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05
Set 12

A vila vizinha de A Guarda está em festa por estes derradeiros dias de estio com a comemoração do centenário, celebrado a 29 de Setembro, da fundação da Sociedade Pro-Monte Santa Tecla, a associação da sociedade civil guardesa criada em 1912 com o propósito de conservar o património religioso e promover turisticamente a (i)cónica elevação que domina, altaneira, a foz do rio Minho. No ano seguinte, quando por sua iniciativa se abria a estrada de subida ao monte, descobriu-se então o povoado castrejo galaico-romano cuja importância se foi revelando progressivamente desde 1914, quando a Sociedade Pro-Monte ali empreendeu a primeira escavação arqueológica.

 

 

Naturalmente, muito antes desse início do século XX, não era desconhecida das populações a existência naquele local de vestígios de remotos e misteriosos tempos. Do mesmo modo, numa época em que o cientismo oitocentista enquadrava os primeiros passos da arqueologia moderna, as promessas oferecidas por Santa Trega não tinham escapado a quem pela disciplina se interessava. Foi o caso do olhar arguto do arqueólogo de Briteiros, Francisco Martins Sarmento (1833-1899),

que num dos verões passados em Âncora, pelo início dos anos oitenta do século XIX, alargou à próxima Galiza as suas costumeiras incursões pelo terreno. Após passagem por Tui e Vigo, a expedição do vimaranense tomou o caminho de regresso pela costa marítima: "De Baiona até à Guardia, a estrada corre entre o mar e montes em talude abrupto. É um deserto. Chegando para a Guardia vão aparecendo alguns campos, um ou outro curso de água, pequenas freguesias, com pequenas igrejas, salvo a de Oya, onde havia um convento de frades, com uma torre não feia e alta, que um raio, decerto, destruiu no coruchéu e ângulo da balaustrada superior. Nenhum monte indica castro, a não ser o último - o Tecla." (Francisco Martins Sarmento, Antiqua-Apontamentos de Arqueologia, Guimarães, 1999, p.168).

 

Pela mesma altura, em 1882, um outro português dedicado à pesquisa histórica regional, o magistrado vianense Luís Figueiredo da Guerra(1853-1931),

publicaria no jornal de Viana do Castelo, nesse ano fundado, "Pero Gallego — Folha Litteraria, Scientifica, etc", uma série de artigos sobre Caminha e o seu concelho. Contudo, também ele não resistiu ao apelo da margem fronteira: "...não vai fora de propósito dizer duas palavras sobre La Guardia. Permiti que passemos o rio Minho. Na margem direita do rio Minho, no sítio da Passagem de Campos-Ancos, jurisdição da Guardia, (...) pequena povoação de marítimos, que se encosta ao Pico de Santa Tecla. Este monte de forma cónica tem a altitude de 328 m e deve avistar-se a 35 milhas da costa; o nome provém-lhe do nicho que alveja no cimo. Desde o século XII que os povos da diocese de Tuy costumam fazer procissões de penitência à ermida de Santa Tecla, pedindo-lhe chuva ou bom tempo, conforme a necessidade do ano. Estas romarias se efectuam nas quintas feiras próximas à Assunção e Natividade de Nossa Senhora e no Pentecostes. O monte visto de Portugal representa-se-nos como gigantesca pirâmide sobranceira, mui regular; porém conforme a formos rodeando, pela estrada da vila da Guardia, que fica encoberta com ela, vai-se desfigurando. Os numerosos vestígios e ruínas que vimos na encosta do monte atestam a existência dum Castrum romano, ou porventura talvez restos de Colónia fenícia. Há anos uns pedreiros, que quebravam ali rocha, encontraram uma bela estatueta de bronze, representando um Hércules com as três maçãs do jardim das Hespérides na mão esquerda e com a direita, agora decepada, deveria empunhar a massa. Tem 0,16 m de altura.

 

 

 

 

Devemos à obsequiosidade do seu dono, o sr. D. Joaquim Angel, na Botica Velha, o exame da valiosa relíquia, permitindo-nos que tirássemos um minucioso desenho. A escultura é irrepreensível e apresenta um indivíduo membrudo, bem proporcionado e coroado de louros; um dos pés está torcido, devido ao pouco cuidado que houve quando levantavam a pedra que o escondia. Esta antigualha tinha sido visitada por um inglês entendido na matéria, oferecendo por ela valiosa quantia, que foi rejeitada..."(Luís Figueiredo da Guerra, Pero Galego — Folha Litteraria, Scientifica, etc, 35, 1882) — a título de curiosidade, infeliz neste particular, o Hércules de bronze referenciado por Figueiredo da Guerra seria em 1964 roubado do Museu de Santa Trega que hoje exibe apenas uma réplica (Xoán Martínez Tamuxe, Citania y Museu Arqueológico de Santa Tecla, 4ª edição, A Guarda,1998).

Como atrás escrevemos, foi em 1914 que a Sociedade Pro-Monte Santa Tecla empreendeu a primeira das campanhas de escavação do castro guardês que se estenderia até 1923, a que se seguiu uma segunda fase entre 1928 e 1933 (Tamuxe, ob.cit.). Deste lado do rio Minho, apesar da época não ser a mais favorável pelas convulsões políticas que marcaram os primórdios do regime republicano português, os trabalhos arqueológicos em Santa Trega não passaram despercebidos. Em 14 de Agosto de 1920, uma singela mas significativa nota saída no periódico caminhense-vianense Correio do Minho, provavelmente pela pena de João Maria Alves Júnior, dava conta da novidade: "Cidade Antiga — No Monte de Santa Tecla, ali na Guardia, foram descobertas as ruínas milenárias de uma famosa cidade, que se chamou Abóbriga" (Correio do Minho, 14-08-1920).

 

Alertado pela dimensão e importância dos achados, foi um jovem professor primário vianense há pouco colocado no concelho de Caminha, também ele fascinado pelas coisas da arqueologia. Chamava-se Abel Viana (1896-1964)

 

 

 

e a memória do grande regionalista alto-minhoto é reveladora sobre a dívida científica então contraída com os arqueólogos que trabalhavam em Santa Trega: "...os nove anos decorridos entre 1922 e 1931, em que residi nas freguesias de Seixas e Lanhelas, na margem do rio Minho, tendo em frente extenso panorama da Galiza, foram decisivos na deliberação por mim tomada, quanto a dedicar-me particularmente aos estudos arqueológicos. O meu contacto com o reduzidíssimo e pouco comunicativo número de arqueólogos portugueses era escasso. Entregue a um puro autodidatismo, só as minhas relativamente frequentes relações epistolares e a troca de artigos com Hugo Obermeier, o Conde de la Vega del Sella, Juan Cabré, Jesus Carballo e, sobretudo, com investigadores galegos, Juan Dominguez Fontela, Fermín Bouza-Brey, Manuel Fernandez Costas, Federico Maciñeira Pardo de Lama, Xoaquin Lorenzo-Fernandez, Perez de Barradas e Florentino Cuevillas, prestaram o indirecto apoio científico às febris jornadas que eu então realizava por montes e vales do Alto Minho, onde os testemunhos arqueológicos de todas as épocas, absoluta ou praticamente inéditos, surgiam para onde quer que os meus alvoroçados passos se dirigissem. Foi portanto a estes prestimosos e notáveis obreiros da arqueologia espanhola que devi, e durante longo tempo, as primeiras substanciosas informações sobre a arqueologia peninsular e também os primeiros incentivos sinceros, fraternos, úteis, verdadeiramente operantes. (...) Em razão da proximidade, as minhas visitas ao castro de Santa Tecla foram frequentes, pelo que as relações pessoais com José Maria Lomba, Julian Lopes Garcia, Manuel Alvares Sanchos e outros se tornaram francamente amistosas, para o que não deixou de contribuir alguns pequenos achados meus naquela importante estação arqueológica, e a descoberta que ali fiz, em 2 de Maio de 1929, de uma espada de tipo de Hallstadt II (lâmina de ferro e punho de bronze). Diligenciava eu acompanhar quanto possível, do lado português, a intensa actividade investigatória desenvolvida do outro lado da raia, na qual dois ilustres portugueses tiveram também marcada intervenção — o Rev.º Padre Eugénio Jalhay e o Professor Joaquim Fontes (...)." (António Martins da Costa Viana, Abel Viana. Pinceladas de um auto-retrato. Estudos Regionais, 18, 1997, pp.175-228).

 

 

 

O momento em que Abel Viana se despediu do concelho de Caminha — pouco depois, faria o mesmo do Alto Minho — coincidiu com a publicação do decreto, a 3 de Junho de 1931, em que o Castro de Santa Trega foi declarado monumento histórico-artístico nacional pelo governo republicano de Espanha, consagrando em definitivo a sua excecional importância patrimonial. Não estava distante a trágica guerra civil mas antes já tinham sido interrompidas as escavações arqueológicas que seriam apenas retomadas nos anos cinquenta e prosseguidas nas décadas seguintes até aos nossos dias.

 

 

 

Hoje, a citânia e o museu adjacente, tutelados pelo Padroado Municipal Monte Santa Trega, são a maior atração turística de A Guarda, causando sincera admiração mas, admita-se, igualmente alguma inveja aos que, do lado de cá do rio Minho, assistimos ao esquecimento e vandalismo a que estão votados lugares como o Castro do Coto da Pena, em Caminha, e a Cividade de Âncora-Afife, também eles integrantes do complexo castrejo da Galiza e do Noroeste de Portugal.

 

Este artigo é da autoria do Professor Paulo Bento e publicado em "caminha2000" a 1 de Setembro de 2012

 

publicado por Brito Ribeiro às 11:52
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