Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

08
Mai 10

“Na sala do linho está a gloriosa recordação da família portuguesa, das virtudes das nossas mães, do nosso lar. Tudo alvo puro, respirando o perfume da modesta flor azul, espelhando a frescura dos ribeiros e dos lameiros. Será talvez sentimentalismo, mas um minhoto não olhará para este quadro encantador, para as maravilhas da roca e do fuso, sem alguma comoção” (Vasconcelos, 1884, 145)


 

Introdução

 

O linho sempre exerceu um determinado fascínio sobre mim. É certo que não descendo de família camponesa, por isso nunca tive um contacto privilegiado com esta cultura, mas fruto de um relacionamento antigo e frequente com as gentes das aldeias em volta da Serra D’Arga, absorvi o gosto e algum conhecimento deste ícone da cultura local.

O linho é mais que uma planta, uma cultura agrícola, um fio ou um pano. É o exemplo paradigmático que a soma das partes é mais que o todo. É uma actividade complexa, com tradições, ritos e manifestações culturais que diferem em cada lugar, embora com uma intencionalidade semelhante.

Este trabalho pretende simplesmente dar a conhecer o linho como manifestação sócio cultural, sem esquecer o papel histórico, funcional e económico que desempenhou ao longo dos tempos.

Começarei por abordar a cultura do linho no contexto histórico, seguidamente procurarei dar uma breve explicação sobre as diversas fases da cultura, o contexto em que era produzido e concluirei o trabalho com o enfoque no aspecto sociológico e antropológico de que se reveste este fenómeno, nos ritos e tradições associados, assim como o panorama actual e perspectivas futuras.

 

 

Génese e origem do linho

 

Há mais de 30.000 anos os caçadores-recolectores da Europa de Leste, na região da actual Geórgia, já utilizavam o linho para fabricar tecidos e cordas. Esta foi a descoberta feita por uma equipa de arqueólogos e paleobiólogos que estudam uma gruta desde 1996 e que publicaram na revista Science um artigo com estes dados (Viana, 2007).

Um dos investigadores, Ofer Bar-Yosef, da Universidade de Harvard considerou que “esta foi uma invenção decisiva para os primeiros humanos. Eles devem ter utilizado estas fibras para produzir roupa, cordas ou cestos”.

A equipa de especialistas tinha como primeiro objectivo estudar os grãos de pólen existentes nos diversos extractos da gruta para compreender as variações climáticas que as populações da época experimentaram. No entanto, acabaram por encontrar fibras microscópicas de linho selvagem que, submetidas análises de carbono 14, permitiu datar o achado.

Muitos milénios mais tarde, o linho era usado no Egipto nas primeiras culturas pré-dinásticas. Fragmentos de tecidos e fusos foram encontrados em jazidas neolíticas que datam de 5.000 a.C..

O linho vem citado expressamente no Antigo Testamento (Viana, 2007) como um cultivo normal e uma utilização fina, até luxuosa. Ele é referido no Exodo (IX, 31) como uma das culturas que se perdeu com a chuva de pedras que o Senhor fez cair sobre o Egipto. Também as cortinas e o véu do Tabernáculo e da sua entrada e as vestes de Aarão como oficiante eram de linho fino retorcido (XXXVI, 8, 35 e 37, XXXIX, 1 e 2).


As citações ao linho aparecem igualmente no Novo Testamento, nomeadamente no Apocalipse de S. João que fala de “sete anjos que tinham sete pragas saíram do templo,  vestidos de linho puro resplandecentes e cingidos com cintos de oiro pelos peitos… ou ainda … um homem rico que se vestia de púrpura e de fino linho”. Também José da Arimateia pegou num lençol de linho puro e embrulhou o corpo de Jesus após o descer da cruz (Viana, 2009).

Estrabão informa que os Iberos de Emporium (Ampurias) eram hábeis em tecer o linho, que usavam em várias peças de vestuário e com ele fabricavam couraças com que protegiam o tronco em combate. Com a dominação de Roma e a imposição da pax romana, o linho foi muito explorado, não só nas áreas mais próximas da capital do Império, mas também nas diversas regiões conquistadas, nomeadamente na Ibéria.

As populações autóctones que viviam em castros situados em locais altos, nos montes de difícil acesso, instalaram-se em terras baixas e vales férteis, desbravando matagais e ocupando os solos com as culturas de trigo, centeio e cevada em regime de sequeiro. Os terrenos húmidos e fundos eram ocupados pelos linhares e pelas ervagens que serviam de pastagens permanentes para o gado.

Em Portugal, o primeiro registo escrito (Caldas, 1991) onde o linho é mencionado é o foral de Guimarães do Conde D. Henrique, data de 1096 e são referidos os lenzários de Guimarães.

No século XIII o linho, utilizado ao longo de toda a Idade Média para o pagamento das rendas aos abades e senhores, dos dízimos às igrejas, constituía a primeira indústria do nosso país, lugar que conservou até ao Século XV.

No Século seguinte principia a sua decadência, para isso contribuindo a desertificação dos campos a favor das navegações para a Índia, África e Brasil.

Terrenos de cultivo na Serra D'Arga


No século XVII verifica-se a difusão do milho no cultivo das terras e paralelamente, Filipe III proíbe a exportação do linho, em tecido e em rama. Nos séculos seguintes as preferências recaem no algodão que havia entrado em Portugal nos primeiros anos do Século XVI.

No entanto, o linho manteve quase até aos nossos dias um papel preponderante na sociedade, principalmente nas comunidades rurais, onde o linho era associado a tradições e ritos muito importantes.

(continua)

publicado por Brito Ribeiro às 14:23
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Estimado Brito,
sou da Estremadura, a viver ora no Ribatejo, ora na Península de Peniche, razão pela qual, linho só aquele que, em dias de festa, sobe ao altar de minhas mesas e, por vezes, quando o calor aperta e a preguiça não retraí o ímpeto, desce ao leito.
Sei o básico sobre o linho. Sei (oiço dizer) dos campos azuis a perder de vista, da beleza inigualável e do aroma com que o ar se lava em sua presença. E sei, que os minhotos têm-no como contraponto ao verde das serras, em grande escala.
Quanto a mim, apenas em muitos dos meus poemitas... :)

Um abraço amigo. Muito bom trabalho este que nos deixa.
Mel de Carvalho a 11 de Maio de 2010 às 23:30

Obrigado pela visita e comentário.
Abraço
BR

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