Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

24
Jan 09

O eixo chiava de forma aflitiva. Um guincho quase animal, que lembrava o porco no estertor da morte sob a faca do matador. Lentamente, o carro puxado pela junta de vacas galegas, pachorrentas e teimosas, avançava passo a passo.

Sobre a plataforma de madeira escura, as crianças mais velhas divertiam-se com a novidade da viagem. A mais nova, ainda de colo, embrulhada no xaile de borlas castanhas, brincava com o cordão de ouro que volteava o pescoço da mãe. Com elas viajava a Rosa, criada da pensão, que viera de Coura ainda criança, para servir e fazer-se mulher.
Tinham partido de manhã, ao nascer do dia, preparados para cobrir pouco mais de duas léguas até ao Amonde, onde iriam viver nos próximos dias.
A Tia Leonarda que segurava o temoeiro de couro, fez parar as vacas com uma pancada seca da vara. Do bolso do avental tirou um naco de sabão que passou pelo eixo ressequido do carro. Logo retomaram a marcha sem mais demora, apesar dos protestos das crianças que queriam sair do carro e dar uns pinotes.
- Vamos, vamos, senão chegaremos noite dentro. Os dias são curtos… Ande lá Tia Leonarda, espevite-me estes animais!
- Já lá vamos, Dona Delfina! Os bichos ainda ficam com a língua de fora… Há anos despariu-me uma vaca por causa das pressas…
Tinham passado pela veiga da Baralha, deixado para trás a Matriz de Soutelo e atravessavam agora os montes da Esturranha. Os carvalhos, loureiros, azevinhos e sobreiros que bordejavam o caminho, corriam monte acima até às bandas de S. Pedro Varais.
O eixo já não chiava, as duas raparigas mais velhas iniciaram uma discussão por causa da boneca de trapos. Com mão ligeira, a mãe deu um tabefe a cada uma e a ordem regressou ao pequeno espaço do carro de vacas.
 
Estávamos em Janeiro de 1919 e a sublevação monárquica tinha-se espalhado pelo norte. Enquanto os republicanos se entretinham em questiúnculas, os saudosistas do rei tinham conspirado e aplicado um golpe audacioso na frágil ordem que tinha sobrevivido ao assassinato do Sidónio Pais.
A 19 de Janeiro, a Junta do Norte proclamou, no Porto, a restauração da Monarquia, anunciando a constituição de uma Junta Governativa. Esta era presidida por Paiva Couceiro e geraram-se focos de resistência ao poder republicano em vários pontos do País. Em Viana do Castelo, o regime monárquico foi aclamado das varandas da Câmara Municipal e a multidão reunida em volta do chafariz deu vivas ao rei.
Grupos de soltados aderentes à revolta, foram distribuídos pelas principais povoações minhotas. Gontinhães não foi excepção e um grupo de meia dúzia de soldados, comandados por um tenente, assentaram arraiais na localidade.
À falta de instalações próprias para acantonarem, optaram por se hospedarem na Pensão Âncora.
 
Montado no seu cavalo ruço, o regedor de Riba D’Âncora cruzou-se com aquele carro cheio de mulheres e crianças. Descobriu-se perante a senhora e seguindo caminho murmurou com os seus botões, “Mais uma família que se põe a bom recato. Como irá acabar esta loucura?”
- Dona Delfina, temos de parar no rio para o gado beber e repousar – avisa a Tia Leonarda, muito ciente do conforto dos seus animais.
- É melhor! As crianças também precisam espairecer e já estão cheias de fome.
Pararam na Ponte de Saim, puseram os pés em terra com os agasalhos bem fechados, embora o frio embora não apertasse ao fim da manhã, sentia-se a humidade no ar.
Com as crianças a correrem à volta do carro, a Tia Leonarda desengatou os animais e desceu com eles à beirada do Rio para os saciar. Deixou-os a pastar num pequeno paul da Vitória, que morava ali perto. Já era costume e a Vitória até costumava presenteá-la com algumas laranjas sumarentas colhidas no seu lugar.
- Meninas, venham comer – chamou a mãe, que abrira a sesta de verga carregada de lauto farnel; frango assado, panadinhos de vitela, um tachinho de arroz no forno, presunto, postas de bacalhau frito para a Leonarda e para a Rosa, pão cozido no dia anterior e um garrafão de vinho. A bebé iria comer papas de arroz, cuidadosamente acondicionadas na pequena marmita de esmalte. Uma pucarinha de barro com água da Fonte da Retorta, colhida de manhã bem cedo, por uma das criadas da pensão, iria mitigar a secura das crianças.
Ao longe um sino deu as doze badaladas, talvez em Orbacém, quiçá em Outeiro, que o vento estava a favor. O sol espreitou fugaz entre as nuvens que passavam apressadas. A refeição foi rápida, os animais regressaram à canga, a Tia Leonarda tornou a ensaboar o eixo. Em breve passaram as primeiras casas de Orbacém, deram a volta pelo Arnado.
Na última volta da pequena colina sobranceira ao Rio Âncora surgiu a Ponte de Tourim, tão velha que diziam ter sido construída pelos romanos nos tempos de Cristo.
Pela veiga de Tourim acima, juntas de bois puxavam os arados, mulheres manejavam as enxadas enquanto os homens podavam e atavam as vinhas, que ano após ano, se carregavam de uvas escuras e miúdas.
 
Em Gontinhães, na pensão Âncora, os soldados ocuparam dois dos quartos virados à rua e o tenente ficou com o quarto número um, ao cimo das escadas. Durante o dia davam umas voltas pela localidade, uma espécie de patrulha, perante o olhar curioso de uns e indiferente de outros. Quase todos pensavam que o Reino da Traulitânea não iria resistir às forças republicanas que haviam de vir de Lisboa.
O tenente Castro era um monárquico convicto, apoiante do Integralismo Lusitano e parente afastado de um dos seus mais destacados dirigentes, Pequito Rebelo.
Botas e calções de montar, dolman de colarinho direito, recentemente brunido, faziam dele uma figura elegante. Apesar da face picada das bexigas, o porte marcial destacava-se naturalmente.
Luvas de pelica, pingalim com cabo de alpaca lavrava e boné regulamentar com botões dourados, completavam a indumentária do novo representante do poder real nas terras do Vale do Âncora. A bandeira azul e branca ondulava ao sabor da aragem nos mastros da estação do caminho-de-ferro, na Junta de Freguesia e na varanda da pensão, para preocupação do seu proprietário, que não se queria ver imiscuído nas complexas e instáveis questões de regime.
Fora essa a gota de água que tinha levado que a esposa e as filhas se retirassem para o Amonde, uma aldeia próxima, mas suficientemente distante destes problemas.
- Não vá algum maluco anarquista atirar-nos uma bomba por causa da bandeira – dizia o Abel, rolando o palito que mantinha entre os dentes.
Decidiram que a pensão ficaria entregue ao Abel, à Maria Chocalha, sua sogra por parte do primeiro casamento e ao Américo, neto da Chocalha e enteado do Abel. A Delfina iria passar uns tempos ao Amonde, para a casa de uma família amiga, levando as quatro filhas e a Rosa para ajudar.
A Tia Leonarda, velha carrejona que nunca calçara sapatos, trabalhadora incansável, sempre pronta para esvaziar um copo, ficaria encarregue de levar regularmente os abastecimentos à casa dos Fulueiros no Amonde.
 
- Ainda falta muito, Tia Leonarda?
- Estamos a chegar. Ao virar ali em cima entramos no caminho para o fulão…
- Até que enfim, tenho os ossos maçados.
- Olha!... A senhora Maria veio esperar-nos, à beira do caminho… Ora viva, então como está tudo por aqui?
- Com a Graça de Nosso Senhor, minha senhora. Fizeram boa viagem?
- Fizemos, mas as crianças já estão aborrecidas de estarem tanto tempo presas entre os varais do carro.
- Ah… Elas já vão fartar-se de pular e de reinar pelo lugar fora – diz a senhora Maria, uma solteirona a chegar à meia-idade, dona do fulão e de mais uma mão cheia de propriedades espalhadas pela aldeia, herança dos pais e da madrinha.
- E a sua irmã Joana e o marido?...
- Lá em baixo, para as bandas do Arnado a lavrarem. Está a chegar o tempo da batata, Dona Delfina. Quem não semeia, não colhe…
 
Em Gontinhães, a 30 de Janeiro, a Junta de Freguesia tinha-se demitido ao saber que em Viana a monarquia tinha sido aclamada e o Governador Civil exonerado.
A Guarda Republicana estava recolhida nos quartéis das cidades e em Gontinhães o poder chamava-se Tenente Castro. A ele acorriam constantemente meia dúzia de velhos monárquicos, dando-lhe conta dos movimentos e alcovitices da terra, além das últimas novidades trazidas pelos raros viajantes que o comboio transportava.
Pelo Largo das Necessidades, renomeado de Praça da República em 1910 e que os locais chamavam apenas “Largo”, juntavam-se grupos para comentar a situação política do país e da região em particular.
- Diz-se que vem aí um batalhão de lanceiros para darem cabo dos azuis – dizia o Cannas encostado à porta da botica.
- Ora, não vão ter mais que fazer que virem de propósito para prenderem meia dúzia de rufiões, que não tem onde caírem de mortos… Ora!
- É verdade, compadre! É o que corre em Viana… Os da república querem limpar o terreno até Valença. Parece que aí a coisa está mais preta. São muitos e tem o grupo das metralhadoras com eles.
- Pois eu também já ouvi isso – intervem o João Brito, proprietário da botica, poiso habitual dos tertulianos – Meus amigos, isto ainda acaba mal… Esse Paiva Couceiro é maluco e ainda nos vai atirar para uma guerra civil. Não se esqueçam do que lhes digo!
- Eu até mandei a mulher e as crianças para a aldeia – diz o Abel, que estava recostado com as pernas estendidas no comprido banco exterior do estabelecimento.
- E fez vossemecê muito bem, senhor Abel! Ter as suas crianças com aqueles soldados todos lá em casa… fez muito bem.
- E eu vou fazer o mesmo! – diz o Manuel Presa – tenho uns primos em Lanheses, vou hoje mesmo escrever-lhes a dizer que seguimos daqui a dias.
 
O ambiente geral era de expectativa e muita apreensão. A cada dia que passava, circulavam os mais disparatados rumores, desde dizerem que viria uma armada inglesa apoiar a revolta trazendo a bordo o exilado rei D. Manuel II, a notícias da eminente chegada de tropas republicanas, que tudo poriam a ferro e fogo.
Os soldados da guarnição pareciam pouco preocupados e entre algumas patrulhas e umas tigelas de vinho que bebiam pelas tascas onde passavam, sobrava-lhes pouco tempo para montarem guarda ou zelarem pela segurança no caso de serem atacados. O Tenente Castro, com a interminável cigarrilha no canto da boca, mostrava o peso da responsabilidade e acusava um nervosismo indisfarçável.
- Espero ordens – dizia ele, tentando convencer-se e convencer os demais que estava tudo bem – Amanhã deve chegar um estafeta de Viana. Até novas ordens, devemos manter-nos aqui e garantir a segurança…
- E eu quero saber quem garante o pagamento das diárias – resmunga a Maria Chocalha que não ia à missa com a cara do Tenente.
 
Durante a noite o tempo arrefecia e só as achas de carvalho que amorrinhavam na lareira da cozinha, conseguiam manter algum conforto na rústica casa de lavoura.
A senhora Maria, como boa anfitriã, tinha cedido o seu quarto à Delfina e à filha mais nova que tinha apenas anos e meio. No quarto ao lado, dormiam a Rosa e uma das pequenas numa cama, enquanto as restantes partilhavam o outro leito.
Duas vezes por semana, a Tia Leonarda vinha trazer carne e peixe fresco, transportado à cabeça no cesto de verga. Só uma vez foi necessário trazer o carro com os animais para transportar mais roupa. As crianças sujavam-se imenso a brincarem no campo e o tempo chuvoso não ajudava para secar a roupa.
publicado por Brito Ribeiro às 20:52
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Muito bem!
Só queria saber onde descobriste esta história dos nossos avós, mães e tias.
Em Janeiro de 1919 a minha mãe nem dois anos tinha.
Agora falta saber o que aconteceu, pois o final dever ser a derrota dos monárquicos.

Abraço
António a 25 de Janeiro de 2009 às 15:16

A minha mãe tinha um ano e quatro meses...nem falava!
António a 25 de Janeiro de 2009 às 15:17

Exactamente, a tua mãe é a tal bebé de colo.
Não vos digo mais nada... mas a coisa vai aquecer!

Abraço
Brito Ribeiro a 25 de Janeiro de 2009 às 18:19

Maravilhoso, meu amigo. Fico a aguardar o episódio seguinte mas para já foi de "rebimba o malho". Este seu texto levou-me aos tempos de infância, lá no meu cantinho de Cavenca: o carro de bois a chiar, a soga (que aqui é designada por temoeiro...) sempre esticada para as vacas andarem mais céleres, o engenho de fazer mantas de folão (grossas e confortáveis mantas feitas exclusivamente de lã)...
O temoeiro é uma tira de couro, tal como a soga, mas destinava-se a atar o cabeçalho à canga. A soga sim, enlaçava os cornos dos animais e era através dela que o carreteiro conduzia o gado.
Peço desculpa por ousar imiscuir-me assim no assunto e se estiver errado não ligue que as coisas mudam de terra para terra. Lá também se diz, cada terra tem seu uso e cada roca o seu fuso.
Um abraço
Eira-Velha a 25 de Janeiro de 2009 às 17:32

Eu é que agradeço o esclarecimento prestado. Aqui tambem se utiliza o termo soga embora eu tenha sempre ouvido falar no temoeiro e estar convencido que era a tira de couro com que se condiziam os carros. Terei feito confusão? Não sei, mas vou perguntar a uns amigos agricultores.

Abraço
Brito Ribeiro a 25 de Janeiro de 2009 às 18:30

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