Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

07
Set 10

Introdução

Abordar este tema é como que fazer uma viagem ao passado, ao baú das minhas recordações. Em 1971, tinha eu 14 anos, demasiado jovem para viver o acontecimento por dentro, mas já com o entendimento necessário para reter algumas imagens relacionadas com o Festival, que nunca mais esqueci.

Também a minha ligação afectiva e familiar a Vilar de Mouros, assim como o gosto pela música, sempre me aproximou deste evento.

Por isso, este tema surgiu-me naturalmente quando fui instado a apresentar um trabalho no âmbito da Unidade Curricular de História da Música. Tenho-me deparado com falta de bibliografia rigorosa o que me dificulta a tarefa, mas também me motiva de forma extraordinária. Encontrar o caminho entre dados contraditórios, às vezes leva-nos à descoberta de outras informações ocultas e ainda mais interessantes.

Ainda há testemunhos, com memória muito lúcida sobre os acontecimentos, se bem que muitos daqueles que tiveram um papel activo na realização do Festival, já não estejam entre nós, nomeadamente o seu mentor, Dr. António Barge. Outros têm a visão limitada a estereótipos, a versões em segunda mão distorcidas pelo tempo.

Não é minha intenção fazer história sobre este Festival, eventualmente dar um pequeno contributo tendente a explicar a relação deste marco musical com a sociedade e a cultura de então, algo muito complexo, cruzando-se tendências musicais inspiradas em movimentos internacionais, onde os acontecimentos de 1968 na Sobornne, em Paris, a guerra no Vietname, o Festival de Woodstock ou a guerra colonial em África, se misturam.

Em Vilar de Mouros, aldeia rural, no sopé da Serra d’Arga.

 

 

 

Vilar de Mouros, da antiguidade aos nossos dias

A Freguesia de Vilar de Mouros pertence ao Concelho de Caminha e é geograficamente delimitada pelos Montes de Góios, Pena, Gávea e Crasto. Entalada entre montes, cresceu ao longo do Rio Coura e do fértil vale adjacente.

Povoada desde tempos remotos (Alves, 1982) encontram-se vestígios desde a Idade do Bronze, mas foram os romanos que lhe deram personalidade própria. Depois de dominado e romanizado o Castro de Vilar de Mouros, de onde partiu o povoamento dos vales do Minho e do Coura, estabeleceram-se nas zonas planas e baixas da zona.

Do subsolo foram exploradas jazidas de estanho e ouro, na terra crescia o centeio e a cevada, as pastagens davam alimento a cabras e ovelhas.

As condições extraordinárias do local, abrigado e diversificadamente rico, atraíram no século VIII um núcleo de Mouros, que construíram uma aldeia de acordo com a sua cultura.

No século IX, Paio Bermudes, no âmbito da reconquista da região norte, hoje designada por Entre Douro e Minho, assenhorou-se deste vilar e mandou construir uma igreja em honra de Santa Eulália, mártir hispânica.

Com as incursões normandas a população migrou para o interior, tendo Vilar de Mouros beneficiado com este movimento dada a sua interioridade. Com estas convulsões o povoado passou para a posse do rei como terra auto sustentada com monte, minas, sobrado, gado, vinho, pão e sal que era produzido no lugar de Marinhas onde o fluxo das marés se fazia sentir.

Ao longo de toda a Idade Média foi gerida por senhores laicos e até ao século XVI aparece arrendada, com a ponte de inspiração gótica construída nos séculos XIV ou XV (Ribeiro, 2007) a imitar as pontes de Ponte de Lima e Ponte da Barca.

A emigração para o Brasil, se por um lado deu uma extraordinária fonte de rendimentos, por outro lado roubou aos campos muitos braços. Os dinheiros vindos de além-mar deixaram marcas na igreja paroquial que foi renovada e decorada com rica talha rococó. Em 1855 com o encerramento da Fábrica de Cerâmica de Viana, alguns operários fundaram no lugar de Além Ponte, em Vilar de Mouros uma nova fábrica que exportava principalmente para o mercado galego a sua produção. O barro vinha da Figueira da Foz e de barreiras locais, a areia para o vidro era transformada no moinho do Viso da Quinta da Barze.

No século XX a riqueza do subsolo voltou a ser explorada com a extracção do volfrâmio durante a Segunda Guerra Mundial, os vinhos de Marinhas produzidos num pequeno microclima ganharam fama, os ferreiros criaram arte nas ferramentas, equipamentos agrícolas e forjados de gradeamentos e portões (Bento, 2008), o Festival de Vilar de Mouros deu a conhecer este belo pedaço do Alto Minho.

 

 

 

Contexto sócio cultural

Estávamos em 1971 e Salazar  (Rosas, 1997) tinha sido arredado do poder, substituído por Marcelo Caetano, o que abriu uma janela de esperança na sociedade portuguesa, a “primavera Marcelista” que, após alguns tímidos avanços e outros tantos recuos, não logrou vingar.

Se é certo que a muito contestada PIDE tinha mudado de nome e agora era designada por DGS, os métodos eram os mesmos e os objectivos não tinham sido alterados.

A guerra em África continuava a matar e a mutilar jovens, o Estado continuava a recusar qualquer solução política, apostando tudo na solução militar que já se arrastava há uma década.

A censura estava mais vigilante e activa que nunca, os cortes e proibições deixaram de ser cirúrgicos e objectivos. Na esfera do censor estavam os livros, o cinema, a imprensa e o mundo da música onde inúmeros cantores de intervenção foram banidos por completo.

Tudo o que tivesse a autoria, por exemplo, de José Mário Branco, José Afonso ou José Pedro Ary dos Santos era proibido e apenas podia ser editado ou transmitido clandestinamente.

Portugal vivia também momentos de isolamento internacional. Depois da célebre tirada de Salazar, “orgulhosamente sós”, Portugal foi sendo pressionado pela maioria dos países e condenado internacionalmente, através da ONU, pela manutenção da guerra colonial em África. De facto, Portugal vivia entre a angústia da guerra, o desconhecimento da situação real, o isolacionismo político e um nível sócio cultural muito atrasado em relação aos vizinhos europeus.

A taxa de analfabetismo era elevadíssima, apenas uma minoria acabava os estudos secundários e ainda menos os estudos superiores. O peso da Igreja sentia-se por todo o lado e apesar da separação de poderes regidos por uma Concordata, era evidente a cumplicidade entre o Estado Novo e a Igreja Católica, que representava o sector mais retrógrado e obscurantista da sociedade.

Dizia-se nessa época que o Português tinha três interesses, “Futebol, Fado e Fátima” uma clara distracção organizada e patrocinada pelo estado totalitário, cujo objectivo era manter a maior parte do povo alheio aos problemas políticos e de governação.

Na pequena aldeia de Vilar de Mouros a meia dúzia de quilómetros de Caminha, o tempo passava devagar, como em todas as aldeias minhotas. Muitos dos que trabalhavam no campo tinham emigrado “a salto” para França, onde aprenderam, da noite para o dia, novas profissões, fazendo todos os sacrifícios para um dia regressarem.

Duas serralharias (Bento, 2008) e uma serração de madeiras davam emprego a algumas dúzias de homens e rapazes da zona, únicas alternativas à emigração, ao campo ou à construção civil.

A Freguesia tinha então cerca de 650 habitantes (Alves, 1982) e estendia-se ao longo do Rio Coura por ambas as margens, que eram ligadas, ainda e só, pela velha ponte gótica.

(continua)

publicado por Brito Ribeiro às 19:57
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