Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

13
Fev 08
 
 
Vale a pena ler até ao fim este artigo de Clara Ferreira Alves
 
 
Por uma vez gostava que em Portugal alguma coisa tivesse um fim, um ponto final sinónimo de assunto arrumado.
 
Vivemos no país mais inconclusivo do mundo, em permanente agitação sobre tudo e sem concluir nada.
 
Desde os Templários e as obras de Santa Engrácia que se sabe que nada acaba em Portugal, nada é levado às últimas consequências, nada é definitivo e tudo é improvisado, temporário, desenrascado.
 
Da morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, foi crime, não foi crime, ao desaparecimento de Madeleine McCann ou ao caso Casa Pia, sabemos de antemão que nunca saberemos o fim destas histórias, nem o que verdadeiramente se passou nem quem são os criminosos ou quantos crimes houve. Sabemos também que a maior parte dos culpados não serão punidos e provavelmente nem irão a julgamento.
 
Tudo a que temos direito são informações caídas a conta-gotas, pedaços do enigma, peças do quebra-cabeças. E habituámo-nos a prescindir de apurar a verdade porque intimamente achamos que não saber o final da história é uma coisa normal em Portugal e que este é um país onde as coisas importantes são "abafadas", como se vivêssemos ainda em ditadura. Durante o Estado Novo a notícia simplesmente não aparecia aos olhos do grande público, fruto do traço azul do lápis censor. Hoje a notícia entra-nos em casa, todos os dias, repetidamente, mas não tem consequência. É explorada durante algum tempo e é abandonada em detrimento de outra mais actual. E acaba por cair no esquecimento, do cidadão da investigação e da justiça.
 
E os novos códigos Penal e de Processo Penal em nada vão mudar este estado de coisas. Apesar dos jornais e das televisões, dos blogues, dos computadores e da Internet, apesar de termos acesso em tempo real ao maior número de notícias de sempre, continuamos sem saber nada, e esperando nunca vir a saber com toda a naturalidade.
 
Do caso Portucale à Operação Furacão, da compra dos submarinos às escutas ao primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente ao caso da Universidade Moderna, do Futebol Clube do Porto ao Sport Lisboa Benfica, da corrupção dos árbitros à corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras a Isaltino Morais, da Braga parques ao grande empresário Bibi, das queixas tardias de Catalina Pestana às de João Cravinho, há por aí alguém que acredite que algum destes secretos arquivos e seus possíveis e alegados, muito alegados crimes, acabem por ser investigados, julgados e devidamente punidos?
 
O único que pagou com alguns anos de cadeia foi o Vale e Azevedo que pagou por todos, devido ao escândalo que causou ao ser provado que um dirigente desportivo, ainda por cima do maior clube português “metia a mão na massa”.
 
Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa com isso, apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção.
 
Os portugueses, na sua infinita e pacata desordem existencial, acham tudo "normal" e encolhem os ombros.
 
Quem se lembra dos doentes infectados por acidente e negligência de Leonor Beleza com o vírus da sida?
 
Quem se lembra do miúdo electrocutado no semáforo e do outro afogado num parque aquático?
 
Quem se lembra das crianças assassinadas na Madeira e do mistério dos crimes imputados ao padre Frederico?
 
Quem se lembra que um dos raros condenados em Portugal, o mesmo padre Frederico, fugiu da prisão e acabou a passear no Calçadão de Copacabana?
 
Quem se lembra do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal?
 
Quem se lembra dos inúmeros casos suspeitos relacionados com a área urbanística, que invariavelmente envolvem autarcas e que nunca são investigados ou, quando são terminam sempre, anos depois, por concluir que não há matéria probatória.
 
Em todos estes casos, e muitos outros, menos falados e tão sombrios e enrodilhados como estes, a verdade a que tivemos direito foi nenhuma.
 
No caso McCann, cujos desenvolvimentos vão do escabroso ao incrível, alguém acredita que se venha a descobrir o corpo da criança ou a condenar alguém? As últimas notícias dizem que Gerry McCann não seria pai biológico da criança, contribuindo para a confusão desta investigação em que a Polícia espalhou rumores e indícios que não substância.
 
E a miúda desaparecida em Figueira, também no Algarve? O que lhe aconteceu?
 
E todas as crianças desaparecidas antes delas, quem as procurou?
 
E o processo do Parque, onde tantos clientes buscavam prostitutos, alguns menores, onde tanta gente"importante" estava envolvida, o que aconteceu?
Então os pedófilos importantes eram apenas os eternos réus do processo Casa Pia? Não há mais nenhum? Esta era a única rede a operar em Portugal?
 
Arranjou-se um bode expiatório, o Bibi, e da maneira como as coisas estão ainda os “putos” vão ser condenados por terem sido violados ou por acusarem algum figurão importante.
 
E as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo? Aquelas em que ela reconheceu imensa gente "importante", jogadores de futebol, milionários, políticos, onde estão? Foram destruídas? Quem as destruiu e porquê?
 
E os crimes de evasão fiscal de Artur Albarran mais os negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, onde é que isso pára?
 
O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da Cruz, apeado por causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha para a sua filha.
 
E os negócios do BCP o maior banco privado português, que violou sistematicamente leis e regras que o Banco de Portugal tinha por obrigação de fiscalizar, agitando o mercado de valores com a novela do sai ou não sai, fico ou não fico, numa espiral de descrédito no sistema bancário português e nos mecanismos de controle do Estado.
 
E aquele médico do Hospital de Santa Maria suspeito de ter assassinado doentes por negligência? Exerce medicina?
 
E os que sobram e todos os dias vão praticando os seus crimes de colarinho branco sabendo que a justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca.
 
Passado o prazo da intriga e do sensacionalismo, todos estes casos são arquivados nas gavetas das nossas consciências e condenados ao esquecimento. Ninguém quer saber a verdade. Ou, pelo menos, tentar saber a verdade.
 
Nunca saberemos a verdade sobre o caso Casa Pia, nem saberemos quem eram as redes e os "senhores importantes" que abusaram, abusam e abusarão de crianças em Portugal, sejam rapazes ou raparigas, visto que os abusos sobre meninas ficaram sempre na sombra.
 
Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças, de protecções e lavagens, de corporações e famílias, de eminências e reputações, de dinheiros e negociações que impede a escavação da verdade. Este é o maior fracasso da democracia portuguesa e contra isto os partidos, com o PS e o PSD à cabeça, que fizeram?
 
 
publicado por Brito Ribeiro às 14:49
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