Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

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Abr 07
Mais ou menos um ano depois de ter entrado para a Empresa de Lacticínios Âncora, a gerência propôs-me que ficasse responsável pela área do marketing, em acumulação com o trabalho de inspecção. Para o departamento comercial iriam ser contratados dois supervisores que, a prazo, fariam parte do meu trabalho de inspecção e contacto com os clientes. Cedo percebi que alem da inspecção e do marketing, ainda tinha a formação e o controle dos supervisores (o Armindo e o Hugo) a meu cargo, visto o director comercial, não parecer muito motivado, para essas tarefas "menores".
No ano de 1991 a ELA bateu todos os recordes de lucro, sendo-nos informado que havia um resultado positivo de noventa mil contos. Na altura acreditei nos números, rejubilei, mas hoje não acredito e mais à frente irei explicar porquê.
Organizar um departamento de marketing a partir do zero e sem experiência anterior não é pêra doce, mas com o auxílio do Francisco Presa, de alguns consultores que sucessivamente iam passando, com muito estudo e algumas formações, começamos a apresentar inovações, que já eram velhas lá fora, mas totalmente desconhecidas a nível interno.
Desde planos de marketing, estudos de opinião, estruturação de imagem e comunicação, animações no ponto de venda e participação em feiras, exposições e outros eventos promocionais. A Empresa de Lacticinios Âncora aumentou visivelmente a sua notoriedade e a sua implantação, facto provado pelos relatórios periódicos da Dun & Bradstreet.
 
A primeira feira que planeei e participei foi em Tuy, na Galiza, uma feira de actividades económicas, integrada nas festas de S. Telmo. Ao nosso lado ficou o stand da Adega Cooperativa de Monção e quem estava à frente desse stand, era o professor José Emílio Moreira, então presidente da cooperativa, hoje presidente da Câmara de Monção. Até ao final da feira, nunca lhe faltou queijo e nunca me faltou vinho. Ainda há pouco estive com ele e recordamos essa feira, pelo ambiente que criamos, pela empatia que ficou.
Mais tarde, iria participar em diversas feiras, com destaque para as "Alimentária" na FIL onde, de uma das vezes em que participamos, tivemos como animadora no stand, uma miúda linda e muito despachada, que sofria imenso com os sapatos de saltos altos, que usava durante todo o dia até que a dispensamos desse martírio. Chamava-se (e chama-se) Barbara Guimarães, poucos anos mais tarde era uma das caras mais conhecidas da televisão.

A feira mais extenuante foi a Ovibeja, uma feira agro-pecuária na qual participamos, porque estávamos a implantar os nossos produtos no Alentejo. O evento realizado em época quente, abria logo de manhã, só encerrava ao final da tarde e o nosso stand estava numa tenda gigante de oleado, onde fazia um calor tórrido. Imaginem aqui o moço (e os outros), todo engravatado, a destilar o dia inteiro!
Nós já estávamos preparados para algumas contingências e levávamos sempre alguns produtos para expor que colocávamos nas vitrines frigoríficas e outros produtos para embelezar ou decorar o stand. Em Beja tivemos que usar queijos de madeira, embalados como os verdadeiros, porque os queijos “a sério” derretiam ao fim de meia hora se não estivessem no frigorífico.
 
O meu companheiro nessa aventura alentejana foi o Armindo, um colega sempre bem disposto, que passou, como eu, uma fome de cão, pois praticamente não tínhamos tempo de almoçar, já que era pela hora do almoço, que havia mais afluência de público e não podíamos encerrar a “barraca”.
Estávamos hospedados em Serpa, na pousada, foi o único sítio que arranjamos. Estava tudo esgotado, nem residenciais, nem hotéis e todos os dias fazíamos trinta e tal quilómetros para cada lado, o que no Alentejo é perto, “é já ali” como eles dizem.
No primeiro jantar que fizemos na pousada, o empregado que nos serviu, ficou pasmado com a velocidade com que fazíamos desaparecer tudo o que nos punha na frente, mas não teve coragem de nos dizer nada.
No segundo dia, veio ter connosco o chefe de sala para nos perguntar, como é habitual, se estava tudo a nosso gosto e nos disse que era um prazer para ele, ver dois clientes a comer tão bem, sinal que a comida era boa. O Armindo, no seu jeito descontraído, respondeu de imediato que o repasto estava excelente, mas o nosso problema era não almoçarmos durante o dia.
O homem franziu as sobrancelhas, pigarreou embaraçado e fez um daqueles sorrisos amarelos face à resposta do Armindo. Continuo com a impressão que não acreditou nele, mas se éramos bem tratados até então, passamos a ser tratados como “lordes”.
Ainda nessa feira, aconteceu que uma manhã estávamos os dois no stand, quando o Armindo decidiu ir ao carro, buscar qualquer coisa que se tinha esquecido. Para chegar ao parque de estacionamento dos expositores, era preciso dar uma grande volta, o que nós solucionávamos, atalhando caminho, atravessando o pavilhão do gado bovino. Quando chegou o Armindo disse-me: - Brito, anda ali ao pavilhão ver uma coisa.
Lá fomos ao pavilhão do gado, que era dividido em várias boxes onde, por raças, estavam expostos belos exemplares de bois, vacas e vitelos. E havia “montes” de raças; Limousine, Barrosã, Charolês, Frísia, etc.. A coisa engraçada que ele me queria mostrar, era um pavilhão inteiro onde os animais estavam todos de pé, menos os exemplares da raça Alentejana, que estavam deitados. Os três belos touros Alentejanos, castanhos, de um castanho camurça fascinante, descansavam tranquilamente enquanto todos os seus “colegas” estavam assentes nas quatro patas, entretidos a dar aos queixos. Durante anos o Armindo contou esta piada e depois virava-se para mim e dizia: - Não foi, Brito?
 
Falando de coisas sérias, o Armindo faleceu há uns anos com uma doença terrível e deixou-me muitas recordações, umas boas, outras menos boas. Seja como for, há coisas que já estão perdoadas há muito e recordo-o com nostalgia.
Um certo dia, sou informado pelo Francisco Presa que iria ser contratada uma gestora de marketing, uma moça de Geráz do Lima, recém licenciada em marketing, que iria tomar conta do departamento que tinha criado, do “meu” departamento, transitando eu para adjunto do director comercial. Isto significava uma promoção, pelo menos assim o entendi e o certo é que fui recompensado financeiramente. Se soubesse o que sei hoje (esta é velha!), nunca teria aceite este presente que veio, muito mais tarde, a revelar-se envenenado.
A parceira que foi contratada, Dr. Elsa (não me lembro o apelido, talvez Barbosa) foi sempre simpática e excelente colega, que rapidamente aprendeu o suficiente para desempenhar minimamente a sua função. Faltava-lhe algo que não se aprende na faculdade, o “fealing”, a astúcia, experiência de negócio que eu já tinha alguma e o meu novo chefe o Manuel de Sousa também possuía bastante.
Mas também ela nunca se acanhou de perguntar ou pedir opinião, nem eu me “cortei” de lha dar, por isso tivemos um relacionamento impecável, até ela se incompatibilizar com o Francisco Presa e ter ido embora.
Mas voltando ao meu inicio de funções, como adjunto do director comercial, cargo pomposo que dava mais trabalho que o que valia, visto que o trabalho de campo era para mim, as glórias eram para o chefe. Desculpem a linguagem, mas as “fodas” eram sempre para o mesmo.
Quando havia algum problema a resolver, fosse em Chaves, fosse em Leiria, fosse onde fosse, lá ia o Brito armado em bombeiro apagar o incêndio, pelo menos deitar água na fervura, porque o chefe só para fazer negociações importantes em Lisboa. Bem, chefe é chefe, mais nada!
O que eu nunca suspeitei é que já me estavam a “fazer a cama” há muito, talvez porque nunca tive papas na língua e dizia algumas verdades incomodativas, fosse para quem fosse. Ou talvez porque o meu lugar era cobiçado por outros, como mais tarde se comprovou.
 
publicado por Brito Ribeiro às 14:32
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