Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

23
Mar 07
Artigo escrito e publicado no Terra e Mar em Outubro de 2004
 
No Verão que agora terminou, Portugal ultrapassou todos os limites, por mais pessimistas que fossem, em termos de incêndios florestais.
Cerca de 500.000 hectares de área ardida, 20 mortos, centenas de feridos, desalojados e desempregados, dezenas de milhões de contos de prejuízos.
Uma catástrofe em três vertentes: AMBIENTAL, SOCIAL e ECONÓMICA.
Se já não havia dúvidas sobre o posicionamento de Portugal na cauda da Europa, esta situação veio reconfirmar esta posição, ao lado de outros países que não acautelam os seus recursos naturais, que não investem na protecção da natureza, da biodiversidade e da qualidade de vida dos cidadãos, que prometem, há décadas, reordenar o espaço florestal, limitando-se a agir em cima dos acontecimentos como “baratas tontas”, visitando as zonas de catástrofe com ar compungido e hipócrita.
Os meios eram insuficientes, faltavam homens, faltavam viaturas, faltava água, faltavam meios aéreos. Sobrava o calor insuportável, os ventos fortes e caprichosos, a humidade reduzida. Sobravam os problemas resultantes do desordenamento do território, os erros de coordenação e os erros de previsão.
 
Nunca Portugal esteve envolvido numa catástrofe desta dimensão, que marcou de forma indelével alguns distritos do interior profundo e pobre, nomeadamente Castelo Branco, Portalegre, Santarém e Faro. Há Concelhos nos quais arderam perto de 90% da sua área florestal, como foi o caso de Gavião, Vila de Rei, Oleiros ou Monchique.
Os comentários que os intervenientes mais referiam eram: Falta de meios e falta de prevenção. Também é certo que, mesmo que os meios (bombeiros, viaturas e aviões) duplicassem ou triplicassem, o resultado não seria muito diferente, devido às anormais condições climatéricas e à estrutura caótica e desleixada do tecido florestal.
No entanto, teremos de regressar vinte ou trinta anos no tempo, para se analisar com rigor e seriedade toda a problemática florestal, a falta de estratégias de médio e longo prazo no reordenamento e na valorização do único recurso natural renovável que ocupa 38% do solo nacional e que representa, mesmo desprezado, 3% do PIB.
As causas deste flagelo são conhecidas e estão bem identificadas:
 
  • Monocultura do pinheiro bravo, substituído gradualmente por eucalipto;
  • Decadência da pecuária tradicional que usava os matos para as camas do gado;
  • Ausência de um programa de prevenção (limpeza, ordenamento e vigilância) sério e rigoroso;
  • Ausência de reflorestações ordenadas que privilegiem a biodiversidade;
  • Características minifundiárias do tecido florestal;
  • Insuficiência de vias de comunicação florestal e zonas corta fogo;
  • “Falência” dos serviços florestais;
 
Desde os anos trinta do século passado, o pinheiro bravo passou a ser a cultura florestal dominante, como se pode analisar no quadro seguinte:
ANO
1902
1934
1960
1970
1980
1990
 
 
 
 
 
 
 
PINHEIRO BRAVO
430
1139
1190
1274
1300
1210
PINHEIRO MANSO
 
 
 
33
35
32
EUCALIPTO
 
 
100
154
295
495
SOBREIRO
366
741
667
638
655
612
AZINHEIRA
417
380
618
573
536
480
CARVALHOS
47
108
 
 
66
62
CASTANHEIRO
84
85
70
27
30
30
 
 
 
 
 
 
 
 
(valores em milhares de hectares)
 
 
No entanto, o eucalipto, espécie de crescimento rápido, mais rentável economicamente devido à grande procura por parte das celuloses, explorado em talhadia, vai substituindo o pinheiro bravo, de forma gradual e consistente.
Outra das causas do declínio do pinheiro, prendeu-se com a falta de rentabilidade da extracção da resina, outrora uma das mais importantes fontes de rendimento florestal. É também visível no quadro, que as espécies autóctones (sobreiro, azinheira, carvalhos e castanheiro) tem perdido espaço nas ultimas décadas.
 
O abandono dos campos na década de sessenta, motivado pela deslocação para o litoral mais industrializado e pela emigração para diversos países da Europa e África, condenaram a agricultura tradicional e o sub-sector da pecuária, que utilizava de forma intensiva os matos para as camas do gado e posterior elaboração de estrume.
Também a pastorícia foi diminuindo ao longo dos tempos e em quase todo o território, originando a acumulação de matos, carquejas, folhas, ervas, etc..
O aparecimento de novas formas de energias ditaram o abandono da recolecção de lenha para consumo doméstico.
Em conclusão, as áreas florestais estão hoje, de uma forma geral, com falta de limpeza, com uma manta morta espessa e nas quais o fogo atinge temperaturas e velocidades impressionantes.
 
O espaço florestal é na sua maioria pertença de privados (cerca de 85%), mas curiosamente pouco se diferencia dos espaços florestais públicos no capítulo da manutenção e do ordenamento. Basta ver o exemplo da Mata Nacional de Gelfa que, está abandonada há vários anos, após a não renovação do protocolo de manutenção entre o ICN e o NUCEARTES. Entregaram a gestão da Gelfa ao Parque Nacional da Peneda-Gerês... que até hoje não mexeu uma palha e já passaram três anos.
Associado ao problema dos fogos florestais está a erosão dos solos e a incapacidade de retenção das águas da chuva. Um solo sem coberto vegetal tem a capacidade de infiltração muito diminuída, originando uma falta de alimentação dos lençóis freáticos, não sendo de admirar que nascentes e furos artesianos sequem ou no mínimo diminuam o caudal em relação a anos anteriores.
Logo nas primeiras chuvas, em meados de Setembro, nas áreas ardidas, grandes quantidades de lamas e cinzas foram arrastadas pela força das águas para as zonas mais baixas, empobrecendo de nutrientes os solos, condicionando a biodiversidade da fauna e da flora.
 
A comunicação social tem dado largas às notícias sobre os passeios de helicóptero e outros negócios promíscuos entre elementos dos bombeiros, servindo esta estratégia às mil maravilhas para se encontrar bodes expiatórios (na arraia miúda) e se esquecer as promessas dos governantes que apontavam para acções imediatas na recuperação das zonas afectadas e na restruturação do sector florestal.
Portugal só tem a ganhar (até no déficit público) se eleger o sector florestal como uma prioridade da sua economia, visto que é um sector que ocupa 38% do território e, directa ou indirectamente, dá trabalho a cerca de 160.000 pessoas.
publicado por Brito Ribeiro às 18:59
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Ó pá!
Foste tu quem escreveu isto?
Se foste, deve ter-te dado um trabalho de investigação enorme.
Muito bom!

Obrigado pelo comentário ao meu texto "Adoramos o papá!".

Um abraço
António a 23 de Março de 2007 às 22:16

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