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Jul 08

Texto conforme o original de Francisco Martins Sarmento, célebre arqueólogo do século XIX, responsavel por escavações no Dolmen da Barrosa e na Cividade Âncora-Afife entre outros .

 

 

© Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 1
Observações acerca do Vale do Âncora
Francisco Martins Sarmento
O Pantheon, Porto, 1880 —Ano I,
 
O vale do Âncora tem o privilégio de possuir numa área de pouco mais duma légua uns tantos monumentos, cuja associação e exame, além de destruir pela base algumas opiniões erróneas que por aí correm mundo, esclarece, a meu ver, senão resolve, uma das mais graves questões da nossa arqueologia.
Nos cabeços dos montes, que enquadram o vale, encontramos numerosas ruínas de povoações pré-romanas1; em baixo, no vale, encontramos dólmenes e túmulos com as suas respectivas “mamoas”2, sendo quase certo que uma grande quantidade de monumentos da
mesma espécie tem sido destruída pela cultura.
Daqui se vê já que é inexacto dizer-se em absoluto que, entre nós, todos os dólmenes são descobertos, e que não se encontram túmulos na região onde aparecem dólmenes. No litoral do Minho, pelo menos, estas afirmativas hão-de ser invertidas:
1 São elas, na margem direita do rio: Picouto dos Mouros, Santo Amaro, Crasto; na margem esquerda: Castro dos Mouros, Cividade, Castra.
2 Os arqueólogos tomam a palavra tumulus em dois sentidos. Um, o único conforme à etimologia mais provável do nome, designa um cômoro de terra de forma mamilar.
Neste sentido empregaremos a palavra, entre nós popular, de “mamoa”, que lhe corresponde ponto por ponto. Tumulus designa, na sua segunda acepção, uma sepultura não dolménica, coberta por uma mamoa, e nesta acepção contrapõe-se muitas vezes a dólmen. É neste sentido que empregaremos sempre esta palavra, suposto a consideremos como uma moeda a todos os respeitos falsa, que devia ser posta fora da circulação e substituída por outra.
 
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Não há dólmen sem mamoa;
Dólmenes e túmulos encontram-se quase a par (Âncora) e às vezes formando um grupo (Neiva).
Agora, os dólmenes e os túmulos são monumentos de épocas diferentes, embora não deva afirmar-se que pertençam a povos de diferente raça, como se sustenta ainda?
A ser assim, nos dólmenes e túmulos do Âncora teríamos memórias de duas populações distanciadas por séculos, e, afirmando-se — outra inexactidão — que nos nossos dólmenes só têm sido encontradas armas de pedra, a população que construiu os dólmenes deveria ser cronologicamente a primeira, e estes monumentos padrões dum povo desaparecido com os seus ritos funerários e substituído pelo povo dos túmulos.
Ora nenhuma destas asserções pode ser admitida, em vista dos factos observados na bacia do Âncora. A exploração dos seus dólmenes pode fornecer, e de facto já forneceu, armas de pedra, mas a par delas forneceu objectos de ferro (como os dólmenes do Neiva) e, o que é mais significativo, fragmentos de telha romana.
Sucede com os monumentos funerários do vale o mesmo que sucede com as povoações dos seus altos. Estas povoações são inquestionavelmente de origem pré-romana3, mas continuaram a florescer depois da conquista, como o provam muitos restos de indústria romana, entre eles fragmentos de telha, igual à encontrada nos dólmenes.
Do mesmo modo os dólmenes, de origem antiquíssima, como se não nega, continuaram em uso depois da conquista romana, pois que nos oferecem relíquias de indústria romana, ou imitada dos romanos.
Nesta época relativamente moderna, quem se utilizava dos 3 Provada pela identidade incontestável destas povoações e de Sabroso, onde não há vestígios de influencia romana. Numa portada da “Cividade” a ornamentação, também pré--romana, como se vê da sua comparação com outros ornatos de Sabroso, consiste num entrelaço muito semelhante aos que se encontram nos velhos manuscritos irlandeses, e que o sr. Unger na Revue Celtique (I, págs. 9-26), pretende demonstrar que eram de origem romana. Enganou-se o sábio antiquário.
 
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dólmenes?
Já temos a população dos túmulos e a população dos dólmenes; não podemos porém pôr de parte a população das cidades.
A não admitirmos a coexistência de três populações, o que é muito, é demais, em tão estreito recinto, era nos dólmenes ou nos túmulos que os habitantes das cidades, sobranceiras ao vale,
sepultavam os seus mortos. Que fosse nos túmulos, há para isso boas razões de analogia. Perto de Sabroso, a 800 passos das suas muralhas, encontra-se um grupo de quatro túmulos4, que não podem ser atribuídos senão aos habitantes desta estação. Para nós nenhuma dúvida que os túmulos de Sabroso eram a última morada dos ocupantes desta povoação, como os túmulos do vale do Âncora o eram dos ocupantes das povoações circunvizinhas.
Mas que população era essa outra que ainda depois da conquista romana continuava a viver a par da população das cidades, e sepultava os seus mortos, não nos túmulos, mas nos dólmenes?
Esta questão torna-se verdadeiramente impertinente, cremos nós, sabidos os seguintes factos:
Já vimos que os dólmenes e os túmulos se encontram a par, e que nuns e noutros aparecem armas de pedra, e armas de pedra do mesmo tipo; O exame dos dólmenes e dos túmulos do Âncora mostra mais que os dólmenes é túmulos são sempre, ou foram, cobertos por uma
mamoa maior ou menor e conforme o tamanho da sepultura que escondia, mas composta sempre do mesmo modo, de terra e pedregulho; Que os dólmenes e os túmulos tem sempre a mesma orientação: viram para o nascente; - - Que a posição escolhida para os dólmenes e para os túmulos é sempre a mesma, ou uma chã, ou uma portela (garganta de monte); 4 Todos saqueados, segundo o costume. Um deles forneceu ainda assim uma machadinha de xisto, outro três pontas de flecha de sílice, duas delas tão semelhantes às outras, achadas num dólmen do Neiva, que, ninguém será capaz de as extremar, se por acaso as baralhar. Dentro das muralhas de Sabroso foram encontradas também armas de pedra.
 
 
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Que nos suportes dos dólmenes, nas pedras que formam as suas galerias, bem como nas pedras, que formam a caixa dos túmulos, há sempre a mesma disposição característica: as pedras não quadram pelos topos, sobrepõem-se umas às outras; Que tanto nos dólmenes, como nos túmulos, se encontram às vezes as célebres covinhas (fossettes), as quais, segundo o sr. Desor, constituem, com os círculos concêntricos, espirais, etc., o distintivo duma raça, que ele, em virtude destes sinais, denomina “race écriveuse”; e aqui não podemos deixar de relembrar que todos estes sinais, não raros nos dólmenes do norte da Europa, são triviais nas
nossas cidades prá-romanas5.
Assim, depois do exame atento dos monumentos do Vale do Âncora, eu duvido muito que qualquer arqueólogo, por mais arraigados que sejam os seus preconceitos, perca tempo a discutir se por ali houve dois povos contemporâneos, um dos quais enterrava nos túmulos, outro nos dólmenes. Com a sua brutalidade habitual os factos demonstram que os túmulos e os dólmenes eram sepulturas dum e o mesmo povo, pelo menos nesta parte do Minho.
Sem dúvida, em relação ao túmulo, o dólmen é um monumento grandioso; mas em todos os tempos, mesmo perante a morte, houve grandes e pequenos; e, se da sumptuosidade das
sepulturas tirássemos argumento para uma distinção étnica, ou política, visto ser quase certo que os habitantes das cidades enterravam nos túmulos, seríamos obrigados a admitir que a
população, contraposta à das cidades, e portanto humilde, senão escrava, levantava mausoléus custosos, enquanto que os seus dominadores se contentavam com memórias singelas.
Menos inverosímil seria o contrário. A mesma grandiosidade relativa do dólmen obrigava-os a
adoptar uma forma diferente da do túmulo. Já vimos porém que na disposição das peças de ambos os monumentos se respeitava uma 5 É bom acrescentar que tenho encontrado círculos concêntricos, gravados em lajes, a pouca distancia dos túmulos, parecendo ter com eles uma relação tal ou qual.
 
 
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mesma regra arquitectónica; e, se a diferença acidental de forma fosse bastante para constituir categorias diferentes, força era abri-las para os túmulos, pois que há mais variedade na forma destas sepulturas, do que muita gente supõe.
Eu creio mesmo que da afinidade de nomes, com que o nosso vocabulário designa os dólmenes e os túmulos, se pode inferir até certo ponto a sua identidade.
Todos sabem que entre nós o nome popular de mamoa corresponde, pela etimologia e pelo significado, ao tumulus dos arqueólogos na sua acepção primitiva e correcta.
Ao dólmen corresponde o nome popular — anta. Ao túmulus, no sentido de sepultura não dolménica, coberta por uma mamoa, corresponde, se não erramos, o nome de antela,
antinha6.
É pelo menos o que os factos seguintes me dão direito a crer. Entre a Citânia e Sabroso foi descoberta uma sepultura não dolménica, com túmulo, para continuar com a nomenclatura que tenho empregado até aqui. A tradição tinha perdido completamente a memória deste monumento sepulcral, mas o estreito terreno, onde ele ficava, conservou o nome de “Monte de Antela”.
Pode duvidar-se que antela seja o diminutivo de anta, e que o nome local de Antela deva a sua origem à sepultura em questão?7.
Em Pamplido repetem-se as mesmas coincidências. Há aí algumas sepulturas abertas em rocha, uma delas contígua a um campo, denominado o “Campo das Antinhas”. Que o nome de
“Antinhas” se referisse às sepulturas abertas em rocha, ainda 6 Não é inútil advertir que os nomes, dados pelos arqueólogos às mamoas, antas e antelas, são todos de composição erudita, e eu não conheço nenhum país, a não ser o nosso, que tenha nomes populares genéricos para estes monumentos. São eles verdadeiramente antigos e primitivos?
Aqui está uma questão, cuja solução seria preciosa.
7 Que o nome de Antela era aplicado exclusivamente ao local da sepultura, parece resultar da denominação mesma de “Monte de Antela”. O “Monte de Antela” fica numa pequena bacia, e debalde se procurará ali alguma coisa que faça lembrar um monte. Apenas na planície se ergue um relevo natural de poucos metros de altura. Aí justamente é que a sepultura se encontra.
 
 
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existentes, se a outras mais antigas, não é fácil de averiguar; que se referisse a monumentos sepulcrais é para mim da última evidência8. Estou certo que o estudo minucioso da topografia do nosso país multiplicaria exemplos destes, causando verdadeiras surpresas e obrigando estes nomes, a bem dizer fossilizados, a fazer revoluções curiosas. O desaparecimento de tais nomes da circulação da língua não tem nada que admire. Neste terreno há singularidades de toda a espécie. As vezes os monumentos subsistem numa localidade, mas parte dos nomes, com que eram designados, desapareceu. Exemplo: em Vila Chá (margem esquerda do Neiva), são vulgares as antas e antelas no centro das competentes mamoas. Nenhum habitante de Vila
Chá ignora o que é uma mamoa, a que chamará de preferência mamunha. Escusado porém será perguntar-lhe por uma antela. Ficou só o nome do continente, da mamunha; todos os mais esqueceram.
Outras vezes o monumento subsiste; o nome também, mas o nome perdeu a sua significação do modo mais desastrado. Exemplo: defronte de Vila Chá encontrámos a freguesia de S. Paio de Antas.
Aqui o nome achou um meio engenhoso de se perpetuar. O nome sim, o significado não; e vamos conhecer um dos processos, pelo qual uma palavra pode ser expropriada da sua significação originária. Se perguntais a um sujeito de S. Paio, lido nas antiguidades da sua
freguesia, a razão por que ela se denomina d’Antas, ele responde-vos que é porque S. Paio era dantes Velinho. Esmiuçada a resposta, à primeira vista sibilina, fica-se sabendo que a denominação da freguesia passou pelas seguintes fases:
1.ª S. Paio d’ antes Velinho;
2.ª S Paio d’ antes, abreviatura de — S. Paio d’ antes Velinho
3.ª S. Paio d’ Antas, corrupção de — S. Paio d antes, scilicet,
Velinho.
8 As sepulturas em rocha são triviais no Minho. Nenhum achado dentro delas deu porém, que eu saiba, subsídio algum para lhes assinar uma data, mesmo aproximada.
Não é impossível que algumas delas estivessem cobertas por mamoas. Eu dei como existentes ainda as sepulturas de Pamplido. Mas devo declarar que as vi, há dois anos, e que os montantes não andavam longe delas.
 
 
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No vale do Âncora e seus arredores não faltam antas, antelas e mamoas, mas nenhum destes nomes é conhecido. E possível que os nomes especiais, dados aqui a cada monumento, pusessem em desuso os nomes genéricos. A ideia que determina as vezes a denominação
nova é a antítese completa da ideia antiga e explica a sua perda irremediável. Tal mamoa chama-se hoje “Cova da Moura”, tal outra “Poço da Chás”. Nada mais disparatado em aparência do que os nomes de “cova” e “poço”, dados a montículos de terra. Se reparamos porém que estes montículos estão saqueados e de há séculos, apresentando no centro uma depressão, uma cova, produzida pela extracção das pedras das sepulturas no intuito de lhes aproveitar os materiais, ou pelas escavações dos sonhadores de tesouros, compreende-se que a palavra, exprimindo a forma mamilar que dava a conhecer o monumento, desaparecesse, para originar outra que designasse a sua parte essencial — essencial, por misteriosa, ou mesmo pelo seu primitivo destino: na opinião dum camponês de Azevedo estas “covas”nada mais eram que pontos estratégicos, onde os mouros se escondiam, para “fazer fogo” ao inimigo.
A explicação, aceite em Azevedo, pode não concordar com a de qualquer outra localidade; o que eu não encontrei em parte alguma foi uma explicação que se aproximasse da verdadeira; é mesmo notável a repugnância que mostra o homem do povo em acreditar que as mamoas eram sepulturas.
O que ele sabe é que tudo aquilo pertenceu aos mouros. E em algumas nem isso; sobre as mamoas e as suas sepulturas, mais ou menos destruídas, pesa um completo esquecimento.
 
Guimarães, 4—11—1880.
publicado por Brito Ribeiro às 11:44
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