Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

02
Out 10

O principal impulsionador e promotor do evento, o Dr. Barge, era muito respeitado na aldeia, não só pela ancestralidade familiar, mas principalmente pela posição sócio profissional que ocupava. Se hoje ainda há alguma reverência perante a figura do médico, em 1971, numa comunidade rural, a palavra de um médico pode-se quase dizer que fazia lei. E isso foi determinante para o sucesso deste festival, não só para a aceitação perante a comunidade local, mas também como factor de crédito perante a sociedade em geral e até perante os intervenientes directos. Não era um qualquer empresário, negociante ou investidor a promover o festival, mas um médico com vida organizada, com meios financeiros, com património à vista e com reconhecimento social, que dava crédito à iniciativa.

 


Não encontrei qualquer testemunho de problemas relacionais com a população, que se mostrava algo chocada com certos comportamentos dos jovens, como tomarem banho nus, homens e mulheres tudo misturado, no idílico cenário do Rio Coura. Os dias decorreram entre um cigarro de “erva” partilhado entre todos, conforme a filosofia hippie ou uma viagem à boleia do LSD, entre baladas acompanhadas à viola, canções e muita liberdade, algo a que não estavam habituados os portugueses.

As forças policiais, como já referi, tiveram uma actuação pautada pela discrição. Realmente eram outros tempos, outros comportamentos e inclusive sentiu-se ao longo dos concertos uma certa apatia ou falta de entusiasmo.

 


A falta de experiência das bandas nacionais, que cometeram erros na escolha de repertório, alinhamento e até de duração das canções, tornaram o concerto amorfo, tendo também contribuído os Manfred Mann que tocaram uns escassos e pouco vibrantes 45  minutos.  Mais tarde,  o  líder  sul-africano da banda, reconheceu que o grupo atravessava um mau momento, alguns elementos não correspondiam às expectativas e o público também não ajudou com uma postura quase hipnótica.

 

O ambiente só melhorou com os Bridge no primeiro dia e com Elton John no derradeiro concerto (Zamith, 2003), que entrou vestido “à ciclista” deixando o publico extasiado, mas que nem assim exteriorizou as emoções. Quando se retirou do palco, o que devia ser um “encore” de Elton John revelou-se a saída definitiva pois o público não expressou vontade de um regresso.

 


Se o regime vigente tolerou e de alguma forma ignorou o evento, o mesmo não se pode dizer da Igreja Católica que, de forma organizada, tentou passar a mensagem de imoralidade e dissolução, exortando os pais a proibirem os filhos de assistir ao festival. Chegou-se ao ridículo excomungar o Dr. António Barge, família e amigos que o ajudaram, o que demonstra bem a violenta reacção da Igreja perante esta iniciativa.

O Dr. Barge refere numa entrevista ao “Correio do Minho” (Zamith, 2003) “a repressão religiosa foi tanta que os seminaristas de Braga foram lá defumar o local do pecado e pediram aos pais para não deixarem ir os seus filhos ao festival pois era organizado por gente do leste”.

António Barge ainda propôs ao Padre Filipe, pároco de Vilar de Mouros, a realização de uma missa campal. Primeiro o prelado aceitou, mas depois recusou, boicotou e acabou por excomungar os membros da organização. Curioso, que tempos depois, este padre abandonou o sacerdócio para casar e ter filhos.

Bem diferente, como já apontei, foi a reacção da comunidade local, que passado o primeiro choque geracional, absorvidos alguns comportamentos estranhos e inéditos para aquela gente simples, manteve-se a curiosidade, sobrou o tema de conversas, ficaram as recordações das entrevistas, das fotografias, das reportagens para as televisões, que pela primeira vez visitavam este recanto Minhoto.

 


A RTP, que se tinha comprometido a filmar o festival em troca da concessão de um subsídio, à última hora decidiu não o atribuir, por ordens expressas do seu presidente, Ramiro Valadão, levando a organização do festival a apenas autorizar a equipa de reportagem a captar um pequeno apontamento, dando-lhes ordens para abandonarem o recinto. Bem diferente foi o modo como a imprensa nacional e internacional foi recebida, pois circularam com todo o à vontade, tendo muitos deles dormido e comido na casa dos organizadores.

O fim da festa deu uma grande sensação de alívio a toda a gente, organizadores, autoridades locais e nacionais e gentes da terra que voltaram a ter o sossego habitual, malgrado os estragos nos campos e nas árvores de fruto. Como curiosidade, o repasto principal de milhares de jovens foi durante o fim-de-semana, espigas de milho assado com pão. Alguns mais afortunados, enriqueceram a ementa com um caldo de hortaliça desviada das hortas mais próximas e uma ou outra batata ofertada pelos populares.

No terceiro fim-de-semana o Festival encerrou tendo dois espectáculos de carácter nitidamente burguês. O primeiro com o Duo Ouro Negro, intitulado “Noite Tropical” que se transformou numa longa noite, pois o concerto estava marcado para as 21,30 horas e começou à meia-noite. Pacientemente, durante mais de duas horas de uma noite quente e serena, o público aguardou ao som dos acordes da banda sonora de Dr. Jivago e apreciaram-se os reflexos prateados das águas remansosas do Rio Coura ali ao lado. No dia seguinte, Amália encerrou com chave de ouro o Festival perante cerca de mil e quinhentas pessoas (Imperadeiro, 1971).

Tal como em Woodstock, o Festival de 1971 em Vilar de Mouros deu prejuízo, pois não teve qualquer apoio estatal e o único patrocínio chegou do Secretariado Nacional da Informação, no valor de trinta contos. Só em publicidade, feita apenas em Portugal, a organização terá gasto cerca de 300 contos. Estima-se que foram gastos cerca de 2500 contos, pagos pela família Barge e só parcialmente cobertos pela receita de bilheteira (Zamith, 2003).

 

Manfred Mann


No rescaldo do Festival de Vilar de Mouros de 1971, Tito Lívio escreveu: …a constatação de uma incultura musical, quer pela escassez de apoio do Estado, quer pelo amadorismo dos conjuntos portugueses, quer pela mentalidade carneiral dos espectadores presentes (Zamith, 2003).

 

Repercussão internacional

Foram muitos os jornalistas nacionais e estrangeiros que assistiram ao Festival e nas crónicas que assinaram, de uma maneira geral, foram de opinião que se tinha realizado um evento, à escala Europeia, que seria o reflexo de Woodstock, ocorrido dois anos antes nos EUA.

O regime condescende em deixar publicar, mas sempre com um tom coloquial, de um certo divertimento, promovendo relatos de episódios engraçados ou esquisitices de artistas, como foi o caso da revista especializada “Mundo da Canção” que publicou ampla reportagem sobre as exigências, as refeições e alojamento das estrelas, nomeadamente de Elton John (Zamith, 2003).

A imprensa internacional tratou o assunto com mais seriedade, as crónicas foram mais objectivas e é destacado o grande número de pessoas que assistiram e o ambiente tranquilo em que decorreu o festival.

Este evento acaba por trazer benefícios directos e imediatos ao regime, pois transparece na imagem descrita pela imprensa como um país de acolhedor, tolerante e de ideias avançadas, bem ao contrário das críticas políticas, nomeadamente na ONU, onde o regime português era sistematicamente acusado de autoritarismo e ausência de liberdade e democracia

 

 

Conclusões

 

Esta edição do Festival de Vilar de Mouros, apesar de não ser a primeira, tem a particularidade de ser aquela que catapultou o evento para a fama, que só voltou a repetir-se em 1982, por iniciativa da autarquia caminhense.

Mas o evento, tal como Woodstock, não se tornou famoso apenas pelos músicos que lá tocaram, nem por nenhum motivo catastrófico ou inesperado, mas pelo facto de ter ocorrido num momento charneira a nível mundial, tal como já referi na introdução.

 

Os EUA tinham a sua guerra no Vietenam, Paris tivera o movimento estudantil a interrogar violentamente o regime, Portugal tinha a guerra colonial e as prisões cheias de gente por delito de opinião, a caminho estava o primeiro choque petrolífero que iria marcar profundamente toda a década de setenta (Rosas, 1997).

Muito se questiona, ainda hoje, como é que um regime tão arreigado à censura, permitiu que numa aldeia do país se juntassem milhares de jovens numa manifestação que não sendo política, podia degenerar em protesto contra o poder vigente. Ainda para mais, sabendo o mesmo regime que três anos antes José Afonso tinha interpretado no mesmo local canções proibidas.

 


Foi também em Vila de Mouros que nasceu, para o grande público, o rock português, foi aqui que provavelmente foi gerado um dos embriões do movimento popular, que três anos mais tarde saiu à rua, em Abril, pacificamente, com cravos na mão.

Os grupos musicais portugueses que actuaram neste Festival tiveram de um modo geral vida efémera, mas muitos dos seus elementos continuaram na ribalta musical durante muitos anos, seja com projectos individuais ou integrando-se em novos projectos.

Parece não haver dúvida que esta curta mas vibrante experiencia, resgatou ao passado e ao cancioneiro instituído pelas editoras e promotores de espectáculos, uma nova geração de músicos que se aventuraram em novas linguagens, em novas formas representativas e em novas sonoridades.

 

Depois, muito depois, em 1999, o Festival entrou no circuito comercial dos festivais de verão, passou a ser anual, vulgarizou-se e perdeu a aura que amealhara durante vinte anos.

Tão vulgar se tornou, como a cerveja que o patrocinava, acabando anos depois, sem objectivos, sem glória, vencido pela disputa entre autarquias de diferentes cores partidárias.

 

Fim

 

 

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 11:43
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