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Abr 07
O assalto ao posto dos correios foi tema de abertura em dois telejornais, com grande profusão de pormenores, entrevistas com os mirones, os polícias e com os diversos intervenientes. A TVI foi mais longe e conseguiu até trocar breves palavras com um dos assaltantes, o gago que só pedia que o deixassem “fazer a folha” ao condutor do carro de fuga. Mas o que provocou o gáudio dos espectadores foram as imagens exclusivas da Rosete com a saia subida até ao pescoço e das suas mediáticas cuecas. Não iria faltar muito tempo para o vídeo estar disponível no “you tube”.
Outras imagens que arrancaram largas gargalhadas, foi o momento em que a multidão fugia espavorida à frente do BMW e quando a maquineta das pipocas do Valdemarcio levantou voo e aterrou toda espatifada em plena calçada.
 
Para a Júlia foi uma semana inesquecível. O Simplício na casa sem poder sair, ela sozinha na loja, a Inês quando saia da escola ainda ajudava, mas os seus préstimos eram poucos. O que lhe valeu foi a Suzete peixeira, que tinha uma banca no mercado e que todas as tardes vinha lhe dar uma mão a arrumar a loja e a encher as prateleiras.
- De manhã tenho as minhas freguesas lá no mercado e não te posso ajudar, mas de tarde tiro um bocadinho e dou-te uma mão.
- Não sei como te hei-de pagar este favor – dizia a Júlia, sensibilizada com o gesto da amiga.
- Ora, hoje eu por ti, amanhã tu por mim. Trata mas é de defumar a loja e lá a tua casa, que parece que tens mau-olhado. Tudo te acontece…
A Susete tinha a mania do espiritismo e andava sempre com essas coisas dos maus-olhados e das invejas.
Ao fim três dias, o Bertinho passou lá pela loja, muito direito, muito teso, a falar baixinho, mas com um ar de alguma superioridade, como se os acontecimentos lhe tivessem agradado.
- Pois é D. Júlia, ainda tenho muitas dores e mal me posso mexer. Tenho baixa, pelo menos, para quinze dias.
- Não sei como me hei-de desenrascar sozinha, ainda para mais o Simplício parece uma criança, não faz nada só, ficou muito traumatizado com o acidente. Você quase me pôs viúva!
-Nem a brincar diga uma coisa dessas! O sr. Simplício é que entrou na rotunda a vinte à hora e eu não me pude desviar. Não se esqueça que eles tinham armas e ameaçavam que me davam um tiro se não guiasse a toda a velocidade. Alem disso, eu tinha que os deter de alguma forma. E consegui, depois de tocar de raspão no carro do seu marido…
- De raspão, você acertou-lhe em cheio!
- Está enganada eu só lhe dei de raspão, depois é que o carro do seu marido fez um pião e foi bater naquela pedra enorme da rotunda, enquanto eu aproveitei para atirar o carro contra os rails de forma a neutralizar os assaltantes. E deu certo, foi um plano perfeito.
- Bertinho, escute-me com atenção. Você pensa que me engana com essa história de treta? Então atirou de propósito o carro para cima das macieiras do Gervásio? Está a fazer de mim parva?
- D. Júlia eu nunca quis engana-la, tanto mais…
- Eu sei, eu sei, isto vai ficar só entre nós e pode contar que eu não digo uma só palavra que ponha em dúvida a sua história, mas que você quase me punha viúva, é bem verdade.
- Sabe, hoje de manhã veio ter comigo um inspector dos correios e disse que estão a estudar um prémio para me atribuir, por ter criado as condições para apanhar os assaltantes.
- Ora essa! Deu cabo do carro do meu homem, desfez aquele BMW que devia ser quase novo, mandou não sei quantos para o hospital, ia atropelando mais de cinquenta pessoas, deu cabo do negócio do Valdemarcio, destruiu o pomar do outro e ainda vai receber um prémio. Eh... Está bonito, só neste país…
 
- Olá Bertinho, então já andas cá por fora? Estou a ver já estás pronto para outra…
- Nem pense nisso sr. Tita, nunca mais me apanham, como desta vez.
- Ah, ah, ah, tu tens o espírito da aventura no sangue. És como eu! – diz o velho contrabandista Quim Tita, uma lenda viva dos tempos duros do contrabando.
Desde muito novo Quim Tita foi lançado nas malhas furtivas do contrabando para Espanha, primeiro como simples carregador, depois como controlador e finalmente como organizador e financiador das operações clandestinas de importação e exportação. Não pensem que tinha sido um vulgar traficante, pois tinha um código de conduta muito próprio e gostava de escolher criteriosamente os seus colaboradores, pois tinha uma imagem a defender e lá no meio, tinha fama de honrar a palavra.
Tinha uma grande simpatia pelo Bertinho, que tinha idade para ser seu neto e já o tinha sondado para vir trabalhar na empresa de materiais de construção, que tinha aberto há uns anos, quando a entrada na CEE lhe estragou o negócio do café, das bananas, do tabaco e de tudo que levava e trazia. Dizia ele: - “Isto é uma grande pôrra; antigamente nem uma Coca-cola se podia trazer de Espanha. Hoje os espanhóis vem cá e montam logo uma fábrica. Agora não tem piada nenhuma, antigamente é que era. Todos ganhavam, todos comiam, todos se safavam”.
 
- Júlia, esse anormal do teu funcionário um dia ainda te deixa ficar mal. O gajo é maluco e…
- Mas é bom a atender. As freguesas gostam dele. Ele tem jeito.
- Pois tem. Pois tem – dizia o Zé Bastos – tem jeito é para se meter em complicações e para meter os outros em trabalhos. Quase matava aquela gente toda e o teu homem também. Ainda queria ver se tivesse acontecido o pior, se o estavas a defender. Júlia, esse tipo ainda nos dá cabo dos planos. Tu nunca lhe disseste nada, pois não?
- Não, não, podes estar descansado, mas eu preferia tê-lo connosco do que na ignorância.
- Deixa andar, pois ainda há muito tempo. Deixa-me contar-te como se passaram as coisas em Barcelos na semana passada. Quando lá cheguei, o Martinho já tinha começado…
E os dois cochichavam a um canto do balcão, ao fim de uma tarde cinzenta, com a loja às moscas. Até no negócio se sentia o efeito do tempo. Nunca mais chegava a primavera, tardavam os dias grandes e soalheiros, faltava o aconchego do calor, o canto dos passarinhos, o voo das primeiras andorinhas.
 
publicado por Brito Ribeiro às 17:36
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