Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

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Set 09

De origem medieval, as feiras apresentaram-se como um dos aspectos mais importantes da organização económica. Após o fim das invasões bárbaras, o ressurgimento económico e a necessidade de promover trocas entre o campo e a cidade, levaram à criação deste intercâmbio económico. A sua realização está sempre associada a uma povoação de alguma importância.

Esta importância é demonstrada pelo facto dos monarcas portugueses, sobretudo os primeiros, se terem assenhorado da prerrogativa de criação das feiras. Desde D. Teresa (1112-1128), até D. Afonso V (1438-1481), com apogeu no reinado de D. Dinis (1279-1325), várias feiras foram instituídas em território português.
A feira de Caminha foi estabelecida por este último rei, que manda aí fazer “fazer feira na vila, todos os meses, três dias andados do mês” e a ela são constrangidos todos os moradores do termo para aí venderem os seus produtos (à semelhança do que acontecia em Viana).
No século XV, em cortes é referida a feira mensal que se realizava na primeira quinta-feira de cada mês. A partir de 1 de Maio de 1627 e até (pelo menos) 1739, a feira de Caminha efectua-se no primeiro dia de cada mês embora, com algumas vozes discordantes da sua realização. Mesmo assim, a feira foi sendo realizada até aos nossos dias.
Em 1859 após diversas vicissitudes por que a feira passou, os munícipes pedem a criação da feira semanal à quarta-feira “attendendo as necessidades dos habitantes deste município”. Esta situação ocorre noutras localidades como é o caso de Viana, cuja periodicidade passa, a partir de 1823, do quinzenal para o semanal, o que atesta a dinâmica económica da região.
A importância deste potenciador económico da região, conduziu as Juntas de Paróquia de Argela, Moledo, Venade, Azevedo, Vilar de Mouros, Âncora e Vile, em 1894, à solicitação de que os mercados realizados ao domingo voltassem a ser transferidos para a quarta feira como anteriormente vigorava. Contudo, no ano seguinte, o município concluiu que os mercados semanais eram mais concorridos ao domingo, pelo que voltaram, novamente a ser realizados nesse dia.
 
 
Além da feira para venda de produtos locais, também em Caminha se realizavam feiras de gado que ocorriam em três períodos anuais: 1º de Janeiro, 1º de Novembro e terceiro domingo de cada mês. Esta tinha por espaço os terrenos entre a avenida da estação e o parque.
Alem do aspecto económico, devemos igualmente fazer referência ao papel cultural que as feiras desempenhavam, pois a obrigação de os habitantes à venda dos seus produtos na feira leva ao desenvolvimento de uma sociabilidade e à circulação de “notícias”.
Além das feiras que tinham uma periodicidade alargada (mensal, anual) deveremos igualmente fazer referência aos mercados que, também de criação medieval, embora há quem os reporte a séculos anteriores, sobretudo a quando da presença dos muçulmanos em território português, tem a sua realização em prazos mais curtos (diária ou semanalmente).
O mercado era um núcleo indispensável para o comércio local por que se destinava a promover a alimentação quotidiana nas populações locais, supria as necessidades da localidade onde se fazia e era apenas concorrido pelos moradores da vizinhança. Nele se vendiam os produtos agrícolas e as mercadorias necessárias à vida de todos os dias.
Com o crescimento de Gontinhães (Vila Praia de Âncora), quer em termos demográficos quer económicos, urgia a criação de locais onde a venda de produtos desta localidade e freguesias limítrofes do Vale do Âncora, se efectuasse.
 
 
A partir do século XIX, com o desenvolvimento de uma colónia de pescadores sentiu-se a necessidade de encontrar um local para a venda de peixe. Deste modo, em 1889, Laureano Brito ofereceu ao município a quantia de cento e oitenta mil reis para adquirir um terreno, na referida localidade, para a criação de uma praça de mercado especialmente para peixe porque o Largo das Necessidades (hoje Praça da República) “attendendo às suas pequenas dimensões, transformações por que está passando e ao grande número de forasteiros que aqui que por aqui affluem por occazião da epocha balnear, não pode satisfazer esta necessidade”.
Porém, esta questão de estabelecimento da praça de peixe não foi consensual, quer pelo local da sua criação quer pela oposição à expropriação do proprietário do terreno, na Lagarteira, onde se pretendia construir o dito mercado. Finalmente, no ano seguinte, a decisão municipal foi construir a referida praça de peixe num terreno próximo ao teatro.
Alem da venda de peixe não podemos esquecer que a região é rural e, por isso, desde cedo, pelo menos desde o século XVIII, se sentiu a necessidade de fazer uma feira de gado sediada na Lagarteira.
Em 1925, após a transformação de Gontinhães em Vila Praia de Âncora, o vereador Rodrigues Pires solicitou que fosse criada uma feira anual de gado a realizar por ocasião das festas da vila do largo chamado “Campo da Retorta” ou Avenida da Republica. Esta feira, após o longo período de abstinência da quaresma, era importante para a venda de gado para abate e posterior consumo.
O mercado passou a ser importante com o crescimento populacional desta localidade no século XIX. Este facto é atestado quando Maria Joaquina Afonso, em 1888 pediu licença para colocar um balcão de madeira, no largo da Lagarteira, para expor à venda na época balnear, géneros alimentares.
De Gontinhães e das freguesias vizinhas, as mulheres, maioritariamente, com cestos à cabeça, deslocam-se à “feira” para vender aquilo que cultivavam e excedia, como produtos hortícolas, fruta, galinhas, ovos, cereais, enchidos, unto, presunto, manteiga, (Pinho Leal refere a venda de “excellente manteiga, chamada de Vianna, que provinha das freguesias de Âncora, Affife e Carreço”), castanhas, batatas, nozes, azeitona, linhaça. Porcos de criação, para poderem adquirir outros bens que necessitavam.
Em suma, podemos com Ramalho Ortigão que “a feira é constituída por mulheres… [que] chegam de manhã, enfileiram-se ao lado umas das outras,… pousam no chão os cestos com as respectivas mercadorias, e vendem de pé à multidão que preenche os espaços intermédios de fila para fila, os ovos, a manteiga o pano de linho… todos os variados e curiosíssimos produtos das industrias caseiras dos arredores”.
 
in: Folheto do cortejo etnográfico, grupo da Freguesia de Âncora, Festas da Senhora da Bonança - 2009
publicado por Brito Ribeiro às 21:27
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Boa Noite,

Curiosamente a basculhar na grande rede global, encontrei este espaço e este artigo em particular.

Apesar de ser natural e residente em Vila Praia de Âncora, os meus pais são naturais da freguesia vizinha, Âncora, a qual também tenho uma forte ligação familiar e afectiva. Nestes últimos anos, tenho sido convidado e participado com muito gosto no Cortejo etnográfico, em representação do grupo de Âncora. Nesta edição de 2009 também marquei presença.

O cortejo etnográfico também serve também para mostrar e divulgar um pouco a história e as tradições do Vale do Âncora, por isso fico grato pela publicação do conteúdo do folheto.

Abraço,

Hugo Lagido
Hugo Lagido a 15 de Outubro de 2009 às 21:49

Mais uma vez obrigado pela disponibilidade desta resenha histórica, a qual o meu primo andava desejoso de a obter.

Também aproveito a oportunidade para lhe dar os parabéns , pela excelente colecção de fotos de Vila Praia de Ancora, Moledo e Caminha, que revi no seu blog.

É assim que se preserva a nossa história comum e se a dá a conhecer a todos
Fernando Soares a 27 de Fevereiro de 2010 às 18:01

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