Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

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Dez 09

Gontinhães, Primavera de 1922

 

Subiu a calçada do Sol Posto, mas ao passar junto da propriedade do Teles parou arquejante. Um cansaço imenso invadia-lhe o corpo, toldava-lhe a mente. O coração batia desordenado, as pernas pesavam, o ar entrava-lhe com dificuldade no peito.

Encostou-se ao muro com o semblante fechado, procurando recobrar alento. O corpo alto e ossudo, as costas algo curvadas, a tez branca, pálida demais para quem vivia à beira mar, descreviam um jovem precocemente envelhecido. Os vinte e dois anos representavam já um fardo pesado para quem perdeu o pai ainda bebé de cueiros e a mãe três anos depois, ambos abatidos pela tuberculose.

Quando a mãe enviuvou, cedo lhe deu um padrasto, o Abel, que era como um verdadeiro pai para ele. Foi com ele e a avó Maria Chocalha que ficou a viver quando a mãe se finou, pouco depois.

A mãe que procurava recordar, mas de quem não tinha uma leve recordação para guardar. Apenas a fotografia dos pais no dia do casamento perpetuava a imagem destes seres, tragicamente ceifados pela doença implacável. Pouco depois de enviuvar, também o padrasto tinha casado com a Delfina, que o aceitou, e dele tratou com esmero, lado a lado com as filhas naturais que iam surgindo, a Bela, a Minda, a Quinhas e a Letinha. Agora vinha mais um a caminho, a Delfina tinha anunciado há poucos dias que estava novamente de esperanças.

 

Aos poucos recuperou a respiração, mas um ataque de tosse trouxe-lhe um vómito à boca. Limpou o escarro com o lenço, uma pequena mancha encarnada tingia o pano. Já era a segunda vez que lhe acontecia.

Retomou a marcha, um passo lento, quase de velho, até aos Poços de Vilarinho por entre caminhos bordejados de giestas floridas. Sentou-se à sombra de um velho plátano, vendo à sua frente o casario que se estendia até ao mar. Lá em baixo, a beijar a areia do portinho, esperavam as gamelas da sardinha, prontas para a faina, logo mais à tardinha.

Desceu vagarosamente a Gontinhães, terra onde a Delfina e o Abel tinham uma loja e pensão de hóspedes, que era também a sua casa. As crianças brincavam no Largo do Sol Posto ao lado da pensão. Umas jogavam à riola, outras saltavam à corda.

- Américo, joga aqui connosco – pediu a Letinha, a mais nova do grupo.

- Sim, sim, Américo joga connosco – fizeram coro as demais.

- Agora não posso, tenho de ir tomar conta da loja e falar à avó Maria. Mais logo jogo convosco e ganho-vos a todas!

Entrou na loja fresca e sombria, sentiu-se melhor, já nem lhe ardia o peito ao respirar. Não encontrou a avó em parte alguma. Uma das criadas informou-o que a tinha visto a descer a rua em direcção à praça.

- Se calhar foi à Igreja – concluiu o Américo.

- Que queres à avó, Américo? – Pergunta a Delfina que descia as escadas, vinda dos quartos e que tinha ouvido parte da conversa.

- Nada Tia Fina, nada. Era só para saber dela.

- Américo, estás tão pálido, andas outra vez a comer pouco. Pareces um pisco! Vem comigo, vou fazer-te uma gemada com vinho fino, a ver se te dá novas cores.

- Mas não me apetece nada…

- Não sejas teimoso, tens que te alimentar. Vamos lá para a cozinha!

No dia seguinte estava a Delfina a servir os almoços para os hóspedes quando entrou na cozinha a Gracinda, uma das lavadeiras da pensão.

- D. Delfina, quando puder chegue ao lavadouro.

- Ó mulher, não vês que estou a servir os almoços… Que raio, não fazeis nada sozinhas. Afinal o que aconteceu?

- É que… bom… é melhor a senhora passar lá.

- Deixas-me em cuidados, mas agora…

- Não há pressa D. Delfina. O que é pode esperar…

- Vá lá D. Delfina, eu acabo de servir. Já faltam poucos – intervêm a Maria Ferrinha, a ajudante de confiança da dona da pensão.

Passaram à copa, subiram os degraus que conduziam ao terreno onde estavam os lavadouros. Dois tanques enormes em cantaria de granito onde eram asseados os lençóis, toalhas e cobertores da pensão, assim como as roupas dos hospedes e dos proprietários.

- Que se passa mulher, parece que te surgiu uma alma danada.

- Olhe para este lenço…
- Tem sangue. De quem é?

- Tem sangue mas é no escarro – esclarece a Gracinda.

- Cruzes, de quem é o lenço?
- Do… do menino Américo…
- Tens a certeza?

- Se tenho, minha senhora! Fui eu que abri a trouxa dele. Olhe o resto da roupa, a camisa, as ceroulas, não enganam. São do menino e aqui está outro lenço também manchado de sangue.

- Deus me valha, onde é que ele está?

O Américo foi procurado imediatamente por toda a casa, acabou por aparecer pouco depois com um cesto de figos que recolhera da figueira grande. “Está tão carregada que os galhos estão dobrados quase até ao chão” contava o Américo, enquanto pousava o cesto sobre a comprida mesa da cozinha.

A Delfina pegou-lhe suavemente por um braço levando-o para a salinha, contigua à cozinha, onde o interrogou sobre o sangue no lenço de bolso.

- Pois foi Tia Fina, já é a segunda vez que me acontece. Depois de tossir sai-me um escarro com sangue misturado.

- Ai meu filho… tu estás doente. Bem me parecia que a tua cor era esquisita… Já mandei chamar o Dr. Luís, mas está para Afife. Só mais logo é que regressa. Enquanto ele não chega tens de te recolher ao quarto. Pode ser doença que se pegue às crianças…

- Oh, não! Às crianças não…

- Por isso, vais para o teu quarto até chegar o Dr. Luís, que eu levo-te lá o comer.

 

O diagnóstico feito pelo Dr. Luís Ramos Pereira foi peremptório, o mal estava instalado nos pulmões e pouco havia a fazer. Foi dada ordem para queimar as roupas de cama e escaldar e apartar a louça onde o rapaz comia.

No dia seguinte foi para o Amonde, acompanhado da avó Maria Chocalha, instalou-se na casa da sua tia Joaquina, irmã do seu falecido pai. Isolamento, ar do monte e uns remédios aviados na botica eram a única esperança.

- Talvez ainda não esteja muito adiantado. – Dizia com ar de dúvida o médico – Olha que se os ares do Amonde não o curarem, nada mais o cura.

Todas as semanas a Tia Leonarda carregava à cabeça um cesto de mantimentos e o jornal para o Américo ler. A viagem fazia-a a pé, duas léguas para cada lado, nada que assustasse esta mulher, habituada como estava a carregar feixes de lenha e outras mercadorias o dia inteiro. Na volta trazia sempre uma carta que o doente escrevia para a sua mãe de adopção, a Tia Fina como ele carinhosamente lhe chamava.

Uma vez o Abel ainda levou as crianças até ao Amonde, viram ao longe a casa e o Américo, não se aproximaram com receio do contágio.

Nem os ares do monte, nem os cuidados de quantos o rodeavam lhe valeram. Escrevia mais uma carta para a Delfina, grávida de oito meses, quando a pena lhe escorregou dos dedos. Já não terminou a frase “Deus o crie para a boa…”.

 

publicado por Brito Ribeiro às 17:44

Um bom texto, e muito a propósito, numa altura em que a maldita se voltou a incrementar, depois de ter sido considerada erradicada definitivamente. Voltou, mais violenta do que antes mas já não causa o terror daquele tempo porque as formas de a combater estão muito mais desenvolvidas e são mais eficazes. Existem testemunhos exemplares, ainda desse tempo e do tempo dos sanatórios, do tempo em que o Caramulo se tornou num centro de tratamento de excelência e do tempo em que os trabalhadores dos Caminhos de Ferro dispunham de um magnífico estabelecimento sanitário com essa finalidade na Serra da estrela, na subida da Covilhã para as Penhas da Saúde, agora transformado ou em vias de ser transformado em Pousada da Enatur, se a memória não me atraiçoa...
Um bom ano para si e para os seus.
Eira-Velha a 30 de Dezembro de 2009 às 09:00

Nesses anos a tuberculose destruiu muitas famílias, a par com outras doenças que hoje estão praticamente erradicadas. Não é o caso da tuberculose, o que uma vergonha para um país e uma sociedade que se diz evoluída.
Este pequeno conto baseia-se em acontecimentos reais que me foram transmitidos pela minha falecida mãe (a Quinhas) e que à época tinha sete anos. Limitei-me a ficcionar os diálogos e dar movimento ao drama.
Abraço
BR
Brito Ribeiro a 1 de Janeiro de 2010 às 21:52

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