Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

14
Jun 08

Na sala grande, frente ao televisor, uma senhora idosa estava sentada no cadeirão de couro castanho a condizer com a restante mobília. Ao fundo, no fogão de sala, amorrinhavam algumas brasas.

Cabelos brancos, um rosto enrugado onde sobressaíam os olhos negros, com mais vida que o corpo alquebrado. Fez um esforço e ergueu-se apoiada na bengala. Fomos ao seu encontro, instalamo-nos no sofá à sua direita. O Esteves quis oferecer-nos os aperitivos que recusamos. Estava mais interessado em ouvir a anciã e a Paula ainda estava mais curiosa que eu.
- Então foram vocês que encontraram o esqueleto lá em cima?
- Lá em cima? – Perguntei.
- Sim, na Branda da Aveleira.
- Ah!… Sim, fomos nós.
- Ó `Mingos, vai-te lá embora, que tenho que falar com estes senhores.
- Mas avó, não vê…
- Nem mas, nem meio mas… Quando acabar, eu chamo-te. E não te esqueças de dizer à tua mulher para pôr mais dois pratos.
Obedientemente o Esteves saiu e fechou a porta atrás de si. Notava-se que a velhota tinha uma personalidade forte, apesar da idade e que sabia muito bem impor a sua vontade. Encarou-nos com um olhar tão agudo que me incomodou e começou a falar.
- Quero que me prometam nunca dizer a ninguém aquilo que vos vou contar. Mas a ninguém mesmo, compreendem?
- Sim…
- Então prometam!
- Ok, prometemos…
- A senhora também – diz a velhota, olhando a Paula.
- Prometo, mas porque é que nos quer contar não sabemos o quê, se nem nos conhece e nem quer que o seu neto escute?
- Já vos explico tudo, – inclinou-se para a frente, as mãos apoiadas na bengala, a voz mais baixa meio-tom – eu não sou desta terra, mas de uma freguesia perto da raia. Vim para cá depois de casar com o meu Afonso, que Deus tenha… - fez um silêncio significativo em sua memória e prosseguiu – Mas não é disso que vos quero falar. Eu sou de uma aldeia lá mais para riba, perto de Espanha e antigamente nós só sobrevivíamos com a ajuda do contrabando. A terra pouco dava, é como hoje, e a carregar umas coisinhas para lá e para cá, amanhávamos mais uns tostões. Era uma vida miserável, meus filhos! Na aldeia havia um grupo de homens que carregavam os burros e as mulas com o que os verdadeiros contrabandistas queriam, lá iam eles por aqueles montes acima, sempre com medo dos carabineiros espanhóis que eram uns malandros. Os nossos eram melhores, bastava dar-lhes qualquer coisa e fechavam os olhos, coitados, também passavam mal só com o soldo da Guarda. Mas havia um deles, o comandante que era um filho da puta, com a vossa licença e que muito nos apoquentou. Levou preso o meu irmão que era o que dava as ordens aos outros homens. Ainda esteve em Melgaço algumas semanas, já não sei quantas, a passar fome e a levar porrada para falar. Esse Guarda, um tenente, fez-nos a vida negra durante meses e meses, embirrou com a nossa aldeia e com os de Castro Laboreiro onde uma noite a Guarda, por ordem dele, matou dois homens a tiro. Um dia disse para o Alípio, o meu irmão, que tínhamos de apanhar esse cachorro do tenente. Ao princípio ele recusou com medo, mas levei a minha avante e preparamos-lhe uma armadilha. Ninguém mais sabia o que preparávamos, só eu e ele. Conseguimos que o tenente viesse sozinho aqui à Gave, eu levei-o por um carreiro e o Alípio abateu-o com uma cachaporra na cabeça. Morreu ali mesmo e nem lhe valeu ter a pistola na mão. Levamo-lo para a Branda e enterramo-lo ainda durante a noite. Por cautela, matamos a mula que o carregou e deixamo-la a apodrecer por cima da tumba do tenente. Assim, o mau cheiro afastava qualquer um que ali passasse. Logo que acabamos de o enterrar, metemo-nos a caminho para a Espanha pelos caminhos mais difíceis e depois de muitos sacrifícios chegamos a França, onde vivemos mais de trinta anos. Durante mais de uma semana andaram à procura do tenente, mas não encontraram rasto dele. Um dia encontraram o boné e o casaco da sua farda perto de Ourense, fomos nós que a levamos para lá, deixando-a onde era fácil encontrá-la. Só para desviar as suspeitas e eles pensarem que o tenente tinha sido levado para Espanha. Deu resultado porque deixaram de o procurar deste lado. Quando cheguei a França comecei logo a trabalhar, a fazer limpezas e a ajudar no mercado, ainda de madrugada, mas acabei por abortar. Foi quando conheci o meu Afonso, que trabalhava nas obras do hospital e ia visitar-me sempre que podia. Estive muito mal, quase três meses sem me poder mexer.
- Espere aí! Então abortou mal chegou a França e só depois é que conheceu aquele que iria ser o seu marido? Foi assim?...
- Foi...
- Então quem era o pai? Hum... Desculpe, se calhar não devia ter perguntado...
- Não faz mal, meus filhos. Já passou tanto tempo e eu prefiro contar-vos a verdade que levá-la comigo para o além. O pai era esse filho da puta do tenente, com a vossa licença. Foi ele que me fez o filho e depois negou-o. Assinou a sentença no dia em que se riu na minha cara a dizer-me que não me conhecia de banda nenhuma, a mim, que me entreguei a ele apenas para não voltar a prender o nosso Alípio. Ahhh... mas pagou-as! Só tive medo que ele reconhecesse a minha voz quando o fui chamar, apesar de a ter disfarçado. Estão a ver, se ele me reconhecesse ia o plano por água abaixo, mas tudo correu bem. A história acaba aqui, senhores. O meu irmão já morreu há doze anos e quando se estava a finar, obrigou-me a prometer-lhe que se um dia o cadáver fosse descoberto eu devia contar a verdade a alguém.
- E porque é que nos escolheu Dona… nem sabemos como se chama?
- Chamo-me Maria Rita e escolhi-os porque foram vocês que o descobriram e porque queria conhecê-los.
- Mas nós podíamos agora ir contar tudo à polícia.
- Ora, uma promessa é para se cumprir… e vocês prometeram!
 
Fim
publicado por Brito Ribeiro às 22:54
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Gostei do conto e da forma como soubeste manter o interesse1
Continua, tens futuro.
José Alfredo a 17 de Junho de 2008 às 22:36

É muito generoso o teu comentário, obrigado.

Abraço
Brito Ribeiro a 18 de Junho de 2008 às 14:05

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