Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

10
Mar 09

Nas proximidades da Foz do Minho, entre a Mata Nacional do Camarido e a praia do Cabedelo, havia um extenso areal que foi destruído pelas correntes incontroladas do mesmo curso de água.

Na década de vinte do século passado, uma seca de bacalhau e instalações para armazenagem e comercialização de peixe seco – sob a responsabilidade de Nazário Dantas Carneiro – tiveram pouco tempo de vida naquele espaço de terra, outrora formado por acumulação de areias e agora abrangido pelo estuário do Minho.
A seca do bacalhau e instalações anexas pertenciam à “Parceria de Navegação e Pesca – A Caminhense”, organizada por Dr. Francisco Odorico Dantas Carneiro, Delfino de Miranda Sampaio, padre Manuel Martins de Sá Pereira e outros em 1922. E a referida associação comunitária teve sede social e escritórios, cuja chefia pertenceu a Frederico Frezas Vital, no prédio da Rua da Corredoura, que actualmente tem os números 69 a 73, em Caminha.
A “Parceria de Navegação e Pesca – A Caminhense” teve ao seu serviço dois navios equipados para a pesca de bacalhau: “Rio Minho” e “Esposende III”. O objectivo da sociedade cooperativa era a pesca de bacalhau nos mares da Terra Nova, para secar e lançar no mercado da especialidade. E os dois lugres saíram do porto de Caminha, pela primeira vez, para a pesca de bacalhau, a 25 de Maio de 1923.
 
Lugres "Rio Minho" e "Esposende III" fundeados no estuário (1922)
O lugre “Rio Minho” foi construído em Caminha, pelo mestre construtor naval Manuel Ferreira Rodrigues em 1921, para o armador Dr. Francisco Odorico Dantas Carneiro e o seu registo na Capitania do porto de Caminha data de 23 de Fevereiro de 1922.
Entrou no porto de Caminha carregado de bacalhau, pela última vez, a 30 de Outubro de 1928. Em seguida foi vendido a um armador do Porto, sendo registado na Capitania do porto daquela cidade a 11 de Abril de 1929, com a denominação de “Silva Rios”.
 
O “Esposende III” saiu do porto de Caminha pela segunda (e última) vez, em 16 de Junho de 1924 com destino aos mares da Terra Nova e com dois dias de viagem, ao largo da cidade galega de Vigo encontrou mal tempo e naufragou.
A embarcação fora construída em Esposende por José Azevedo Linhares, tendo sido lançada à água em28 de Novembro de 1921. Era propriedade do armador Firmino Clemente Loureiro de Esposende e quando naufragou a 18 de Junho de 1924 navegava sob o comando de Manuel Ançã de Ílhavo.
Naquele naufrágio não se perderam vidas humanas, mas a associação comunitária sofreu prejuízos materiais muito elevados. Perdeu o navio com todo o seu equipamento, a carga destinada à manutenção do pessoal durante a permanência no mar e a oportunidade de realizar receitas em devido tempo. Teve ainda de suportar, sem contrapartidas, as despesas de repatriação, indemnização e salários dos tripulantes.
 
Lugre "Rio Minho" e crianças do colégio jesuita de Camposancos (1925)
O ancoradouro dos navios bacalhoeiros no porto de Caminha era no estuário do Minho, junto à seca de bacalhau. Ali morreu afogado em 8 de Fevereiro José Maria Martins Braga, casado, de 25 anos, natural de Vilarelho e morador em Caminha, por ter caído de um navio e desaparecido nas águas profundas do rio. O seu corpo apareceu na volta da Ponta da Ruiva a 26 de Fevereiro do ano referido.
A criação, o equipamento e as actividades da “Parceria de Navegação e Pesca – A Caminhense” deram a Caminha e Vilarelho um relativo surto de desenvolvimento económico e bem-estar social, pelo elevado volume de trabalhadores que ocuparam, em terra e no mar. A situação, porém, durou pouco tempo, porque algumas coisas cedo começaram a correr mal.
Os prejuízos resultantes do naufrágio do “Esposende III”, alguns erros de administração e a crise económica daquela época, em Portugal e no Mundo, tornaram a sociedade cooperativa economicamente inviável. Em 1928 os sócios mais influentes deliberaram suspender a actividade da “Parceria de Navegação e Pesca – A Caminhense”, cuja existência, ao que parece foi sempre irregular. E os pequenos accionistas foram as grandes vítimas daquela decisão: perderam a totalidade dos capitais investidos.
 
O vaivém dos navios de pesca de bacalhau, com lágrimas na despedida e alegria no regresso, durou pouco tempo no porto de Caminha. A população local mal chegou a vida que normalmente resulta da movimentação dos lugares bacalhoeiros noutros portos do país.
Apenas por circunstâncias imprevisíveis e adversas, que ultrapassaram a vontade, a esperança e a inteligência dos homens, a vila de Caminha e arredores perderam, naquela tempo, uma excelente oportunidade de acesso ao desenvolvimento económico e progresso social.
Fonte: Torcato Augusto Ferreira in Caminiana, Tomo 8, Junho de 1983
publicado por Brito Ribeiro às 17:16
tags:

Apreciei muito a "citação" que faz da Caminiana, colectânea que, de vez em quando, ocupa o meu tempo, pois possuo todos esses volumes que devo à amizade do saudoso Guerreiro Cepa!
É bom que apareçam pessoas a exaltaros os "valores" das suas terras!
Parabéns
Roleira Marinho
roleira_marinho a 10 de Março de 2009 às 17:52

Muito grato pela visita e comentário. É verdade que muitos dos nossos autores e estudiosos estão esquecidos, apesar da obra legada, como a Caminiana.
Homens como Guerreiro Cepa, Torcato Correia, Dr. Lourenço Alves, Dr. José Fonseca ou Prof. Laurentino Monteiro, entre outros, merecem o meu, o nosso respeito.
Abraço
Brito Ribeiro
Brito Ribeiro a 12 de Março de 2009 às 17:06

Excelente. Gostei de saber que a foz do nosso Minho esteve na iminência de se tornar um polo importante na indústria do bacalhau...
Mas com uma perda daquelas qualquer empresa ficaria abalada, principalmente numa altura em que não haveria seguros como agora.
Provavelmente, em termos paisagísticos e ambientais, o Rio e a sua envolvente ficaram a ganhar.
Um abraço
Eira-Velha a 11 de Março de 2009 às 16:35

Obrigado pelo comentário. Eu próprio só recentemente tomei conhecimento desta iniciativa que "morreu" ainda jovem, pois durou meia duzia de anos.
Efectivamente, em termos ambientais, Caminha e o estuário do Minho ficaram a ganhar. Gostaria de destacar a paisagem sublime do estuário do rio ao fim da tarde, algo que não me canso de rever.
Abraço
Brito Ribeiro
Brito Ribeiro a 12 de Março de 2009 às 17:14

Caro amigo e Sr.
Cheguei até si através do blog de António Fangueiro, "Caxinas...de "lugar" a freguesia. Achei interessante este post sobre os navios da pesca do bacalhau, que é assunto que
me interessa particularmente. Por esse motivo, se me permite, adianto que Caminha entre 1900 a 1940, teve mais navios na pesca do bacalhau além dos citados, que foram por ex. o lugre e o patacho "Valladares" (dois navios o mesmo nome), que pertenceram a José Maria Valladares e a escuna "Laboriosa", que pertenceu a Braz Gaifém. Há no entanto 2 situações difíceis de aceitar, caso do lugre "Esposende III", que esteve sempre registado em Viana do Castelo, pertencendo a esta praça, apesar dos proprietários serem de Caminha, como diz. A segunda nota prende-se ao facto do navio ter demorado 2 dias para chegar de Caminha a Vigo ! Pessoalmente prefiro dizer que o navio naufragou na posição 42º25'N 09º30'W a estabelecer proximidades a qualquer local conhecido na costa, face ao tempo de viagem decorrido. Ainda assim encontrei elementos que não dispunha, reconhecidamente de grande valor histórico.
Parabéns pelo blog e pela defesa dos valores tradicionais marítimos e interiores do Alto Minho. Cumprimentos, Reimar
reimar a 12 de Março de 2009 às 20:06

Agradeço-lhe imenso a visita, o comentário e as informações/rectificações que vieram enriquecer o tema publicado.
Abraço
Brito Ribeiro
Brito Ribeiro a 12 de Março de 2009 às 23:09

Boa tarde,
Achei muito interessante, os meus parabéns e acrescento Que Jose Maria Valladares erao meu bisavô.

Cumpts

PR
PR a 20 de Novembro de 2015 às 18:42

Era seu bisavô e penso que bisavô da minha mãe. Penso que foi o avô da minha avó, Amélia das Dores Fernandes Valadares Pacheco. Portanto...meu trisavô.
Anónimo a 25 de Janeiro de 2016 às 15:13

Março 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
11
12
13
14

16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
27
28

30
31


Relógio
Visitantes
contador de visitas gratis
Hospedagem de Sites
O Tempo
miarroba.com
Buffering...
mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO