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Jun 10

A importância socioeconómica do linho na Serra d’Arga

 

A indústria linheira, no que se refere ao cultivo da planta e produção da fibra, como à transformação desta última e à comercialização dos tecidos e linhas à volta da Serra D’Arga, definiu-se desde sempre como uma actividade exclusivamente caseira, individual e dispersa, artesanal e qualitativa, servida por uma técnica manual muito primitiva (Vasconcelos, 1884).

Por isso, as diversas medidas de fomento iniciadas no século XVII pelo Conde da Ericeira (Caldas, 1991), continuadas no século seguinte pelo Marquês de Pombal ou mais recentemente, durante o Estado Novo, não afectaram minimamente esta região do Alto-Minho.

 

 

 

Lavradeiras da Serra d’Arga

 

O trabalho do linho, essencialmente a fiação, tornou-se um atributo exclusivamente feminino. A roca e o tear tornaram-se os instrumentos operacionais e simbólicos desta actividade que transforma o linho em tecido.

Mas as tarefas intermédias eram numerosas, complexas, o que ajuda a explicar o seu declínio, à medida que surgiam outras soluções mais simples e baratas, como o algodão. Foi inevitável a diminuição das áreas de cultura e consequente recurso à importação. No entanto, o linho representava ainda não há muitos anos uma espécie de símbolo de coesão familiar, uma herança transmitida de pais para filhos ou para ser mais exacto, de mães para filhas. Essa herança era constituída por reservas de roupa branca de vestir e roupa de casa, assim como roupas do bragal (enxoval) das moças ou em peças inteiras guardadas em rolos nas grandes arcas como se fosse um tesouro.

Mas o linho está também representado na liturgia, nos paramentos, nos paninhos do Senhor, o pano quadrado que tapa o cálice e o manustério para limpar as mãos.

Em geral tudo se fazia com o linho: lençóis, toalhas de mesa ou de rosto, colchas, camisas, calças ou coletes. Mas o linho mais grosseiro e mesmo a estopa também eram profusamente utilizados no dia-a-dia para finalidades mais rústicas ou de maior desgaste como roupa de trabalho, sacos, colchões, reposteiros ou carpetes (Domingues, 2009).

O linho também era encarado como uma actividade de rendimento complementar, porque haviam casas que “trabalhavam para fora” ou seja, encarregavam-se de determinadas fases por conta de outras casas ou famílias que, por qualquer motivo, não dispunham de meios para cultivar ou tecer os seus próprios panos.

Era “justada” a confecção de uma determinada quantidade de peças no tear ou o cultivo de determinada leira, sendo a compensação feita em maquia ou efectuado pagamento. Eram as casas com mais mulheres que tradicionalmente se encarregavam de trabalhar para fora ou aquelas que menos terras possuíam, havendo assim um superhabit familiar de mão-de-obra disponível.

Numa região deprimida economicamente, onde os terrenos só a muito custo dão magra compensação (Oliveira, 1978), onde a propriedade está atomizada em pequenas e recônditas parcelas, o linho não raras vezes era uma fonte de rendimento complementar de vital importância. Assim, peças inteiras em pano de linho ou peças trabalhadas e decoradas com rendas e bordados, eram entregues para venda nas lojas das vilas ou da cidade. Estão neste caso povoações como Caminha, Vila Praia de Âncora, Ponte de Lima ou Viana, para apenas referir as mais importantes, onde a espaços, também apareciam à venda panos de linho nas feiras.

Uma das utilizações mais curiosas do linho prendia-se com a confecção de redes e velas para pesca (Vasconcelos D. M., 2004). Como vimos o algodão a partir do século XVI vai entrar nos hábitos dos portugueses e substituir gradualmente o linho como fibra de tecelagem. Porém, na pesca artesanal o seu uso persistiu de forma generalizada até ao início do século XX, quando foi definitivamente substituído pelo fio de algodão, que algumas décadas depois foi destronado pelo nylon e outras fibras sintéticas que se usam actualmente. Uma rede em particular (Verde, 2009), a volante de tresmalho com albitanas para pesca do sável, usada no Rio Minho, continuou a ser construída em linho até ao início dos anos trinta do século passado.


(continua)

publicado por Brito Ribeiro às 15:07
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