Um dos assuntos que está na ordem do dia é o denominado acordo ortográfico e a sua implementação. Confesso que até fico admirado, pois este país está cada vez mais hipotecado às novelas, às parvoíces do João Jardim e às broncas do futebol.
Mesmo assim, o acordo ortográfico ganhou algum espaço de debate pois ainda há quem se interesse por estas coisas da Língua, a mesma que Camões cantou há quinhentos anos.
Por princípio não tenho qualquer rebuço em aceitar uma evolução linguística, um esforço de uniformização se este for imprescindível, mesmo reconhecendo que a Língua Portuguesa tem hoje várias faces, tantas quantos os países que a tem por língua oficial.
É impensável legislar no sentido de pôr um Angolano ou um Brasileiro a falar ou a escrever da mesma forma que um Português. Nem é possível e, mesmo que fosse, considero uma rematada asneira quebrar um vínculo cultural, cortar uma raiz à árvore da sua história.
Assim, não vejo qualquer interesse na assinatura deste acordo ortográfico e é curioso, que mesmo os seus defensores têm sérias dificuldades em encontrar argumentos científicos na sua implementação, exceptuando o argumento velho e caduco do “interesse político” de cooperação e aproximação entre os diversos países.
A estes interesses subjectivos, muita gente opõe o rigor linguístico e o bom senso que parece desaparecido, nesta cedência neo-colonial aos interesses brasileiros.
Interesses de índole comercial onde as grandes editoras desse país se preparam para “assaltar” o mercado Africano e Português, que terão em breve de renovar tudo quanto é compêndio escolar, dicionário, gramática, enciclopédia, documento oficial e formulário institucional. Mas o governo português está disposto a ceder sem ter escutado os linguistas, os estudiosos, todos aqueles que bom uso dão à Língua Lusa, o que se revela um péssimo contributo para a defesa do património cultural de Portugal.
Por mim, que não sou linguista, mas que trabalho a palavra, não estou disponível para aceitar uma nova forma de falar ou de escrever, apenas por decreto de interesse político.
Qualquer alteração à Língua terá de ser sempre gradual e parte da rua, do cidadão para a regra e não o contrário, como nos querem impor.