Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

26
Mar 09

Estava eu à procura de algo para ler, quando encontrei umas poesias avulsas de Ruy Monte, pseudónimo literário de Laurentino Monteiro. Foram essas mesmas folhas descasadas, agrafadas no canto, que eu levei para o sofá e me fizeram companhia durante algum tempo.

A certo ponto, dei por mim a pensar no autor, já completamente distraído da obra, no caso, uns sonetos mordazes e bem-humorados. Conheci o Professor Monteiro há cerca de quarenta anos, era eu um miúdo de dez anos, magricela, mas espigado, turbulento quanto baste, motivo pelo qual às vezes me tratava por “pato bravo”. Era normalmente o primeiro aviso, porque de seguida, persistisse eu na asneira, podia cair algum cachaço.
Ainda retenho com nitidez a imagem dele a fixar-me por cima dos óculos pendurados na ponta do nariz, durante as aulas no saudoso Externato de Santa Rita.
Vamos deixar por agora o Externato e retomar a pequena nota biográfica de Laurentino Alves Monteiro.
Nasceu em Fafe, em 24 de Julho de 1902 e faleceu no Hospital de S. João, no Porto, em 7 de Julho de 1986, jazendo no cemitério de Moledo do Minho, Concelho de Caminha, onde viveu nas duas ultimas décadas da sua existência.
Possuía o curso completo do Seminário Conciliar de Braga e foi aluno do grande musicólogo Padre Alaio, fundador do Orfeão de Braga, com quem aprendeu piano, órgão e canto.
Abandonada a vocação sacerdotal, Laurentino Monteiro casou e enveredou pela carreira de professor do ensino secundário (particular) ao longo de 55 anos da sua vida e quase até ao seu termo.
Obteve o diploma do então designado Ministério da Instrução Pública, em 3 de Fevereiro de 1932, o qual lhe conferia autorização para ensinar as disciplinas de Português, Latim, Francês e Geografia.
Leccionando então em Fafe, esteve ligado ao antigo Liceu Rodrigo de Freitas no Porto, onde o seu nome consta do livro de Registo respectivo, nas folhas 56 e verso, com o número 410.
Nesse mesmo ano de 1932, o seu nome e a sua habilitação são registados no Liceu Carolina Michaelis no Porto e também no Liceu Alexandre Herculano.
 
Durante a sua carreira docente, leccionou nos Colégios do Carmo (Penafiel) e em 1938 já é professor no Colégio D. Nuno (Póvoa de Varzim). Mais tarde leccionou nos colégios em Belinho (Esposende), Santa Rita (Caminha) e Campos (Vila Nova de Cerveira), nas duas últimas décadas da sua existência.
Laurentino Monteiro foi um dos fundadores do Orfeão de Fafe, nos anos 20 do século passado, no qual cantou largo tempo e que dirigiu na sua primeira fase.
Foi fundador e director artístico de diversos orfeões académicos, sendo director artístico do Orfeão de Vila Praia de Âncora, de 1966 a 1974 e do qual foi eleito Sócio de Honra.
 
Na Póvoa de Varzim viveu durante cerca de três décadas, a partir do final dos anos 30. Quando estava ligado ao Colégio D. Nuno, do qual chegou a ser director pedagógico, o então professor, participou activamente da vida poveira, integrando a maioria das associações culturais, recreativas e religiosas, como o Clube Desportivo da Póvoa (de que foi um dos fundadores e presidente), o Clube Naval, o Varzim Sport Clube, os Bombeiros (de que foi vice-presidente), o Orfeão Poveiro e outras agremiações locais e fundando o Rancho do Castelo, tendo sido autor de grande parte das músicas e das letras daquele grupo folclórico.
Em Caminha, desenvolveu também intensa actividade nas associações etnográficas e culturais.
Convidado pelo Dr. José da Costa Fonseca a leccionar no Externato de Santa Rita de Caminha, é com ele e com o Padre José Passos Vaz, Germano Ramalhosa, D. Maria Zita Mancelos Sampaio e D. Maria Fernanda Rodrigues que é criado no dito externato, o 2º Ciclo do então curso secundário liceal, que funcionou como curso unificado até ao ano de 1983/1984, data em que o Colégio de Santa Rita de Campos (Cooperativa de Ensino), começou a funcionar e de que o Professor Laurentino Monteiro foi um dos sócios fundadores.
Literariamente usava o pseudónimo de Ruy Monte e a sua obra é rica de conteúdo, quer em prosa, quer em verso.
Desde cedo ligado ao jornalismo, colaborou em diversos periódicos das cidades por onde foi passando. Na Póvoa de Varzim ocupou lugar de relevo entre os colaboradores do Comércio da Póvoa, enquanto em Caminha colaborou no jornal Caminhense e na revista Caminiana. Em Fafe, publicou dezenas de textos em verso e em prosa no extinto Justiça de Fafe.
Publicou o seu primeiro livro de poemas, com o título “Entre as Mulheres”, em 1984, quando contava 82 anos de idade. A sua obra dispersa por jornais e revistas foi reunida em dois volumes, que estão desde 2007, finalmente, à disposição dos leitores, por iniciativa do Núcleo de Artes e Letras de Fafe.
 
Foi com este homem que privei durante cinco anos no Externato de Santa Rita, onde foi meu professor de Português, Francês, Ciências, História e Geografia, se não esqueci alguma…
Tantos anos passados, recordo em primeiro lugar o homem bom e simples que não alardeava a sua imensa cultura (como hoje muitos o fazem, acenando “canudos” de origem duvidosa), pedagogo exigente como poucos, frontal nas opiniões, mas compincha por natureza.
Não irei debruçar-me sobre os métodos pedagógicos então utilizados e que passavam muitas vezes por castigos corporais. Eu que o diga, que era habitualmente um dos premiados. O certo é que aluno que lhe passasse pelas mãos ia bem preparado para o exame ou então, ele mesmo dizia que não o “levava”.
As pantufas usadas no Inverno, o guarda-chuva sem cacheira que ninguém roubava, a temida caderneta na qual tudo era apontado, eram a sua imagem de marca.
Mais tarde, ainda o encontrei no Orfeão de Vila Praia de Âncora, quando já não era director artístico, após ter passado a responsabilidade ao Dr. Francisco Sampaio, mas ainda era um orfeonista activo, enquanto eu era apenas um jovem elemento da secção de teatro.
O texto vai longo, vou deixar para outra vez a recordação de algumas peripécias, mas não posso terminar sem expressar a mágoa de ver que um dos maiores poetas líricos do Minho, um exemplar, esforçado e competente trabalhador que dedicou a sua vida ao ensino, ainda não teve qualquer homenagem digna, que perpetue o seu nome e divulgue a sua obra.
  
publicado por Brito Ribeiro às 16:37
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Conheci muito bem o Dr. Monteiro quando frequentei o Externato de Sta. Rita no início dos anos 80. Nunca fui seu aluno mas mas posso confirmar que na vetusta idade em que o encontrei nunca conheci essa faceta de "homem bom e simples". Por algum motivo achava divertido insultar e bater num miúdo franzino e assustadiço como eu era nessa já distante década.
Não tenho qualquer problema com a disciplina e de senhoras com a Dona Zita só tenho o melhor a dizer e também uma enorme saudade e pena que de já não existirem senhoras assim no nosso triste ensino em Portugal.
Não faço realmente ideia de quem era o jovem ou já não tão jovem Dr. Monteiro mas aquele que conheci... era um ser humano do piorio! Absolutamente execrável. Nem a senilidade pode desculpar tal comportamento!
Paulo Reis a 4 de Fevereiro de 2010 às 22:06

Obrigado pelo seu comentário. Realmente temos visões diferentes da mesma pessoa, o que para mim é perfeitamente possível, até porque o conhecemos em épocas diferentes. Eu conheci-o em 1967, salvo erro, e as suas palavras só me levam a pensar que o ser humano muitas vezes não sabe vislumbrar os seus próprios limites, sair de cena, gozar a sua merecida reforma e dar o lugar à geração seguinte.
Abraço
BR
Brito Ribeiro a 4 de Fevereiro de 2010 às 22:27

Infelizmente tal saída de cena não só não se deu como naturalmente encorajou comportamentos semelhantes nos alunos dos anos superiores ao meu, trinca-espinhas da "segunda classe"...
Em todo o caso respeito, obviamente, as memórias de quem privou com esse senhor noutros tempos.
Seria possível informar-me sobre o estado de saúde da Dona Zita ou da Dona Eugénia? Estou a assumir que ainda estejam entre nós porque outro cenário seria mesmo muito triste... A firmeza, cultura e educação da Dona Zita (e as reguadas quase sempre justas também...) e a simplicidade da Dona Eugénia são virtudes muito raras hoje em dia...
Um abraço para si também.
Paulo Reis a 4 de Fevereiro de 2010 às 22:44

A Dona Zita está no Lar Senhor dos Mareantes em Caminha e mantém a lucidez que a caracterizou ao longo da vida. A irmã, Dona Luiza é que já faleceu. Sobre a Dona Eugénia não lhe sei dizer nada.
Abraço
BR

Muito obrigado pela informação!!
Procurarei já este mês encontrar-me com ela!
Muitíssimo obrigado mais uma vez!
Um abraço também,
Paulo Reis
Anónimo a 5 de Fevereiro de 2010 às 17:51

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