Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

30
Mar 07
Encontrei meramente por acaso o teu blog, uma noite como hoje, em que fiquei a trabalhar e já chateado com o serviço, sem nada para fazer, mas com a obrigação de lá permanecer, comecei a dedilhar teclas, cheirar sites e mais sites, blogs e mais blogs, até que encontrei recordações de infância e adolescência. Li e reli, procurei, encontrei o nome do bloguista e resmunguei de forma idiota “ mas este é o meu primo, caraças”.
A história denunciante foi a da faca. “Oh Leta, traz-me a faca para matar o ladrão”. Essa, ouvi-a dúzias de vezes desde miúdo da boca da minha mãe, pois era uma piada repetida, vezes sem conta, em qualquer evocação de peripécias familiares.
Depois dessa noite de solitária pesquisa, outras houve que levado pela curiosidade, mas também pela convicção e surpresa da qualidade literária dos teus escritos, voltei às tuas loucuras, voltei à tua imaginação, às tuas histórias. Ainda não acabei, nem sequer vou a meio; sei lá onde vou, sem destino, lendo cada uma das tuas linhas com o prazer da partilha de emoções, lentamente digeridas pelos anos passados.
A minha mãe, tua madrinha, e com quem falas frequentemente ao telefone, apesar dos seus noventa e um anos, quase noventa e dois e o Parkinson que a incomoda ao ponto de lhe retirar toda a mobilidade, referiu-me uma aventura do seu Tone Castilho, teria ele quatro ou cinco anos, que se passou na nossa antiga casa, durante um qualquer dia do mês de Agosto.
A meio dessa longínqua tarde, o meu distinto e futuro primo (eu ainda não era nascido) desapareceu como o fumo. A ultima vez que tinha sido visto, estava no quintal a brincar tranquilamente e as entradas e saídas em casa, permitiam que os adultos presentes, minha mãe, alguma das minhas irmãs e a D. Laura, vizinha idosa e sabida, com uma rica experiência de vida, estivessem em tranquila cavaqueira sobre este e aquele assunto.

Como te recordarás, naquela época, o tempo parecia andar mais devagar, as brincadeiras dos putos eram menos buliçosas e também não haviam tantos perigos, como nos dias de hoje.
A certa altura deram por falta do Tone Castilho, que não estava no quintal, não estava na sala, não estava na cozinha, não aparecia em lado nenhum. “Toninho, Toninho”, chamavam a Quinhas e a D. Laura num crescendo de aflição, que o tempo inexoravelmente ampliava. Levantou-se a pesada tampa do poço, inspeccionou-se a corte do porco (um T0 com vista para o galinheiro), todos os quartos lá de casa e não eram poucos, sem deixar de mirar para baixo das camas e o Toninho de grilo, como se diz aqui em Âncora.
A Quinhas já chorava baba e ranho, pois tinham passado uns ciganos na estrada algum tempo antes, e o imaginário da minha pobre e apoquentada mãe, dizia-lhe que aqueles ciganos podiam ser os malfeitores, os raptores do meu infortunado primo Tone Castilho.
No meio daquela confusão, a D. Laura entrou no quarto da minha mãe e reparou que algo se movia entre o roupeiro a parede. A velha senhora, sem se aproximar, chamou em voz alta: “Menina, venha aqui ao seu quarto ver uma coisa. Que é que está ali por detrás?”
A minha mãe contorna o armário e depara com o seu querido afilhado, encolhido contra a parede, mas com o rabo de fora, única coisa que era visível. “Toninho, meu filho, que estás aqui a fazer”, perguntava entre soluços de angústia e de alegria.
Bem, o que aconteceu foi que a brincar no quintal tinhas molhado o bibe, uma espécie de bata, e com medo que te ralhassem, decidiste esconder-te até passar a borrasca.
A minha mãe diz que ninguém te ralhou, os ciganos foram perdoados por algo que não fizeram e ganhamos uma história para mais tarde (agora) contar.
Se calhar não te lembravas desta cena, mas asseguro-te que a mim, não mais me irá esquecer.
Já agora, os meus parabéns pelo teu blog e que estes dois anos se multipliquem por muitos.
 
Um abraço.
publicado por Brito Ribeiro às 14:15
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