Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

20
Mar 07
O cruzamento com a rua do centro de saúde aproximava-se a velocidade vertiginosa. Para trás ficara a praceta e um mar de gente, que fugiu espavorida, quando a frente do enorme BMW lhes foi apontada.
Os ocupantes lembravam-se de ter batido em qualquer coisa e ficado com o para brisas coberto de tremoços e pipocas. Pipocas??? Como raio foram parar ao automóvel. Só se foi alguém que as atirou, numa tentativa frustrada para travar a fuga.
O Bertinho agarrado ao volante, os limpa-vidros funcionavam e faziam voar os tremoços, o “pencudo” ao lado, com um facalhão na mão, rosnava algo que ninguém entendia. Quase em cima do cruzamento, o Bertinho travou forte, reduziu para segunda com um forte arranhar da caixa, rodou o volante, acelerou a fundo provocando uma derrapagem, que só terminou quando o guarda lamas direito encontrou o “mupi”, que anunciava uma nova formula de dentífrico, infalível no branqueamento dos dentes.
O “mupi” é que perdeu logo os dentes, como quem diz, ficou pendurado a meia esquadria. O BMW deixou no local a óptica traseira e o pára-choques, como testemunhos da sua meteórica passagem.
No banco traseiro, o “Adesivo” continuava entalado entre o Lopes, que desde a manhã, não falava e o gago que continuava ameaçador, com a espingarda em riste.
-Mais de..de…depressa, m…ais de…de…depressa – gritava para o apavorado condutor, enquanto espreitava pelo vidro traseiro, para ver se eram seguidos.
Nenhum carro da polícia os seguia, nenhuma barreira estava montada. Tudo parecia demasiado fácil. Os polícias eram burros, mas assim tanto, era de desconfiar. Nos filmes os polícias tem sempre alguma tramóia na manga, mas na vida real são bem mais obtusos.
Rapidamente chegaram à periferia sem mais percalços e por ordem do gago, mudaram de direcção para sul, de forma apanharem a via rápida.
Foi ao entrarem na rotunda, que tudo se precipitou. O Bertinho já com mais confiança nos seus dotes de condução, voltou a travar nos limites, reduziu sem arranhar, rodou decididamente o volante e preparou-se para mais uma derrapagem e respectiva chiadeira dos pneus. Até já estava a gostar… Mas de onde surgiu a carripana???  Bolas, mesmo atravessada em frente... Só há um caminho, tentar desviar e travar e, e… Pum…Crrrr…Pum…Catrapum…Ena, nunca mais páraaaa!
- Aiiii, uiiii, tirem-me daqui.
- Que aconteceu? Onde estamos?
- Vejo tudo vermelho, porra, devo estar no inferno.
- Ai, ai, não sinto o braço…
Estes lamentos vinham do carro dos fugitivos, que tinha caído numa pequena ribanceira com cinco ou seis metros de altura após ter abalroado outro veículo dentro da rotunda e serrado completamente o “rail” de protecção.
A velocidade e o peso do carro ultrapassaram a capacidade de impacto da barreira metálica, causando a queda do BMW escuro no vazio, que aterrou no pomar do Gervásio, um ex emigrante dos States, que tinha duas paixões: as brasileiras que cirandavam pelas casas de alterne e as suas árvores de fruto.
O outro automóvel acidentado, tinha caprichosamente sido projectado para o centro da rotunda, ficando empoleirado num enorme calhau, que alguém com os gostos estragados, lá tinha deixado a fazer de escultura. Não seria propriamente um automóvel, pois alem de ter já mais de vinte anos, o chaço ficou de tal forma amarrotado que difícil seria identificar a marca e o modelo.
Pelo vidro da porta do lado direito tenta, com dificuldade, sair um homem. Logo, outras pessoas que entretanto se aproximavam a correr, ajudam a retirar um aturdido Simplício, que não faz a pequena ideia do que aconteceu. Tinha comido uma jardineira, bebido um ou dois bagacitos, tirado o carro da garagem, para ir até à tasca do Libório, jogar um dominó. Os outros até já deviam estar à sua espera. Mas que raio é que lhe tinha batido?
 Sobre a rotunda, com um barulho ensurdecedor, um tum-tum-tum-tum repetido, o helicóptero negro, pairava em atitude de vigilância.
Do BMW ninguém saía, o que não augurava nada de bom. Repentinamente, PUM…, um tiro dentro carro e outra gritaria.
Sirenes aproximam-se a toda a velocidade, em breve a rotunda fica bloqueada pelo aparato policial e pelas carrinhas dos jornalistas. Todos corriam aparentemente sem destino, uns para lá, outros para cá. A confusão estava instalada!
- Não se mexam, estão todos presos – diz um polícia junto do BMW, com a metralhadora apontada para o interior.
- Pois estamos – diz alguém do interior, com voz sumida – vai ser preciso serrar esta merda toda, para sairmos daqui.
- Arreda, arreda, chegou o INEM, deixem trabalhar.
 
- Júlia, Júlia, o teu empregado foi raptado…
- Jesus, mulher, que estás para aí a dizer!!!
- Foi, carago, eu vi tudo. Os assaltantes apanharam-no e puseram-no a guiar o carro em que fugiram. Eu vi…
- Aquele homem anda sempre nos perigos; eu bem o avisei para não se meter na confusão. Conta-me o que aconteceu.
 
As ambulâncias chegavam e partiam para o hospital em grande velocidade, fazendo gincana entre os carros parados “ao Deus dará”, cujos condutores estavam tomados da curiosidade e que tinham ido cheirar, como abutres, entre os ferros torcidos das viaturas acidentadas.
 
A Júlia fechou a porta da loja com estrondo, sem se preocupar em recolher as caixas de hortaliça que estavam no expositor do passeio. Em passo estugado desceu em direcção à praça para se inteirar dos últimos acontecimentos e do infortúnio do seu empregado. Estava a chegar quando alguém gritou: “Houve um acidente, na rotunda da via rápida”.
A Júlia ficou sem pinga de sangue, as pernas não queriam obedecer, a cabeça estava num turbilhão.
- Que se passou?
- Só sei que o carro se despistou e caiu numa ribanceira. Já lá está o INEM.
- E feridos, há feridos?...
- Isso não sei. Ainda não se sabe. Mas os da rádio já lá estão. Daqui a nada vão começar a dar notícias.
 
publicado por Brito Ribeiro às 17:37
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