Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

12
Mar 07
Já passava das duas da tarde e o espectáculo continuava. Os mirones eram cada vez mais, apesar de alguns terem ido a casa meter uma bucha rápida, outros tinham-se desenrascado numa das tascas das imediações. Na churrasqueira do mercado, já tinham acabado com as pataniscas, os panados e o prato do dia, feijoada à transmontana, tinha desaparecido como o fumo ao vento. Agora estavam a aviar bifanas, bolinhos de bacalhau e rissóis feitos a toda a velocidade.
Os reforços da polícia chegaram, mas em vez da polícia de choque, vieram uns gajos vestidos à ninja, todos de preto, as caras cobertas com gorros, que se posicionaram por detrás das duas carrinhas que os transportaram. Chegaram também os jornalistas, que instalaram câmaras de filmar em vários pontos da praceta, nos melhores ângulos, para cobrirem uma mais que provável intervenção da polícia, pois os gajos lá dentro, nem tugiam, nem mugiam. Por todo o lado, viam-se jornalistas de microfone na mão, a entrevistar a populaça.
Ao negociador da polícia, os assaltantes só disseram que queriam um carro à porta para fugirem e que não queriam ser seguidos, de contrário matavam os reféns.
A Júlia tinha ficado uma boa parte da manhã a dar e a ter, mas teve que rumar à loja para substituir o Bertinho, que estava roído de impaciência e de curiosidade.
-Conte-me D. Júlia. Ainda lá estão? Já houve tiros?
- Aquilo é uma camada de empatas. Nem os assaltantes saem, nem os polícias entram. Havia de ser a mandar e já estava tudo resolvido. Até já me doem as pernas de lá estar parada. Já nem vou a casa. Vou ligar ao Simplício e dizer-lhe para aquecer no microondas a jardineira que fiz ontem à noite.
-Então vou eu D. Júlia! Mas primeiro vou ver se como qualquer coisa, e só depois é que passo lá pela praça, para ver o ambiente.
-Vá, Vá, mas não me deixe ficar aqui sozinha a tarde toda.
- Eu vou num pé e venho noutro.
 
Depois de ter engolido dois croisants e um galão na pastelaria que estava à cunha, foi a casa, pegou na máquina fotográfica, trotou para o centro da praceta e à força de braços, de pedidos de desculpas e de sorrisos manhosos, foi-se chegando até ficar na primeira fila, mesmo em frente dos correios, ao lado de uma das carrinhas da polícia.
Dali até podia ver e ouvir o que eles diziam entre eles e ficar melhor informado que os demais. Com um pouco de sorte, podia tirar alguma fotografia espectacular, até as podia vender a algum jornal ou televisão.
“O que é preciso é estar no sítio certo, à hora certa; Só é pena porque faz um vento gelado que deixa todos a tiritar de frio. Sempre é melhor que a chuva da manhã”, pensou o Bertinho, aconchegando o flamejante blusão de penas que tinha comprado no shopping e que lhe custara os olhos da cara.
Num ápice, chega um BMW enorme, um da série 5 ou série 7, um “carrão” que pára mesmo junto ao passeio, o mais perto possível da porta dos correios, dele sai o condutor, que em voz alta diz para o interior do posto:
- Podem sair, aqui está o carro como combinado; Libertem os reféns.
- Li…li…libertamos o caraças, eles vão co…connosco, são a nossa ga…ga…garantia.
-Não foi isso que…
- To…todos para trás, senão limpo o sebo j…á a esta cabra dos co…correios – ameaçou o gago, mantendo a Rosete na sua frente, com o cano da espingarda encostado às costas.
- Para trás, para trás – gritavam os polícias tentando empurrar o maralhal que não recuava um passo.
- Que…remos um condutor – exigiu novamente o líder dos assaltantes.
- Eu sou o vosso condutor e a vossa garantia, por isso libertem os reféns – respondeu o indivíduo que viera a conduzir o BMW.
- Nem penses, tu és da po…policia. Que…remos um gajo civil. Serve a…aquele que está ali de blu…blusão ver…vermelho, o fo…fo…foto…grafo.
- Qual? Onde?
- A…a…aquele alto de blusão à Ben…ben…benfica.
Todos procuravam com o olhar quem era o “felizardo”, escolhido pelos assaltantes para os conduzir na fuga. Os olhares convergiam todos para o nosso Bertinho que completamente atónito murmurava “Eu? Oh, meu Deus e agora? Nem sitio tenho para fugir, nem sequer para me esconder…”.
- Estás a ou…ouvir pá, me…mete-te no carro e pre…pre…para-te para arrancar na “broa” quando te di…disser, senão dou um ti…tiro nesta gaja e outro em ti.
- Faça o que ele diz porra, não vê que está desesperado e pode cometer uma loucura – diz o polícia ao Bertinho que, como um autómato, se dirige para o BMW e o põe a trabalhar.
Num instante saem os assaltantes protegidos pelos reféns, que caminham na frente. O momento é de máxima tensão. Os ninjas apontam as metralhadoras e seguem todos os movimentos, à espera de uma oportunidade.
- Não disparem, não disparem, que ainda nos acertam – suplica o “Adesivo” entalado entre o Lopes e a Rosete.
- Po.. podem ficar co…m a gaja, que e…e…sta não é de fiar – diz o gago dando um empurrão à Rosete que se estatela de costas no canteiro das flores, fazendo a saia subir, deixando à vista as coxas e as cuecas.
Foi o momento chave, pois todos viraram a cara para apreciar a Rosete e o carro da fuga arranca a toda a velocidade. Para ser mais exacto, não arranca a toda a velocidade, porque primeiro dá dois ou três valentes soluços e depois é que arranca aos ziguezagues, de tal forma, que ainda bateu de raspão em dois carros que estavam estacionados, obrigou um magote de mirones a fugir desordenadamente para não serem atropelados e mandou pelos ares o carrinho das pipocas, tremoços e amendoins que o Valdemarcio e o Lira usavam habitualmente nos jogos de futebol e nas festas das aldeias, que eles tinham montado logo de manhã, à entrada da praceta, quando suspeitaram que o assalto estava para durar.
- Que merda de policias. Estes gajos são os de intervenção? Eles intervêm mas é nos tachos, cambada de lateiros.
- Já percebo porque é que tapam a fronha. É para não passarem pela vergonha de serem reconhecidos.
- Calma, Calma - diz um dos policias, que parecia ser o chefe – Não podíamos pôr em risco a vida dos reféns e os assaltantes estão neste momento a ser seguidos pelo nosso helicóptero.
- Ena pá! Aqueles gajos é que são burros… Então a polícia tem um helicóptero e eles pedem um carro. Que nabos.
- E depois punham o Bertinho a conduzir o helicóptero, não? Ele nem uma bicicleta conduz em condições. Vamos mas é beber um copo enquanto não há novidades. É pá, viste a Rosete?
- Então não vi!! Um espectaculo desses não se pode perder! Vamos lá molhar o bico, que aquilo até me deu sede.
publicado por Brito Ribeiro às 17:29
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