Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

02
Abr 07
Entrei para a Empresa de Lacticínios Âncora em Agosto de 1990, depois de ter sido entrevistado, primeiro na fabrica por um dos gerentes e depois no Porto numa empresa de consultoria e marketing chamada Área Chave, onde alem da dita entrevista, fiz testes psicotécnicos e de conhecimento geral.
Acabei por ser aprovado e devo ter sido dos poucos funcionários, que entrou na Âncora, sem cunha ou pela mão de alguém.
Eu trabalhava na Cavancoura, mas esta cooperativa agrícola atravessava algumas dificuldades e tratei de me pôr a andar, até porque ganhava pouco. Comecei a trabalhar na Âncora como inspector comercial, com um vencimento de 85 contos, tendo acordado que seria revisto ao fim de seis meses, consoante o meu desempenho.
 
Era uma actividade fascinante, pois alem de sempre ter gostado de trabalhar na indústria, o sector da alimentação fascinava-me (e fascina-me). Por outro lado, era uma satisfação poder contribuir para o sucesso duma empresa que estava muito bem cotada no mercado, pois falar da Âncora era sinónimo bons produtos, gente séria e contas em dia.
Da gerência faziam parte quatro pessoas, embora só dois deles fossem executivos. Os outros pouco ou nada riscavam.
Estes últimos eram o sr. Cândido, antigo director de produção e que era o encarregado da pocilga e o sr. Manuel Marreca, que dava conversa a todos e não fazia nada de jeito. Era o que vulgarmente se chama um “ gajo porreiro” que passava a manhã a conversar com este ou com aquele, de tudo o que viesse à baila, principalmente de mulheres, que tinham sido e ainda eram a sua perdição. Da parte de tarde já não aparecia. Ia ter com a sua “cachopa”, que era cerca de trinta e cinco anos mais nova e que ele verdadeiramente mimava.
O sr. Cândido era um homem com quem gostava de conversar, porque alem dos conhecimentos técnicos que possuía, era uma pessoa muito cordial e com um humor muito fino, mas também muito acido se queria atingir alguém. Um dia estava ele agastado, por motivo que desconheço, com o sr. Presa, ouvimo-lo a desabafar com o Manuel de Sousa, em voz alta para que o sócio o pudesse ouvir: “ Eu quando morrer, quero ir para o inferno, porque no céu só há anjinhos”.
Quem realmente mandava eram os “Presas”. O pai, sr. Francisco Presa homem de muito respeito e que me intimidava de inicio, até perceber que uma pessoa muito humana e compreensiva; o filho mais velho, o Francisco, que também era gerente e que se percebia querer modernizar a empresa. Haviam mais quatro “Presas”: O Elias que era o director de produção, o Edmundo que era o seu adjunto, a Clara que era a tesoureira e a Ana Maria que trabalhava na contabilidade.
 

O director comercial era o Manuel de Sousa, o “Manel Sapateiro” um ancorense com muita experiência no cargo, que ocupava há mais de dez anos e que tinha acompanhado, desde o inicio, o crescimento da nova distribuição com o aparecimento dos hipermercados, das grandes cadeias de supermercados e dos centros comerciais.
Eu dependia organicamente da gerência e apenas a ela reportava. Digamos que era uma espécie de olhos e ouvidos da gerência, junto dos clientes e dos consumidores. Hoje poder-se-ia chamar provedor ou algo parecido. Mas era com o Manuel de Sousa que eu ao fim ao cabo trabalhava, embora fosse (devia ser) uma espécie de polícia, coisa que certamente não lhe agradaria muito.
 
Quando lá cheguei, ainda havia uma base comercial assente nos velhos distribuidores e agentes ao longo de quase todo o país, com predominância do norte e que perdiam todos os dias a batalha com os hipermercados e com os cash, salvo raras excepções.
Marketing era coisa que não existia, controle de qualidade organizado também não, sistematização de informação só ao nível da gerência, que nos apresentava resultados analíticos, dos quais, eu pessoalmente, tinha algumas, silenciosas reservas.
Como em tudo o que se mexe aparecem resistências, lá não foi excepção e encontrei algumas pessoas, que começaram por me querer complicar a vida e o trabalho. Aos poucos, com calma e alguma astúcia, consegui quebrar o gelo, que me rodeava.
Uma dessas situações passou-se com o sr. Leones Miranda, o contabilista da empresa, um homem que sabia do ofício, que conhecia os cantos à casa (era funcionário há quarenta anos) e um feitio difícil, que aconselhava evitar a sua proximidade.
Consegui ter ali um amigo que me deu algumas importantes ajudas, com os seus conhecimentos. A chave para o “conquistar” passou por lhe dar razão, sem reservas (quando a tinha), pedir-lhe opiniões sobre a melhor forma de resolver este ou aquele assunto, desde que relacionado com a contabilidade, como por exemplo, certo tipo de despesas ou algum investimento comercial. Conclui que ele gostava de ser prestável e que lhe dessem alguma atenção e consideração profissional. Coisa que nem todos faziam. Este homenzarrão que media quase dois metros, faleceu poucos anos depois, vitimado por um ataque cardíaco fulminante.
 
Ainda na contabilidade trabalhava um informático, o Dinis Oliveira, que apesar de sermos mais ou menos da mesma idade, não tínhamos grande relacionamento. Antes de sermos colegas cumprimentávamo-nos com um “Então, estás bom?” e pouco mais. Aos poucos, aprendi a admirá-lo pelo seu profissionalismo e pela sua postura de vida. Hoje tenho muita consideração por ele e acho que ele também me retribui, de igual forma.
Na área administrativa e expedição estava o Chico Santos e a Rosa. O Chico santos é uma figura típica ainda hoje, um “cromo” para muitos e que no inicio da minha carreira na Âncora, também me causou alguns aborrecimentos. Mas também lhe dei a volta, com mais ou menos dificuldade, e acabamos a colaborar bem um com o outro. Basta dizer que continua ser a pessoa em quem confio, para me tratar do IRS e dessas coisas. Nessa época, o Chico ainda bebia uns copos, ficaram célebres algumas bebedeiras e os disparates que ele fazia, quando tinha “dois dedos de gramática”.
Falta referir o Camilo, que era o outro elemento desta secção e que andava muitas vezes “à pega” com o Miranda, pois se um dizia que era pedra, logo outro dizia que era pau. Como o Miranda tinha idade para ser pai dele, achava-se no direito de lhe dar cabo da paciência, o que motivava forte réplica do colega, que nunca foi gago, nem tinha aftas na língua.
O encarregado geral, da área de produção era o Zé Camões, que tinha um defeito qualquer na vista, que cumpria e fazia cumprir escrupulosamente, as directivas emanadas da gerência ou da direcção de produção. Faleceu repentinamente pouco tempo depois do Miranda, já não me lembro porque motivo.
Tínhamos um consultor técnico de produção, o Dr. Patrick Keating que apesar do nome era português de Armamar. Os pais dele, é que eram escoceses e devem-lhe ter deixado por herança uma antipatia profunda pelos ingleses.
O dr. Patrick já tinha uma idade considerável, devia andar pelos setenta e tais, tinha um percurso de vida feito por todo o mundo, conhecia a América Central como ninguém, pois tinha sido técnico da FAO, um organismo das Nações Unidas para a alimentação.
Alem disso era um reputadíssimo especialista de lacticínios, principalmente de queijos e ainda dava umas aulas na faculdade.
Grande conversador, tinha a tendência de nos dar aulas informais sobre técnicas de produção, que nós procurávamos evitar, pois se fossemos “caçados” tínhamos para o resto da manhã ou da tarde.
Apesar de tudo, quando queríamos perceber porque é que este ou aquele produto estava de determinada maneira, era a ele que recorríamos, porque era claro nas suas explicações. Nunca vi o homem a arranjar desculpas, nem a assobiar para o lado, como outros que lá também trabalhavam.
 
Não posso falar de todos, visto que éramos uma centena de funcionários e com alguns nunca troquei mais que uns simples cumprimentos, até porque passava mais tempo, fora que na fábrica. Comecei aos poucos a conhecer o mercado, que em 90 ou 91 ainda não atingia o Alentejo, o Algarve e a Beira Baixa.
Se no Minho tínhamos uma implantação forte, quanto mais nos afastávamos para o sul ou para o interior, menor era essa implantação e notoriedade. Como dizia, aos poucos fui conhecendo os agentes, depois os armazenistas, por fim os hipermercados. A aprendizagem no terreno era feita quase sempre sozinho e à minha custa. Na fábrica, à força de tanto chatear com perguntas o Manuel de Sousa, acabava por lhe arrancar, mais ou menos, o que queria saber.
O técnico da Área Chave que dava assistência à empresa, O dr. Aníbal Paulista, tinha-me aconselhado a fazer a imersão com calma e nunca em menos de um a dois meses. "Imersão"? Mas estou a falar de uma empresa que produzia queijos ou vou falar de caça submarina, perguntam vocês.
“Imersão” é o primeiro período que todos passamos quando entramos para uma empresa nova, digamos que é “enfarinharmo-nos” ou “conhecer os cantos à casa”. Os gajos do marketing gostam muito de usar umas expressões esquisitas.
 

Durante dois meses arrebitei as orelhas, cheirei em todos os cantos, tipo perdigueiro, fiz milhares de perguntas a este e a aquele, até ter a certeza de conhecer o negócio, pelo menos as suas bases.
Fui duas ou três vezes com o Manuel de Sousa assistir a negociações comerciais com grandes superfícies, onde éramos espremidos em descontos, bónus, créditos e outras sacanices que eles inventavam. Para vós, que não fazeis ideia como funciona um hipermercado, deixem-me dizer que eles não dão absolutamente nada, nem o espaço, que o nosso produto ocupa. Até isso tem de ser pago.
Vocês recebem, como eu recebo, na caixa do correio, montes de folhetos dos Continentes, dos Intermarches e outros, de propaganda com as ofertas disto, mais daquilo. Quem dá são os fornecedores, que ainda tem de pagar para ter o privilégio de aparecer nos folhetos.
Aos poucos fui visitando todos clientes, conhecendo as suas opiniões, as suas dificuldades e as formas que me sugeriam para resolver os problemas que iam aparecendo e que não eram poucos, desde a logística da distribuição, à qualidade, aos preços e à concorrência. Elaborava relatórios nos quais apontava as insuficiências, mas também dava algumas pistas no sentido de ultrapassar as dificuldades.
As medidas que propunha eram de tal forma obvias, que foram praticamente todas aprovadas e ao fim dos tais seis meses, fui aumentado o que me deu uma grande satisfação, pois agora já ganhava mais do dobro do que ganhava na Cavancoura, um ano antes.
É verdade que também me saia do corpo, pois não tinha horas para nada, fazia quilómetros sem fim e andava numa roda-viva de cliente em cliente. Mas quem corre por gosto não cansa e eu gostava mesmo do que fazia.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
publicado por Brito Ribeiro às 14:27
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