Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

01
Nov 10

Este conto constitui a minha participação na colectânea de prosa e poesia "A Arte pela Escrita III" da editora Mosaico da Palavra.

 

Senti-me observado, incómodo, não estava mais ninguém por perto, mas aquele olhar penetrante, atento, fixo, de uma imobilidade perturbadora, transformou-me numa espécie minúscula, quase microscópica, escalpelizada sob o vidro da lupa, qual verme tentando escapar, ondulante, que é o único andar que conhece. Levantei-me, lentamente, muito lentamente fui em sua direcção, mas não reagiu, Saramago diria que era um anjo, daqueles que não perdoam porque não é essa a sua função, este teria como missão observar-me, talvez fosse dos que castigam. Castigar? Porquê? Não será castigo demais as armas e os barões assinalados, apontados a dedo e filmados, dia após dia, tragédias contemporâneas do berço, da saia, da estrada, do crime sem castigo, que a justiça alem de cega, é surda e manca. Não será demais a contradição do homem, que cresce, aprende saberes que o envaidecem, terminando ele próprio como um destroço arrastado na grande vaga do tempo. Pelo canto do olho procurei o seu olhar, parece-me que se mexeu um pouco, talvez mais para norte, enfrentando a ventania de meia tarde. Agora que estava de perfil podia ver-lhe melhor a cabeça cinzenta e o olho negro atento aos meus movimentos, até aos meus pensamentos, se realmente for o tal anjo. Este deve ser dos que dão as novidades, que levam e trazem as boas novas, ainda à moda antiga, batendo as asas pelos céus, que no paraíso coisas modernas ficam à porta. Mas eu não sou carpinteiro, nem devoto de água benta, não tenho direito a novas por decreto celeste, muito menos por anjos de recado encomendado, Ele tem mais que fazer do que se preocupar com as minhas interrogações. Ao longe, ouvem-se os gritos e risos de quem se banha entre a espuma equilibrada na crista das ondas. As cabeças sobem e descem, desaparecem por instantes como que a purificarem-se das arrelias diárias aforradas nos invernos tristes, sombrios, das vidas sem interesse, sem viço e sem memória. Em volta, olhares ociosos procuram os seus, que a praia é grande e crianças são como areia a escorregar entre os dedos. Outros, transformam a vista no instrumento da cobiça, descarados, dissimuladas, pensamentos dissolutos, que nem o anjo descortina, que essa também não parece ser a sua especialidade. Para isso teria de chamar um de nível superior, um querubim ou se o caso for demasiado grave, um serafim. Agora não vale a pena, a tarde caminha para o crepúsculo, todos se secam, todos se vestem, a cobiça regressa à anterior modorra até ao novo dia, desculpem, não vale mesmo a pena incomodarem-se por isso, é normal e não chegariam todos os anjos do Paraíso para percorrerem as praias do litoral, a meterem juízo nas cabeças, pensamentos pios e castos. Alguns irão à missa das seis, nem se lembram do pecado, se é que isso ainda existe para tão pequena e banal distracção. Se existe não deve ser dos graves, de contrário Ele já se teria aborrecido com tamanha falta de vergonha e não deixaria o assunto nas mãos de um anjo menor, de cabeça cinzenta e olhos negros, que acomoda as asas brancas com um trejeito de ombros e me segue enquanto dou voltas pela sala. Vou à varanda, quero vê-lo de perto, falar-lhe. Talvez tenha alguma mensagem e esteja à minha espera, olá, disse eu, que não sei como cumprimentar um anjo, virou a majestosa cabeça bem de frente, baixou-a um nada, como a avaliar-me, tal como o alfaiate aprecia o freguês. O silêncio quebrado apenas pelos retardatários que na avenida rodeiam as tendas dos gelados, colares e fantasias que tornam mulheres formosas, não perturba o nosso frente a frente. Percebi que não me iria falar, não precisava e eu compreendi finalmente aquele olhar penetrante que me pedia ajuda. Sim, ajuda, era a mensagem daquele ser, agora estou convencido que é um anjo, não dos serafins, nem querubins, mas dos anjos da guarda que apesar do nome não andam armados, para isso temos os bandidos, uns com farda, outros nem isso. Aquecimento global, poluição das águas, desflorestação, derrame de petróleo, ocupação desregrada e corrupta dos solos, que Terra iremos deixar aos nossos filhos? E que filhos estás tu a preparar para esta Terra, diz-me o anjo que não fala, mas eu entendo, já te esqueceste que foram os filhos e os netos dos teus antepassados que nos estão a levar à ruína? Tens razão, e que faz o teu Senhor, não pode lançar um vento que corra com todos os incompetentes, corruptos e demais auxiliares dessa grande confraria. Alea iacta est, que é como quem diz, a sorte está lançada, respondeu-me o anjo, deixando que o vento do crepúsculo lhe acariciasse a alva pelagem. Baixou a cabeça, talvez um saudar, até qualquer dia, abriu as asas e juntou-se ao bando de gaivotas que regressavam à penedia.

publicado por Brito Ribeiro às 16:41
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