Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

30
Out 07
Uma manhã de Junho, estávamos nós a pescar de barco, muito sossegados, no mar de Moledo, entre a Ínsua e Fornelos, quando reparamos que por fora continuava fundeado um barco branco. Já ali estava quando chegáramos, ainda não eram seis e meia da manhã e não tinha mudado de poiso.
Como nós pescávamos ao robalo a corricar, nunca estávamos parados, fazíamos tiradas entre os pontos assinalados e dávamos volta. Ora íamos em direcção à Ínsua, ora virávamos a sul em direcção a Fornelos, sempre numa linha mais ou menos paralela à costa. O mar estava chão e dava para andar perto da rebentação, sem qualquer perigo.
- Zé, aquele gajo deve ter vindo pescar ainda de noite. Consegues ver quantos são? – Pergunto eu, que sou um bocado “pitosga” a ver ao longe.
- Parece que é só um. Que pesqueiro será aquele?
- Sei lá. Também não conheço.
E continuamos entretidos a pescar, até repararmos que o barco que nos despertara curiosidade, vinha a navegar na nossa direcção.
 
Ao chegar perto de nós, reconhecemos o Zé Cola, um ancorense que casara e vivia em Caminha, homem que já devia estar perto dos setenta anos, mas um viciado no mar e na pesca. Tanto eu como o Zé, o meu parceiro, tínhamos bom relacionamento com ele, principalmente eu, porque o Zé Cola era meu correligionário de andanças políticas e primo directo da minha sogra.
- Que andais vós a fazer?
- Estamos a corricar e você, que estava pescar?
Ele ri-se, dá gás ao motor, vira de bordo e aproxima-se, com o seu barco, quase a tocar no nosso.
- Olhai para isto!
No fundo do barco, estavam duas caixas plásticas cheias de besugos.
- Vede lá se sabeis apanhar disto, ah, ah, ah… - troçava ele da nossa cara de admiração.
- Onde apanhou os besugos? Foi ali fora? – Pergunta o Zé.
- Recolhei as linhas e vinde comigo, que vos vou levar ao pesqueiro.
Alamos os trolley a toda a pressa e arrancamos atrás dele, aproveitando aquela oportunidade de registar mais um pesqueiro, que tinha peixe do bom. Aliás, enquanto navegamos, eu e o Zé trocamos impressões sobre a pescaria do Zé Cola e logo decidimos na primeira oportunidade ir experimentá-lo.
A viagem foi curta, cinco ou dez minutos e terminou abruptamente quando o Zé Cola desacelerou e começou a navegar lentamente em círculo, procurando pontos de referência em terra.
- É aqui, estamos em cima de pedra, são umas lajes. Aqui, é mais ou menos o meio das lajes. Estais a ver o farol, acolá? Alinha-se por… e explicou-nos ao pormenor a marcação daquele pesqueiro. Por causa das moscas, o Zé marcou-o imediatamente no GPS, pois nós somos mais dados a estas tecnologias que ao conhecimento dos alinhamentos.
Esta história dos alinhamentos por terra “à moda antiga” é muito bonita, mas se deitam abaixo o pinheiro por onde se marcou, se pintam a casa de outra cor ou se constroem em frente lá vão os pontos para o “galheiro”. Faz lembrar a história do pescador que tinha marcado um dos pontos pelo comboio e por isso só podia lá pescar a uma certa hora!
Na sonda, realmente assinalava peixe junto ao fundo, mas nada de especial.
- Que estais a ver, é na sonda? – Pergunta o Zé Cola.
- É, assinala algum peixe…
- Agora não é nada, o peixe já saiu, a esta hora! Hoje cheguei aqui às quatro e meia da manhã e o peixe aguentou-se bem até nascer o sol. Depois começou a falhar mas ainda tirei mais de uma dúzia.
Agradecemos a disponibilidade do Zé Cola, uma atitude bonita, de um velho lobo-do-mar, a desvendar um dos seus segredos, a dois amadores. Não há muita gente com essa disponibilidade, acreditem no que vos digo!
 
Regressamos à nossa actividade de corrico e ele rumou à barra, entrou no Rio Minho e foi para casa, contente com a pescaria obtida.
Apanhar besugos não é para todos, porque é preciso encontrar pesqueiros onde os haja e mesmo quando se encontra algum, é preciso saber algumas manhas deste esquivo e saboroso peixe. O Zé estava particularmente entusiasmado com a perspectiva de levar um par de besugos para casa, já fazia planos e deitava contas às marés.
Até entrarmos no portinho, já tínhamos decidido várias coisas, como ir à isca durante a tarde, preparar os “tarecos” para pescar ao fundo e mais não sei o quê. Só faltava o mar dar uma ajuda e os peixes não nos pregarem a partida, de ir de férias!
Tínhamos um problema e não sabíamos bem como resolver, pois teríamos de sair para o mar ainda de noite e nós só tínhamos licença de navegar durante o dia, entre o nascer e o pôr-do-sol. Decidimos arriscar, saindo juntos com os barcos da sardinha e rezar para que não aparecesse a Marinha. É que esses gajos gostam muito de aparecer sem serem convidados e quando não fazem falta nenhuma!
 
Na madrugada seguinte, ao levantar-me, redobrei os cuidados para não acordar a minha mulher, pois ainda pouco passava das quatro da madrugada e ela já achava que eu estava maluco, por me levantar habitualmente às cinco e meia ou às seis da manhã. Se me apanhasse a sair às quatro, ainda chamava o INEM…
Metemos o barco na água e saímos ao mesmo tempo que o Jorge do Necho que ia à sardinha, ali perto, como de costume. O Areosa, velho e castiço pescador nosso amigo, ao ver-nos tão madrugadores atirou-nos:
- Onde ides, malecueques? Quereis apanhá-los a dormir…
Ainda navegamos juntos um bocado, porque o Jorge também ia para o norte, até que virou para fora e nós continuamos a direito, aproximando-nos lentamente da Ínsua.
Ligamos o GPS, procurou-se o ponto electrónico marcado na véspera e nem nos preocupamos com o alinhamento dos pontos de terra, que localizavam o pesqueiro. Quando o GPS assinalou que estávamos em cima do pesqueiro, larguei o ferro, folguei o cabo, o Zé desligou o motor e preparamo-nos para pescar.
O Zé preparou as suas habituais duas canas, para pescar à popa, enquanto eu apenas trouxera uma cana o que não agradou ao meu parceiro. Mais desagradado ficou quando viu que só tinha armado dois anzóis “esquisitos”.
- Hás-de apanhar muitos! – Lançou-me com ar depreciador.
 
Começamos a pescar e os besugos estavam lá à nossa espera. Milagre!!! Havia besugos e jeitosos… Eu comecei a enferrá-los seguidos e por diversas vezes fiz subir dois de cada vez. O Zé lá ia tirando alguns, mas mais “a modo”.
- Como é que estás a iscár?
- Com barrenha e com sardinha – esclareci eu, que iscava aleatoriamente com as minhocas apanhadas na véspera nos favos de barrenha, conservadas em serrim ou com beliscos de sardinha, que tapavam os meus novos anzóis, os Chinu 5 da Sasame.
Era a primeira vez que os utilizava e estava maravilhado com a eficácia destes finos e afiadíssimos anzóis. Como só tinha uma cana, pescava com ela na mão e ao sentir o peixe a “apalpar” a isca, bastava-me dar um ligeiro toque e o besugo ficava logo ferrado.
O Zé, pelo contrário usava uns velhos ferros torcidos a que insistia em chamar anzóis e pescava com as canas pousadas, originando que, por vezes, os “melros” comiam a isca e cagavam-lhe no anzol.
Entretanto, dia começou a levantar e com ele veio uma brisa de nordeste, que nos mudou o posicionamento do barco. O efeito foi imediato, pois o peixe começou a rarear e desapareceu.
Levantamos o ferro e deslocamos um pouco o barco na direcção inversa, mas nada. Repetimos mais uma ou duas vezes a operação, na tentativa de encontrar o peixe, mas as nossas tentativas foram infrutíferas. A pesca estava feita, tínhamos apanhado umas dúzias de besugos, alguns de bom porte, que eu esperava saborear assados no forno ou grelhados na brasa.
 
Aproveitamos para corricar um bocado, porque ainda era muito cedo e quando regressamos ao portinho não escondemos o peixe, nunca o fazíamos. Viu quem quis a pescaria de besugos, que naquele ano, tinham o sabor da raridade.
No dia seguinte, fomos para Moledo corricar, como era habitual e ficamos admirados ao ver, ao longe, três ou quatro barcos, no pesqueiro dos besugos.
Como quem não quer a coisa, fomos fazendo tiradas cada vez mais fora, até ficarmos a uma distância que nos permitisse identificar os barcos, que estavam aos besugos.
- Ai os filhos d… - dizia o Zé, indignado com a lata dos “artistas”.
Eram alguns dos que habitualmente corricavam à nossa beira e no dia anterior viram onde estávamos a pescar ao fundo. Quando chegaram a terra, logo alguém lhes contou que tínhamos trazido uma bacia de besugos. Somaram dois, mais dois e o resultado estava à vista. Tínhamos feito asneira grossa!
 
Divulgáramos de forma involuntária, mas estúpida, a localização do pesqueiro. Naquele mesmo dia, um barco de Âncora, de pesca profissional, foi lá largar umas redes e passados alguns dias o Zé Cola apanhou-nos e “pintou-nos a manta”.
Tinha toda a razão, só nos desculpou quando lhe asseguramos que não disséramos nada a ninguém, o peixe que leváramos para terra é que nos tinha denunciado.
O Zé Cola faleceu o ano passado e algum tempo antes, tinha-me encontrado com ele em Caminha, junto ao mercado e entre outros temas de conversa, ele relembrou-me aquela asneira. É que naquele ano, não saiu ali, nem mais um besugo!
Também foi da maneira que aprendemos a não dar a conhecer, de qualquer maneira, o que tínhamos pescado e onde, porque senão acabávamos sempre por ser “lixados”.
 
publicado por Brito Ribeiro às 21:43
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