Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

05
Mar 07
Oito e dez duma manhã com o céu plúmbeo, que ora chovia, ora ventava, uma daquelas manhãs que não apetecia sair da cama, quanto mais vir para a rua. Bertinho "Cambalhota" entra em passo de corrida na mercearia e exclama: D. Júlia, já soube o que aconteceu?
- Bom dia também para si, caramba, nem se cumprimenta quem está…
- Ah desculpe, estou muito excitado, se soubesse!
- Mas que raio aconteceu? Desembuche homem, desembuche!
- Os correios foram assaltados e fizeram reféns. Um deles é o "Adesivo" e outro é…
- O quê??? Esse malandro atreveu-se a assaltar os correios? Eu bem digo que ele não é boa peça…
- Oh D. Júlia, por amor de Deus, o "Adesivo" não é o assaltante, é um dos reféns.
- Eu sabia, Deus é grande. Bertinho, diga-me, diga-me, o assaltante tem alguma arma?
- Parece que é mais que um e tem espingardas sem canos.
- Sem canos, e disparam por onde, pelo cu, não?
- Não é nada disso, é com os canos curtos, serrados ou lá como se diz.
- E o assalto já acabou ou ainda lá estão?
- Estão lá dentro e a polícia tem os correios cercados. Até estavam a dizer que vinha a caminho a polícia de choque.
- Ah, ah, ah, agora é que o "Adesivo" se não levar um tiro, sai de lá todo borrado. Não vou perder isso por nada. Bertinho, fique aqui, que eu vou lá dar uma espreita e já venho.
- D. Júlia, podíamos fechar o estabelecimento por um bocado e eu também ia. Como assim, agora não vem cá ninguém, enquanto o assalto não estiver resolvido.
- Não podemos fechar. Vem os fornecedores e é preciso estar alguém para atendê-los. O Zé Bastos há-de estar a chegar.
Sem mais, a Júlia sai para a rua, ainda a vestir a gabardina, com o guarda-chuva atravessado debaixo dum braço.
"Raios partam o Zé Bastos", pensa o Bertinho, ele é que devia estar como refém, que também se havia de borrar todo. Perdia logo aquele ar enjoadinho de gente fina.
Nos correios, o ambiente era tenso e o ar húmido, provocando arrepios de frio e nervoso aos reféns e aos dois assaltantes, que cobriam as cabeças com simples meias de lycra. Ambos na casa do trinta e tal anos, um destacava-se pela estatura e por um nariz enorme que nem a meia disfarçava.
Tinham entrado e enquanto um deles ficava junto à porta, o outro, o "pencudo" tinha afastado do balcão, sem cerimónias, o Gonçalves "Adesivo" e o Lopes que era vendedor de fotocopiadoras, para berrar às orelhas da funcionária "isto é um assalto, passa para cá a massa".
Instalou-se a confusão pois a funcionária, a Rosete, não era de modas e pregou com uma lista telefónica que estava ali à mão, no focinho do gajo. É escusado lembrar que foi o seu apêndice nasal que se encarregou de amortecer a pancada, ficando a pingar sangue e ainda mais à banda do que já estava de nascença. Foi quando o outro assaltante que estava à porta levantou a espingarda e disse à Rosete:
- Que…queres levar um ti…ti…tiro nos cor…nos?
A partir daí tudo correu bem e não houve mais dialogo. O "Adesivo" e o Lopes trocaram olhares de cumplicidade, como quem diz, "o dinheiro nem é nosso", a funcionária acalmada com a ameaça de lhe fazerem um novo penteado, tinha aberto o cofre, que possuía um dispositivo de retardamento da abertura e esperava sentada, com ar acabrunhado, que a porta se desbloqueasse.
O "Pencudo", que continuava a sangrar do nariz, ia enchendo os bolsos com os trocos que estavam na gaveta do balcão e por vingança, despojou a sua agressora dos brincos, um anel e uma pulseira de ouro que tinha herdado da madrinha e teria seguramente mais de cinquenta anos.
Foi neste momento que se ouviu uma sirene no exterior e o carro da polícia parou com um ranger de pneus, do outro lado da rua. Dele saíram dois polícias de pistolas na mão, enquanto o motorista saia do carro e ia à bagageira buscar uma espingarda.
- Que…m cha…chamou estes ca…cabrões? Foste tu – berrava o ladrão gago, junto da porta, brandindo a espingarda em direcção ao Lopes, que tinha a careca ainda mais brilhante devido ao suor, enquanto abanava a cabeça numa negativa.
- Então f…oste tu – e a espingarda virava-se para o "Adesivo" que também gaguejou – "Eu? Eu? Co…mo carago? Só se foi essa gaja. Já vi num filme que eles têm um botão ou um pedal por baixo do balcão para quando tem uma situação de emergência ligarem directamen…
- Cala-te ou le…vas já um tiro. Mer…merda, agora estamos li…li…lixados… Mas vós ides à nossa fren…te.
- É pá, deixa-te disso, se quiseres nós até testemunhamos a vosso favor. Tendes é de vos entregar.
- Mas tu és ma…maluco? A…panhamos no mi…mínimo dez anos cada um e eu ainda só s…aí de lá há me…menos de um ano.
- Ouve lá, nunca apanhas dez anos porque eu te garanto que testemunhamos em vosso favor, não é Lopes? E tu Rosete, se estes rapazes acabarem já com esta cena, não vais ao tribunal abonar em seu favor? É claro que vais – remata o "Adesivo" sem esperar a resposta dos outros.
- Ca…cala-me já essa boca e d…eixa-nos pen…pensar.
Cá fora, a praceta estava praticamente cheia, cada vez os mirones eram mais. Os polícias esforçavam-se por conter a malta, que queria à viva força, estar na primeira fila e nem os avisos de que os assaltantes estavam armados, os demoviam. Chegaram entretanto reforços do posto vizinho, que de G-3 em punho, visavam as persianas cerradas dos correios. De dentro nem um pio.
-De é que estão à espera? Perguntava a tia Maria da Quelha que se impacientava com as demoras - daqui a nada tenho que ir pôr a sopa ao lume e isto não ata, nem desata.
- Estão à espera da polícia de choque.
- Não é nada disso. Estão à espera de um negociador.
- Negociador? Para quê? Então o comandante do posto não sabe do ofício?
- Deviam era mandar granadas lá para dentro.
- Oh mulher, queres matá-los a todos?
- Eu disse granadas, mas de cheiro, daquelas em que saem todos a tossir…
- Coitada da Rosete, ainda pode ser ferida.
- Sabem que lá dentro, estão presos o "Adesivo" e o Lopes?
- O quê? O "Adesivo"? Bem, então os assaltantes estão tramados! Daqui a nada rendem-se, só para não o aturarem.
E os comentários continuavam com todos a darem palpites e a avançarem soluções entre o sério e cáustico. Foi nesse ambiente que a Júlia mergulhou, quando chegou à praceta, em frente do posto dos correios.
 

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 11:49
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