Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

15
Nov 07
Enquanto a Júlia despachava ao balcão, o Bertinho dava treta às velhotas que estavam à volta da hortaliça.
- Oh tia Joaquina, olhe para estes repolhos, são um luxo, chegaram agora mesmo, acabadinhos de serem colhidos no campo. Sim D. Celeste, só um momento, que já peso a sua encomenda, deixe-me só pôr a etiqueta neste saco…
E por aí adiante, o Bertinho desdobrava-se em amabilidades e simpatia com as freguesas, que até nem ficavam muito admiradas pois já lhe conheciam a léria de ginjeira. A Júlia é que estava radiante pois o negócio corria bem e, combinada com a Suzete, começou mentalmente a fazer uma lista das pessoas que poderiam votar nela. Não havia duvida que o Bertinho seria uma ajuda preciosa, desde que não se metesse em complicações.
Tudo corria de feição, o caminho para a Igreja já estava em obras, embora ainda não houvesse dinheiro suficiente para tudo. O Bastos que aguentasse porque também ia ganhar, se as coisas corressem bem.
O presidente da Junta, o Domingos, é que ficou desconfiado com tanto voluntarismo do empreiteiro que até tinha fama de não dar ponto sem nó, mas não estava na mão dele recusar tal benesse. Se tivesse recusado a oferta do caminho, era mais que garantido que ia ter toda a freguesia contra ele.
 
O padre Esteves estava radiante e já fazia planos de inauguração com a presença do bispo da diocese. Uma tarde apanhou o Bastos a fiscalizar a obra e aproveitou para lhe perguntar:
- Quando é que podemos marcar a inauguração?
- Ainda é cedo, sr. Padre. Ainda a procissão vai no adro…
- No adro, quê? Você quer mexer no adro? Não está nada previsto.
- Eu não quero mexer no adro. Disse que ainda é cedo para prever o fim das obras.
- Já?... No fim do mês!!! Não é muito cedo?
- Pôrra… Ainda não sei quando acabam as oooobrasss. Ouviu?
- Agora ouvi bem, mas sabe, queria convidar o nosso bispo para a inauguração e é preciso dizer-lhe com tempo. Ele tem sempre tanto que fazer…
- Deve ter, deve… Se tiver que aturar muitos padres moucos, está tramado!
- Ah? Fala mais alto, senão não ouço.
- Estava a dizer que só daqui a dois ou três meses. E é preciso mais dinheiro.
- Boa ideia vender uns pinheiros para arranjar o dinheirinho que falta. E de quem são os pinheiros?
- Pinheiros, que pinheiros? Olhe, não sei, isso é com a Júlia, fale com ela – berrou o Bastos.
 
O Gonçalves na reunião semanal da jogatina, habito com mais de uma dúzia de anos, partilhado com meia dúzia de amigos que se reúnem para comer uns petiscos, jogar as cartas, falar de gajas e discutir política, tinha dito alto e bom som:
- Aquele estafermo da Júlia está para a pregar. Não sei o que lhe vai na cabeça, mas aquela amizade com a Suzete, trás água no bico.
- Oh homem, são coisas de mulheres, estão sempre na igreja. Olha, se o padre fosse novo até desconfiava, mas como é velho e surdo não sai coelho daquela toca.
- Se fosse só na igreja! Já vistes que andam a meter-se em tudo quanto é sítio, até nos bombeiros. O Zé Bastos agora é o comandante e já…
- Espera aí, isso é que eu não percebo. Então ele nunca foi bombeiro na vida e foi nomeado comandante. Então isso é assim?
- Claro, o gajo tem o curso. Tirou-o em Barcelos, lá na escola dos bombeiros.
- Mas então eu se fosse lá, entrava por ali dentro e dizia “quero ser comandante dos bombeiros da minha terra, preciso fazer o curso”. Achas que me deixavam fazer o tal curso com essa facilidade toda?
- O mais certo era levares um pontapé no cu, isso era. Segundo me disseram o Zé Bastos só fez esse curso porque alguém de lá mexeu os cordelinhos.
- E quem foi esse alguém?
- Isso não sei, mas foi alguém de peso e nem o Chico que é o presidente dos nossos bombeiros soube de nada.
- Esse também anda a dormir…
- Antigamente ainda se safava com umas comezainas, mas agora também anda lixado…
- Ides ver que ainda lhe vão fazer alguma e arredá-lo da direcção. O Zé Bastos a comandante, hum… não sei.
- Pois é meus amigos – diz o “Adesivo” – tenho-vos estado a ouvir e já vi que sabeis umas coisas, mas falta-vos o essencial, falta-vos o conhecimento do motivo. Como todos sabemos para cada comportamento tem de haver um motivo e por iss…
- Desculpa lá Gonçalves, mas não estás a pensar dar-nos uma seca com só tu sabes dar, pois não?
- Não, e se me deixasses falar já sabias um pouco mais do que o sabes agora. Dizia eu que a Júlia está metida em algo realmente grande e nós ainda não sabemos de todos os pormenores, mas estamos a tratar disso.
- Nós, quem?
- Eu e mais um ou dois elementos, sabes que isto tem contornos políticos e por isso temos de estar atentos.
- Oh pá, tu não bebes mais! Contornos políticos a Júlia e a Suzete? Nãaaao, não acredito.
- Daqui a algum tempo se verá. Quem é que quer jogar uma suecada? Eu e o Barros desafiamos dois, vamos lá, parecem um grupo de velhas à volta da lareira, pôrra!
 
- Bertinho, hoje tenho de sair de tarde, por isso vai ficar só mas espero ainda chegar antes da hora de fechar.
- Pode ir descansada, D. Júlia que eu trato de tudo.
- Vou com o Simplício ver uns carros para ele escolher um. Se o deixo ir sozinho ainda me aparece o primeiro calhambeque que lhe impingirem, como da outra vez.
- Realmente é melhor ir a senhora para o aconselhar, porque o sr. Simplício não tem muito jeito para isso.
- Pois é, tem em casa um carro tão bom, mas não se ajeita para estas voltas, quer um pequenino. A ver se tem mais sorte, de contrário não ganhamos para os carros nem para os sustos.
- Hum… hum… Pois, realmente foi muito azar – concede o Bertinho algo embatucado.
- E você quando recomeça a tirar a carta?
- Estou à espera.
- À espera de quê?
- Que a escola arranje um instrutor, porque os que lá trabalham recusam-se a dar-me aulas, não sei porquê. Nunca os tratei mal, pelo contrário, procurei ser sempre simpático.
- Mas o sr. Ferreira esteve mais de um mês de baixa e ainda hoje está muito abalado com o choque.
- Ele assustou-se foi com aquela polícia toda a apontar-nos as armas.
- E se você não tivesse entrado pelo Mercedes dentro a toda a pressa, a esta hora já tinha a carta, o sr. Ferreira anda todo contente e tinha poupado uma série de chatices.
- Mas eu tinha prioridade, D. Júlia. Eles é que tinham de parar.
- Então acha que um preso evadido, a fugir à polícia, vai respeitar as regras de transito?
- Acho que sim, regras são regras! Não cumpriu, lixou-se! Comigo é assim…
 
 
publicado por Brito Ribeiro às 17:26
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