solo: areias, argilas, óxidos e húmus. Estas estruturas são transportadas para as partes mais baixas das bacias hidrográficas e vão assorear alguns cursos de água.

A erosão destrói, não apenas os solos, mas também as águas subterrâneas e tem-se tornado num problema muito sério, tornando-se necessário que se adaptem determinadas práticas de conservação dos solos. Porquê?

Porque quando os solos são cobertos de floresta a erosão é muito pequena e quase inexistente, além de promover a retenção e infiltração de água no solo. O problema ocorre quando o homem destrói as florestas ou estas são destruídas por factores externos como os incêndios, deixando o solo exposto, tornando-se a erosão severa, que pode levar a alterações climáticas e à desertificação em casos extremos.

Provavelmente muitos dos nossos autarcas tem um sentimento de preocupação acerca da desflorestação e do problema ambiental que ocorre em boa parte dos seus territórios, mas ainda não tem consciência da gravidade da situação, nem a fizeram reflectir na organização regional que agrega os diversos municípios, a Comunidade Intermunicipal do Alto Minho (CIM Alto Minho).

Tem esta organização a competência (e o desafio) não só de estudar e propor soluções para este problema regional, mas também a possibilidade de obter financiamento comunitário para uma grande acção de regeneração ambiental, devolvendo à floresta a capacidade de criar emprego, gerar riqueza e contribuir positivamente para uma melhoria ambiental e da qualidade de vida no Alto-Minho.

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 10:58
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12
Set 14

Esta foi a minha primeira colaboração com a revista "Vale mais", edição Setembro 2014.

 

A Comissão para a Reforma da Fiscalidade Ambiental entregou ao Governo um conjunto de propostas sob a forma de anteprojecto, que merece uma reflexão atenta, pois estão em causa custos não negligenciáveis para os cidadãos.

Uma das principais medidas, aborda a tributação do carbono por via de uma restruturação do Imposto sobre Produtos Petrolíferos (ISP), com impacto directo sobre todo o sistema económico.

Usa-se e abusa-se na aplicação de taxas e impostos específicos, com justificações espantosas. Basta recordar a taxa que foi introduzida no ISP em 2006 para ajudar a pagar as scuts e mais tarde portajaram essas vias, sem nunca ter retirado a taxa no ISP. Além disso, no momento em que o país precisa de alavancar a economia, designadamente com diminuição dos custos de produção, esta taxa sobre a energia tem o efeito contrário.

O caminho tem de ser outro, com medidas criativas, que promovam a redução da quantidade de dióxido de carbono na atmosfera, por via da inovação tecnológica na área industrial, com a criação de parques de estacionamento periféricos e transferes eficazes de transportes públicos nos centros urbanos, com a bonificação fiscal das viaturas menos poluentes (híbridos) e isenção no caso de viaturas eléctricas. A electrificação da Linha do Minho, por exemplo, é uma das medidas regionais que se impõe há muitos anos, sempre foi preterida em favor de outros projectos, quiçá menos importantes.

Uma das propostas do anteprojecto que considero positiva é o incentivo ao abate de veículos com mais de doze anos, pois o número de veículos abatidos tem vindo a descer consecutivamente, mesmo no último semestre, que registou uma recuperação apreciável na venda de veículos novos. Este incentivo ao abate, potencia a compra de veículos novos, menos poluentes e seguramente mais económicos, portanto, mais amigos do ambiente.

A terceira medida que me merece reparo é o imposto sobre o uso de sacos plásticos, a recair sobre o utilizador. Mais uma vez, defendo que há medidas igualmente eficazes na redução do consumo de plásticos, sem ser necessário recorrer à estafada fórmula do imposto. Há uma cadeia de supermercados, que implementou com êxito a oferta de sacos reutilizáveis, cobrando posteriormente o custo real do saco plástico, quando solicitado pelo cliente, conseguindo uma diminuição de 70% no consumo destes descartáveis.

A proposta para introduzir mais um imposto sobre o transporte aéreo, resume bem a filosofia que está subjacente a este anteprojecto, criar mais receitas para o Governo, tendo esta Comissão de Reforma da Fiscalidade Ambiental ignorado a máxima, reduzir, reutilizar e reciclar, além de não induzir ao consumidor nenhum princípio de sustentabilidade ambiental.

 

publicado por Brito Ribeiro às 12:16
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10
Jul 13

A odisseia do Porto de Mar de Vila Praia de Âncora no que toca a assoreamentos e consequentes dragagens é digna de uma reflexão séria. Lamentavelmente, esta reflexão não está feita e provavelmente nem sequer interessa à classe política, mais interessada em usar como arma de arremesso a paternidade da obra e o enjeitamento da culpa, nos erros de concepção do projecto.

Há uns meses a esta data, tomei conhecimento de um trabalho científico que aborda a questão da transposição de sedimentos em portos e outras embocaduras. É uma tese de mestrado (2008) da autoria de João Pedro Torres Pinheiro, Mestre em Engenharia Civil, especializado em Hidráulica, Recursos Hídricos e Ambiente. Neste trabalho há uma apreciação geral da problemática das embocaduras de portos, transporte sedimentar litoral e erosão costeira associada, estudando-se potencialidades da aplicação de sistemas de transposição artificial.

Foram estudados casos internacionais de sistemas de transposição artificial em termos do seu sucesso, das suas características técnicas, equipamento, potencialidades, limitações, custos e problemas associados. No objectivo final, o autor propõe possíveis soluções, baseadas em sistemas de transposição artificial, a casos portugueses, em concreto: Barra da Figueira da Foz, Praia da Aguda, Costa da Caparica, Barra de Aveiro e Vila Praia de Âncora.

É obvio que não posso aqui e agora, reproduzir ou mesmo resumir o estudo vertente, nem tenho competências para tal tarefa, mas de forma telegráfica dizer que o cerne da questão baseia-se num sistema de bombagem, geralmente automático, amovível, colocado no ponto de entrada/deposição dos sedimentos, que trabalhando algumas horas por dia, retira os sedimentos enviando-os através de um emissário para o local de recarga, seja em terra, seja no mar.

Este método que ainda não foi aplicado (tanto quanto sei) em Portugal, tem sido desenvolvido e aplicado com sucesso em países como os EUA ou a Austrália.

Acrescento também, que o estudo referido foi coordenado pelos Professores Doutores Fernando Veloso Gomes e Francisco Taveira Pinto da Universidade de Engenharia do Porto. Veloso Gomes é uma reconhecida autoridade internacional em dinâmica costeira e no conjunto, estes docentes garantem a credibilidade da análise e das soluções propostas no estudo.

 

Então o caso do assoreamento do Porto de Vila Praia de Âncora já foi objecto de um estudo científico e (aparentemente) ninguém sabe disso? Um estudo que aponta para uma solução de minimização do assoreamento e de combate à erosão da praia não é divulgado, nem discutido publicamente, acabando no fundo da gaveta do esquecimento. Porque não realizar um grande debate, envolvendo o autor do estudo e seus coordenadores, as autarquias, o IPTM, a Comunidade Intermunicipal do Alto Minho, associações representativas e sociedade civil, para esclarecer sobre o potencial destes métodos e a sua aplicabilidade ao caso local?

 

Os custos apresentados para o caso de Vila Praia de Âncora apontam para valores de instalação entre os 44 mil euros e os 72 mil euros, dependendo do tipo de bomba aplicada. Estes valores, obtidos ao ano de 2008, já compreendem a manutenção programada e o consumo de energia. Os custos de utilização nos anos seguintes rondariam os dois mil euros/ano.

Das duas, uma; ou isto é o ovo de Colombo ou a razão para o silêncio é mais que suspeita. O negócio das dragagens é um verdadeiro cancro para os recursos do Estado e é frequente estarem envolvidos em polémica e suspeição.

O recente caso da dragagem do porto de Mar de Vila Praia de Âncora espelha aquilo que acabei de dizer, pois o trabalho ficou a meio, o porto continua assoreado, sem condições de utilização na baixa-mar. Será que foram controladas as quantidades de inertes retirados? Será que as quantidades adjudicadas na empreitada tinham alguma correspondência com a realidade ou foram pura e simplesmente apontadas por conveniência? Fica a dúvida, levanta-se a suspeita.

 

Este método minimiza o assoreamento, não resolve os problemas estruturais decorrentes da má concepção do porto, mas a fazer fé no estudo apresentado, poderá reduzir para um sexto as consequências da transposição natural dos sedimentos.

Em termos práticos, podemos estar a falar da necessidade de fazer uma dragagem por década, em vez das dragagens de três em três anos, que nada resolvem e que apenas enchem os bolsos a meia dúzia.

 

publicado por Brito Ribeiro às 14:46
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29
Mai 13

“As praias portuguesas estão a perder areia e as barragens são as grandes responsáveis pela situação”, alerta o hidrobiólogo Adriano Bordalo e Sá, docente da Universidade do Porto e investigador do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar.

Dando como exemplo a bacia hidrográfica do Rio Douro, que tem ao longo do seu curso cerca de 50 barragens e que transporta anualmente cerca de 250 mil toneladas de areia em direcção ao mar, quando há 60 anos transportava na ordem dos dois milhões de toneladas de areia por ano. Portanto, oito vezes mais.

Falta pois a areia vinda de terra para o mar e, quer o Governo, quer os investigadores, quer as concessionárias das barragens sabem disso. O Governo até reconheceu o problema, mas tem-se limitado a fazer recargas de areias nos locais mais críticos, de modo a evitar que maresias mais violentas provoquem prejuízos maiores.

No que toca ao Governo, este tal como os anteriores, tem uma atitude reactiva e não pró activa, servindo os carregamentos de areia como solução transitória para manter as praias utilizáveis durante o Verão, porque o mar volta regularmente a levar a areia.

A solução em relação às barragens passará por fazerem descargas de fundos. No entanto, esta operação pressupõe a perda de volumes consideráveis de água e as empresas que exploram as barragens não estão dispostas a isso.

No que nos diz directamente respeito, a situação do Rio Minho é em tudo idêntica ao Rio Douro. Com efeito, o Rio Minho é “travado” por cerca de 45 aproveitamentos hidráulicos existentes ao longo da sua bacia hidrográfica, que retem grande parte do caudal de inertes, ficando estes depositados a montante das barragens.

Ao contrário do que nos querem fazer acreditar, a hidroelectricidade não é verde e tem custos ambientais imensos (este tema irei desenvolvê-lo numa próxima oportunidade).

Outra questão prende-se com a falta de ordenamento da orla costeira. O desafio actual consiste em minimizar a erosão, através de uma gestão mais eficaz, quer protegendo e recuperando sistemas dunares ainda existentes, quer demolindo construções que o POOC (Plano de Ordenamento da Orla Costeira) contempla.

E no Concelho de Caminha temos matéria mais que suficiente para reflectir, nomeadamente nas praias da Gelfa ou Moledo.

Também, quando falam de projectos de navegabilidade do Rio Minho, é claramente sobrevalorizar o acessório, fazendo vista grossa ao essencial, algo que apenas compreendo pela proximidade de um acto eleitoral, pela necessidade de preencher agenda política e pelo crónico desprezo pelas questões ambientais.

“É preciso ter coragem de forma a proteger o bem comum, em detrimento do bem particular”, defende Bordalo e Sá. Eu acrescentaria que é necessária a coragem de dizer "não" a gente economicamente (e politicamente) muito poderosa, é preciso ter bom senso e visão de futuro, além de uma dose generosa de humildade perante a natureza e as suas especificidades.

publicado por Brito Ribeiro às 16:13
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28
Ago 12
Utilizando fotos de diversos autores, Helena Ribeiro realizou este trabalho simples e objectivo, de homenagem a Vila Praia de Âncora.

publicado por Brito Ribeiro às 15:31
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23
Out 11
...nada melhor que recordá-lo!
publicado por Brito Ribeiro às 15:14
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30
Ago 11

Muitos pescadores ancorenses passaram pela pesca do bacalhau nos bancos da Terra Nova. Uns, os mais antigos, em lugres à vela, trabalhando na pesca à linha. Outros, os mais novos, conheceram de perto a tecnica do arrasto, tanto em navios fábrica portugueses como em navios alemães destino de muitos emigrantes nos anos setenta e oitenta. Este artigo foi publicado no excelente blog http://caxinas-a-freguesia.blogs.sapo.pt/ de onde o retirei com o devido agradecimento.

 

Há 500 anos, o explorador John Cabot regressava das águas em volta do que agora chamamos Terra Nova e reportava que o bacalhau era tanto que se podia apanhar com simples cestos à borda dos navios. Cabot tinha "descoberto" (algo muito discutível) um recurso que mudaria a Inglaterra para sempre, a base de um comércio marítimo que daria àquela pequena ilha-reino a riqueza, artes e capacidade de construção naval que a tornaria num império global. Ele havia descoberto os maiores Bancos de pesca que o mundo jamais conhecera, águas tão cheias de vida que uma vasta extensão do Novo-Mundo foi colonizada somente para recolher tamanho prémio.

Um século após Cabot, capitães de pesca Ingleses ainda reportavam baixios de bacalhau “tão espessos ao pé da costa que mal se consegue remar através deles”. Havia bacalhaus de 1,8, a 2 metros de comprimento a pesar tanto como 90 quilos. Havia grandes bancos de ostras, tão grandes como sapatos. Com a maré baixa, crianças eram mandadas para a beira-mar para a apanha de lagostas de 5 a 10 quilos. As corridas da desova do arenque, lula e capelim eram colossais, deixando boquiabertos observadores durante quatro séculos. Hoje, o peixe da Terra Nova desapareceu.

Das 10 províncias do Canadá, o território conjunto da Terra Nova e Labrador é o menos acessível. A maioria da sua população de meio milhão, vivem na grande ilha da Terra Nova, uma massa de terra de 39.500 milhas quadradas que consiste em costas rochosas, colinas selvagens e montes de pinheiros. No Inverno a ilha é bafejada por ventos do Ártico e em inícios do Verão icebergues passam pela costa vindos da Gronelândia. O Labrador, 3 vezes maior que a Terra Nova, contém apenas uns poucos milhares de habitantes, pois é demasiado frio, descampado e virado a Norte para suportar maior população. Mesmo no Verão, uma viagem de Boston para St. John´s, a capital, leva 16 horas de carro e 14 de ferry.

Tal como a maioria da Terra Nova, a península de Burin a Sul foi fundada com base na pesca. Existem provas da presença de pescadores Bascos como estação de pesca de Verão por alturas dos anos 1500s. Pescadores Franceses podem ter começado a viver lá por alturas dos 1640s, embora a maioria tenha abandonado a área quando o território foi cedido à Inglaterra nos inícios do séc. XVIII. No auge da pesca nos Grandes Bancos com escunas, as comunidades de Burin estavam cheias de vida e enormes mansões Vitorianas foram construídas na cidade de Grand Bank. Durante a era industrial mecanizada de arrastões, a península estava no centro do processamento de peixe com fábricas de trabalho contínuo em Fortune, Marystown, St. Lawrence e Grand Bank. A maioria da população de 29.000 habitantes na península ou pescava ou trabalhava nas fábricas ou nos estaleiros navais de construção de arrastões que alimentavam as sempre famintas linhas de produção. Estas fábricas forneciam os filetes de peixe para a McDonald´s e ainda o faz hoje, mas o peixe usado agora é importado da Europa.

A razão para tal é o facto dos grandes aglomerados de bacalhau do Norte terem sido “limpos” por grandes redes de arrasto e o Governo encerrou a maior faina do mundo por falta de peixe – um ridículo exemplo de fechar a porta do estábulo quando o cavalo já fugiu. Em 1996, a península de Burin registou a maior taxa de desemprego do país durante meses e 30% da população não tinha trabalho.

Até 1949, a Terra Nova foi uma colónia Inglesa e ainda hoje se sente que é um posto longínquo da Europa do Norte. Muita da sua história está ligada à Inglaterra e Irlanda por laços de família, comércio e política. Com o desenvolvimento das tecnologias de congelação em inícios da II Guerra Mundial, os E.U.A. tornaram-se o maior mercado para o bacalhau da Terra Nova, mas o contacto com o Canadá era muito pouco. Não é por acaso que St. John´s está localizada no extremo Leste da ilha, metida entre montes numa baía virada para a Inglaterra, algures para além dum perpétuo muro de nevoeiro. De St. John´s, Londres fica mais perto que Calgary e a Irlanda mais perto que Winnipeg.

A colonização da Terra Nova e na verdade de muita da América do Norte foi uma consequência da busca pelo bacalhau. Bacalhau bem seco e salgado durava por longos períodos, algo de muito importante antes da moderna refrigeração, sendo relativamente leve e fácil de transportar. Desde o advento das pescas no Novo Mundo em inícios do séc. XIV, que havia um mercado insaciável por bacalhau salgado na Europa. Era de longe uma fonte mais barata de proteínas que bife, porco ou cordeiro e a única fonte permitida de proteínas aos Católicos durante 166 dias de cada ano. Rentável, transportável e facilmente comercializado, o bacalhau rivalizaria com o ouro da América do Sul e açúcar das Caraíbas.

Contudo a história da destruição do bacalhau começa quando a era colonial da Terra Nova termina. Nos primeiros 4 séculos após Cabot, os habitantes da Terra Nova tinham pouco trabalho em encontrar e apanhar bacalhau. Pareciam ser eternos no seu número. Estes grandes e robustos peixes foram feitos para durar, sendo adaptáveis, omnívoros e bastante fecundos (uma grande fêmea produz 9 milhões de ovos numa única desova). O bacalhau do Atlântico sobreviveu na sua presente forma durante 10 milhões de anos, passando idades do gelo e aquecimentos globais que alteraram o nível dos mares em 90 metros. Vivem 20 ou mais anos e os seus ovos adaptam-se bem ao frio ou ao calor e com a riqueza de várias gerações ao mesmo tempo, o seu sucesso sempre foi garantido... até surgir a pesca industrializada.

O bacalhau pertence a uma família de peixe conhecida como “peixe do fundo”, assim denominada porque normalmente habita junto do fundo do mar ao longo da placa continental. Outras espécies das mesmas áreas são o eglefim, alabote, abrótea, e solha. Todas estas espécies foram intensamente pescadas e muitas partilham o mesmo fim do “primo” bacalhau. No entanto o bacalhau era o mais numeroso, valioso e importante. O bacalhau não vive apenas em cardumes mas sim em distintas populações reprodutoras. Cada qual movimenta-se como grandes “manadas” para se reproduzir e alimentar e raramente se mistura com outras. O bacalhau do Norte habita as costas geladas do Labrador e nordeste da Terra Nova. Outro grupo desova nos ricos em nutrientes Grandes Bancos, uma vasta série de montes submersos em águas pouco profundas ao largo da Terra Nova. Existem outras populações distintas no Golfo de St. Lawrence e nos Bancos de St. Pierre, perto de Burin; outras massas estão ao longo da Nova Escócia e no Banco de Georges ao largo da Nova Inglaterra. Estes últimos vivem em águas um pouco mais quentes e são maiores e mais “mexidos” que os do Norte. Outros grupos de bacalhau povoam as costas da Islândia e Europa.

Os pescadores beneficiam do facto do bacalhau se agrupar em grandes números. Na desova, congregam-se em massas de centenas de milhões de peixes. O peixe do Norte e Grandes Bancos enchia as correntes oceânicas com triliões de ovos o que tornava possível a sua pesca com linhas de mão (trol) e em décadas mais recentes a apanha de grupos inteiros com enormes redes içadas por arrastões do tamanho de pequenos transatlânticos. Mas durante vários séculos eram as migrações do bacalhau que determinavam quanto havia à mesa. Curiosamente, um dos alimentos do bacalhau, o capelim, desova na mesma zona e ambos migram depois para mais próximo da costa. O bacalhau na verdade come de tudo o que consiga meter à boca, o que os tornou versáteis por natureza, comendo desde mexilhões a caranguejos, lagostas, lulas e até outros jovens bacalhaus. Tal também tornava o isco de pesca fácil aos pescadores. Podem facilmente ser alados com um pedaço de chumbo, pedaços de “hot-dog” ou mesmo copos de plástico. Uma vez mordido o isco, não oferecem resistência até entrarem no bote.

publicado por Brito Ribeiro às 12:04
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28
Jun 11

Qualquer cidadão com o mínimo de bom senso dará razão ao Presidente da República quando apela à revitalização da agricultura e ao desenvolvimento rural. Cavaco Silva aponta assim, um caminho para o combate ao desemprego, à desertificação do interior, à crónica dependência alimentar das importações e ao aumento do peso específico do sector primário no PIB nacional. Apenas se esqueceu de referir que foi no seu consulado, enquanto primeiro-ministro, que se deram as maiores machadadas na agricultura e nas pescas, pagando-se indemnizações para abate de frota pesqueira, de gado e não produção vegetal.

Ao falar-se da agricultura, parte-se do princípio que a questão florestal está implícita, e neste particular, os governos da República tem-se comportado de forma miserável e hipócrita, enchendo-nos os ouvidos com retórica que não praticam, nem criam condições para reverter a degradação do sector, todos os anos martirizado pelos incêndios florestais.

 

Vale a pena reflectir sobre este flagelo que anualmente consome milhares de hectares de floresta e milhões de euros em meios de combate. Contrariamente ao que as estatísticas governamentais pretendem provar, todos temos consciência que a maioria esmagadora dos incêndios tem origem criminosa e este é, rigorosamente, um problema de segurança pública.

Não pode ser menosprezado pelo facto de ser “apenas” um fogo florestal, que nem sempre são causados por uns “tolinhos” que gostam de atear fogo ao monte. Há interesses particulares e inconfessáveis, que passam invariavelmente sem castigo e que nem sequer conseguem mobilizar a opinião pública para o seu repúdio, tal é o hábito mediaticamente repetido todos os verões. Só quando estão em causa habitações e vidas humanas é que o drama nos comove e nos faz clamar, “filhos da puta, haviam de ser apanhados e amarrados a uma árvore a arder”. E ficamos por aí. Como ficam por aí as declarações pesarosas dos Ministros, Secretários de Estado e acompanhantes de circunstancia, que prometem mundos e fundos, reflorestação, acções preventivas, castigo para os incendiários, mais meios com menos dinheiro e outros milagres do mesmo teor. Tudo mentiras que se apagam com as primeiras chuvas outonais e ninguém vê obra que se preze até à próxima primavera ou verão, quando recomeça o fadário do costume.

O governo recentemente empossado, tem pela frente (se quiser) uma tarefa ciclópica, não só no badalado controlo da dívida pública, mas principalmente no arranque da economia e na resolução dos seus problemas endémicos, dos quais destaco o sector primário, que é hoje uma caricatura de má qualidade, se comparado com a vizinha Espanha.

 

Daniel Campelo ao ser empossado secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural, parece ser um sinal de afirmação do governo, de querer abandonar o papel secundário ou mesmo residual, que atribuíam à Floresta os governos anteriores, nomeadamente os de Cavaco Silva.

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 17:03
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15
Jun 11

Habituados a ver e ouvir falar de Vila Praia de Âncora pelos piores motivos na comunicação social, destaco hoje um artigo publicado na revista Focus onde a nossa praia é elogiada e caracterizada como uma das 25 melhores praias do momento. São gostos, dirão alguns. Talvez, mas não podemos escamotear que estão ultrapassados os crónicos problemas de qualidade das águas e sobre a qualidade do areal e a segurança balnear nunca foram suscitadas dúvidas.

No entanto, nem tudo é perfeito e a qualidade de projecto de algumas obras realizadas ou em curso, deixam muito a desejar, nomeadamente em termos de funcionalidade e aproveitamento.

 

 

 

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 10:21
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20
Fev 11

Já estamos habituados a ver a praia de Moledo "emagrecer" com as maresias de inverno, mas nunca como este ano. Ao longo de todo o areal, mas principalmente na zona do "Moinho", o mar engoliu dezenas de metros de duna primária, ficando a pouca distancia da estrada e das casas. É escusado dizer que os passadiços ao longo da duna foram totalmente destruidos e o velho moinho ficou em sério risco de derrocada, tendo-se executado um enrocamento de emergencia, para tentar evitar o pior. O murete do paredão na avenida soçobrou, não estando afastada a pior hipótese de toda a estrutura ruir ,se as condições do mar se agravarem.

Tudo isto me leva a pensar que o mar tenta sempre recuperar aquilo que já foi seu, como diriam os antigos. Está aqui a prova do disparate que é fazer marginais sobre dunas e sobrecarregá-las com passadiços, bares e pisoteio, que mais não fazem que instabilizar ainda mais, um ecosistema já de si frágil.

Por outro lado, a falta de "alimentação" de areia que esta praia sofre há longos anos, tem inequivocamente a ver com a regularização dos caudais do Rio Minho, provocado pelas barragens neste curso de água. Ainda há poucas semanas me dizia um velho pescador de Vila Nova de Cerveira: "Antigamente, ano em que não viessem meia duzia de cheias que cobriam os terrenos da Lenta e do Castelinho não prestava. Agora, passam-se anos que o rio não trás água de fora".

E isso é visivel com o aumento consistente do assoreamento do seu leito, em especial no estuário. A meu ver, deveria ser feito um estudo sério (existe um da Universidade de Vigo) que equacionasse a limpeza/dragagem do leito do Minho, com o encaminhamento de parte dos inertes retirados, para o carregamento e reforço das dunas e areal de Moledo, sob pena de daqui a alguns anos estarmos a assistir à destruição total da duna primária e à invasão das águas em toda a zona próxima, nomeadamente no Pinhal do Camarido.

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 10:44
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