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Jul 11

Segundo foi apurado no Censos 2011, o Concelho de Caminha perdeu 439 habitantes, 2,57% da população total. Lembro que o Concelho de Caminha nas últimas décadas vinha a ganhar população de forma consistente, para o qual muito contribuía Vila Praia de Âncora, com um crescimento que não tinha paralelo no Distrito de Viana do Castelo. Desta vez, nem o crescimento de Moledo, Vilarelho e Vila Praia de Âncora, conseguem equilibrar o saldo populacional.

Este resultado contraria a tendência positiva registada pelos concelhos vizinhos, por exemplo Vila Nova de Cerveira, que registou um ganho de 5%. Aguardo com alguma curiosidade outros elementos que o Censos nos vai revelar e que poderão explicar os porquês de um resultado tão desencorajador. Teria sido o saldo natural, reflexo de uma baixa taxa de natalidade ou pelo contrário terá sido o saldo migratório, com a deslocação das pessoas para fora do espaço concelhio? Provavelmente uma conjugação destes dois factores, visto que o Concelho de Caminha não é atractivo para casais jovens se fixarem e cada vez mais há a necessidade de rumar a outras paragens para garantir o sustento e prosseguir carreira académica e profissional.

Estaremos perante um problema de interioridade num concelho geograficamente do litoral? Parece-me que sim, se atendermos ao modelo de desenvolvimento implementado na última década e que agora trás à superfície os efeitos de tais políticas (ou a falta delas).


Nos últimos doze anos o Concelho perdeu a quase totalidade do seu tecido industrial, com o lançamento no desemprego de algumas centenas de trabalhadores que foram absorvidos de forma mais ou menos tolerante pelos Concelhos vizinhos, com elevada dinâmica empresarial e pela emigração para países como Espanha, França, Angola ou Andorra.

Por outro lado, o Concelho não conseguiu no seu espaço territorial, criar alternativas compatíveis com a mão-de-obra disponível, originando vários problemas em cascata. Nem a mão-de-obra que emigrou ou foi trabalhar para outros Concelhos, regressou ao Concelho de origem, nem foram criadas condições para a fixação de novos residentes, nem o comércio e serviços locais se desenvolveram por haver uma diminuição acentuada de recursos financeiros em circulação.

Em 2001 quando chegou à Câmara Municipal, a Presidente Júlia Paula Costa encontrou uma situação que longe de ser satisfatória não enfermava dos males actuais. Tinha na freguesia de Âncora um pequeno pólo industrial vazio, com problemas de documentação, mas a sua legalização e consequente entrada em funcionamento tardou imenso, gerando mais uma desilusão pois não houve uma efectiva criação de postos de trabalho. Todo este processo enfermou de um grande amadorismo persistente, que até hoje não conseguiu captar novos investimentos industriais, invariavelmente destinados a Vila Nova de Cerveira, Viana do Castelo, Valença, Monção ou Ponte de Lima.


As apostas erradas, em eventos voláteis e efémeros, em obras de má qualidade, pior oportunidade e outros desvarios de gestão, não conseguem disfarçar a condição economicamente miserável em que se transformou o Concelho de Caminha.

No turismo a oferta continua a ser incipiente em quantidade e variedade, baseada no sol e na praia, dois meses, mal medidos, por ano. A agricultura, tal como no resto do país, está abandonada, a pesca e a náutica de recreio estão condenadas com as péssimas condições operacionais do porto de mar de Vila Praia de Âncora e da barra do Rio Minho. Sobre as obras de requalificação que estão em curso na zona adjacente ao porto de mar de Vila Praia de Âncora, entendo que não fazem o mínimo sentido, porque a questão devia estar centrada na resolução estrutural dos problemas de assoreamento do Porto de Mar. Gastar os poucos recursos financeiros públicos, num embelezamento deste tipo, quando deviam ser aplicados na resolução e potenciação de actividades economicamente reprodutivas é uma estupidez, demonstra a falta de qualidade da nossa classe política e é um dos principais motivos porque este país está nas mãos do FMI e companhia.


O Concelho de Caminha precisa urgentemente de captar investimento industrial, amigo do ambiente, com incorporação tecnológica, adaptado ao espaço disponível (que é pouco) ou a disponibilizar no futuro. Só assim poderá inverter a tendência de perda de população e de empobrecimento dos cidadãos.

Precisa de encontrar incentivos à produção agrícola e florestal, única forma de estancar no curto prazo a sangria de populações nas freguesias interiores.

Precisa de substituir o estafado mosaico de paisagens por um conjunto de políticas sérias de ordenamento do território, sem concessão de vantagens e privilégios a especuladores imobiliários que paulatinamente tem vindo a destruir o que de bom havia na faixa litoral do concelho, tornando-a vulgar, desordenada e ecologicamente insustentável, como se pode comprovar pelo estado a que chegou a praia de Moledo.

É isso que, no mínimo, se espera que uma autarquia seja um facilitador da actividade económica, um catalizador de novas iniciativas e projectos, deixando de lado a aspiração de ser o maior empregador do Concelho, com as habituais novelas sobre cunhas e prognósticos anunciados.

publicado por Brito Ribeiro às 16:07
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