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24
Jul 11

O inspector Maurício desligou o telemóvel, recostou-se na cadeira, tamborilou no tampo do portátil fechado e procurou ordenar os pensamentos.

Aquele homicídio estava a dar-lhe água pela barba e ainda por cima não podia trabalhar à vontade, pois estava envolvida gente da alta sociedade, tipos com ligações às mais altas esferas do poder político e financeiro. Tinha de os tratar com toda a delicadeza e quase subserviência, o que o deixava hesitante e pouco seguro.

O cadáver tinha sido encontrado no Jardim de Arca d`Água, um jovem assassinado a tiro, com marcas da entrada dos projécteis nas costas. Segundo apuraram no local, rapidamente vedado aos mirones, o rapaz devia ter sido alvejado quando fugia de alguém, que após a queda do alvo, voltou a disparar à queima-roupa mais duas vezes. Estes dois ultimos projécteis, atravessaram-lhe o dorso e enterraram-se alguns centímetros no saibro da álea onde o cadáver foi encontrado.

Ninguém ouvira os tiros e o cadáver tinha sido identificado pelas impressões digitais como Tomé Alves Rodrigues, dezassete anos, um longo curriculum de pequenos delitos desde os nove anos, idade com que saiu de casa, sufocado com a indiferença da mãe, que se prostituía no Bonjardim e do pai, que se embebedava onde calhava. Internado na Oficina de S. José, fugiu diversas vezes, mas deixava-se apanhar sempre, como que de um jogo se tratasse. Pelo menos ali não passava fome.

Aos dezasseis anos saiu do Lar para ir trabalhar numa fábrica em Paços de Ferreira e perdia-se a pista durante longos meses.

Na zona de Arca d`Água ninguém o conhecia, mas acabaram por descobrir, através de um antigo colega da Oficina, que nas últimas semanas, o Tomé tinha dormido numa residencial manhosa, para os lados da Areosa.

A surpresa instalou-se na cara dos agentes da Judiciária que procediam à recolha de indícios no quarto da residencial, ao depararem com alguns milhares de euros em notas dentro de uma mochila e uma pasta com documentos do Dr. João Baltar Lacerda, presidente do Conselho de Administração do Banco de Investimento, figura muito conhecida do jet-set portuense.

Quando confrontado com o achado, o Dr. Lacerda mostrou-se reservadamente indiferente, dizendo apenas que eram papeis sem importância, que provavelmente qualquer dos seus colaboradores a tinha perdido, não fazendo ideia de quem seria o dinheiro encontrado.

O inspector Maurício registou uma brevíssima perturbação do banqueiro, quando o informou sobre o destino trágico do rapaz, que possuía os documentos e o dinheiro.

Quando solicitou ao juiz um mandato judicial para investigar o telefone do banqueiro, deparou com uma negativa peremptória e quase foi corrido do gabinete do magistrado, que, certamente, tinha na melhor conta a figura do Dr. Lacerda.

Estava atado de pés e mãos, restava-lhe investigar os últimos dias do rapaz. Conseguiu saber que o Tomé se tinha despedido há três meses e que uma ou duas vezes foi visto entrar para um enorme BMW preto.

O antigo colega que tinha estado com ele nas Oficinas de S. José, acabou por dizer que ele tinha “umas cenas maradas com gajos de massa que gostam de putos”. Quando ligou para o Lopes, um inspector pouco mais velho que ele e que era sistematicamente destacado para casos que envolviam pedofilia, o semblante carregou-se pois o nome do banqueiro nunca tinha sido associado a tais práticas.

Deixou-se ficar recostado na cadeira a pensar qual seria o próximo passo a dar. Tinha a convicção de que se não avançasse depressa com algum facto novo, o processo seria ultrapassado por outro e mais tarde ou mais cedo seria arquivado, ficando mais um caso por resolver.

Do laboratório tinham-lhe enviado um e-mail informando que a arma do crime era um revolver de calibre trinta e dois, o que pouco ajudava, pois há milhares de armas deste calibre espalhadas por todo o lado. Ligou para a central do departamento e pediu a um estagiário que verificasse se o Dr. Lacerda tinha alguma arma registada em seu nome.

Estava a almoçar no restaurante habitual, perto da directoria, quando o estagiário lhe confirmou por telefone que o Dr. Baltar Lacerda tinha registado em seu nome várias armas, entre as quais, um revolver de calibre 32.

De regresso ao edifício da Judiciária ligou ao principal suspeito do crime que estava a investigar.

- Sabemos que o senhor possui um revolver calibre 32 e gostaríamos de o ver.

- O crime foi cometido com uma arma desse tipo? – perguntou o Dr. Lacerda.

- É provável. Quando posso ter acesso à arma?

- Daqui a meia hora. Estou a sair de um almoço e passo por casa. Pode mandar alguém ir lá recolhê-la.

- Obrigado, irei eu próprio.

 

Esperou à porta da magnífica propriedade do Dr. Lacerda, na Maia. Pouco depois chegou o reluzente BMW conduzido por um motorista. O banqueiro apeou-se e fez um sinal ao Inspector Maurício para o seguir até casa, uma discreta mansão, escondida entre pinheiros mansos e longos relvados. Dispensou os cuidados de uma criada que correu a recebê-los, subiram a escadaria curva e entraram no seu quarto de dormir, certamente maior que muitos apartamentos médios. Abriu uma das gavetas, retirou um estojo de couro que entregou ao Inspector.

- Aqui tem o revólver. Tenho também ali uma pistola Browning de calibre 6.35. Não sei se também quer ver…

- Não, apenas preciso dos documentos desta arma, se os tiver aí.

- Com certeza. Eu tenho estas armas e nunca as usei fora de casa. São mais como… como tranquilizantes de consciência, do que uma protecção efectiva. Aliás, o senhor sabe que nós temos segurança privada na propriedade.

- Sim, sim. Já verificamos.

- Vou levar esta arma ao laboratório para ser analisada.

Ao final da tarde já lhe davam o relatório preliminar, que confirmava ser aquela a arma do crime. No tambor nem sequer tinham sido substituídos os cartuchos disparados e a comparação das estrias revelou-se positiva. A arma tinha sido recentemente disparada, não tinha sido limpa e as únicas impressões digitais pertenciam ao seu proprietário, embora houvessem vestígios de ter sido manuseada com luvas de látex, provavelmente quando foi disparada pela última vez.

O técnico prometeu enviar-lhe o relatório por e-mail, ligou para o Lopes a saber se tinha descoberto alguma coisa nos meios da prostituição masculina ou nos meios ainda mais restritos da pedofilia.

Apenas tinha confirmado a existência de um BMW de alta gama, vidros escuros do qual ninguém parecia conhecer o condutor. Circulava lentamente, às vezes parava, baixava o vidro, algum dos rapazes aproximava-se, o condutor permanecia na sombra. Conversas escassas se geravam, prazeres se combinavam, as notas mudavam de mão, nunca faltavam.

- Bolas! – resmunga o Inspector desmoralizado com a insuficiência das informações dadas pelo colega.

Chegou a casa poucos minutos depois da Rosa, enfermeira no S. João, com quem vivia há três anos. Jantaram em silêncio, sentaram-se a ver um filme antigo, beberam cerveja, fizeram amor no chão da sala, deitaram-se já depois da meia-noite.

Antes de adormecer ainda pensou que no dia seguinte voltaria ao gabinete do juiz com o relatório do laboratório, para lhe solicitar novamente o mandato, que lhe permitiria analisar as chamadas telefónicas feitas e recebidas pelo principal suspeito, assim como examinar pericialmente o vistoso BMW, em busca de algo que provasse a presença do Tomé na viatura.

Na manhã seguinte foi chamado ao gabinete do Inspector Chefe Peres, que sem delongas lhe apontou para a primeira página do “24ª Hora”, um jornal sensacionalista que parecia farejar todos os assuntos que exalam mau cheiro. “Banqueiro suspeito de homicídio de um jovem prostituto” e seguia-se uma foto do visado com ar austero, a sair da sede do banco.

- Ó Maurício, como é que estes filhos da puta tiveram acesso a esta informação? Que grande bronca…

- Isso queria eu saber. A investigação tem sido feita no máximo sigilo, conforme nos indicou e que eu saiba, do nosso lado não pode ter havido fuga. Ainda por cima só estou eu, o Ramos e o Cabral a trabalhar nisso e apenas fiz meia dúzia de perguntas ao Lopes sobre os meandros da pedofilia, mais nada.

- Bem, de algum lado saiu, que esses cabrões não iam adivinhar sozinhos. Diga-me lá o que apuraram.

(continua)

 

publicado por Brito Ribeiro às 16:48
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