Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

17
Fev 10

A história da pesca do bacalhau pelos portugueses aparece pela primeira vez referenciada em 1353, quando D. Pedro I e Edward II de Inglaterra estabelecem um acordo de pesca para pescadores de Lisboa e do Porto poderem pescar o bacalhau nas costas da Inglaterra por um período de cinquenta anos.

A necessidade de estabelecer um acordo indicia que esta actividade já se realizava em anos anteriores, e em tal quantidade, que justificasse a necessidade enquadrar esta actividade nas relações entre os dois reinos.

 

 

Pelo menos desde o século X que os mercadores escandinavos vinham buscar o sal a Portugal, e aí estabeleceram colónias ou feitorias, como indicam as construções ovais, do tipo viking em Pedrinhas, perto de Fão.

Do século XI existem registos dos normandos estabelecerem relações amigáveis com as populações do litoral, e terão sido estes a transmitir os conhecimentos da navegação atlântica.

Contudo não seria ainda o bacalhau o peixe de eleição no centro de toda esta actividade comercial.

No século XII, Berengária, filha de D. Sancho I, casa com Valdemar II da Dinamarca, o que novamente indicia um ligação grande entre os dois reinos, que dado o seu distanciamento físico se devia provavelmente aos fortes laços comerciais existentes.

No século XV, apesar do fim da colonização da Gronelândia e das viagens mais ou menos regulares entre o continente europeu e a ilha, a sua localização não foi esquecida, assim como a localização dos habitats do bacalhau, que havia chegado até aos portugueses.

Cinco séculos de relações comerciais tinham também estabelecido boas relações diplomáticas com a coroa dinamarquesa, as quais não passaram desapercebidas ao Infante D. Henrique, o Navegador, que obteve do rei da Dinamarca um piloto Sofus Larsen – Wollert- que veio até Portugal, e presumivelmente transmitiu os conhecimentos náuticos e da pesca aos portugueses.

Temos de esperar por 1506, quando encontramos outra referência (ainda que indirecta) à pesca do bacalhau no Atlântico Norte, desta vez pelo dízimo sobre essa pesca que D. Manuel I cobra para pagar a viagem dos Corte Reaes, o que nos sugere a importância e quanto estava estabelecida este tipo de pesca.

Em 1452 Diogo de Teive navegou para nordeste dos Açores, “a tal distancia que ficaram com o cabo Clear a leste...” segundo um texto de Las Casas. Curiosamente, este texto está manifestamente errado, pois Diogo de Teive teria de navegar para noroeste para poder ter o cabo Clear, na Irlanda, a nascente.

Se é habitual que as crónicas da época não sejam exactas, não podemos deixar de lembrar que a Lei Mental de D. Duarte era clara na sua vontade de esconder de outros o que a coroa considerava serem segredos de estado.

A viagem seguinte registada nas águas da Terra Nova é a de John Cabot, que apesar de não estar estabelecida a nacionalidade, navegou com pescadores e marinheiros de Bristol, que já pescavam nessas águas.

 A partir do século XV já nos surgem vários documentos sobre a pesca dos portugueses no Atlântico norte. Em 1502 João e Francisco Fernandes, açoreanos, bem como João Gonçalves, recebem do rei de Inglaterra uma gratificação, que tinha sido previamente solicitada, para estabelecerem uma base na Groenlândia.

Cerca de 1500 ou 1501 Gaspar Corte Real navega até ao estreito de Davis, no que, segundo o autor, representa a descoberta da Terra Nova. É elaborado o planisfério de Cantino, o primeiro a apresentar uma visão mais realista dessa região. Ora os pescadores portugueses, na posse desta informação, procuram nas áreas recém descobertas e cartografadas melhores pesqueiros.

No entanto, já o seu pai, João Vaz Corte Real, esteve numa expedição mandada efectuar pelo Rei Cristiano I da Dinamarca a pedido do rei de Portugal Afonso V, em 1470. No relato desta viagem ficou registada a Gronelandia e “A Terra dos Bacalhaus”, o que mais uma vez indicia a prática desta pesca.

 

 

Em 1504 já havia colónias de pescadores de Viana do Castelo e de Aveiro na Terra Nova. No entanto seria impossível criar em 4, 5 anos uma estrutura destas se não houvesse já antes uma indústria de conservação e distribuição do pescado. O investimento seria demasiado elevado para apostar em tão larga escala em algo totalmente novo. Só volta a haver novas referências a estas colónias para o período de 1520 a 1525.

Todas estas informações indiciam um conhecimento real e o aproveitamento económico das reservas piscícolas, antes do conhecimento “oficial” registado pelas expedições enviadas para “descobrir” estas zonas.

Estas colónias correspondem a um tipo de pesca sedentária, onde os barcos encontravam uma base em terra, e a partir daí os pescadores saíam em embarcações mais pequenas à pesca com aparelhos de linha. Naturalmente o amanhar do peixe e a primeira seca e salga era também em terra. Esta opção podia não ser a única, podendo já ocorrer uma pesca errante, semelhante à que mais tarde foi adoptada pelos lugres.

Durante o reino de D. Manuel I era em Aveiro que eram armados mais barcos para a pesca longínqua, tal como no século XX. Segundo a “Corografia Portuguesa”, seriam cerca de 60 naus só para a pesca na Terra Nova, numero que subiu para aproximadamente 150 em 1550.

Vários autores portugueses, entre eles Francisco Salles Lencastre, salientam que devido à pesca do bacalhau, trouxeram para Viana da Foz de Lima e Aveiro riquezas nunca vistas.

Em 1578, Antony Parkhurst um mercador de Bristol, escreve numa carta que “... havia ali em geral mais de 100 velas espanholas, 50 velas portuguesas e 150 francesas e bretães, na pesca do bacalhau...”, adicionando mais a frente 50 inglesas. No entanto, dois anos antes, a proporção era: 50 portugueses, 30 ingleses e 100 espanhóis, não havendo referencia a barcos gauleses.

(continua)

 

Fontes:
Mário Moutinho, História da Pesca do Bacalhau, por uma antropologia do “fiel amigo”, Imprensa Universitária, editorial Estampa, Nº 40, 1985.
As póvoas marítimas, A. Sampaio, Estudos Históricos e Económicos, Vol. I Porto, 1923.
Breve Resenha Histórica”, in Boletim de Pesca, nº 28, Setembro 1950
The search for the schonner Argus, Allan Villiers, 1951 (reedição em português, Cavalo de Ferro Editores, Lisboa 2006 - ISBN 978-989-623-026-3)
Histoire des explorations polaires, Paris, 1961
Os Grandes Trabalhadores do Mar - Reportagens na Terra Nova e na Groenlândia, Lisboa, 1942 (reedição Caleidoscópio Edição: "Heróis do mar, Viagem à Pesca do Bacalhau", Casal de Cambra 2007, ISBN 978-989-8010-89-6)
 
Obtido em "http://pt.wikipedia.org/wiki/Pesca_do_bacalhau"
 
publicado por Brito Ribeiro às 14:44
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